Concentração Comparada na Pauta de Exportação do Brasil

Sergio Lamucci (Valor, 13/01/2011) alerta que “o processo de concentração da pauta de exportações brasileira em poucos produtos primários avança rapidamente”. Em 2010, as vendas de cinco commodities – minério de ferro, petróleo em bruto, soja (grão, farelo e óleo), açúcar (bruto e refinado) e complexo carnes – responderam por 43,4% do valor total exportado pelo Brasil, fatia bastante superior aos 27% de 2004. O maior destaque é o minério de ferro, cuja participação subiu de pouco menos de 5% para mais de 14%. Outra alta considerável foi a da fatia do petróleo em bruto, de 2,6% em 2004 para 8% em 2010, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic).

O boom dos preços de commodities nos últimos anos, puxado pela demanda de países asiáticos, é fundamental para explicar esse movimento. Além disso, houve desempenho mais fraco no pós-crise dos países que normalmente compram mais produtos manufaturados brasileiros, como os EUA, em contexto de moeda nacional apreciada.

Há também o “efeito China” nos números. Mesmo depois da crise, o país asiático continuou a crescer a taxas elevadas. O perfil das exportações totais ficou mais parecido com a pauta para a China, devido à importação chinesa de minério de ferro e soja. O aumento da importância do petróleo em bruto nas exportações totais se deve em parte à demanda chinesa. De janeiro a novembro (último dado disponível), o país asiático comprou US$ 3,9 bilhões do produto, alta de 214% sobre igual período de 2009.

O avanço da China como o principal destino das exportações do Brasil se acentuou depois da crise, dado o diferencial de crescimento entre o país asiático e o resto do mundo. Em 2010, a China ficou com 15,3% das vendas externas brasileiras, bem acima dos 9,6% dos EUA e dos 9,2% da Argentina.

A fatia do complexo soja, formado pelas vendas de grão, farelo e óleo, equivaleu a 8,5% do total exportado pelo Brasil em 2010, depois de ter atingido 11,3% em 2009. No ano passado, o complexo soja foi superado pelo minério de ferro como o item mais exportado por causa da combinação de forte alta dos preços e, em menor medida, dos volumes. Com isso, o valor exportado do produto atingiu US$ 28,9 bilhões em 2010, 117,4% a mais que em igual período de 2009. A Vale aumentou o preço do minério em mais de 100% no ano passado.

As vendas de petróleo bruto também se beneficiaram do aumento dos preços em 2010. De janeiro a novembro do ano passado, os preços de exportação do setor de extração de petróleo subiram 50,5% em relação ao mesmo período de 2009, de acordo com números da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

É arriscado concentrar a pauta em número restrito de produtos cujos preços são historicamente voláteis. É difícil manter o crescimento estável se as receitas de exportação têm muita volatilidade. Com a ascensão da China, o patamar da demanda por commodities de fato mudou, mas não há sinal de que a oscilação dos preços desses produtos tenha terminado. Depois do agravamento da crise global, em setembro de 2008, as cotações desses produtos despencaram. Países com pauta de exportação mais diversificada, de maior valor agregado, são menos vulneráveis.

Outro problema é que esses setores não são grandes empregadores de mão de obra. Para país com população grande como o Brasil, a qualidade dos empregos nesses setores não costuma ser das mais altas. São segmentos pouco intensivos em mão de obra, de baixo valor agregado.

Mesmo entre as commodities, o Brasil exporta a maior parte delas sem agregar valor. No caso do açúcar, cujas exportações totalizaram US$ 12,1 bilhões em 2010, apenas 29% foram do produto refinado. No complexo soja, dos US$ 17,1 bilhões destinados ao exterior, 64,5% foram em grão. Passo importante seria agregar valor à exportação de produtos primários, como vender menos minério de ferro e mais aço, assim como mais petróleo refinado do que bruto.

Além da demanda mais fraca no pós-crise em países como os EUA, o câmbio valorizado também contribuiu para o encolhimento dos manufaturados no total exportado pelo Brasil. Produtos de maior intensidade tecnológica, como automóveis de passageiros e aviões, perderam espaço considerável na pauta de exportações nos últimos anos. Os automóveis responderam por 2,2% do valor exportado em 2010, abaixo dos 3,5% de 2004. A participação das vendas de aviões caiu de 3,4% em 2004 para 2% no ano de 2010. De janeiro a novembro de 2010, as compras de aviões pelos EUA ficaram em apenas US$ 336 milhões, valor 54% menor que os US$ 733 milhões de 2009.

Em princípio, o aumento da concentração da pauta de exportações em poucas commodities tende a continuar nos próximos anos. O país está investindo muito no setor de petróleo, planejando a alta das vendas externas do produto. A efetivação disso vai depender do crescimento da China e de países desenvolvidos como os Estados Unidos. Se a expansão chinesa perder força e houver recuperação da economia americana, o processo de aumento do grau de concentração pode parar ou até se reverter um pouco.

A concentração da pauta de exportações brasileiras é muito superior à da China e fica pouco acima da pauta da Índia. Em 2010, a fatia dos cinco principais produtos vendidos pelo país no exterior – minério de ferro, petróleo em bruto, soja em grão, açúcar em bruto e carne de frango – foi de 35%, acima dos 14,5% registrados na China e dos 32,3% da Índia, em 2009, segundo números da Organização das Nações Unidas (ONU). Para permitir a comparação com Índia e China, foi considerado apenas um produto e não o complexo, como no caso da soja, por isso, a soma dos cinco itens do Brasil é inferior ao percentual citado antes.

