Belo Monte

Um seguidor deste blog cobrou-me posicionamento pessoal sobre o projeto da Usina Hidroelétrica Belo Monte. Confessei minha ignorância sobre o assunto em que há aparente batalha ideológica entre “desenvolvimentistas” e “verdes”. Em FSP (15/04/11), li artigo de especialista, Rodolfo Landim, 54, engenheiro civil e de petróleo, presidente da YXC Oil & Gas, sócio-diretor da Mare Investimentos. Ele trabalhou na Petrobras, onde, entre outras funções, foi diretor-gerente de exploração e produção e presidente da Petrobras Distribuidora. Depois, foi para o Grupo do Eike Baptista, quando este se deu bem na exploração do negócio petróleo. Desentendeu-se com o bilionário e saiu em separação conflituosa.

Seu artigo contem argumento que encaixa bem em meu raciocínio a respeito de tomada de decisões práticas. Sem citar o conceito, no fundo, ele se utiliza de avaliação de custo de oportunidade. Vou sintetizar seu ponto.

O projeto de Belo Monte vem dos anos 70, quando o Brasil vivia grande momento para a engenharia nacional, com grandes obras em andamento, entre elas as usinas hidrelétricas de Itaipu, Tucuruí, Sobradinho e Itumbiara.  Como engenheiro em formação, Landim se orgulhava de pertencer à sociedade capaz de “pensar grande”, otimizando o aproveitamento de seus recursos naturais, sem que o interesse de poucos conseguisse barrar o interesse coletivo.

Belo Monte, situada no rio Xingu e projetada para mais de 11.000 MW, seria a maior usina hidrelétrica inteiramente brasileira, menor apenas que Itaipu, projeto binacional localizado na fronteira do Brasil com o Paraguai. Após vários anos, foram inúmeros os ataques enfrentados pelo projeto, que não só diminuíram seu perfil como continuamente ameaçam a sua construção. Sua barragem, que deveria ter a capacidade de armazenar grande quantidade de água durante o período de cheia do rio e utilizando-a mais tarde para a geração de energia, foi tremendamente reduzida. Muito menos energia será gerada ao longo da vida do projeto.

Além disso, existem 13 ações do Ministério Público em andamento contra a execução da obra e ocorrem até mesmo pressões externas para sua paralisação. Fazem lobby contra Belo Monte, alegando impactos socioambientais de obras na Amazônia, inclusive seguindo-se de posicionamento preocupante da OEA sobre o assunto. No entanto, curiosamente, é megaprojeto de energia renovável.

Devemos também refletir sobre a abrangência dos estudos de impacto ambiental. Neles, são minuciosamente avaliados os diversos tipos de impacto de determinado empreendimento, cobradas medidas compensatórias, mas tudo com foco específico no projeto analisado. São análises assim que levam a decisões como a da redução do lago de Belo Monte.

Mas algumas perguntas ficam sem resposta. O que terá de ser feito para suprir o país com a energia que ela não gerará tanto pelas restrições já criadas como também caso as ações judiciais impeçam ou mesmo atrasem sua construção? Implantar novas térmicas a óleo, a gás natural, a carvão ou nucleares? Seria menor o impacto ambiental dessas medidas? [Aí está o raciocínio necessário em termos de custo de oportunidade.]

A decisão quanto à limitação imposta a projetos dessa natureza só deveria ser tomada após análise abrangendo os efeitos causados por projeto substituto, já que condenar a sociedade a ficar sem energia é algo indefensável. Essa discussão se reveste de maior importância por ser boa parte do potencial de geração hídrica do país associado a usinas de baixas quedas na bacia amazônica e inúmeros projetos de aproveitamento energético poderão ser inviabilizados.

Certamente, a redução da geração hídrica futura traria enorme felicidade aos fabricantes de turbinas nos Estados Unidos. O mercado potencial de uso desses equipamentos para geração de energia cresceu muito no Brasil, fruto das expectativas de altas produções futuras de gás provenientes do pré-sal. A General Electric não esconde sua vontade de explorar oportunidades no nosso país, o que também ajudaria a recuperação da combalida economia norte-americana.

Por fim, vale o registro de que a consciência ambiental evoluiu muito na sociedade moderna, algo muito positivo, mas não pode chegar ao ponto em que o desenvolvimento, por mais sustentável que seja, possa ser visto como algo fora de moda.

