VIPs – Personagens Muito Importantes: Cada Um de Nós!

Você  encontra tudo sobre o imperdível filme VIPs neste link. Não irei repetir o que já foi dito: mais uma inesquecível atuação de Wagner Moura, estreia como diretor marcante do ex-publicitário e documentarista, Toniko Melo, produção O2 de Fernando Meirelles com financiamento da Universal (US$ 8 milhões) e padrão hollywoodiano, roteiro de Bráulio Mantovani (genro do Ricardo Kostcho), o mesmo autor dos argumentos de Cidade de Deus e Tropa de Elite, baseado no livro VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso, escrito por Mariana Caltabiano, direção de fotografia espetacular de Mauro Pinheiro Jr., especialmente as cenas aéreas e o “vôo noturno Kamikaze”, música do Antonio Pinto, revelação do Cidade de Deus que passou a compositor de trilhas sonoras de filmes internacionais, etc.

Eu não leio Veja nem Caras, não assisto TV aberta (fora Jornal Nacional e futebol), logo, como dizia minha avô, “sou ruim de papo, porque não consigo levar um lero sobre novelas e globettes”. Então, eu nunca tinha escutado falar no tal personagem da vida real, Marcelo Nascimento da Rocha,  o “171” que assumiu identidades falsas ao longo de sua carreira no crime. Marcelo já foi policial de grupo de elite, guitarrista dos Engenheiros do Hawaii, olheiro da seleção, campeão de jiu-jítsu, repórter da MTV, produtor do Domingão do Faustão, líder do PCC, etc. Mas a mentira mais cinematográfica de Marcelo foi se passar por Henrique Constantino, filho do dono da Gol Linhas Aéreas, no Recifolia, o Carnaval fora de época da capital pernambucana, em 2001.

Durante quatro dias, Marcelo foi paparicado por ricos e famosos, inclusive ele garante ter transado com duas celebridades, entrevistado por Amaury Jr., fotografado para colunas sociais. De quebra, pilotou um helicóptero e um jato particular cedidos por empresários que se tornaram íntimos do suposto “executivo da Gol” em questão de minutos. Foi preso no Rio de Janeiro pela polícia federal, depois de transportar no tal jatinho os “globais” Marcos Frota, Carolina Dieckmann e Ricardo Macchi.

Foi a farsa da Gol – aliás, com farta merchandising no filme – que deu fama a Marcelo. Ele virou vilão em matérias da imprensa e herói em diversas comunidades da internet. Sua história contada no livro VIPs – Histórias reais de um mentiroso, de Mariana Caltabiano, foi grande sucesso editorial, com mais de 50 mil exemplares vendidos, antes do filme. Agora, então, deverá vender bem mais.

De real em seu currículo, constam um lucrativo e arriscado emprego como piloto do narcotráfico, uma série de roubos de avião e uma longa ficha de golpes como estelionatário, como vender motos do exército, vagas em Faculdade de Direito e impressoras apreendidas pela Receita Federal que nunca seriam entregues. Ele está preso em Cuiabá (MT) desde 2009.

Quanto ao outro inspirador personagem da vida real, o empresário Nenê Constantino, pai de um dos fundadores da Gol Linhas Aéreas, tem de receber policiais, diariamente, em sua casa, no Lago Sul, em Brasília. Isto para comprovar que o empresário está na residência, já que ele cumpre prisão domiciliar. Constantino é acusado pelo atentado contra ex-funcionário e por seu envolvimento em tentativa de homicídio contra seu ex-genro. Constantino também é acusado de mandar matar líder comunitário em 2001. Foi aliado político de Joaquim Roriz e companhia no Distrito Federal.

Mas o mais artístico do filme (e da atuação de Wagner Moura) é justamente se livrar da amarra com o personagem real, deixando-o apenas como fonte de inspiração da estória. Faz interpretação psicológica de um personagem universal. Vi o filme mais como interessante drama psi do que como thriller policial focado no problema da farsa, falsa identidade ou falsidade ideológica.

O tema principal, a meu ver, é a crise de identidade masculina. Indaga ao expectador qual é sua motivação de imitar as pessoas e se passar por quem verdadeiramente não é. Almeja apenas a fama instantânea de celebridades fakes? Alimentando o sonho de aprender a voar e tornar-se piloto como o pai (imaginado ou “herói ausente”), Marcelo foge da casa da mãe – cabeleira que almejava que “ele fosse alguém famoso, não um Zé Ninguém” – e começa a se passar por pessoas diferentes para conquistar o que? Dinheiro? Fama? Poder? Não me pareceu que eram essas atrações mundanas. Ele, como todos nós, queria simplesmente respeito, paradoxalmente, identidade própria! Pareceu-me o personagem em crise de identidade permanente ser arquétipo do caso “pai ausente, filho carente”.

