Desigualdade Social Mundial

Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE, Fundação Getúlio Vargas, publicou artigo (Valor, 24/05/2011) intitulado “A convergência da desigualdade”. Tem informações relevantes para o cidadão brasileiro defensor da redução da desigualdade social brasileira. Ela deixou de ser “ponto fora da curva” internacional.

O índice de Gini, a medida mais usada de concentração de renda, varia de 0 a 1. Zero se as rendas de todos fossem iguais, e um quando a renda de todos se concentra numa única pessoa. O atual Gini de 0,53 no Brasil está ainda mais próximo do máximo do que do mínimo da desigualdade. Por outro lado, ela está em queda aqui, e em alta em países desenvolvidos (Alemanha, Estados Unidos e Coreia) e emergentes (China, Índia, África do Sul e México).

Em todos os países europeus da OCDE a desigualdade aumenta desde 1985, exceto França e Bélgica. Nos países nórdicos, como Suécia e Finlândia, entre os mais igualitários do mundo, em função do Welfare State, é onde a desigualdade aumentou mais. A desigualdade norte-americana segue na mesma trajetória ascendente no período pós-Reagan, qualquer que seja a medida usada, mas mais naquelas que focam mais no topo da distribuição de renda.

Mais do mesmo aumento de desigualdade acontece nos demais BRICS. Em particular, quando se faz os devidos ajustes passando de medições baseadas em consumo para renda e atualizam-se os dados. Os Ginis da China e da Índia de 0,48 e 0,52, respectivamente, se aproximam do brasileiro. O Gini da Rússia passou de 0,28 para 0,42 com a extinção da União Soviética. Na África do Sul, o Gini está em 0,67 com alta pós-apartheid, o maior nível entre os países emergentes. Agravou sua herança maldita.

O Gini do Brasil acaba de chegar ao mínimo da sua série histórica iniciada em 1960, mas ainda é superior a todos os países acima citados. A exceção é o México, que sofre os efeitos conjunturais do Acordo Nafta com a economia americana, agora em crise. Esse revés mexicano importa pelo tamanho do país na América Latina.

Os livros recentes de Leonardo Gasparini e outro de Nora Lustig e Luis Felipe Calva apontaram redução de desigualdade em 13 de 17 países do continente entre 2000 e 2007. A exceção é Costa Rica e Uruguai justamente os mais igualitários dos latino americanos. A América Latina, o mais desigual continente do mundo, é justamente onde a desigualdade cai. A “onda de governos esquerdistas”, com adoção de política públicas de crescimento com redistribuição de renda, não explica esse fenômeno? Neri, neste artigo, não entra nesse mérito político.

Ele opta por relembrar modelos de livro-texto de crescimento, como o de Solow, que apregoam a convergência de renda média entre países. Acha que é o que de fato está acontecendo no período recente, em nível global, devido ao descasamento do forte crescimento da China e da Índia em relação aos demais países. Esses dois países são estratégicos, pois abrigam mais da metade do pobres do mundo.

Pergunta, então, Marcelo Neri: há convergência mundial da desigualdade dentro dos países? No sentido de que quem tem muita desigualdade passa a ter menos e quem tinha menos desigualdade interna passa a ter mais?

A desigualdade total entre os países não estaria necessariamente aumentando, mas apenas mudando a sua forma a partir de convergência de rendas médias entre países e da convergência de desigualdade dentro dos países. Essa é a conjectura do Neri.

O que realmente difere no caso brasileiro – e latino-americano – da última década, pelo menos para os demais países apontados acima, é o movimento das respectivas diferenças internas. No Brasil, de um Gini de quase 0,6 em 2001, no Governo FHC, atingiu-se 0,53 em 2010, no final do Governo Lula, com queda em todos os últimos 10 anos. A taxa acumulada de crescimento da renda real per capita na década passada dos 10% mais ricos foi de 10,03% contra 67,93% dos 50% mais pobres. Descontando a inflação e o crescimento populacional, o crescimento da metade inferior foi 577% mais alto que o lado dos mais ricos que detinham antes quase metade da renda nacional (vide http://www.fgv.br/cps/dd).

