Para Que Serve Arte?

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Noemi Jaffe é doutora em literatura brasileira pela USP e autora de “Quando Nada Está Acontecendo” (Martins Editora), “A Verdadeira História do Alfabeto” (Companhia das Letras) e “O Que os Cegos Estão Sonhando?” (Editora 34). Em boa hora, publicou (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 25/01/12) resenha sobre o livro “Os Filmes Que Todo Gerente Deve Ver – Aprenda nos Cinemas o Que Você Precisa Saber Sobre Gestão” de autoria Marco A. Oliveira e Pedro Grawunder (Editora Saraiva, 376 págs., R$ 49,90). Digo isso não porque eu pretenda um remake,  refazendo-o sob o título “Os Filmes Que Todo Economista Deve Ver – Aprenda nos Cinemas o Que Você Precisa Saber Sobre Economia“, embora tenha me ocorrido a ideia de registrar as experiências que terei neste semestre letivo, utilizando-me de filmes para ensinar Economia no Cinema.

Também não “vesti a carapuça”, sentindo-me “culpado” por adotar essa prática didática inovadora que já vai se tornando comum com a disponibilidade de DVD e DataShow em salas de aulas, tanto que há site com sugestão de Filmes para serem usados em sala de aula. Na verdade, senti-me motivado a questionar a hipótese levantada pela autora da resenha a respeito da arte desinteressada.

Para que serve a arte? Esta é uma pergunta que Alain de Botton se lança e responde com muito maior competência do que eu, evidentemente, tenho em Filosofia. Diz: “Desinteressada ou terapêutica, a definição de arte divide a história da filosofia. Os filósofos frequentemente encararam a arte com um misto de curiosidade e inveja. Ora, não são os capítulos finais dos livros de filosofia que fazem as pessoas chorar (exceto os estudantes, que choram de alívio); escultores, músicos e novelistas conseguem agradar o nosso eu mais profundo de uma maneira singular, impossível a qualquer filósofo. As pessoas podem ter considerado Hegel e Hume inteligentes, mas era com Byron e Keats que elas queriam dormir. Eis o que nos leva a questionar: o que é arte e por que ela nos domina de modo tão avassalador?

Um dos mais sugestivos pensadores a se debater com essas questões foi o filósofo e dramaturgo alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Nas suas “Cartas sobre a Educação Estética do Homem“, Schiller reflete sobre o sentido da arte. Começa por distinguir dois lados da natureza humana:

  1. o primeiro,que ele chama de estado sensível, se refere a uma dimensão espontânea, emocional, comum a crianças;
  2. a segunda, designada como estado de razão e freqüente em filósofos, implica uma perspectiva racional, ordenada e lógica em relação ao mundo.

Schiller argumenta que a composição psicológica dos seus contemporâneos é fragmentada, sendo-lhes difícil integrar os dois lados de sua natureza. É precisamente aqui que a arte entra em cena: Schiller pensa ser ela a melhor maneira de fundir o lado natural, sensível do homem com a sua dimensão racional.

A arte poderia educar as pessoas desprovidas de um ou outro temperamento a se tornarem indivíduos mais integrados. Nesse sentido, o pensador argumenta: “Só se transforma em racional um homem sensível tornando-o primeiramente estético“. E complementa: “Apenas a percepção do belo faz do homem algo inteiro, porque ela coloca em harmonia ambos os lados da sua natureza“.

Schiller não foi o primeiro filósofo a polemizar a respeito das dimensões terapêuticas da arte. Em sua Poética” de Aristóteles” (384-322 a.C.) – como já postamos neste blog (click no link) -, investigando por que as pessoas gostam de assistir a peças trágicas, chega à noção de catarse. Uma boa tragédia suscita no público uma mistura de compaixão e temor quanto ao destino do herói ou heroína. As pessoas choram e se apavoraram ao assistir “Medéia“. Ao mesmo tempo, no entanto, a peça desencadeia a catarse ou purgação dessas emoções, de forma que, ao término do espetáculo, o público se sente mais esclarecido e apto a lidar com a realidade que o envolve.

Aristóteles e Schiller influenciaram bastante o primeiro livro de Nietzsche (1844-1900), “O Nascimento da Tragédia“. Aqui o autor argumenta que a antiga tragédia grega nasceu de uma conjunção de dois impulsos da natureza humana.

  1. O primeiro, o espírito dionisíaco, é um estado selvagem de exaltação e embriaguez;
  2. o segundo, o ordenado e frio espírito apolíneo, se expressa na arte como beleza formal.

O milagre da arte reside no fato de manter juntos esses dois elementos, unificando ordem e embriaguez.

As perspectivas estéticas de Nietzsche, Aristóteles e Schiller são impressionantemente práticaso que garante o valor à arte são os seus efeitos benéficos sobre a psicologia do público.

Outros pensadores discordaram dessa concepção, particularmente Immanuel Kant (1724-1804), que, em sua “Crítica da Faculdade de Julgar“, rejeita a idéia de que a arte tenha qualquer propósito prático. Esse filósofo argumenta que nossa abordagem sobre a arte deve sempre se esforçar para ser “desinteressada”. O sentimento que nos acomete na frente de uma obra de arte, tal como uma pintura, por exemplo, deve ser destituído de quaisquer desejos físicos pelas pessoas retratadas. Da mesma forma, não devemos nunca ter uma novela identificando-nos com os personagens ou esperando que as nossas vidas possam se assemelhar às deles.

