Banco do Brasil na Argentina

Daniel Rittner (Valor, 18/04/2011) informa que, onze meses após o anúncio de sua primeira compra no exterior, quando pagou US$ 479 milhões pelo Patagônia, o Banco do Brasil assumiu o comando da instituição com plano de negócios que prevê a abertura de 60 agências até 2014 e sua entrada no seleto grupo dos três maiores bancos privados da Argentina ao fim desse período.

O ranking de entidades financeiras, elaborado mensalmente pelo Banco Central da República Argentina (BCRA), coloca o Patagônia no 11º lugar em ativos e em patrimônio líquido. A liderança é exercida com folga pelo Banco de la Nación, de controle estatal. Entre os privados, nacionais ou estrangeiros, sete instituições estão à frente do Patagônia atualmente: Santander Río, Macro, Galicia, BBVA Francés, HSBC, Credicoop e Citibank.

Para subir tantos degraus, o BB montou ambicioso plano, que teve que esperar quase um ano para entrar em execução. Foi preciso aguardar a aprovação do negócio pelos bancos centrais dos dois países, além do aval da Comissão Nacional de Defesa da Concorrência (CNDC), que saiu no mês de abril de 2011. No dia 28 de abril, a assembleia de acionistas do Patagônia aprovou a indicação de dois brasileiros, os executivos João Carlos de Nóbrega Pecego e Claudemir Alledo, como vice-presidentes. Eles serão os principais responsáveis pela implementação do plano.

A presidência do banco continuará nas mãos de Jorge Stuart Milne, o antigo controlador do Banco Patagônia, que manteve participação acionária e fez acordo com o BB para seguir no cargo por mais três anos. Os brasileiros acreditam que sua permanência neste momento, principalmente por causa dos seus bons contatos políticos e empresariais, é fundamental para amparar o plano de crescimento.

A prioridade para a abertura das novas agências, que expandirão em quase 40% a rede atual, será dada ao centro e ao norte do país. Províncias como Santa Fé, Córdoba, Mendoza e Corrientes são citadas como alvos. Hoje, o Patagônia tem 144 agências e cerca de duas dezenas de centros de atenção, com estruturas simplificadas de apoio ao cliente. Todas elas poderão ganhar retoque na logomarca do banco. “Vamos fazer alguma referência ao Banco do Brasil, não necessariamente em verde e amarelo, mas isso é algo que ainda não está definido”, disse ao Valor o vice-presidente de negócios internacionais e atacado do BB, Allan Simões Toledo.

O BB lançará oficialmente oferta pública para comprar ações dos minoritários. Em abril de 2010, já havia adquirido 51% do capital social do Patagônia. Acionistas como a família Stuart Milne (que ainda detém papéis do banco), a Anses (equivalente ao INSS no Brasil) e a Província de Río Negro não vão aderir à oferta, que durará 25 dias úteis. O banco oferecerá US$ 1,314 por cada ação e calcula que desembolsaria cerca de US$ 230 milhões para elevar sua fatia na entidade a 75% do total. No entanto, avalia-se que a adesão dos minoritários será baixa. De 5,36 pesos, preço da ação pela atual cotação do dólar na Argentina, analistas locais acreditam que esse valor poderá atingir até 7 pesos em dezembro. O sentimento é de que haverá pouca adesão. Os minoritários sabem que há excelentes perspectivas de rentabilidade pela frente.

Até o fim de 2011, todas as mais de 400 companhias brasileiras presentes na Argentina estarão trabalhando de alguma forma com Patagônia. Cerca de 250 já são clientes do BB no país. Essas empresas já costumam trabalhar com quatro, cinco ou seis bancos diferentes. Um dos focos para crescer será a criação de produtos financeiros específicos para quem atua como fornecedor de empresas brasileiras na Argentina. Várias modalidades novas de crédito corporativo estão sendo estudadas.

Hoje, o Patagônia é forte especialmente em três áreas: pessoa física, contas-salário e crédito para micro e pequenas empresas. O BB quer reforçar os negócios de atacado, mas sem abrir mão do varejo. Por isso, buscará atrair a folha de pagamento de grandes multinacionais – brasileiras ou estrangeiras que usam o Brasil como base de operação para o Mercosul.

A conta-salário é a porta de entrada do cliente para outros produtos. Com inflação consolidada em dois dígitos, o uso de cartões de crédito tem aumentado em ritmo superior a 50% ao ano, e o Patagônia quer aproveitar isso. A entidade tem 790 mil clientes ativos, mas o BB avalia que ainda não explorou bem a recente explosão de crédito para o consumo.

Depois da Argentina, a expansão do Banco do Brasil (BB) na América do Sul deve seguir pelo Uruguai. Estuda-se a possibilidade de transformar a filial uruguaia do Patagônia, que hoje atua como instituição financeira para estrangeiros, em banco comercial. A decisão sobre a viabilidade do negócio sairá ainda neste ano e antes mesmo da compra de participações acionárias em outros três países da região onde o BB está buscando oportunidades em aquisições: Chile, Peru e Colômbia.

A filial do Patagônia está no luxuoso balneário de Punta del Este e lida basicamente com depósitos de argentinos que preferem levar suas economias para os cofres uruguaios. Traumatizada com a quebra de bancos e medidas do governo que impedem saques, como o “corralito” de 2001 (restrição de saque de dinheiro pelo governo), a classe média na Argentina cultiva o hábito de carregar dinheiro vivo até o Uruguai e depositá-lo nos bancos do país vizinho, que aceitam contas em dólares e são vistos como mais confiáveis. Pesa nisso a legislação uruguaia de proteção ao sigilo bancário, que o deixa na incômoda lista cinza de paraísos fiscais da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), apesar de mudanças na lei desde janeiro.

Antes de avançar em negociações para a aquisição de algum banco local, o BB decidiu que essa era a melhor alternativa para entrar no Uruguai, principalmente devido à pesada legislação trabalhista do país. O Patagônia em Punta del Este tem estrutura muito reduzida e pode crescer sem a herança de passivos com trabalhadores, algo que poderia atrapalhar a vida do BB em caso de compra de alguma entidade financeira maior.

O próprio BB sofreu com o peso das cláusulas trabalhistas uruguaias. Em 2001, em meio a plano de redução de custos, o banco fechou sua agência em Montevidéu, com 42 funcionários, que era deficitária e cujo custo com mão de obra era o mais alto na América do Sul.

Somente em 2007, por insistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o BB voltou a operar em Montevidéu. Depois de anos de disputa na justiça local, onde os sindicalistas uruguaios cobravam indenizações pela demissão dos funcionários, chegou-se a acordo para fazer o pagamento e encerrar os processos judiciais.

Essa má experiência ainda está recente na memória do BB e joga a favor da transformação da filial do Patagônia em base para o crescimento do banco no Uruguai. De qualquer forma, ainda não é decisão tomada.

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