Slow Web

Janeiro 28th, 2012 § Deixe um Comentário

Nelson de Sá (Folha de S. Paulo, 23/01/12) informa que a rede social dá sinais de, nos Estados Unidos, ter batido no teto. Na verdade, a aceleração está menor, pois as visitas cresceram 10% de outubro de 2010 ao mesmo mês de 2011, segundo a comScore, contra 56% de aumento no ano anterior. No entanto, já se fala em “saturação social“, pois a produtividade pessoal está caindo por causa de consumo de mídia. Os hábitos digitais estão levando ao desperdício de tempo, inutilmente. Menos da Luiza que estava no Canadá…

O desafio tem sido desligar por um tempo o Twitter e/ou o Facebook. Pouco a pouco, os americanos, bem como os europeus, restringem a interação on-line e se tornam “espectadores“, segundo o relatório Adoção de Mídia Social em 2011, da Forrester Research. Só um terço dos americanos e europeus atualiza seus perfis em redes sociais, Twitter inclusive, toda semana.

Enquanto isso, nos emergentes, Brasil entre eles, dois terços dos internautas atualizam seus perfis semanalmente. Nos centros urbanos, três quartos. Em outras palavras, virou “coisa de povo subdesenvolvido”, como ironizava um ex-professor.

Aos estrategistas de marketing, sugere-se: “Se você tem como alvo usuários nos mercados ocidentais, priorize dar a eles conteúdo que possam simplesmente ler ou ver. Não espere muita interação dos consumidores ocidentais“.

A reação ao tédio ou enfado com a vida virtual contemporânea vai além das redes sociais. Quanto ao futuro das viagens, proclama-se que “o maior luxo do século 21 será escapar da rede social em black hole resorts, refúgios com buracos negros, com total ausência de internet, em que até as paredes serão impenetráveis ao acesso sem fio”. Instalados no alto de montanhas ou em vilas exóticas, os buracos negros serão o ápice de movimento tal como o do ‘slow food’ a favor de produção alimentar sem agrotóxicos consumida lentamente, do ‘slow travel’, enfim, do ‘slow’ tudo: tentar se livrar de tudo “moderno”.

Para tratar disso, espalham-se pela Ásia os centros de recuperação de viciados em internet. Na Coreia, já seriam 200. Na China, 300.

Ganham repercussão nos Estados Unidos os “softwares de produtividade” que, simplesmente, restringem o acesso à web por determinado número de horas.

Acumulam-se os livros com questionamentos aos defeitos da internet:

  1. mina a criatividade;
  2. sufoca os momentos de quietude;
  3. afasta as pessoas com ferramentas que serviriam para aproximá-las;
  4. emburrece com a facilidade de pesquisa superficial via Google;
  5. os smartphones são coleiras high-tech ou “servidão voluntária”.

No Brasil, a maioria da população está atrasada em relação a saturação social já observada nos Estados Unidos: o Facebook cresceu 192% em um ano, chegou a 36 milhões de usuários e ultrapassou afinal o Orkut, que também cresceu, mas 5%, segundo a comScore. Os usuários aqui ainda apreciam mais as fofocas das redes sociais. Os emergentes, destacadamente os com grande população pobre, China, Índia e Brasil, lideram o mundo na adoção de mídia social, enquanto mercados tradicionais se saturaram dessa “conversa de bêbado com delegado que não leva a lugar algum”.

Mas já se percebem por aqui, em setores de vanguarda intelectual, os primeiros sinais de reação à vida digital e aos seus efeitos sobre a produtividade, ao menos nos bolsões em que a disseminação de mídia social é maior e mais amadurecida.

Considera-se razoável usar a internet para consumo de jornais e revistas, inclusive internacionais, o que ocupa já entre uma hora e uma hora e meia de tempo, antes do início da jornada de trabalho. Iniciada, não se deve usar celular em reuniões, almoços profissionais (ou mesmo familiares) e salas de aula. A boa educação social abomina essa dispersão face a interlocutores.

A internet pode prejudicar não apenas a criatividade das pessoas, mas a sua própria humanidade. Tem de se reaprender a ficar com a cabeça livre, tentando pensar em algo inteligente, criativo ou novo.

Aos jovens a sugestão é desligar-se da rede social para estudar. Senão, acabam entrando na internet, para tirar alguma dúvida, aí ficam no Facebook e, quando percebem, já passou o tempo de estudar! Desperdiçam, então, uma fase da vida importante para acumular informações mais profundas e compreender analiticamente o mundo. Aprendendo a apreciar o conhecimento, a cultura, a sabedoria acumulada, o estudante não sentirá tanta falta da rede social, ou seja, de saber que “a Luiza, que estava no Canadá,…”

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