Associação entre Ciência e Soberania Nacional

O neurocientista Miguel Nicolelis fala (link no final do post) sobre
a próxima etapa de seu projeto para transformar a criação de um
exoesqueleto robótico em um programa de educação e saúde para
estimular o desenvolvimento tecnológico e científico do País.

“A renúncia a um investimento maciço de formação de um corpo de
cientistas e de atuação em diferentes áreas – tecnologia de
informação, microengenharia, biomedicina, nanotecnologia, engenharia
biomédica… – é uma renúncia à soberania do País.”

Miguel Nicolelis, um dos cientistas mais importantes do Brasil, é enfático sem se exaltar. A conversa foi sobre duas paixões: ciência e educação. E ele conta, com exclusividade ao Link, mais um passo de seu projeto Câmpus do Cérebro – o início de uma parceria entre o Hospital Sabará, de São Paulo. “Com a abertura da Escola do Câmpus do Cérebro, no ano que vem, vamos poder fechar o ciclo completo, unindo o Centro de Saúde Anita Garibaldi à escola”, explica.

Ele se refere ao trabalho que iniciou há seis anos no Rio Grande do
Norte, que começa pelo tratamento de mulheres grávidas no Centro de
Saúde (e que reduziu a mortalidade materna da região de Natal e
Macaíba a zero) para garantir que os futuros alunos de sua escola
possam ser acompanhados desde antes do nascimento. “As crianças que
nascem lá já são alunas da escola no pré-natal. Depois elas entram no
berçário e seguem estudando em período integral até o ensino médio”,
diz.

José Luiz Setúbal, presidente da Fundação Hospital Sabará e
responsável pela aproximação do hospital a Nicolelis, explica que a
parceria começa com a troca de experiências em saúde materna e de
recém-nascidos, mas Nicolelis frisa que não deve parar por aí.
“Estamos discutindo a possibilidade de evoluirmos a relação para uma
parceria clínica.” O que, na prática, significaria que o hospital
paulistano é candidato a ser o primeiro lugar em que o projeto dos
sonhos de Nicolelis, o Walk Again, possa ser testado em humanos.

Andar de novo. Walk Again é o projeto de criar um exoesqueleto
robótico controlado pelo cérebro. O grande sonho de Nicolelis é fazer
um tetraplégico dar o pontapé inicial no primeiro jogo da Copa do
Mundo no Brasil, em 2014, como disse em entrevista ao Link no ano
passado. “Testamos um protótipo nesta semana que são pernas mecânicas.
Vestimos um macaco e elas se mexeram, não com o pensamento, mas com um
programa de computador”, explica. “O próximo passo é anestesiar a
medula espinhal do macaco, para, finalmente, testarmos se a veste
consegue fazer movimentos. Faremos isso até o meio do ano. E, mais ou
menos no ano que vem, nesta época, já estaremos trabalhando com
pacientes em potencial. Mas isso ainda está em fase de discussão.”

Mas o Walk Again não é um fim em si mesmo. Nicolelis o compara ao
programa espacial norte-americano, que estabeleceu a meta de levar o
homem à Lua, mas que, no processo, alavancou outras tecnologias que
surgiram durante a pesquisa. “Há várias aplicações que surgem desta
meta, que chamamos de ‘spinoffs’. Até mesmo para entretenimento, como
o videogame. Quando os executivos da indústria de games veem um
macaquinho imerso num mundo virtual jogando videogame com a mente,
eles veem o futuro.”

E antecipa, sem entregar: “Eu não posso contar agora, mas estamos
perto de divulgar três novas ideias que ninguém nunca tinha tido – e
que não tínhamos a menor ideia que iriam acontecer. As grandes
descobertas são acidentes. Na hora em que a gente estava fazendo um
experimento com macacos, vimos isso e pensamos ‘não é possível’… Essas
novas ideias são tão fora do esquadro que quando a gente publicar as
pessoas vão achar que estão num filme de ficção científica.”

Mas Nicolelis quer menos ficção e mais ciência. E reforça a
importância do Walk Again em seu projeto científico-educacional. “O
Walk Again é a semente de uma nova indústria no Brasil, a da
tecnologia de reabilitação. Gostaríamos de usar o Walk Again como
projeto-âncora para lançá-la aqui no Brasil com a construção da
infraestrutura do parque neurotecnológico do Câmpus do Cérebro”, diz.

O projeto visa criar uma geração de cientistas no Brasil para tratar
futuros alunos no pré-natal e ensinar ciência, na prática, numa escola
de período integral. “Nossa abordagem de ensino de ciência é prática.
As crianças aprendem a lei de Ohm descobrindo como funciona um
chuveiro. E contratamos nossos ex-alunos para trabalhar conosco. Na
prática, estamos pegando crianças que nunca tiveram contato com
ciência, colocando-as em um programa de educação e em cinco anos elas
estão trabalhando em um laboratório de ponta. E são crianças que, até
os 10 anos, não tiveram oportunidades. Imagina quando pegarmos as
crianças que tiveram um pré-natal ótimo…”

Isso tudo é para reverter o quadro científico brasileiro. “Nossa
situação é dramática. O déficit de engenheiros que o Brasil tem é
gigantesco. E esse é um assunto estratégico. A indústria deste século,
sem dúvida, é a do conhecimento e estamos em grande desvantagem. Se
não acordarmos agora, não precisamos mais acordar. A janela de
oportunidade está se fechando – e rápido.”

Contudo, o neurocientista é otimista. “As coisas estão mudando. Esta
nossa conversa seria impossível há dez anos. O governo federal está
ouvindo. Presido uma comissão – a Comissão do Futuro – que está
preparando um relatório para mostrar todos os indicadores
internacionais sobre a verdadeira situação do ensino de ciência e da
produção científica brasileira. O relatório deve ficar pronto em
junho.”

E conclui: “Meu intuito diz respeito à criação de uma nova geração de
brasileiros. Produzindo não apenas cidadãos – muito mais felizes,
engajados, competentes – mas também engenheiros, médicos, cientistas,
professores… Pessoas que têm outra visão de mundo. E de Brasil.”

Leiahttp://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2012/04/02/miguel-nicolelis-e-eu.htm

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