África via Alberto da Costa e Silva

Quando descobri o Brasil – sim, Cabral e portugueses conquistaram o território dos nativos, brasileiros e eu descobrimos o que outros inventaram… Na verdade, desde que o ícone da geração 80, Renato Russo da Legião Urbano, indagou “Que País é Este?”, sacamos que De Gaulle mandou ver bem: “Brasil não é País para amador!” Em outras palavras, nós, os brasileiros, somos compromissados a estuda-lo (e vive-lo) muito, para entende-lo. Para começar, entender a África. Nenhum autor brasileiro ajuda mais nisso do que o Costa e Silva, o literato, não o general. O País seria melhor com literatos no lugar de generais em sua história.   Rachel Bertol (Eu & Fim de Semana – Valor, 16/09/11) entrevistou Alberto da Costa e Silva, poeta, ensaísta, historiador, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras. Aos 80 anos, está publicando o terceiro volume de memórias.

A vida extraordinária do poeta, ensaísta, historiador e diplomata, que comemorou 80 anos recentemente, seria tema para uma vasta coleção de livros. Parte dessas histórias encontra-se em “A Invenção do Desenho – Ficções da Memória“, que a Nova Fronteira acaba de reeditar, com nova introdução do historiador José Murilo de Carvalho. O livro retrata 15 anos da vida de Costa e Silva, desde os tempos da mocidade até o período em que se tornou diplomata em Lisboa.

A editora está reeditando toda sua obra e iniciou a série, este ano, com o monumental “A Enxada e a Lança – A África Antes dos Portugueses“, de quase mil páginas, o primeiro livro publicado no Brasil com tamanho fôlego sobre a história antiga do continente. Lançado em 1992, chegou à 5ª edição, acrescida de introdução do jornalista Laurentino Gomes. No momento, Costa e Silva prepara o terceiro volume de suas memórias. O primeiro, “Espelho do Príncipe” – que considera seu melhor livro -, sobre a infância em Fortaleza, também será reeditado.

Alberto da Costa e Silva moratória em apartamento do bairro de Laranjeiras, no Rio, repleto de esculturas africanas e belos quadros. O imortal (e ex-presidente) da Academia Brasileira de Letras conta sua epopeia africana. Costa e Silva foi embaixador na Nigéria e na República do Benim. Sua obra é pioneira ao despertar no país um interesse renovado pela região. A relação dos brasileiros com a África é marcada por um distanciamento, que Costa e Silva aponta na obra de autores que falam de negros e escravos, como Gilberto Freyre e Castro Alves.

A Enxada e a Lança” é um clássico no estudo de África. Quando a Nova Fronteira o publicou, perguntava-se quem iria ler um livro sobre história antiga da África. Mas o livro teve muito boa aceitação. E também sua continuação, “A Manilha e o Libambo – A África e a Escravidão, de 1500 a 1700“. Neles, ele trata de toda a África subsaariana, que alguns autores chamam de África negra. Isso porque sempre teve a impressão de que o Magrebe, a Líbia e Egito, estando no continente, pertencem ao Mediterrâneo. Sua história é a do Mediterrâneo.

Ele dá enfoque especial às áreas que tiveram importância na história do Brasil, que não começa com Pedro Álvares Cabral, mas com as grandes migrações ameríndias, com dom Afonso Henriques em Portugal, com a invenção do ferro em Nok, na África, e com a expansão dos bantos. O Brasil é resultado de três histórias. Sempre lhe impressionou que uma dessas fontes fosse tão mal estudada. Quando ele tinha 15 anos, leu “Casa-Grande & Senzala“, e foi uma revelação. Freyre punha o negro não mais como um problema do Brasil, mas como sua essência. Mas o livro lhe chamou a atenção também pelas coisas que não diz. Quase todos os estudiosos do negro no Brasil não enxergavam nele toda sua vestimenta cultural africana, inclusive Freyre. Não se tinha estudado a cultura tradicional do negro na África, para explicar, por exemplo, por que alguns deles nunca vieram para cá. Seu interesse pelo assunto começou quando ele era rapazola. Mas o material disponível a respeito era mínimo.

