Desde que o Samba é Samba

Desde que o samba é samba

AUTOR Paulo Lins
EDITORA Planeta
QUANTO R$ 39,90 (336 págs.)

O leitor do livro “Desde que o Samba é Samba”, segundo romance do autor de “Cidade de Deus”, Paulo Lins, talvez tenha o mesmo sentimento de quem espera “o segundo disco” de algum compositor/cantor que obteve grande sucesso com o primeiro disco: a expectativa é muito alta. É muito difícil manter a alta performance sempre como se pode verificar por depoimentos de atletas vencedores. O autor deve perceber que críticas, dificuldades perante os críticos e até duros golpes podem também ser curativos, levando a melhores reinícios. Não devemos insistir em que “não há o que mudar”.

Porém, gostei de “Desde que o Samba é Samba”. Conta estórias populares da Zona do Mangue de prostituição e boemia no Rio de Janeiro do final da década dos anos 20, no Século XX. Essa região ficava ao lado do Estácio. Jovens do bairro usufruíam das moças, bebidas e samba. Tal como os jovens nos anos 60 do sexo, drogas e rock-n’-roll.

Mais para o final do livro o enredo me pareceu repetitivo, porém seu tema é da maior importância: o nascimento do samba no Rio de Janeiro. Lembrou-me o melhor da literatura brasileira popular de foco regional: a baiana do Jorge Amado. Paulo Lins é o Jorge Amado do Rio de Janeiro!

Isto é um elogio. Embora pudesse ter melhor edição do texto, cortando as situações repetitivas e colocando os nomes completos dos personagens históricos, tais como o da Miranda. Pô, é Carmem Miranda!

Por que ele não fez isso? Não sei se é por “direito de imagem” dos herdeiros, mas o fato é que seria melhor para o leitor que ele lesse os nomes próprios em vez de sobrenomes. Por exemplo, um personagem entre os principais é o Silva, isto é, Ismael Silva que disse: “O Samba era assim: tan tantan tan tantam. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Aí, a gente começou a fazer um samba assim: bum bum paticumbum prugurundum…”

Onomatopeia significa imitar um som com um fonema ou palavra. Em 1982, nos que fazíamos a campanha eleitoral de Liszt Vieira para deputado estadual do Estado do Rio nos reunimos para escrever essa onomatopeia em uma faixa com colante verde brilhante sobre amarelo cetim, tipo “bum bum paticumbum prugurundum: Liszt torce para o Brasil”. No final do regime militar, a esquerda ainda discutia se devia torcer para a seleção brasileira em jogo no Maracanã do Brasil contra a Inglaterra! Nós da “jeunesse dorée” da Zona Sul pensamos que iríamos abafar, obter sucesso popular.

Frustração total. Ficamos perdidos na multidão. O Brasil perdeu de 2X1. Nossa faixa, que pensamos ser enorme, ficou perdida no meio de tantas outras muito maiores. Pior, a “inovação tecnológica” se derreteu sob o sol e as letras também se perderam!

Assim, você, Paulo Lins, que já obteve sucesso popular, siga em frente! Você conta estórias de nosso povo que gostamos de ler. Não dê ouvidos aos críticos com “dor-de-cotovelo” que não conseguiram escrever um romance sobre o assunto que eles se imaginam dominar inteiramente. Aliás, os Sérgios Cabrais, recentemente, não foram muitos felizes em suas intervenções públicas…

Leia abaixo a crítica de Sérgio Cabral (pai do governador do Estado do Rio) e a réplica de Paulo Lins.

Apesar do título, livro de Paulo Lins tem mais intriga que samba

SÉRGIO CABRAL
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em “Desde que o Samba É Samba”, Paulo Lins idealizou um romance com a reunião dos principais segmentos do underground carioca das três primeiras décadas do século 20: o recém-nascido samba de Carnaval (com alguns dos seus principais personagens), a umbanda, a malandragem e a prostituição.

Com esses ingredientes, o cenário da história não poderia deixar de ser o bairro do Estácio de Sá, abrigo da zona do meretrício do Mangue e local de nascimento do samba carnavalesco, além de vizinho do morro de São Carlos.

O autor escolheu o compositor e grande malandro Brancura (Sílvio Fernandes) como o principal personagem das inúmeras histórias que percorrem o livro e que, somadas, se perdem na ausência de uma razoável estrutura orgânica de romance.