Pois bem, dentro dessa polêmica filosófica a respeito da arte, Noemi Jaffe abraçou, resolutamente um lado: o do Kant.

Escreveu ela: “Immanuel Kant, numa das mais precisas definições sobre a arte, diz que ela é a realização desinteressada do belo. A novidade kantiana está justamente na palavra “desinteressada” que, nesse caso, tem o mesmo significado de gratuitasem finalidade. Produz-se arte, principalmente, pelo desejo e pela necessidade de produzir arte e deriva dessa liberdade o fato de ela ser tão misteriosamente prazerosa. Ou seja, a arte é uma das poucas práticas humanas que não apresenta uma função clara ou específica e tudo aquilo a que ela pode servir – amadurecimento, transformação, e até ao mercado – é consequência do uso que se faz dela e não pertence intrinsecamente a ela, que, ao não servir para ninguém nem a nada, mantém sua autonomia.”

Mas daí aparecem os gerentes e ela “cai de pau” em cima deles! “Que me desculpem os gerentes, mas por que nós, que não somos gerentes, ficamos com a impressão de que os gerentes passam a vida inteira a gerenciar? E, afinal, o que é gerenciar? O dicionário etimológico sugere muitas acepções, mas certamente a ideia convencional e contemporânea é a de “administrar“. Pois bem: aparentemente, os gerentes administram. Mas por que seria preciso administrar tudo na vida, do trabalho ao café da manhã, passando pelo choro dos bebês e pelo cinema?”

E de cambulhada arrasa o livro (talvez com justa razão – eu não o li). “É disso justamente que trata o livro “Os Filmes Que Todo Gerente Deve Ver“, recentemente publicado. Dividido em capítulos, com títulos que vão de “Motivação e satisfação no trabalho” a “Poder e ética nas organizações“, o livro apresenta cerca de 60 filmes, discutindo-os sempre do ponto de vista gerencial.”

Exemplifica: “o que se pode aprender, em termos de trabalho em equipe, com o filme “A Marcha dos Pinguins“? Ou então – e talvez esse seja o pior capítulo do livro – quais são as estratégias de negociação que o filme “O Homem ao Lado” tem a ensinar? De acordo com as lições expostas no livro, o remediado que quer a qualquer custo abrir uma janela em seu apartamento simples, que dá justamente de frente para a sala de uma casa projetada por Le Corbusier, em Buenos Aires, utiliza dez diferentes métodos de negociação para convencer seu vizinho rico a concordar com ele: “Se colar, colou”, “Chá de sumiço”, “Você é o máximo”, “Devo, não nego” e por aí vai.”

Ela diz que “o problema é que, em nenhuma das estratégias expostas, os autores do livro parecem desconfiar que é justamente o vizinho pobre quem está com a razão e não o vizinho rico, dono de uma casa toda de vidro, que não cogita sequer que o dono do pequeno apartamento possa desfrutar de um pouco mais de luz. Mas o problema vai além, é claro”.

Então, ela se pergunta: “por que assistir a filmes com um propósito gerencial; ou ainda: por que assistir a filmes com um propósito qualquer?”

Responde: “Ir ao cinema para extrair lições do que se vê e não somente para ir ao cinema é como fazer sexo para conferir a anatomia do parceiro.”  

Taí meu argumento: não se faz sexo, puramente, pelo corpo do(a) parceiro(a)?! Faço amor (indo além de sexo) por vários motivos, entre os quais posso incluir essa atração física também, por que não?!

Noemi Jaffe contra-argumenta eruditamente: “O mestre Antonio Candido já disse que quando se lê um livro em busca de uma interpretação qualquer, você a encontra. Se quiser encontrar questões sobre homossexualidade em Pequeno Príncipe, não se preocupe, você vai encontrar. Pois é justamente esse o problema. Vá em busca de arte com uma finalidade, uma função, um objetivo e você o obterá, porque a boa arte é livre. O homem – ou melhor, o gerente no homem – é que quer funcionalizá-la e administrá-la.”

Termina sua resenha rogando: “Gerentes, faço um pedido: se quiserem administrar melhor seus negócios, por algum tempo não façam o que reza a etimologia da própria palavra. Não neguem o ócio. A arte é ociosa. Não a usem para motivo algum.”

Concluo: eu estou em boa companhia com Schiller, Aristóteles e Nietzsche! Não fico com a concepção de Kant!

Cá no meu canto, raciocino que se a arte cinematográfica pode servir para amadurecimento, transformação e educação de cidadãos como consequência do uso que se faz dela, não me interessa se esse propósito pertence intrinsecamente a ela ou se esse não foi o objetivo original do criador – geralmente menos interessante do que sua criação artística. Interessa-me sim minha finalidade – formar culturalmente bons cidadãos -, sendo coerentes com esse nobre propósito, todos os meios são válidos! Vendo a arte com uma finalidade, uma função, um objetivo educacional, nós o obteremos!

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