O Processo da Revolução

Quanto mais informações dispomos a respeito de uma obra de arte, mais a apreciamos! Portanto, vale relembrar algumas informações factuais a respeito das personalidades e histórias pessoais dos dois principais protagonistas do filme Danton, O Processo da Revolução (1983 – 131 min), dirigido por Andrezej Wajda, para melhor avaliar o filme em nosso Curso Economia no Cinema.

Georges Jacques Danton (1759-1794) nasceu em uma família da pequena burguesia, filho do advogado Jacques Danton e da sua segunda esposa, Marie-Madeleine Camus. Após estudar no seminário de Troyes, Danton recusou a carreira eclesiástica e partiu para Paris, onde trabalhou em gabinete de advocacia. Após seis meses na faculdade de Reims, adquiriu uma licença em Direito em 1784.

Exercendo a profissão em Paris, preferia frequentar os cafés e cercar-se de muitos amigos. O casamento com Antoinette Charpentier, filha de um rico parisiense, permitiu que obtivesse um cargo de advogado no Conselho do Rei em 1787. Dois anos depois começou a participar, junto com Marat e Camille Desmoulins, em reuniões no distrito de Cordeliers, de onde saíram os líderes dos sans-culotte, a camada da população composta por artesãos, aprendizes e proletários.

Graças as suas qualidades de orador, tornou-se presidente dos cordeliers. O seu talento oratório se exprimia com frases violentas, mas era indulgente e considerava-se discípulo dos filósofos iluministas, mesmo não tendo lido muitas de suas obras. Não via como conspiradores todos os que não pensassem como ele.

Em 1791, no decorrer da processo revolucionário iniciado em 1789, Danton apoiou os jacobinos que queriam a substituição de Luis XVI por Philippe d’Orleans, enquanto que os cordeliers exigiam a abdicação do rei. Após o fuzilamento de manifestantes republicanos no Campo de Marte, em julho daquele ano, Danton refugiou-se durante algum tempo em Inglaterra.

No seu retorno, no mês de novembro, substituiu o procurador da Comuna de Paris, com a ajuda do tribunal que praticava, então, a política do Terror. Foi nomeado Ministro da Justiça. Depois deixou o cargo para assumir o cargo de deputado de Paris, opondo-se a Robespierre, não pelas convicções ideológicas, mas pelo estilo que não compartilhavam.

Em setembro de 1792, frente à ameaça de uma invasão prussiana, o clima de traição e desconfiança envenenou a todos. O povo, em ato descontrolado, invadiu as prisões cheias de defensores da nobreza, matando os prisioneiros a golpes de pau, espada e foice. O episódio ficou conhecido como “os Massacres de Setembro“.

Temendo a repetição de atos brutais, Danton participou da criação do Tribunal Revolucionário. O paradoxo da Revolução persistia: ao mesmo tempo em que ela não poupava sangue, multiplicavam-se os decretos pelos direitos gerais da cidadania.

Danton entrou no Comitê de Salvação Pública, órgão executivo da República, responsável pela política estrangeira e por assuntos militares. Rapidamente, emergiram os problemas. Mesmo os jacobinos o acusaram de defender interesses próprios. Robespierre tomou a frente do Comitê. Danton defendeu as reivindicações dos sans-cullotes e apoiou a criação do exército revolucionário.

Devido às suas posições, pediu licença, em outubro de 1793, e retirou-se para Arcis-sur-Aube. Retornando em novembro, perdeu seu lugar no grupo dos cordeliers para seu antigo amigo Hebert, que espalhava ideias socialistas. Criou o movimento dos indulgentes, repeliu a violência anti-religiosa e desaconselhou a execução de Maria Antonieta.

A ruptura dos “dantonistas” com os jacobinos foi consumada no fim de 1793, período durante o qual Robespierre tentou manter o equilíbrio político do seu governo afastando mais os radicais e os moderados. Devido às medidas tomadas por Robespierre, Danton encontrava-se isolado e acabou acusado de ser um inimigo da República.

Foi julgado pelo tribunal revolucionário, devido a uma acusação preparada por Saint-Just. Defendeu-se com tanta eloquência que a Convenção demorou para fechar os debates. Condenado, foi guilhotinado em 5 de Abril de 1794, conjuntamente com Camille Desmoulins.

Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (Arras, 6 de maio de 1758 — Paris, 28 de julho de 1794), advogado e político francês, foi uma das personalidades mais importantes da Revolução Francesa. Os seus amigos chamavam-lhe “O Incorruptível“. Principal membro dos Montanha durante a Convenção, ele encarnou a tendência mais radical da Revolução, transformando-se em uma das personagens mais controversas deste período. Os seus inimigos chamavam-lhe o “Candeia de Arras”, “Tirano” e “Ditador sanguinário”, durante o Terror.

Filho de uma família da pequena burguesia, Maximilien Robespierre perdeu sua mãe cedo e foi depois abandonado pelo pai. A morte da mãe e a crise de depressão do pai tiveram forte impacto sobre o menino que, por ser o mais velho, se sentiu responsável pelos irmãos. Maximilien, Charlotte e o pequeno Augustin mantiveram-se unidos por toda vida, Augustin tornou-se leal seguidor na Revolução e Charlotte, depois de ficar noiva do revolucionário Joseph Fouché, devotou-se totalmente ao irmão. A carga de um senso de responsabilidade prematuro terão contribuído para que Robespierre se tornasse um jovem sisudo e solitário, traços que o acompanhariam na vida adulta.

Frequentou o Colégio Arras e, em 1769, com uma bolsa concedida pelo bispo de Arras, foi enviado para o Colégio Luís o Grande, da Universidade de Paris. Nesta escola, onde estudou durante nove anos, entrou em contato com o pensamento radical. A época era de mudança e efervescência intelectual. O jovem impressionou-se profundamente com os ideais iluministas, convencendo-se de que a sociedade havia degradado e escravizado o homem, e aceitou as proposições de Rousseau de que o Estado e o povo são os verdadeiros senhores de todos bens. Políticos e intelectuais da época escreviam, então, muito sobre a dignidade humana. Os novos conceitos do século XVIII – a democracia, a igualdade e a liberdade – eram vetores do seu pensamento.

Sua dedicação aos estudos valeu-lhe o prêmio de melhor aluno, conquista que lhe deu a honra de ser cumprimentado pelo rei Luis XVI e pela rainha Maria Antonieta, os mesmos governantes que, dezoito anos mais tarde, seriam decapitados pela Revolução.

Foi eleito deputado em 26 de abril de 1789, pelo Terceiro Estado da região de Artois, fazendo o seu primeiro discurso em 18 de Maio de 1789. Após a tomada da Bastilha, Robespierre fez o balanço da jornada revolucionária, mas só veio a ser muito notado, em 25 de Janeiro de 1790, ao fazer um discurso no qual defendia que todos os franceses deveriam poder ser admitidos nos empregos públicos, sem outra distinção que não fosse a dos seus talentos e virtudes.

Em 31 de Março de 1790, assumia a liderança do Clube dos Jacobinos, vindo a tornar-se, até o fim de Setembro de 1791, um dos principais oradores da Assembleia Constituinte. Proferiu mais de 260 discursos. O Clube dos Jacobinos representava já uma das alas mais radicais dos revolucionários, tornando-se então Robespierre um dos principais articuladores da Revolução Francesa e alvo constante dos ataques de seus adversários. Em 16 de Maio de 1791, Robespierre consegue o seu maior sucesso parlamentar, ao fazer decretar que nenhum membro daquela Assembleia poderia ser eleito na legislatura seguinte. A alternância no Poder evitaria o continuísmo de um ditador?

Em 1791, Robespierre foi um dos principais líderes da insurreição popular do Campo de Marte. Sua fama de defensor do povo lhe valeu o apelido de “Incorruptível“. Depois da deposição da família real, em 1792, Robespierre aderiu à Comuna de Paris e tornou-se um dos chefes do governo revolucionário. Combateu, então, a facção dos Girondinos, composta por militantes menos radicais.

Dedicou-se à luta contra a política de Brissot e dos Girondinos, lançando, em Maio de 1792, o jornal do seu credo político – Le Défenseur de la Constituition. No seu primeiro número, escrevia que preferia ver “os franceses livres e respeitados com um rei, do que escravos ou aviltados sob o jugo de um Senado”. Na sua opinião, Brissot, ao propor a implantação da República em 1791, tinha feito recuar a Revolução talvez meio século.

Em 9 de Agosto, Robespierre escrevia a Couthon que era “impossível aos amigos da liberdade prever e dirigir os acontecimentos”. Na manhã seguinte, já não havia rei na França. Robespierre teve de aceitar o fato consumado.

