Resposta da Política Monetária Norte-americana à Crise

Ben Bernanke, presidente do Fed, explicou no seu discurso abaixo que “os bancos centrais expandiram seus balanços porque os do setor financeiro privado desmoronaram”. Com o “quantitative-easy“, i.é, afrouxamento monetário e/ou monetização da dívida pública, não teria ocorrido “crowding-out” financeiro, mas sim “ultrapassagem no vácuo”…

Some Reflections on the Crisis and the Policy Response – Discurso de Ben Bernanke 20120413a

April 13, 2012

Some Reflections on the Crisis and the Policy Response 

Remarks by

Ben S. Bernanke

Chairman – Board of Governors of the Federal Reserve System

at the Conference on “Rethinking Finance: Perspectives on the Crisis”

Presented by the Russell Sage Foundation and The Century Foundation

New York

Alex Ribeiro (Valor, 30/03/12) apresenta um perfil biográfico de Ben Shalom Bernanke, 58 anos. Ele foi criado em Dillon, pequena cidade na Carolina do Sul, na fase final da segregação racial. Era considerado gênio desde criança – aprendeu cálculo sozinho e tirou nota 1.590 num total de 1.600 pontos possíveis no teste-padrão para admissão à universidade. Mas seus pais, um farmacêutico e uma professora primária, tinham planos modestos de enviá-lo a uma universidade local, onde ficaria sob vigilância próxima para evitar que se perdesse na vida. Só concordaram com sua ida para o Massachusetts Institute of Technology (MIT) depois de uma conversa com um cliente da farmácia do pai de Bernanke, Kenneth Manning, afroamericano que virou professor da universidade depois de ter estudado numa escola segregada. Manning prometeu ficar de olho no jovem e fazê-lo frequentar uma sinagoga de Boston, onde fica o MIT.

O MIT tem um dos melhores cursos de economia do mundo, com uma tradição que vai de Paul Samuelson, autor do primeiro grande manual de macroeconomia de cursos de graduação, passa por Rudiger Dornbusch, estudioso dos sistemas cambiais, e chega aos Prêmios Nobel Franco Modigliani e Robert Solow, este último ainda vivo e em atividade. Entre os brasileiros, dois pais do Plano Real estudaram por lá, Pérsio Arida e André Lara Resende. O MIT parece dominar as decisões econômicas atuais, com seus quadros em alguns dos cargos mais importantes do mundo. Bernanke comanda o Fed, Olivier Blanchard é o economista-chefe do FMI e Mário Draghi preside o Banco Central Europeu (BCE).

Diferentemente da Universidade de Chicago, que tem uma linha ideológica inclinada à defesa do livre mercado, o MIT é uma escola muito mais pragmática, que transita sem preconceitos entre as várias linhas de pensamento econômico. “Talvez Bernanke tenha aprendido no MIT a ser essa pessoa ponderada, do meio-termo, que se preocupa com o desemprego, mas também com a inflação”, diz o ex-aluno do MIT Laurence Ball, hoje professor da Universidade John Hopkins, de Washington.

A primeira grande produção acadêmica de Bernanke foi um trabalho sobre a Grande Depressão, publicado no começo da década de 1980 em parceria com Gertler, quando o hoje presidente do Fed já dava aulas na Universidade de Stanford. Os economistas Milton Friedman e Anna Schwartz haviam descrito, em 1963, como barbeiragens de política monetária do Fed haviam causado a Grande Depressão. Bernanke e Gertlher foram além, descrevendo os mecanismos de transmissão da crise pelo sistema financeiro, que se opera sobretudo pelo canal do crédito, jogando luz sobre um tema que era bastante obscuro para os economistas da época.

Alguns anos depois, Bernanke se mudou para Princeton, onde se tornaria chefe do departamento econômico na década seguinte. “A chegada dele foi um momento de grande expectativa e alegria”, diz o ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, Armínio Fraga, que então teve seu primeiro contato com Bernanke, que foi membro da banca examinadora de sua tese de doutorado. “Tinha lido os seus famosos trabalhos sobre a Grande Depressão.”

Bernanke foi nomeado membro do Federal Open Market Committee (Fomc) por Bush, em 2002, o que o faz um pouco responsável pelos juros baixos da era Greenspan. Mais do que isso, ele foi uma espécie de teórico dessa estratégia. Preocupado com o risco de deflação durante a recessão causada pelo estouro da bolha acionária da internet, em 2001, Bernanke defendeu uma política monetária bastante relaxada e até o uso de instrumentos monetários não convencionais, caso a coisa ficasse mais grave. Ele ficou conhecido como “Helicóptero Ben”, por ter se referido à proposta de Friedman de lançar dinheiro com helicóptero, num discurso feito em 2002 que delineou a chamada “Doutrina Bernanke”, um roteiro agressivo para combater riscos deflacionários.