O Bolsa Família virou produto de exportação Made in Brazil. Invariavelmente as pessoas querem saber sobre o programa, ou então sobre a ascensão da nova classe média brasileira. Isto tem muito interesse por parte das empresas privadas multinacionais, em época de estagnação da demanda mundial.

Em particular, os chineses estão muito interessados, dada sua intenção de redistribuir renda. O combate à desigualdade e o consequente equilíbrio entre despesas de investimento e exportações, de um lado, e consumo das famílias e possivelmente importações, de outro, estão no centro do planejamento chinês de 12 anos. O que se percebe na infraestrutura chinesa é que, nesse ritmo de crescimento, vai levá-la em tempo recorde até o 1º mundo. É que quando eles se propõe a planejar, eles simplesmente executam o planejamento. O que nem sempre ocorre no Brasil: sair do papel para a realidade.

Leia mais:

Debate sobre a Distribuição de Renda do Trabalho no Brasil

Por Que Parou? Parou Por Que A Concentração da Renda?

Maior Queda da Desigualdade da Renda no Brasil

IDH Ajustado à Desigualdade

7 pensamentos em “Desigualdade Social Mundial

  1. “Tá aí,não dá pra entender sociedade, ao invés de evoluir(como tem feito há um tempo atrás) vem regredindo cada vez mais.As manchetes dos jornais mostram isso todos os dias,vários acontecimentos,muito pouco relacionados a fenômenos naturais. A maioria são gerados pelas próprias pessoas,uma ação mais brilhante que a outra (ironicamente falando,é claro).Não dá pra acreditar que ainda exista tanta hipocrisia por parte de alguns,mas os piores são aqueles que leem todos os dias “Rapaz tenta defender mendigo e acaba sendo agredido”,”Homossexual é assassinado por preconceituosos”,”Filho de jogador sofre preconceito por parte dos colegas na escola”,”Crianças morrem de fome em tal lugar” e não fazem NADA,ninguém sabe de onde tiram esse conformismo tão apurado.Nos encontramos realmente no “Fim do Mundo” e as pessoas são as que o fazem todos os dias.Cada um vive voltado para sua própria vida,mortas em si mesmas.Vivemos numa sociedade moderníssima,onde cada um sofre a sua dor sozinho e o lema é “A dor do outro não me importa,até que ela se torne minha”,estamos á caminho do caos,poucos sabem,poucos se importam,enquanto outros estão preocupados com a roupa que vão usar amanhã, com a próxima floresta a ser desmatada e pensando em argumentos convincentes para julgarem os políticos pelo pouco caso que fazem com elas,cobrando deles a humildade, reconhecimento e amor ao próximo que lhes faltam.ATÉ QUANDO?”.

    • Prezada Débora,
      está questão-chave que os humanitários se fazem há séculos, ou melhor, há milênios, desde o início da humanidade, a maior parte de sua história sob escravismo. Quem disse que o Homem é animal racional? É apenas animal instintivo se não domina seus instintos básicos com conhecimento.
      Mas não se desespere, Débora, sugiro o consolo da Filosofia, buscar a sabedoria para viver. Acabei de ler romance histórico (post amanhã: “Queda dos Gigantes”) e quando se compara com o estado de coisas há um século atrás, que ele narra, houve extraordinárias conquistas sociais e políticas com a democracia.
      att.

  2. Muito obrigado por esse aprendizado . Amo vocês s2s2 Devemos melhorar mesmo , nossas atitudes com as pessoas alheias ! Amo vocês s2s2 mesmo mesmo tchal

  3. de que forma a gestão e o planejamento da educação podem contribuir para diminuir as grandes desigualdades existentes no brasil?

    • Podem contribuir muito em longo prazo. Quando se alcança a massificação do ensino básico como já se alcançou, no Brasil, falta ainda os incentivos para os alunos prosseguirem para o ensino médio e o superior. Combate-se a evasão escolar com melhoria da qualidade do ensino, isto é, principalmente treinamento dos professores, atração salarial para os melhores alunos tornarem-se docentes, e melhoria da infra-estrutura (salas de aula adequadas, biblioteca, SPD). Evidentemente, o ambiente familiar e escolar saudáveis são imprescindíveis, assim como cobrança em relação ao dever de estudar. Formar cidadãos exige que ele tenha consciência tanto dos direitos quanto dos deveres: ser culto é um deles.
      att.

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