Além de pouco concentrada, a pauta de exportação chinesa tem como grande destaque os produtos manufaturados. O produto mais vendido em 2009, com 5,5% do total de vendas, foram os laptops, seguidos por telefones para redes de celular, com 3,3%, e partes e peças de máquinas, com 2,1%.

Na Índia, o perfil da pauta difere significativamente da chinesa. Os produtos mais exportados em 2009 foram diamantes processados, que responderam por 9,2% do valor exportado. Óleos de petróleo ficaram em segundo lugar, com 8,3%, seguidos por artigos de joalheria, com 5,9%.

Esses números se referem apenas às exportações de bens, não incluindo as vendas de serviços, fonte de receita muito importante para a Índia. Do total de exportações de bens e serviços, as últimas respondem por quase 40% do total no caso da Índia. Desses 40%, cerca de 70% se referem à tecnologia da informação e terceirização de processo de negócios, grupo que inclui desde atendimento ao cliente até contabilidade e pesquisa e desenvolvimento. No Brasil e na China, os serviços respondem por 10% a 13% do total exportados, em sua maior parte nas atividades de turismo e transporte.

5 thoughts on “Concentração Comparada na Pauta de Exportação do Brasil

  1. É realmente importante agregar valor, por exemplo exportando aço em lugar de minério de ferro. A questão mais importante é como alcançar este objetivo.
    Este blog não advoga esta tese, mas vale lembrar aos leitores que constranger a iniciativa privada via pressão governamental (como no episódio da troca do presidente da Vale por recusar-se a abrir uma siderúrgica na região N/NE, como queria Lula) ou usar de protecionismo é a resposta errada. “Agregar valor” sem ser competitivo é burrice soviética, e na prática é destruir valor. Vale observar exemplo de um renomado economista brasileiro. Suponha que o país precisa de 25 toneladas de aço. Temos 100 trabalhadores, e cada um tem a capacidade de produzir 2 toneladas de minério ou 0,5 tonelada de aço. Como o aço tem mais valor agregado, 1 tonelada de aço vale 2 de minério.
    O governo diria: vamos agregar valor! Colocaria os primeiros 50 trabalhadores para produzir as 25 toneladas de aço, atendendo assim a demanda interna, e os demais para produzir 100 toneladas de ferro, que seria o superavit do país. Já um empresário livre produziria 200 toneladas de minério, trocaria 50 destas com outro país por 25 de aço para suprir a demanda interna, e teria um superavit de 150 toneladas de minério (versus 100 no cenário dirigista).

    Outra forma de encarar o mesmo problema é financeira: se o mercado está super-suprido de capacidade siderúrgica, a margem está deprimida e o retorno sobre o capital investido é pífio, abaixo do custo de capital. Neste cenário, colocando o custo de capital como parte do custo total do produto (fator importantíssimo e normalmente esquecido pelo nosso hábito de enxergar apenas contabilmente os problemas), estamos na verdade destruindo valor ao produzir aço. É melhor esperar os preços do aço se recomporem, neste meio tempo comprar de quem está “obrigado” a produzi-lo, porque está preso a um investimento siderúrgico já feito (sunk cost).
    Forçar esta solução via ação governamental destroi valor e, no limite, a economia entra em colapso (vide a queda do sistema Comunista).

    A solução sustentável para fugir das commodities está em aumentar nossa competitividade em setores de alto valor agregado. E esta competitividade vem através de investimentos em educação e pesquisa. Imagine o Brasil entrar na indústria aeronáutica sem criar escolas de engenharia específicas para o setor e proibindo a importação de aviões. Não me chame para voar!

    • Queria comentar o exemplo do colega:

      1- Na realidade do país não estão todos os trabalhadores empregados, há desemprego, logo há sobra de trabalhadores para gerar emprego na produção do aço;

      2-Na hipótese o uso do aço é interno, mas supondo outra situação hipotetica em que o aço fosse todo para a exportação, seria melhor produzi-lo, pois haveria o mesmo resultado na balança comercial com menor pressão para grandes portos, ferrovias ou impactos ambientais necessários no cenário de produzir só minério.

      3-é preciso considerar externalidades positivas e negativas em cada alternativa, produtos de mais valor agregado geralmente poluem menos e geram empregos melhor remunerados;

      4-Considerando somente os dados do problema, supondo que todo o mundo tivesse a mesmo produtividade do trabalho (afinal é commoditie): 100 trabalhadores, com produtividade de 2 toneladas minério ou 0,5 toneladas aço, podemos perceber que os valores reais equivalentes serão 1 tonelada de aço = 4 de minério, já que o exemplo só considera o fator de produção trabalho. Refazendo as contas, compensa investir no produto de maior valor agregado.

      Considerando preços dados no mercado externo. Se o mercado externo estiver 1 aço = 2 minério, está havendo melhor produtividade em outros países. O país do exemplo pode investir em melhorar a produtividade do aço também.

      • Prezado colega,
        no mercado de trabalho, oferta de mão de obra é independente da demanda por força de trabalho. Esta, por sua vez, depende de decisões de investimento. Por isso, há desemprego…
        No mercado internacional de commodities, a China atende, se não me engano, cerca de 40%. O Brasil é o nono produtor e o décimo-terceiro exportador. Portanto, sobra espaço apenas para exportar minério de ferro. Os metais são 30% de sua exportação de commodities e, entre eles, o minério de ferro representa 70%.
        É questão de poder, não de querer. É óbvio que todo o mundo quer exportar produtos com maior VA, porém só consegue que tem maior produtividade. O País não tem a mesma competitividade na área industrial do que possui na área agroindustrial.
        Att.

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