Hoje, ele minimiza a culpa dos juros ultrabaixos na criação da bolha que estourou a partir de 2007. “A política monetária não teve um papel importante no aumento dos preços de imóveis”, disse Bernanke na semana passada, numa de suas aulas na universidade. Outros países, como a Inglaterra, tiveram bolhas imobiliárias na mesma época, apesar de ter juros mais altos. Os preços dos imóveis começaram a subir nos Estados Unidos em 1998, argumentou, antes de o Fed baixar os juros.

Bernanke também é criticado por não ter visto com antecedência a crise que se avizinhava. Num documentário ganhador de Oscar, “Trabalho Interno”, dirigido por Charles Ferguson e narrado pelo ator Matt Damon, há uma declaração embaraçosa feita por Bernanke em 2005, quando ele era assessor econômico da Casa Branca, já numa preparação para assumir a presidência do Fed. A apresentadora da TV a cabo CNBC Maria Bartimoro, musa do jornalismo econômico americano, pergunta a Bernanke se o castelo de cartas estava por ruir, diante dos riscos de uma queda nacional dos preços dos imóveis. “Acho que não compro suas premissas”, disse Bernanke. “É uma possibilidade muito improvável. Nunca tivemos uma queda nos preços dos imóveis em bases nacionais.”

“Acho que todos nós, de certa forma, subestimamos a grande ameaça que estava diante de nós”, diz Mark Olson, ex-membro do Fed, especialista em sistema financeiro, hoje copresidente da Treliant Risk Advisors. Quando ainda era acadêmico, Bernanke escreveu sobre como é difícil para os bancos centrais identificar bolhas financeiras e como tentativas de esvaziá-las por meio da política monetária podem se mostrar desastrosas.

Numa de suas aulas da semana passada, respondendo a uma pergunta de um estudante, Bernanke se referiu ao erro feito pelo Fed em 1928 e 1929, ao subir juros para estourar uma aparente bolha no mercado acionário, mas que acabou contribuindo para a Grande Depressão. “Acho que foi um erro”, disse Bernanke. “Eles queriam fazer o mercado acionário cair e conseguiram, é claro.”

Deixar o Lehman Brothers falir em setembro de 2008, quando Bernanke já era presidente do Fed, foi um dos maiores erros na resposta americana à crise. O Fed, que completou 99 anos, foi fundado justamente para agir em momentos decisivos como esse, depois de a crise bancária de 1907 ter sido debelada graças à ação individual de John Pierpont Morgan, uma das legendas por trás do banco JP Morgan. O Lehman Brothers agonizou em praça pública por meses, por isso as autoridades acreditavam que a maioria dos detentores de contrapartes já havia cortado as suas exposições. Mesmo assim, houve várias tentativas de resgatá-lo. O Lehman Brothers só foi à lona horas depois que o regulador bancário inglês vetou a compra pelo britânico Barclays.

“O Lehman Brothers era provavelmente grande demais para falir, no sentido de que sua falência teve enormes impactos para o sistema financeiro global”, disse Bernanke nesta semana, em outra aula. “Mas estávamos impotentes, pois era essencialmente uma empresa insolvente.” Não havia muito espaço legal, nem disposição política, para um resgate puro-sangue com dinheiro público. “Não acho que, no fim das contas, eles tinham outra opção senão deixar o Lehman Brothers falir”, afirmou Olson.

Poucos, porém, fazem reparos à atuação de Bernanke a partir de então, quando a crise bancária ganhou contornos dramáticos e exigiu medidas muito mais agressivas. Dois dias depois da quebra do Lehman Brothers, a seguradora AIG recebeu um socorro de US$ 85 bilhões do Fed. Bernanke agiu para que a Merrill Lynch fosse adquirida pelo Bank of America. O governo americano anunciou, numa questão de dias, a criação de um fundo de US$ 700 bilhões para injetar capital e adquirir ativos problemáticos de instituições financeiras debilitadas. “Os Estados Unidos e o mundo foram muito felizes em ter Bernanke à frente das decisões, alguém que aprendeu as lições da história”, afirma Olson.

a ação monetária de Bernanke, porém, é cercada de controvérsia. Os economistas mais ortodoxos dizem que a maciça emissão de dinheiro pelo Fed, em operações conhecidas como expansões quantitativas, são ineficazes para reanimar a economia e vão levar a uma inexorável aceleração inflacionária. O balanço do Fed atingiu proporções gigantescas, com um volume de US$ 2,9 trilhões. Alguns sustentam que há razões estruturais por trás dos altos índices de desemprego atuais. Trabalhadores estão fora do mercado de trabalho há muito tempo e, por isso, perderam qualificações profissionais. Num ambiente como esse, estímulos monetários só levam a mais inflação.

Uma outra corrente de economistas, menos ortodoxa, diz que Bernanke tinha obrigação de fazer ainda mais para estimular a economia. O Fed tem dois mandatos principais, controlar a inflação e manter o pleno emprego. A inflação anda bem-comportada, com projeções abaixo de 2%, a meta perseguida pelo Fed. Já o desemprego, em 8,3%, está muito acima do nível de longo prazo para a economia americana, que membros do Fed calculam entre 5% e 6%.

