O Declínio do Homem Público: As Tiranias da Intimidade

Impessoalidade possui duas acepções na língua portuguesa. De um lado, é algo desejável na coisa pública, especialmente em licitações, concursos e carreiras meritocráticas, que é a qualidade, o caráter ou a condição de impessoal. Dever-se-ia predominar a impersonalidade ou o impessoalismo na vida pública. De outro lado, a impessoalidade é vista de maneira indesejável na arte da vida privada, isto é, na tomada de decisões práticas, como a ausência de originalidade ou mesmo a banalidade. Necessitamos separar uma conotação da outra.

Para esta reflexão, vale reler o livro de Richard Sennett (1943- ), clássico da sociologia contemporânea, O Declínio do Homem Público: As Tiranias da Intimidade (São Paulo, Companhia das Letras, 1988, original de 1974) sobre comportamento humano, psicologia coletiva, interação e mudança social. De cara, a “orelha do livro” lança a pergunta: “por que será que é mais fácil fazer arte do que ver arte – paradoxo que só pode implicar rebaixamento de qualidade”? A provocativa questão pode ser adaptada ao mundo virtual: por que será mais fácil escrever blog (ou mini-blog) do que ler blog (ou, pior, Twitter)? A resposta sugerida é mais provocadora: “é que no mundo do ‘eu me amo’, do narcisismo desvairado, a privatização da existência assumiu proporções tais que o eu constantemente invade o já tão depauperado espaço do outro. Ser outro hoje em dia é duro, nesse bulevar de vitrines do ego”.

Richard Sennet se cansou dessa mania de jogarem o coração sobre a mesa. Para ele, os principais males da sociedade, do narcisismo clínico à apatia política, resultam do declínio da vida pública, uma vez que as pessoas só podem ser socializáveis quando possuem algum resguardo uma das outras. Propõe que, para haver interação eficaz entre elas, são imprescindíveis algumas formas ritualísticas de comportamento, tais como as que havia no século XVIII, onde se equilibrava o domínio público e o espaço privado. Cobrindo mais de duzentos anos de história cultural, política e social, O Declínio do Homem Público concentra-se, precisamente, nas razões pelas quais, a partir de dado momento, aquele equilíbrio tão necessário à sobrevivência psíquica deixou de existir.

No Império Romano, a vida pública era tratada como questão de obrigação formal. Eram deveres que o romano participava com espírito cada vez mais passivo, conformando-se às regras da res publica e investindo cada vez menos paixão em seus atos de conformidade. Ele buscou privadamente algum foco para suas energias emocionais. Esse compromisso privado era místico, preocupado em fugir do mundo em geral e das formalidades da res publica como parte desse mundo. Vinculava-se a várias seitas, entre as quais o Cristianismo passou a predominar. Com o Estado perdendo seu caráter laico, o Cristianismo deixa então de ser compromisso espiritual praticado em segredo para irromper no mundo, transformando-se, ele próprio, em novo princípio de ordem pública.

Hoje, a vida pública também se tornou questão de obrigação formal. Boas maneiras e intercâmbios rituais com estranhos são considerados como formais e áridos ou falsos. A pessoa estranha é vista como figura ameaçadora e poucos cosmopolitas são os que sentem prazer com estranhos.

A res publica representa, em geral, aqueles vínculos de associação e compromisso mútuo que existem entre pessoas que não estão unidas por laços de famílias ou de associação íntima: é o vínculo da multidão, do povo, da sociedade organizada, mas do que vínculo da família ou da amizade. Como na era romana, a participação na res publica é questão de estar de acordo com regras impessoais. A mistura da vida pública com a privada, ou seja, família e amigos íntimos, geralmente não termina bem, seja no Estado, seja em empresa.

A diferença entre o passado romano e o presente moderno reside no significado da privacidade. O romano privadamente buscava o princípio baseado na transcendência religiosa do mundo para contrapor ao público.  Hoje, privadamente, buscamos mais uma reflexão, a saber, o que são nossas psiques, ou o que é autêntico em nossos sentimentos. Temos tentado tornar o fato de estarmos em privacidade, a sós com a família e amigos íntimos, um fim em si mesmo. Quanto mais privatizada é a psique, menos estimulada ela será e tanto mais nos será difícil sentir ou exprimir sentimentos.

Costumeiramente, vemos a sociedade mesma como “significativa” somente quando a convertemos em um grande sistema psíquico. Buscamos perceber o papel da personalidade na luta política. Ao contrário do que deveria ser, algum líder político obtém “credibilidade” pelo tipo de homem que é, não pelas ações ou programas que defende. Há obsessão para com pessoas em detrimento de relações sociais mais impessoais. Somos levados a crer que a comunidade é um ato de desvendamento mútuo e a subestimar as relações comunitárias com estrangeiros.

Ironicamente, essa visão psicológica também inibe o desenvolvimento de forças básicas da personalidade, tais como o respeito pela privacidade dos outros ou a compreensão de que as relações civilizadas entre indivíduos só podem ter continuidade na medida em que os desagradáveis segredos do desejo, da cobiça ou inveja forem mantido enquanto tais. Porém, o advento da psicologia moderna e, em especial, da psicanálise, baseava-se na crença de que, ao entender os procedimentos internos desse eu sui generis, libertando-se de ideias transcendentes de mal ou de pecado, as mentes poderiam libertar-se desses horrores e tornar-se disponíveis para participarem mais completa e racionalmente da vida externa aos limites de seus próprios desejos.

Sennett apresenta então sua hipótese. “Multidões de pessoas estão agora preocupadas, mais do que nunca, apenas com as histórias de suas próprias vidas e com suas emoções particulares; esta preocupação tem demonstrado ser mais uma armadilha do que uma libertação”.

