Heurística da Disponibilidade

Ano NovoDaniel Kahneman e Amos Tversky  pensaram na Heurística da Disponibilidade quando se perguntaram o que as pessoas realmente fazem quando desejam estimar a frequência de certo evento. A resposta era inequívoca: exemplos da classe serão recuperadas da memória e, se a recuperação for fácil e fluente, o acontecimento será avaliada como abrangente. Definiram a Heurística da Disponibilidade com o processo de julgar a frequência segundo a “facilidade com que as ocorrências vêm à mente”.

Ambos os sistemas mentais (1 e 2) estão envolvidos nessa heurística, pois é tanto uma estratégia de problemas deliberada, quanto uma operação automática.

A Heurística da Disponibilidade, como outras heurísticas de julgamento, substitui uma questão por outra: você deseja estimar o tamanho de uma categoria ou a frequência de um evento, mas comunica uma impressão da facilidade com que as ocorrências vêm à mente. A substituição de perguntas, inevitavelmente, produz erros sistemáticos.

Um evento proeminente, que chama sua atenção, será facilmente recuperado da memória. Um evento dramático aumenta, temporariamente, a disponibilidade de sua categoria. Experiências pessoais, fotos e exemplos vividos são mais disponíveis do que incidentes que aconteceram com outros, ou meras palavras, ou estatísticas.

Resistir a esse grande conjunto de potenciais vieses de disponibilidade é possível, mas cansativo. Manter a vigilância contra vieses é um trabalho duro, mas a chance de evitar um equívoco custoso às vezes vale o esforço. Por exemplo, ter consciência de seus próprios vieses pode contribuir para a paz nos casamentos e, provavelmente, em outros projetos em conjunto. A explicação é um viés da disponibilidade simples: ambos os cônjuges se lembram de seus próprios esforços e contribuições individuais muito mais claramente do que os do outro, e a diferença de disponibilidade leva a uma diferença em frequência julgada. Os cônjuges também superestimam sua contribuição em ocasionar brigas, embora em menor medida do que suas contribuições para resultados mais desejáveis.

De modo geral, Kahneman é pouco otimista sobre o potencial para controle pessoal de vieses, mas essa é uma exceção. A oportunidade de que nos livremos de erros sistemáticos existe porque as circunstâncias em que controvérsias acerca da alocação de mérito surgem são fáceis de identificar, sobretudo porque as tensões geralmente vêm à tona quando diversas pessoas de uma vez sentem que seus esforços não estão sendo devidamente reconhecidos.

Os Efeitos de Disponibilidade ajudam a explicar o padrão de aquisição de seguro e medidas de proteção após desastres. Entretanto, a lembrança do desastre enfraquece com o tempo, e igualmente a preocupação e a diligência. A dinâmica da memória ajuda a explicar os ciclos recorrentes de desastre-preocupação-complacência crescente, familiares aos estudiosos de emergências em larga escala.

Estimativas de causas de morte são distorcidas pela cobertura da mídia. Ela tende para a novidade e a comoção. A mídia não só molda o interesse do público, mas também é por ele moldada. O mundo em nossas cabeças não é uma réplica precisa da realidade. Nossas expectativas sobre a frequência dos eventos são distorcidas pela preponderância e intensidade emocional das mensagens às quais somos expostos.

As estimativas das causas de morte são uma representação quase direta da ativação de ideias na memória associativa. São um bom exemplo de substituição. A facilidade com que ideias de vários riscos vêm à mente e as reações emocionais a esses riscos estão inextricavelmente ligadas.

Denomina-se Heurística do Afeto aquela manifestação em que as pessoas fazem julgamentos e tomam decisões consultando suas emoções. Em muitos domínios da vida, as pessoas formam opiniões e fazem escolhas que expressam diretamente seus sentimentos e sua tendência básica de abordar ou evitar, muitas vezes sem se dar conta de que o estão fazendo. A Heurística do Afeto é um caso de substituição, em que a resposta para uma pergunta fácil (“Como me sinto em relação a isso?”) serve como resposta para uma questão muito mais difícil (“O que penso sobre isso?”).

As estimativas emocionais de resultados, feitas por pessoas, e os estados físicos e tendências de se aproximar ou se afastar, associados a eles, todos desempenham um papel central em orientar a decisão. Antônio Damásio e seus colegas observaram que pessoas que não exibem emoções apropriadas antes de decidir, às vezes devido a algum dano cerebral, apresentam também uma capacidade prejudicada de tomar boas decisões. Uma incapacidade de ser guiado por um “medo saudável” de consequências ruins é uma falha desastrosa.

Especialistas são claramente superiores em lidar com números e quantidades do que cidadãos comuns. No entanto, especialistas exibem diversos dos mesmos vieses que o restante dos mortais, de uma forma atenuada, mas muitas vezes seus julgamentos e suas preferências sobre riscos divergem dos das outras pessoas.

Diferenças entre especialistas e o público são explicadas em parte por vieses em julgamentos leigos, mas há situações em que as diferenças refletem um genuíno conflito de valores. Os especialistas muitas vezes medem os riscos pelo número de vidas (ou anos-vida) perdidas, ao passo que o público traça distinções tipo “mortes boas” e “mortes ruins”, ou entre fatalidades acidentais aleatórias e mortes que ocorrem no decorrer de atividades voluntárias, como no automobilismo.

Há um nome para o mecanismo por meio do qual os vieses fluem para as políticas públicas: a cascata de disponibilidade [availability cascade]. É um conceito expandido de heurística, em que a disponibilidade fornece uma outra heurística para os julgamentos que não a frequência. Em particular, a importância de uma ideia é muitas vezes julgada pela fluência (e carga emocional) com que essa ideia vem à mente. Uma cascata de disponibilidade é uma cadeia de eventos autossustentável tipo manchete na mídia – pânico público – ação governamental.

Chamamos de representatividade a similaridade da descrição de estereótipos, ignorando tanto as taxas-base como as dúvidas acerca da veracidade da descrição. Para o leigo, probabilidade é uma noção vaga, relacionada à incerteza, propensão, plausibilidade e surpresa. Embora seja comum, a previsão por representatividade não é estatisticamente o ideal. Em vez de prever o sucesso profissional em parte por sua constituição e aparência, é melhor selecionar candidatos segundo estatísticas de desempenho anterior.

Julgar a probabilidade com base na representatividade tem importantes virtudes: as impressões intuitivas que isso produz são, frequentemente, na verdade, normalmente, mais precisas do que conjecturas fortuitas seriam. Em alguns casos, há alguma verdade nos estereótipos que governam os julgamentos de representatividade, e as previsões que seguem essa heurística podem ser acuradas. Em outras situações, os estereótipos são falsos e a Heurística da Representatividade induzirá a erro, sobretudo se levar as pessoas a negligenciar informação de taxa-base que aponta em outra direção. Mesmo quando a heurística tem alguma validade, a confiança exclusiva nela está associada a graves pecados contra a lógica estatística.

Você não deve se permitir acreditar em qualquer coisa que venha à sua mente. Para serem úteis, suas crenças devem ser restringidas pela lógica da probabilidade. As “regras” relevantes são fornecidas pela estatística bayesiana: a lógica de como as pessoas devem mudar de ideia à luz da evidência. A regra de Bayes especifica como crenças prévias (“taxas-base”) devem ser combinadas com o diagnóstico da evidência, o grau no qual ela favorece a hipótese sobre a alternativa.

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