Eleito, em 5 de Setembro, deputado por Paris na Convenção Nacional, acentuou ainda mais o seu combate a Brissot e aos Girondinos a propósito do “processo” do rei Luís XVI. Robespierre foi um dos que pediram a sua condenação. Enfim, foi guilhotinado em 21 de janeiro de 1793. Em julho do mesmo ano, Robespierre criou um Comitê de Salvação Pública para perseguir os inimigos da revolução. Foi instaurado o regime do “Grande Terror” – o auge da ditadura de Robespierre. Para ele, a conivência dos Girondinos com um general rebelde não oferecia dúvida, abrindo-se o processo que culminou na proscrição dos seus líderes, em 2 de Junho de 1793.

Em 5 de abril de 1794, Robespierre mandou executar Danton, o revolucionário que propunha um rumo mais moderado para a revolução. Três dias mais tarde, chegou a vez de Marat. A via estava livre. No dia 27, assumiu a chefia do Comitê de Salvação Pública, tornando-se Robespierre na alma da ditadura “montanhesa”, instigando o Terror, com que se condenou à morte na guilhotina milhares de opositores políticos.

Robespierre inaugurou uma cruzada contra o ateísmo. Decretou-se, então, que o povo francês reconhecia a existência do “ser supremo” e a imortalidade da alma. A política financeira de Cambon, com a qual Robespierre não concordava, e a ação de Amar, Jagot e Vadier, no Comité de Segurança Geral, à qual Robespierre se opunha, têm sido apontadas como as causas principais para a sua queda.

No dia 27 de julho, Robespierre é feito prisioneiro em um golpe organizado pelos seus adversários da Convenção – “a planície”, ou como os jacobinos chamavam-lhes, “o pântano”. A Comuna de Paris ainda tentou defender Robespierre, mas sua insurreição fracassou.

Maximilien de Robespierre foi guilhotinado em Paris no dia seguinte, no 10 thermidor do ano II (28 de julho de 1794), sem ter sido julgado, juntamente com o seu irmão Augustin de Robespierre, também membro da Junta de Salvação Pública, e dezessete de seus colaboradores durante o golpe de 9 do Termidor, dentre eles, seus dois grandes amigos, companheiros desde o início de sua jornada, Saint-Just e Couthon.

Logo após a sua morte, a imprensa foi implacável nas críticas contra ele.  Começou a esboçar-se uma reconsideração de opinião sobre seu papel-chave na Revolução Francesa depois do fim do Império Napoleônico.

 

Robespierre e Danton discutem os rumos da Revolução Francesa.

No filme Danton, O Processo da Revolução, há um diálogo entre Danton e Robespierre que espelha a dificuldade de diálogo entre um autodenominado “homem do povo” e um “homem do poder”, ou seja, entre o populismo e o elitismo:

“DANTON – Você isola a revolução, você a congelou! A cada dia recuamos mais.

ROBESPIERRE – O que quer que eu faça?!

DANTON – Volte para a Terra, faça o que é correto.

ROBESPIERRE – Interrompo o ímpeto revolucionário e você mata a revolução…

DANTON – O povo quer comer e dormir em paz. Sem pão, não há leis, liberdade, justiça. Mande a merda os Comitês! Eu admiro você. Eu seguiria você mas não a qualquer custo.

ROBESPIERRE – Eu quero providenciar condições dignas de vida para 80% das pessoas. Isso é tudo.

DANTON (debochando e rindo) – Não faça discursos aqui!

ROBESPIERRE (indignado) – O quê?!

DANTON – Não é tudo o que quer. Os homens não permanecem no poder por tanto tempo… (provocando)

ROBESPIERRE (desafiando) – Você aspira ao poder?

DANTON – Eu não preciso, eu já o tenho. O único e real poder é aquele que vem do homem na rua. Eu o compreendo, ele me compreende. Nunca esqueça isso!

ROBESPIERRE – Eu não esqueço, mas não esqueça você que, para torná-los felizes, eu terei que parar com tudo.

DANTON (se levanta e parte para cima de Robespierre, esbravejando) – Você quer fazê-los felizes? Você não sabe nada sobre o povo! Quem pensa que é? Olhe pra você! Você não bebe, você está coberto de pó de arroz, espadas fazem você desmaiar, e dizem até que nunca tivera uma mulher!! Você fala para quem? Fazer os homens felizes!? Você nem é um homem. Eu vou te mostrar as pessoas, vamos andar um pouco pelas ruas…”

2 thoughts on “O Processo da Revolução

  1. Eu quero a resenha do dialogo entre Danton e Robespierre para fazer um trabalho na faculdade desde já agradeço

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s