Armadilha de Liquidez

Armadilha de Liquidez é processo identificado por Keynes que consiste na situação em que o aumento da oferta de dinheiro, por exemplo, via resgate dos títulos de dívida pública (“quantitative easing”) não tem por consequência a queda da taxa de juros, mas sim a elevação das reservas dos bancos, aplicadas em Tesouraria, e do público não bancário em saldos monetários ociosos.

Nessa circunstância específica de depressão, os agentes econômicos acreditam que a taxa de juros se encontra em nível muito baixo, próxima de zero, e certamente aumentarão em futuro próximo. Assim, a concessão de empréstimos prefixados ou a aquisição de títulos financeiros em longo prazo acarretará perda. Enquanto aguardam mudança na conjuntura, mantêm o dinheiro na forma líquida. Também não gastam enquanto esperam queda de preços em bens e serviços. Economista pré-keynesiano, que pensa em termos de poupança, acredita que os indivíduos guardam o dinheiro apenas para complementar a pensão previdenciária.

Os bancos nos Estados Unidos já têm US$ 1,65 trilhão em reservas depositadas no Federal Reserve acima do valor mínimo exigido pela autoridade monetária. Por sua vez, grandes companhias acumulam enorme quantidade de ativos líquidos.

Desde outubro de 2008, as reservas obrigatórias (10% para os depósitos líquidos) e as excedentes dos bancos no Fed são remuneradas em apenas 0,25% ao ano. O excesso de reservas dos bancos indica que a forte criação de liquidez pelo Fed não aumentou a concessão de crédito no país, principalmente, porque há pouca demanda por financiamento imobiliário.

Outra notícia interessante, para a análise econômica, foi publicada recentemente. Os moradores das cidades japonesas destruídas pelo terremoto seguido por tsunami de 11 de março de 2011 conseguiram reaver mais de 3,6 bilhões de ienes (cerca de R$ 76 milhões). O dinheiro foi encontrado nos escombros por equipes de resgate e por cidadãos, segundo o jornal britânico “Guardian“.

De acordo com a polícia local, dois terços desse valor estavam em 5.700 cofres, todos nas províncias de Fukushima, Iwate e Miyage, as mais afetadas pela tragédia. Destes, 96% já foram identificados e devolvidos aos seus donos. O restante do valor, 1,3 bilhão de ienes (ou cerca de R$ 26 milhões), estava dentro de bolsas e carteiras, na maioria das vezes junto de cartões de crédito. Assim, a polícia conseguiu identificar 85% dos proprietários.

Na cidade de Ishinomaki, província de Miyage, um homem conseguiu recuperar 100 milhões de ienes (R$ 2 milhões); em Kamaishi, província de Iwate, 900 cofres foram entregues à administração pública. É notável a diferença cultural! Será que ocorreria isso no nosso País?

O hábito de guardar dinheiro em casa ou no escritório é forte no Japão, sobretudo na área afetada, onde os pescadores preferem usar dinheiro a cartão. Muitos japoneses desconfiam da solidez de seus bancos. Além disso, há resistência de parte da população em usar o dinheiro para consumo, fato que chega a causar problema de armadilha de liquidez e torna a economia japonesa estagnada ou com crescimento rastejante.

Não é “humor negro” de economista dizer que o “excesso de liquidez”, tanto o tsunami, quanto o quantitative easing, deixará como lição econômica que a preferência pela liquidez é prejudicial socialmente. O “paradoxo da parcimônia” sugere o “sofisma da composição”: o que o indivíduo acha melhor para si não é o melhor para o conjunto dos indivíduos que vivem em sociedade. Em economia de mercado, os gastos, seja em consumo, seja em investimento, multiplicam a renda. Em médio prazo, os gastos públicos em reconstrução poderão reativar a economia japonesa.

One thought on “Armadilha de Liquidez

  1. estava interessado em aprofundar o conhecimento na teoria da liquidez. Os dados concretos do artigo e a forma de apresentação, brilhante, me ajudaram muito.

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