Discurso da Servidão Voluntária – Etienne La Boétie

Étienne de La Boétie escreveu o “Discurso da Servidão Voluntária” (São Paulo, Editora Brasiliense, 4a. Edição, 1999, 240 páginas), partindo de trecho do poeta grego Homero, que mostra o herói Ulisses dizendo aos gregos: – “Não é bom ter vários senhores; tenhamos um só”. Nesse livro, La Boétie analisou, profundamente, o problema da tirania e da liberdade, concluindo que o maior bem do cidadão é a liberdade. O livro teve grande repercussão na Europa e foi amplamente analisado por Montaigne. O autor joga, intencionalmente, com o termo “tirano”, no decorrer da obra, confundindo-o, na monarquia, com a acepção de rei.

O manuscrito original, confiado por La Boetie a Montaigne, parece irremediavelmente perdido. Duas cópias efetuadas a partir dele foram destinadas a amigos de Montaigne. Foram encontradas no século XIX, mas conferiam com uma segunda edição parcial, em latim, surgida em 1574, e com a primeira edição completa em francês, publicada em 1577. O manuscrito De Mesmes, um dos amigos de Montaigne, está disponível na internet: Etienne La Boétie.

Leia resenha do livro (Resenha do Discurso da Servidão Voluntária), cujo objetivo é identificar, na recepção histórica da obra de Étienne de La Boétie, determinado padrão caracterizado como ação e reação. Para cumprir tal empreitada, elege três momentos importantes da acolhida da obra, sobre os quais se debruça e o leva a concluir: a leitura do Discurso da servidão Voluntária estimulou historicamente recepção, de início, radical e mobilizadora, motivando em seguida reação que, via de regra, intenta domesticar a obra, desqualificando a leitura anterior. Examina, por fim, se tal padrão de recepção pode informar algo acerca do próprio conteúdo da obra.

A pergunta-chave dessa obra clássica é:  porque tantos homens suportam às vezes um tirano só? Servidão só existe para um pela vontade de outro: o escravo precede o senhor. Por que ele serve a quem só o faz padecer?

Em Discurso da Servidão Voluntária, editado pela primeira vez em 1553, seu autor – Etienne La Boétie – sugere que, “uma vez instalado, o tirano detém a vontade e o poder de subjugar” [i]. Mas não se torna senhor por querer, e sim por ter ocupado determinado lugar já preparado, por ter respondido à demanda já formulada por aqueles, naqueles que domina: o povo. A cada momento de seu império, a tirania se engendra a partir da vontade de servir. A força da servidão não é, fundamentalmente, o medo. A servidão não nasce da covardia, assim como a liberdade não nasce da coragem. O chocante da questão da servidão voluntária é a estranha vontade ou o estranho desejo de servir. Estranho também é La Boétie induzir seu leitor a buscar o sentido da amizade ao mesmo tempo que o da servidão. Entende-se, então, o desejo de ser amigo do rei.

Mas “amizade é igualdade”. A separação resultante de quando os amigos se esforçam para elevar um dos seus acima deles, quebra os laços da amizade, o viver junto, a partilha dos pensamentos e a igualdade das vontades. A amizade é destruída quando a semelhança entre pares é substituída pela hierarquia que separa superiores e inferiores.

Temos de fazer o elogio da filosofia. Poucos imaginam que um manuscrito de quase 5 séculos atrás dissesse tanto sobre a política contemporânea, inclusive, a respeito do “culto à personalidade“, tradicional na esquerda.

“O ato de viver é dispersivo, a experiência humana é diluída, as mais diferentes emoções e os mais diferentes sentimentos se acumulam. Mas, no livro, é possível ver um mundo organizado, captar uma parcela da realidade. Quando isso acontece, é uma revelação!”

Se alguém descobre a possibilidade de estar se dizendo via algum texto, e trocar isso com os outros, vai entender que o livro é também o modo como alguém se disse, se contou. A leitura é a grande revolução que certa pessoa, no plano individual, pode sofrer. Quando você lê certa síntese de determinado aspecto da vida que lhe incomoda, é experiência inigualável, só comparável a grande amor!


[i] LA BOÉTIE, Etienne. Comentários de Claude Lefort, Pierre Clastres e Marilena Chauí. Discurso da Servidão Voluntária. São Paulo, Brasiliense, 1982.

10 pensamentos em “Discurso da Servidão Voluntária – Etienne La Boétie

  1. muito boa explicação, esse livro será analisado este ano na universidade estadual do maranhão. As dúvidas tiradas aqui são de total ajuda.

  2. Obrigado pela análise do livro de Etienne, lí o livro e agora estou lendo resumos e análises para complementar o entendimento.
    O mesmo será cobrado na UEMA , e vou prestar vestibular domingo que vem.
    Abraços.

  3. muito boa a iniciativa de falar sobre esse livro nesse ano vou fazer a prova do pas na UNB e essa obra será cobrada, muito obrigado.

  4. Muito bom, já li o livro e adorei. Agora vou precisar bastante de filosofia e isso vai ajudar bastante.

  5. Muito obrigada pela ajuda! O livro será cobrada no PAS da UNB. Essa análise me fez ter uma compreensão mais complexa sobre a obra.

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