6 thoughts on “Belo Monte

  1. Prezado Fernando: a energia gerada em Belo Monte terá que passar por quase dois mil quilometros de linhas de transmissão para chegar aos grandes centros de carga no sudeste do país, com a consequente perda de potencial ao longo das linhas e desflorestamento do leito, 50 metros de cada lado. Vale lembrar que nos nos 70 esse deflorestamento, para o linhão de Tucurui foi feito com o desfolhante “agent orange”, sobra da guerra do Vietnam. Pergunta: alguém já calculou quantos KWh/ano poderiam ser gerados simplesmente instalando paineis fotovoltaicos nos tetos dos edificios de São Paulo, uma area de centenas de km2 no coração do centro de carga? Sem barragem, sem desflorestamento, sem linhas de transmissão, sem consumo de milhares de toneladas de cimento – o terceiro maior gerador de CO2 em nossa matriz, atrás apenas de geração de energia e transporte – e sem destrução da frágil estutura social de nossos indios, como ocorreu na tristemente célebre mina de ouro de Serra Pelada.

    • Prezado Mauro,
      grato por seu comentário. Não sou especialista no tema Energia, portanto, desconheço se foi realizado esse cálculo. Minha intuição é que essa Energia Solar seria insuficiente, talvez influenciado pela opinião de José Sérgio Gabrieli, Presidente da Petrobras: “No mundo hoje, se somar as fontes primárias de energia, eólica, solar, geotermal, mais ondas, juntas, são 0,9% da matriz energética mundial. Se você fizer com que esse setor cresça dez vezes mais do que os outros, sairá de 0,9% para 9% em vinte anos. Portanto, não temos nenhuma ilusão de que energia alternativa vá ser substituta do petróleo, do gás e do carvão”.
      Att.

      • Prezado Fernando;
        fico muito honrado com sua disposição em responder a um leitor anonimo. Não é necessario sermos especialistas em energia para conhecermos alguns dados básicos – assim como não precisamos ser especialistas em gastro-enterologia para saber quais alimentos nos fazem mal. Temos a sorte de ter como diretor da Petrobras alguém com a estatura intelectual do dr. Gabrielli – não apenas um talentoso engenheiro, um extraordinario administrador, mas acima de tudo um intelectual respeitado. Porém, ele é diretor de uma companhia de petróleo. Suas análises serão necessariamente “biased” por sua propia posição. Assim, na resposta que o sr. cita, ele “esqueceu” de citar o percentual de geração hidro na matriz mundial – citou apenas os 0,9% das chamadas “alternativas”. Justamente a geração hidro que em nossa matriz representa 76% da geração elétrica. Ao citar combustíveis fósseis, ele omite os biocombustiveis, nos quais o Brasil também está na ponta, graças ao motor flex, desenvolvido aqui, e as recentes pesquisas em outros biocombustiveis, sobretudo o etanol celulósico, allém do biodiesel. Ou seja, resumindo em miudos: nem toda geração térmica tem que ser necessariamente a partir de combustiveis fósseis. E nem toda geração “convencional” é térmica. – no mundo, estamos com nossos 76% apenas atrás da Noruega em porcentual de geração hidrica na matriz elétrica. Infelizmente damos um passo atrás insistindo no absurdo de Angra III que já consumiu e ainda vai consumir dinheiro suficiente para atapetar Rio e São Paulo inteirinhas com paineis solares. E com sua licença, volto à questão inicial: qualquer reformulação de nossa equação energética que não leve em conta as alternativas, é necessariamente falha e “biased”. Infelizmente as grandes empreiteiras, que vão lucrar zilhões com Belo Monte e com Angra III, não fabricam painéis solares. Gostam mesmo é de grandes orçamentos para faraonicas obras civis.
        atenciosamente, Mauro Lando

  2. Concordo com o Mauro,
    ao custo de 4,5 milhões o MW efetivo,(fora custos de transmissão), instalamos PV, auto geração solar localizada sem custos de transmissão, com a aprovação da legislação de “smart grid”, seria mais do que viável faze-lo, poderíamos ao mesmo tempo, criar aqui uma nova industria local de fabricantes de equipamentos e instaladores, pois o Brasil tem mercado e uma das melhores condições do planeta para uso da energia solar.
    O potencial hidrico da amazonia poderá ficar reservado para o futuro.
    Eng. Lauro Neto

    • apenas como comentário, existem diferentes tipos de equipamentos para uso de energia solar :
      - fotovoltaico, transformação direta da energia solar em energia elétrica
      - termo solar, transformação da energia solar em energia térmica, ja existem tecnologias de paineis termo solares para a produção de vapor superaquecido, 320 graus e 7 bar, suficientes para fazer quase tudo em cocção e forneamento numa industria alimentícia, ou pré aquecer os fornos de uma industria cerâmica, ou gerar energia com uso de turbinas a vapor, solar +biomassa 1/2 a 1/2, o que dobraria o potencial das cogerações a biomassa.
      Eng. Lauro Neto

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