Filosofia da Praxis

No final do meu curso de graduação em Economia, tendo no último semestre de 1974 já passado no concurso da ANPEC, para fazer a pós-graduação, recebi colocar em prática dica de ex-colega, e então professor, João Machado, conhecido pelos colegas como “João Campeão”. Matriculei-me no curso de Filosofia sobre Hegel, ministrado pelo Padre Vaz, fundador da Ação Popular, quando a organização política era apenas cristã, antes de se assumir marxista-leninista. Vários políticos brasileiros, hoje bastante conhecidos, militaram nela. Para minha surpresa, em sua origem, a AP cumpria o ativismo teórico do idealismo alemão.

A filosofia idealista alemã é filosofia da atividade, entendida esta como atividade da consciência ou do espírito. Na forma que assume com Hegel, como filosofia do fazer (ou saber) absoluto, abriu caminho, ao ser radicalmente invertido o conteúdo dessa atividade, para a filosofia marxista da praxis.

Padre Vaz (Memorial Padre Vaz) foi o professor mais brilhante que tive no meu curso de graduação. Deliciava-me suas aulas à noite na FAFICH – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, quando fazia “leitura hegeliana” da realidade política brasileira em 1974. Seu curso seguia a leitura do livro em que G. W. Hegel resumiu toda sua obra, “Fenomenologia del Espiritu“, do qual tirei cópia xerox. Tinha iniciado o curso, para o grupo de alunos que o acompanhava, há quase três anos, quando eu me matriculei, “pegando o bonde andando”. Então, embasbacava-me com as aulas e não conseguia entender nada do livro! Formado com o pragmatismo de economista, como obter o nível de abstração idealista?!

Chegou o fim do semestre e eu tinha que fazer trabalho escrito, para conseguir os créditos dessa disciplina eletiva e me formar. O que fazer?

Eu tinha lido, também por dica de colegas do ME (Movimento Estudantil), que eram alunos em tempo integral do Sistema de Bolsa de Estudos da FACE-UFMG, o “Filosofia da Praxis” (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1968, 464 páginas) de autoria de Adolfo Sánchez Vázquez. Ele era filósofo de convicção libertária. Em 1961, apresentou como tese de doutorado, a qual considera sua obra maior, Filosofia da Práxis. Desde então, uma de suas ambições foi sempre que se superasse “o dogmatismo e a esclerose que durante longos anos havia suavizado o viés crítico e revolucionário do marxismo” (1985: 11). Editou a Filosofia da práxis em 1967. Depois de numerosas reimpressões, tal “fio crítico” o obrigou a eliminar na reedição (1980) colocações que já não compartilhava sobre a essência e a alienação humanas para adentrar nas propostas filosóficas e econômicas do jovem Marx. Este processo de revisão não termina até a última edição em 2003. Leia sua resenha (Filosofia da Praxis).

Na leitura desse livro, eu tinha entendido a “Dialética do Senhor-Escravo“, elaborada por Hegel. Parti dela e cheguei a Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido). Padre Vaz deu 10 na minha resenha! Foi o 10 mais inesquecível na minha vida escolar!

Até hoje acho “linda” a dialética senhor-escravo, formulada por Hegel. Desejar significa desejar ser reconhecido. Mas se cada consciência individual quiser obter esse reconhecimento, o resultado será o conflito entre as diversas consciências, pois haverá exclusão mútua. Entretanto, se essa luta terminasse com a supressão das consciências de todos aqueles que não aceitam o reconhecimento da vitoriosa, a morte delas privaria essa vitória de sentido, uma vez que o vencedor não teria ninguém para reconhecê-lo. A imposição do vencedor deixa com vida o vencido em troca deste reconhecê-lo e de renunciar a ser reconhecido. Essa relação de dominação e de servidão é a relação entre o senhor e o escravo [i].

Hegel não apresenta essa luta mortal entre o senhor e o escravo, entre opressores e oprimidos, como o fato real que se verifica ao longo da história, e que tem sua origem em contradições reais, concretas, mas sim sob a forma intertemporal e abstrata que corresponde ao movimento do espírito para alcançar seu pleno reconhecimento. Desse modo, justifica, ideologicamente, a servidão.

O senhor, segundo Hegel, é o homem que leva até o fim, arriscando sua vida, a luta pelo reconhecimento. O escravo é o homem que, por medo da morte, recua na luta e renuncia a ser reconhecido. Assim, o senhor fica em plano propriamente humano, verdadeiramente espiritual; o escravo, não, somente salva seu ser natural, biológico.

O senhor mantém superioridade não apenas espiritual, mas também real, material, pois uma vez reconhecido, põe o escravo a seu serviço, obriga-o a trabalhar e faz dele uso material, efetivo. O trabalho é servidão, dependência em relação ao senhor, mas essa dependência acarreta – como atividade prática, real – a transformação da natureza e a criação de algum produto. O subjetivo se torna objetivo no produto e, desse modo, cria um mundo próprio. É possível reconhecer-se nos produtos que se cria. Transformando a natureza, o escravo reconhece a sua própria natureza.

Esse reconhecimento de si em seus produtos é consciência de si como ser humano. Enquanto o senhor, por não criar, por não transformar coisas, não se transforma a si mesmo e não se eleva, portanto, como ser humano. O escravo se eleva como tal e adquire consciência de sua liberdade no processo de trabalho. Mas apenas se liberta idealmente, isto é, a realização da liberdade só ocorre no plano do Espírito.

Portanto,  o trabalho é a melhor e a pior das coisas: a melhor, se é livre; a pior, se é escravo. O trabalho útil é, em si mesmo, prazer, independentemente das vantagens que dele se tirarem. A maioria dos homens consome a maior parte do tempo no trabalho, para viver. O pouco de liberdade que lhes sobra angustia-os de tal forma que procuram todos os meios de se livrarem dela, através do tédio ou do vício. Um poeta russo já disse que “é melhor morrer de vodka do que de tédio”!

O trabalho, a atividade prática material produtiva, se apresenta, portanto, em processo através do qual o sujeito vai se elevando até atingir sua plena consciência. A superioridade do escravo sobre o senhor reside no fato dele se haver inserido nesse movimento, enquanto que o senhor fica à margem do mesmo, não desenvolvendo seu Espírito. Não há homem completo à margem do trabalho criador, seja no ócio, seja em trabalho alienado, onde não há interesse pelo produto criado. O fato de que ele exista, objetivamente, não significa por si que exista para o sujeito trabalhador. Essa consciência é adquirida através de longo processo teórico e prático de luta contra sua alienação e exploração. A concepção hegeliana do trabalho, embora tenha seu mérito obscurecido por concepção espiritualista, significa descoberta profunda: a do papel da praxis produtiva na formação e libertação do homem.


[i] Sobre o conceito de reconhecimento e a luta do senhor com o escravo, na Fenomenologia do Espírito, escrito por G. W. Hegel, ver: VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da Praxis. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968. p. 74.

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