Geopolítica do Petróleo

Samy Adghirni e Diogo Bercito (FSP, 01/07/12)  informam que as sanções mais duras já aplicadas em três décadas de punições econômicas ao Irã entraram em vigor a partir de 01/07/12, atingindo a renda petroleira que sustenta o regime da República Islâmica. O embargo da União Europeia (UE) ao petróleo iraniano multiplica a pressão externa e interna sobre Teerã. Mas diplomatas e analistas preveem que a medida dos governos europeus não impedirá o Irã de seguir exportando óleo bruto nem atingirá o objetivo declarado de levar o regime a suspender seu programa nuclear. As novas sanções proíbem governos e empresas dos 27 países-membros da UE de comprar petróleo iraniano ou de prover seguros aos navios que o transportam.

As medidas haviam sido adotadas em janeiro de 2012, mas o bloco postergou por sete meses a sua entrada em vigor para permitir que países em dificuldade por conta da crise econômica, como é o caso de Grécia e Itália, importantes compradores do Irã, encontrassem novos fornecedores. Washington adotou iniciativa semelhante que visa retaliar comercialmente no território dos EUA quem fizer negócios com os iranianos.

Alguns países se anteciparam à implementação das sanções e, sob pressão das potências ocidentais, já cortaram ou reduziram compras de Teerã. Nos últimos meses, a produção e a exportação do petróleo iraniano despencou, obrigando Teerã a usar sua frota de superpetroleiros para estocar o óleo bruto não escoado para os seus compradores habituais. A queda na entrada de divisas internas e o crescente cerco aos bancos iranianos afetam diretamente a população iraniana, vítima do desemprego e de uma inflação avaliada em 40%. A moeda nacional foi desvalorizada um terço desde dezembro.

A irritação popular é vista como uma ameaça potencial à estabilidade do regime dos aiatolás. Mas alguns dos principais compradores do Irã, entre os quais China e Índia, anunciaram que continuarão importando, embora em condições desfavoráveis para Teerã – preço negociado para baixo e pagamento em moeda nacional desses países, e não em dólar.

Teerã afirma que não recuará do enriquecimento de urânio para fins pacíficos, que considera seu direito inalienável. Nos últimos anos, o acirramento das sanções levou o Irã a acelerar, não a frear seu programa nuclear.

As potências ocidentais ameaçam aumentar ainda mais as punições caso o governo iraniano não ceda à pressão internacional em meio à rodada de conversas nucleares em curso. União Europeia e EUA minimizam o risco de desabastecimento de suas economias causado pela eventual saída do petróleo iraniano do mercado internacional. Conforme o país persa cai no ranking de produtores e exportadores, sobem outros como Iraque, com incremento na oferta.

O Iraque investe no petróleo como combustível para o crescimento pós-invasão americana. A produção está a um nível não registrado desde que Saddam Hussein tomou o poder, em 1979, e corresponde, hoje, a mais de 95% da receita do governo. São cerca de 2,5 milhões de barris exportados por dia, colocando o Iraque no time dos maiores do mundo.

A perspectiva de ultrapassar o Irã e conquistar o mercado de vizinhos cria tensões na região. O petróleo foi, afinal, um dos atritos que acenderam a faísca da guerra Irã-Iraque. Por enquanto, porém, Irã e Iraque, países de maioria xiita, estão unidos contra outro gigante da exportação de petróleo: a sunita Arábia Saudita.

Com a economia em ritmo lento, os EUA têm diminuído o consumo de petróleo. Ao mesmo tempo, estimulam a produção no país e priorizam importações do continente americano, o que diminui a dependência do petróleo do golfo Pérsico. No ano passado, 57% do combustível importado veio das Américas. Há dez anos, esse número alcançava 49%. O petróleo importado correspondeu a 45% do total consumido no país em 2011. Os EUA importam a maior parte do combustível cru de países que não integram a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), grupo que reúne fornecedores como Iraque e Kuwait.

O principal fornecedor é o Canadá, país que a cada ano exporta mais para os americanos. Entre 2006 e 2011, os EUA elevaram o peso de países como Arábia Saudita, México, Colômbia, Rússia e Brasil nas importações. A Venezuela perdeu participação.

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