Como essa imaginação psicológica da vida tem consequências sociais amplas, Sennett a chama de “visão íntima da sociedade”. Porque muita vida social que tem alguma significação não pode conceder recompensas psicológicas, o mundo exterior, o mundo impessoal, parece nos decepcionar, parece vazio.

Quanto todos estão se vigiando mutuamente, diminui a sociabilidade. O silêncio e a atitude reservada em lugar de conversinhas e mexericos é a única forma de proteção. As pessoas são tanto mais sociáveis quanto mais tiverem entre elas barreiras tangíveis, assim como necessitam de locais específicos, em público, cujo propósito único seja reuni-las. Os seres humanos precisam manter certa distância da observação íntima por parte do outro para poderem sentir-se sociáveis. Aumentem o contato íntimo e diminuirão a sociabilidade.

O espaço público morto é uma das razões pelas quais as pessoas procurarão algum terreno íntimo que em território alheio lhes é negado. O isolamento em meio à visibilidade pública e a exagerada ênfase nas transações psicológicas se complementam. Na medida em que alguém, por exemplo, sente que deve se proteger da vigilância dos outros no âmbito público, por meio de um isolamento silencioso, compensa isso expondo-se para aqueles com quer fazer contato.

Existem máscaras criadas para o eu pelas boas maneiras e pelos rituais de polidez. O desprezo pelas máscaras rituais da sociabilidade nos tornou, na realidade, culturalmente mais primitivos.

Foi a geração nascida após a Segunda Guerra Mundial que se voltou para dentro de si ao se libertar das repressões sexuais. É nessa mesma geração que se operou a maior parte da destruição física do domínio público.

A tese deste livro, O Declínio do Homem Público: As Tiranias da Intimidade, é a de que esses sinais gritantes de uma vida pessoal desmedida e de uma vida pública esvaziada ficaram por muito tempo incubados. São resultantes de uma mudança que começou com a queda do Antigo Regime e com a formação de uma nova cultura urbana, secular e capitalista.

Essa história é a história da erosão de equilíbrio delicado que mantinha a sociedade no seu primeiro século capitalista. Era o equilíbrio entre a vida pública e a vida privada, ou seja, entre um terreno impessoal e um pessoal. Quanto mais chegadas são as pessoas, menos sociáveis, mais dolorosas, mais fratricidas serão suas relações.

Os homens passaram a crer que eram os autores de seu próprio caráter, que cada acontecimento de suas vidas precisava ter significação em termos da definição do que eram eles. Gradualmente, essa força perigosa, misteriosa, que era “o eu”, passou a definir as relações sociais. Tornou-se um princípio social. Nesse ponto, o terreno público de significação impessoal e de ação impessoal começou a diminuir.

A sociedade em que vivemos hoje está sobrecarregada de conseqüências dessa história: o esvanecimento da res publica pela crença de que as significações sociais são geradas pelos sentimentos de seres humanos individuais. Essa transformação camuflou duas áreas da vida social. Uma é o âmbito do poder, a outra é o âmbito das aglomerações em que vivemos.

O poder é questão de interesses nacionais e internacionais, o jogo entre classes e grupos étnicos, conflito de regiões ou de religiões. Mas nós não atuamos de acordo com essa compreensão. Na medida em que essa cultura de personalidade controla a crença, elegemos candidatos que são críveis. Essas personalidades apelam para vasta gama de interesses. A política de classe se enfraquece, assim como a própria classe. O bairrismo e a autonomia local estão se tornando credos políticos, como se as experiências de poder tivessem mais sentido humano quanto mais intimista for a escala. A comunidade se torna uma arma contra a sociedade, cujo maior defeito é tido como sendo sua impessoalidade.

Em suma, a crença nas relações humanas diretas em escala intimista nos seduz e nos desvia da conversão de nossa compreensão das realidades do poder em guias para nosso próprio comportamento político. O resultado disso é que as forças de dominação ou a iniqüidade permanecem inatacadas.

Esta crença de que as relações humanas reais são demonstrações de personalidade para personalidade, em segundo lugar, distorceu nosso entendimento a respeito dos propósitos da cidade. A cidade é o instrumento da vida impessoal, o molde em que diversidade e complexidade de pessoas, interesses e gostos tornam-se disponíveis enquanto experiência social. O medo da impessoalidade está quebrando esse molde.

Em seus subúrbios, as pessoas falam dos horrores das grandes cidades: “aqui, nesse condomínio fechado, uma pessoa conhece os seus vizinhos; de fato, não acontece muita coisa, mas a vida é segura”. É a retribalização. Os termos “urbano”e “civilizado” conotam agora experiências rarefeitas de uma pequena classe e estão marcados pela pecha de esnobismo. Isto ocorre pelo próprio temor da vida impessoal, a própria valorização do contato intimista. Torna a noção de existência civilizada, na qual as pessoas se sentem à vontade diante de uma diversidade de experiências, encontrando de fato interesse nela, uma possibilidade apenas para ricos e bem-nascidos. Neste sentido, a absorção nas relações intimistas é a marca de uma sociedade incivilizada.

A renovação da rede social via web e a rejeição das cadeias do bairrismo é também a renovação de certo princípio de comportamento político. A extensão em que as pessoas podem aprender a perseguir agressivamente seus interesses em sociedade é a extensão em que elas aprendem a agir de modo impessoal. O fórum virtual de blogs é o avanço da sociabilidade no qual se torna significativo unir-se a outras pessoas sem a compulsão de conhecê-las enquanto pessoas intimas. A rede serve hoje, como serviu a cidade no passado, para a vida social ativa, para o conflito e o jogo de interesses, para a experiência das possibilidades humanas. Essa possibilidade civilizada está se despertando.

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