O livro com esse título de autoria do psicanalista Guy Corneau (Editora Brasiliense, 1991, original francês de 1989) afirma que “todos os homens vivem mais ou menos em um silêncio hereditário que se transmite de uma geração a outra e que nega o desejo de cada adolescente de ser reconhecido, ou seja, confirmado pelo pai. Nossos pais esconderam-se no mato, nos bares, no trabalho. Refugiaram-se igualmente em seus carros, na leitura do jornal, diante da televisão. Com frequência preferiram fugir para um mundo abstrato e sintético, desprezando o presente, o cotidiano, o corpo. O homem de ontem, assim como o de hoje, cede ao canto poderoso da mídia, que atrai seu Ulisses com se fosse uma sereia. O hábito da mídia [inclusive internet], tal como o de uma droga se a qual não se pode viver, evita-lhe ter que falar, ter que encarnar-se ou relacionar-se. Pseudo independência do homem, enroscado em si mesmo ainda que não o demonstre”(Corneau, 1991: 20).

Assim, os homens contemporâneos têm poucas ocasiões de viver e de atualizar seu potencial masculino em presença do pai. Há cada vez menos contatos prolongados entre pais e filhos. O pai distante é generalizado – e não é só porque uma família em cinco é monoparental e 80% delas são dirigidas por mulheres sozinhas.

A expressão “pai ausente” procura ser muito mais geral do que “sem pai”. Abrange tanto a ausência psicológica quanto a física do pais, correspondendo à ausência em espírito e à ausência emotiva. Contém igualmente a ideia de um pai que, apesar da presença física, não se comporta de maneira aceitável, como os pais autoritários, esmagadores e invejosos dos talentos de seus filhos, pais alcoólatras, cuja instabilidade emotiva mantém os filhos permanentemente inseguros.

Com a expressão “filho carente”, Corneau quis frisar a inexistência de uma relação de pai e filho, ou seja, são filhos carentes de pai. A falta de atenção do pai traz como consequência a impossibilidade de o filho identificar-se com ele para estabelecer a própria identidade masculina. No homem, um processo educativo deve tomar o lugar da natureza para romper a identificação primeira com a mãe.

Ao contrário do que se pensa, Narciso não é um homem que se ama demais ou que ama apenas a si mesmo. Trata-se sim de alguém a quem falta muito amor, pois não teve o bastante quando pequeno. Não teve, pelo menos, o suficiente para chegar a confiar em si mesmo e acreditar-se digno do afeto dos outros. Sua individualidade intrínseca e sua riqueza pessoal – não material, mental, emocional – não foram suficientemente reconhecidas no meio familiar. Sua busca de amor é feroz, mais ainda porque ela permanece extremamente inconsciente.

O camaleão adotará a forma de outro de acordo com o ambiente. Tem a intenção de “agradar a qualquer preço”, mesmo que isso acabe incomodando o imitado, para tentar preencher o vazio que o habita. Sem identidade, busca a do outro.

A personalidade narcísica serve-se dos outros como “espelho de si mesmo”. Busca o reconhecimento no olhar dos outros. Só vive para ser observado.

O problema sobrevém no momento em que um indivíduo só pode viver nesse registro, a ponto de esquecer sua própria substância, seus próprios limites, sua própria imperfeição. Tal como no Narciso do mito, no personagem do filme, o Nome Próprio acaba morrendo!

Para ser desejado, Narciso deve moldar-se ao desejo do outro. Viverá o método da “superadaptação” a seu meio tal como um camaleão.

Narciso encontra a confirmação de sua própria substância no olhar dos outros. Os outros lhe servem de espelho. Eles estão ali para confirmar que ele existe. Quanto mais se aproxima dos que julga importantes (“o dono da Gol”), mais se sente importante. Ele deseja identificar-se com pessoas conhecidas, notáveis, celebridades de qualquer nível, até do PCC!

Seu sentido de identidade depende unicamente do fato de seu poder de persuasão. É essa exclusividade que o leva ao drama emocional. Sua confiança em si mesmo varia continuamente: em alta quando ele se vê belo no espelho que lhe fornecem os olhos dos outros e em baixa se o espelho lhe é desfavorável – por exemplo, quando ele não engana a socialite ou a PF. Tem dificuldade até em aceitar uma recompensa merecida (o “mimo” do traficante), pois seu espelho interior é muito depreciativo. Existe sempre alguém mais belo do que o invejoso!

A cultura narcisista contemporânea repousa, essencialmente, sobre as noções de sucesso e de fracasso, não existe o meio-termo do homem comum, o Zé Ninguém, este é considerado fracassado. Nessa cultura, a imagem assume extrema importância, pois trata-se mais de parecer do que ser. Tal sociedade sofre excessiva identificação à persona, ou seja, à máscara social.

O filme mostra, fartamente, imagens, espelhos, reflexos, máscaras. Enquadra lindamente o carnaval de Recife e Olinda. É uma estória brasileira de interesse universal.

Uma das mais importantes promessas da democracia é a de assegurar respeito a todos. Garante-se isso não somente pelo voto que concede a todos os cidadãos, mas também pela rotatividade dos cargos públicos, de modo que qualquer um, por mais inculto ou humilde, possa ser “presidente por um dia”. Não é o poder o que conta, e sim o respeito.

O poder, entretanto, já não assegura respeito. A maioria das pessoas sente que não inspira tanto respeito quanto merece, e a obtenção desse respeito tornou-se para muitos tarefa mais atrativa do que o poder. Tornou-se a obsessão de ser reconhecido como sujeito, indivíduo particular, filhinho do papai, aliás, que é muito importante (e/ou rico)!

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