Na falta dessa estrutura, Paulo Lins procurou compensar o leitor com muito sexo -é uma relação sexual atrás da outra- e com afirmações polêmicas, como a de que personagens importantes da música popular e da literatura, que nunca aparecem com os seus nomes inteiros, apenas com o nome ou o sobrenome, eram homossexuais.

Ismael Silva é, de fato, autor de todos os sambas citados no livro, mas é sempre chamado apenas de Silva.

Mário, por sua vez, é um intelectual amigo de Manuel (Bandeira), Lúcio Rangel, Drummond, Aníbal Machado e outros, mas nunca é chamado de Mário de Andrade. E Paulo Lins criou um diálogo entre os dois:

“Silva, eu quero ir na Praça Mauá dar um passeio, olhar aquele mundo de perto, participar…”

“Você gosta de homem também, né, querido? [Francisco] Alves me falou que você é homossexual.”

“Não, sou veado mesmo!”

A virtude principal do livro está nas páginas dedicadas à umbanda, uma versão carioca do candomblé, surgida no início do século passado.

Segundo o autor, essa religião surgiu em novembro de 1908, num centro espírita instalado na rua Floriano Peixoto, 30, Neves, São Gonçalo, espalhando-se imediatamente pelos bairros do então Distrito Federal, onde a população passou a conhecer entidades espirituais bem diferentes daquelas que povoam o candomblé.

Louve-se também o esforço do autor em tentar reproduzir o Rio de Janeiro daquela época, apesar de alguns escorregões, como o de fazer o trem parar no Maracanã, uma estação instalada apenas depois da construção do estádio, em 1950.

Apesar do título, a obra de Paulo Lins nada acrescenta à história do samba, até porque os personagens, de um modo geral, apesar de identificados pelos nomes e pelos sambas que compuseram, percorrem as páginas adotando um comportamento que nada tinha a ver com a realidade.

No livro, Ismael Silva, além de homossexual, era cachaceiro e capaz de enfrentar a polícia numa briga (“Silva deu um rabo de arraia numa das autoridades que não gostavam de samba”, escreveu), um retrato facilmente recusado por quem conheceu o grande compositor.

SÉRGIO CABRAL, jornalista e escritor, é autor de “Escolas de Samba do Rio de Janeiro” (Ibep/Nacional) e “Grande Otelo – Uma Biografia” (34), entre outros


AVALIAÇÃO regular

RÉPLICA

Grupos sociais são os principais personagens dos meus romances

Paulo Lins rebate a crítica ao seu novo livro, ‘Desde que o Samba É Samba’, de que escreveu mais intriga que história

ASSIM COMO ‘CIDADE DE DEUS’, ‘DESDE QUE O SAMBA É SAMBA’ NÃO TEM PROTAGONISTA OU TRAMA DEFINIDA

PAULO LINS
ESPECIAL PARA A FOLHA

É um orgulho que um dos maiores pesquisadores do samba tenha se preocupado em investigar meu romance. Porém, como crítico literário, seu texto é claudicante, com afirmações sem sentido.

O que é a estrutura orgânica de um romance para Sérgio Cabral (publicado na “Ilustrada” em 29/4)? É a mesma coisa para críticos de verdade como Gilberto Mendonça Teles, Otto Maria Carpeaux ou Afrânio Coutinho? Seja o que for, quero me livrar de qualquer estrutura que venha querer unificar a produção literária.

Assim como “Cidade de Deus”, “Desde que o Samba É Samba” não tem protagonista nem trama definida, muito menos estrutura formal. E isso não é para inovar ou ser diferente. Gosto de escrever assim para ter um grupo social como personagem principal. Qual é o mal de um tema sumir e voltar ao texto ou seguir entrelaçado a outros completamente diferentes? Na vida, as pessoas vão e voltam, se misturam. Na ficção também pode ser assim, só que com estilo.

Não vou tirar a palavra veado de um romance que une ficção e realidade para deixar em paz os homofóbicos de plantão. O que se tem de discutir não é a homossexualidade de personagens históricos e sim o espancamento e assassinato de pessoas por causa dos desejos e dos amores que se tem na vida.