Costa e Silva achou muito material em sebos e bibliotecas. Foi formando sua história particular da África, sem pensar em escrever a respeito. Era uma espécie de vício secreto, de paixão não confessada. Foi pela primeira vez à África nos últimos dias de setembro de 1960, como diplomata, para participar das comemorações da independência da Nigéria. Foi um deslumbramento. Teve a impressão de estar num quadro do Renascimento italiano. Seu terno escuro e a gravata pareciam uma roupa humilhante diante das túnicas, das togas, das roupas rendadas, dos veludos, das roupas daqueles que lhes aguardavam no aeroporto. E havia, além dos trajes, a riqueza das pessoas nas ruas, do comportamento. Era curioso, porque, de certa forma, era o Brasil do Debret, e algo mais, com o perfume do Brasil. Representando o Itamaraty, conheceu países como Etiópia, Sudão, Senegal, Togo, Gana, Costa do Marfim, Camarões, Gabão, Angola, Quênia…

Em meados dos anos 1970, em Madri, na casa de amigos, ele estava batendo boca com o Carlos Lacerda sobre Angola, e ele lhe disse que Costa e Silva tinha obrigação de escrever sobre África. Segundo ele, era o único brasileiro com ideias precisas sobre o continente. Pouco depois iniciou o livro. Quando foi nomeado embaixador em Lagos, na Nigéria, o livro avançou muito. Era um país fascinante, com culturas sólidas, onde o diálogo com o Brasil tinha importância histórica. Havia um bairro brasileiro na cidade, uma associação de descendentes de brasileiros, uma mesquita brasileira etc. Sua mulher, Verinha, oferecia o vatapá brasileiro acompanhado do prato que lhe deu origem.

Ele esteve na África na mesma época mais ou menos que pesquisadores como Pierre Verger e Jean Rouch. E a imagem, literalmente, que se faz da África no século XX deve-se muito ao trabalho deles. Havia a sensação, como essas imagens deixam transparecer, de lidar com algo ainda intocado. Hoje, em Angola, não vemos mais nas ruas as pessoas falando francês do século XIII, mas a catedral se mantém no mesmo lugar. E, apesar de tudo, ainda que disso as pessoas não tenham consciência, elas preservam na estrutura mental a lembrança do que foram seus ancestrais.

Havia, de fato, a ideia de algo intocado, embora não fosse puro. A realidade africana ainda se apresentava com as roupagens diferentes das nossas. Era um campo onde se descobriam novas coisas todos os dias. Pela primeira vez, naquela geração e na que lhe foi imediatamente anterior, sabíamos que a África tinha uma história.

Ele conseguiu se desvencilhar um pouco da história da África, para se dedicar à redação das suas próprias memórias, quando foi removido para a Colômbia, e encontrou na rua um rapaz vendendo siriguela, uma frutinha que ele comia muito quando menino. Viu que ninguém mais sabia dessas coisas e resolveu escrever “Espelho do Príncipe“, seu melhor livro de acordo com sua opinião, com as memórias da sua infância. Lá explica o que é taperebá, cabiçulinha, como era a vida no sertão do Ceará e em Fortaleza, onde viveu dos seus 3 aos 14 anos. Mas nunca deixou de escrever sobre África, porque lhe pediam conferências e artigos, material que ele reuniu no livro “Um Rio Chamado Atlântico“. Eu o li, assim como “Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos”, baiano que, tendo chegado na África sem um tostão, em pouco tempo tornou-se um poderoso chefe africano e um dos maiores mercadores de escravo da história, ficando conhecido como um mito, o Chachá. Alberto da Costa e Silva descreve o ambiente social em que ele viveu e também como funcionava, no outro lado do Atlântico, o tráfico de escravos. Ambos livros são magníficos, cujas leituras são necessárias para se descobrir o Brasil.

One thought on “África via Alberto da Costa e Silva

  1. Muitooooooo boa essa sua sintese sobre os autores que escreveram sobre a África! É de suma importancia conhece-los, para nos indentificarmos e nos reconhecermos na cultura africana

    abraço!!!

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