Jay L. Clendenin/Agency Pool PhotoEscolhido por Bush, Bernanke foi conduzido a um novo mandato em 2010 por Barack Obama.

Em tese, há muitos outros instrumentos monetários não convencionais à disposição para estimular a economia, considerando o que escreveu o próprio professor Bernanke antes de virar banqueiro central. Na década de 1990, o Japão passou por uma experiência bastante semelhante à dos Estados Unidos. Depois de uma crise financeira, o Banco do Japão baixou agressivamente a taxa de juros até virtualmente zero, um limite para as políticas monetárias convencionais. Em 1999, Bernanke criticou o Banco Central do Japão por não fazer mais e propôs um agressivo roteiro aos japoneses num famoso texto, “Política monetária japonesa: um caso de paralisia autoinduzida”. A caixa de ferramenta incluía deliberada desvalorização cambial, emissão de moeda para expandir gastos fiscais e uma meta de inflação mais alta, entre 3% e 4%, acima dos 2% que os bancos centrais de economias avançadas costumam perseguir. Em 2008, quando Bernanke se deparou com a “armadilha monetária” no mundo real, preferiu seguir um roteiro mais bem-comportado. “Tenho mais simpatia pelos banqueiros centrais agora do que há dez anos”, brincou Bernanke no ano passado, respondendo a uma pergunta de um jornalista japonês sobre sua aparente mudança de posição. Ele sustentou que fez o necessário para enfrentar o risco deflacionário nos Estados Unidos.

“Ele ficou muito mais cauteloso”, disse Ball, da Universidade John Hopkins, autor de um trabalho recente que comparou as visões do professor Bernanke com a do banqueiro central Bernanke. “Algumas pessoas dizem em tom de brincadeira que o real Bernanke foi sequestrado por extraterrestes e, no seu lugar, foi colocado alguém com exatamente a mesma aparência física, porém bem mais cauteloso.”

O que os historiadores monetários vão dizer no futuro sobre Bernanke vai depender, em grande medida, das atitudes que ele próprio e seus sucessores vão tomar daqui por diante – e do que acontecer com a inflação e o desemprego. Em discurso nesta semana numa associação de economistas, Bernanke deixou mais uma vez a porta aberta para eventuais ações monetárias adicionais para baixar o desemprego, que ele atribui sobretudo ao baixo crescimento da economia. Nos seus pronunciamentos, o presidente do Fed, por outro lado, também tem indicado estar bastante consciente de que, no momento certo, será necessário remover os estímulos monetários para evitar a volta da inflação.

Quando Paul Volcker teve que subir os juros às alturas para conter uma inflação na casa de 20%, cidadãos enfurecidos mandaram pequenos blocos de madeira para o Fed com inscrições em protesto, como pedidos para “parar de matar os agricultores”. “Tenho alguns desses blocos na minha mesa de trabalho apenas para me lembrar que inflação é uma preocupação e você tem de estar sempre atento à estabilidade de preços”, afirmou numa aula na semana passada.

APBarack Obama, se reeleito, poderá renovar o convite ao economista em 2014

Volcker é visto por muitos como o presidente do Fed que empurrou a América Latina para a crise da dívida, com seus juros altos. Hoje, a política monetária de Bernanke é criticada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, como uma das peças da chamada “guerra cambial”. O dinheiro impresso pelo Fed estaria reforçando os fluxos internacionais de capitais e levando à depreciação do dólar ante moedas de países emergentes, como o real. O dólar fraco seria um motor adicional da recuperação americana, enquanto o real forte leva à desindustrialização no Brasil.

“Acho que os brasileiros não têm muita razão nesse argumento”, afirma Edwin Truman, do Peterson Institute for Internacional Economics, que dedicou a carreira a temas de finanças internacionais e exerceu uma alta posição no assessoramento no Fed de Volcker. “Se Bernanke tivesse sido menos agressivo na política monetária, talvez o dólar fosse mais forte, mas a economia americana ficaria mais fraca e a demanda dos Estados Unidos por exportações brasileiras seria menor.” Se o Fed de Volcker tivesse tolerado inflação maior, argumenta, o resto do mundo também acabaria prejudicado.

Decisões de Bernanke mexem com o mundo todo, mas uma década em Washington não o mudou muito. Seu principal passatempo nos fins de semana é resolver palavras cruzadas com a mulher. Ele volta para casa todas as noites para ler livros em formato eletrônico no Kindle. Quando sai, é para assistir a jogos do time local de beisebol, o Washington Nacionals. Sua maior satisfação, porém, parece ser dar aulas e responder a perguntas de estudantes da Universidade George Washington. “É o que fiz por 23 anos, antes de entrar nessa linha de trabalho”, disse, ao começar o curso.”

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