A primeira escola de samba foi criada por causa das agressões policiais ao povo negro que só queria cantar e dançar na rua. Até hoje, descendentes de escravos, inclusive crianças, são assassinados pela polícia em consequência do racismo do qual ainda não nos livramos aqui no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. O que fizeram com o samba, faz-se atualmente com o funk e com o hip-hop.

Não sacrificarei o sexo do romance para ser politicamente correto, já que parte da história se passa na zona de prostituição da cidade maravilhosa, um lugar para onde a rapaziada do livro não ia para rezar. A música e o desejo combinam com o nosso corpo e fazem dele uma dança.

No arquivo da polícia consta que Ismael Silva deu tiros num desafeto e pegou uma cana por isso. Por que ele não pode ter dado um golpe de capoeira num ataque da polícia, já que vivia no meio de capoeiristas e era agredido? Na literatura vale mesmo não o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.

Vou deixar a estação Maracanã no livro nas próximas edições, já que nessa parte faço poesia e preciso dessa palavra por causa da métrica. E, por muitas vezes, samba e futebol rolam juntos. A ficção me dá essa liberdade.

Os principais detalhes da primeira escola de samba estão em meu livro como no de Cabral, de Nelson da Nóbrega Fernandes, de Humberto M. Franceschi, de Maria Thereza Mello Soares e de tantos outros jornalistas e pesquisadores, assim como em depoimentos ao MIS (Museu da Imagem e do Som), nos documentos de polícia, na Biblioteca e no Arquivo Nacional. Porém, diferentes do meu, são textos que não chegam ao grande público pela sua própria natureza.

Não quero acrescentar nada ao samba porque não é necessário, e sim trazer à luz grandes artistas que não têm o devido reconhecimento e valorizar cada vez mais a cultura do povo que ainda é marginalizado pela cor da pele.

PAULO LINS, escritor, é autor de “Cidade de Deus” (Companhia das Letras) e “Desde que o Samba É Samba” (Planeta)

Leia trecho do livroCapítulo do livro Desde que o Samba é Samba

Leia texto acadêmico sobre o nascimento do sambaDebate sobre Origem da MPB

5 thoughts on “Desde que o Samba é Samba

  1. Toma, Tartaruga Touché Pai! Podia ter ficado sem essa!
    O livro do Paulo Lins é forte, impactante e deixa saudade quando acaba. Adorei, e pra mim, como leitora, é isso o que importa.

  2. Não agrega muito de história com a descrição. É um livro engraçado, principalmente por causa das pornografias escritas e forte exacerbada.
    Realmente não é possível ter uma visão da realidade da época e da criação do samba através do livro. A leitura é fácil e rápida e vale pela diversão e risada que disperta quando da leitura.

  3. Hipocrisia mesmo é negar que Ismael Silva era homossexual. É óbvio que ele era, e todos que o conheceram intimamente afirmam isso categoricamente. A época e o meio do samba (sempre machista, ainda mais naqueles tempos) faziam com que tal característica do compositor fosse velada, escondida, principalmente pelo preconceito. Está na hora de deixarmos de lado essas hipocrisias históricas e tratar tudo com mais verdade e sem amarras, e sem preconceito. E o fato de Ismael ser homossexual é importante, sim, pois nota-se o preconceito pelo qual o compositor passou, simplesmente por ver o amor e o sexo de uma forma diferente da dita “convencional” (pelo menos, naquela época). Disse-me uma vez o jornalista e pesquisador José Ramos Tinhorão que a frase que mais circulava sobre a intimidade de Ismael Silva era essa: “Ismael não sabe por onde a burra mija”. Fala-se muito também pela preferência de Ismael por garotos mais novos, sobretudo em sua maturidade. Naturalmente, tal característica influenciou a obra de Ismael. É possível observar, em muitos sambas de sua autoria, uma demonização da mulher, sempre tida como a pecadora, e aquela que sempre estava errada. Tal misoginia (aliás típica de muitos compositores do samba) pode ser facilmente relacionada à sua preferência sexual. E sem tabus, por favor. Estamos em 2013.

  4. Sim, estou me dirigindo à crítica de Sérgio Cabral e a outros jornalistas que se incomodaram com o fato de o livro tratar abertamente da homossexualidade de Ismael Silva. Parabéns ao Paulo Lins.

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