Madoff e o Esquema de Pirâmide a la Ponzi

Madoff

Erik Larson (Bloomberg apud Valor, 09/12/13) informa que o diretor financeiro de Bernard Madoff que se declarou culpado por participar de uma fraude estimada em US$ 17 bilhões disse que operações fictícias vinham sendo feitas com uso de contas de clientes já em 1975, quando entrou para a companhia após concluir o ensino médio. “Era praticamente impossível não perceber o que acontecia“, disse Frank DiPascali, 57, na semana passada a um júri na corte federal de Manhattan, no julgamento de cinco ex-colegas.

DiPascali, que começou a trabalhar para Madoff como pesquisador quando tinha 19 anos, é o ex-executivo de Madoff mais graduado a testemunhar no primeiro julgamento criminal decorrente do esquema de pirâmide montado pelo investidor, que, segundo autoridades americanas, começou na década de 70 e entrou em colapso na crise financeira. Ele, que poderá pegar 125 anos de prisão, busca reduzir sua pena testemunhando contra pessoas que alegaram ter sido enganadas por Madoff.

Os réus que se declararam inocentes são Annette Bongiorno, que comandava a unidade de consultoria de investimentos em que a fraude ocorreu e é amiga de infância de DiPascali; Joann Crupi, que administrava grandes contas; Daniel Bonventre, que comandava a corretora de valores de Madoff em que negócios legítimos eram feitos; e os programadores de computador George Perez e Jerome O’Hara, que supostamente automatizaram a produção de extratos falsos.

DiPascali está entre a meia dúzia de ex-funcionários de Madoff que se declararam culpados e testemunham no caso. Ele disse em seu testemunho que não havia como os funcionários de Madoff da área de consultoria de investimentos confundir negócios fictícios com operações reais, já que essas que eram feitas na corretora de Madoff envolviam contrapartes, negócios a preços correntes e a coordenação de várias pessoas que faziam telefonemas simultâneos “em um ambiente muito barulhento”.

Já os negócios fraudulentos orquestrados na unidade de consultoria de investimentos eram baseados em preços históricos tirados de jornais e repassados uma vez por mês a Bongiorno em fichas colocadas dentro de uma pequena caixa de metal, disse ele. “O senhor viu a senhorita Bongiorno consultando preços reais de ações?, perguntou o procurador-geral adjunto dos Estados Unidos, John Zach, a DiPascali. “Não”, respondeu ele. “É possível comprar ações olhando os preços de ontem no ‘The Wall Street Journal’?”, perguntou Zach. “Não”, disse DiPascali.

Annette Bongiorno recebia regularmente informações sobre os negócios com ações de David Kugel, especialista da casa, de modo que ela podia fazer os extratos das contas dos clientes parecerem verdadeiros, disse DiPascali. Ele afirmou ainda que em algum momento forneceu informações parecidas para Bongiorno após ter tomado conhecimento sobre como fazer hedge das contas referenciadas em índices com opções. Os hedges falsos permitiam a Madoff fazer os clientes acreditarem que o colapso da bolsa em 1987 não havia afetado suas contas.

Perguntado por Zach se sabia na época que estava agindo de forma ilícita, DiPascali respondeu: “Claro”. Perguntado se sabia que se tratava de fraude, ele respondeu: “Sim“. DiPascali disse ainda que sua participação foi “bem grande” e que mentia pessoalmente para os clientes. Annette Bongiorno tinha conversas parecidas em que também mentia para investidores, disse ele. DiPascali afirmou que Crupi, O’Hara e Perez estavam todos muito envolvidos na fraude.

Os clientes com os quais conversava “iam de idiotas completos a PhDs em matemática”, disse DiPascali. Os advogados de defesa já afirmaram que testemunhas que cooperam com a justiça, como DiPascali, mentem e implicam outras pessoas, numa tentativa de passar menos tempo atrás das grades. DiPascali disse que espera uma redução “substancial” de sua sentença.

Madoff telefonou para DiPascali na manhã de 11 de dezembro de 2008, dia em que foi preso, para dizer a ele que seu irmão Peter Madoff estava no escritório com agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI). DiPascali disse que gritou para Madoff: “Por que você está ligando para mim?”. Na semana que antecedeu a prisão de Madoff, DiPascali descobriu que “a firma estava totalmente quebrada”, disse ele ao júri. Perguntado por promotores o que aquilo significou para ele pessoalmente, DiPascali respondeu: “Que iria para a cadeia”.

DiPascali declarou-se culpado de dez acusações em agosto de 2009, incluindo conspiração, fraude e lavagem de dinheiro. Em fevereiro de 2010, um juiz concedeu um habeas corpus para ele mediante fiança de US$ 10 milhões, depois que agentes federais disseram que o ex-executivo estava prestando uma ajuda valiosa no caso contra seus ex-colegas. Ele está sob prisão domiciliar, em um apartamento de 550 metros quadrados em Nova Jersey. A justiça americana confiscou uma casa de cinco suítes de DiPascali, além de seu barco de 17 pés e um jet-ski. Ele e sua esposa, com quem tem quatro filhos, também tiveram confiscado todo o patrimônio, com exceção de US$ 300 mil. Madoff, 75, está cumprindo 150 anos em uma prisão federal da Carolina do Norte.

Esquema de RepartiçãoSital Patel (The Wall Street Journal apud Valor, 09/12/13) também publicou, na mesma data, matéria sobre Madoff. Complementa informações a respeito do esquema fraudulento da “pirâmide da felicidade”.

“Terei prazer em receber sua visita”, dizia o email que chegou à minha caixa postal no início do ano. Na assinatura, o nome “Bernard Madoff“.

A comunicação levou a um encontro de duas horas, em maio, com o mais notório fraudador de Wall Street, durante o qual Madoff acusou outros e disse que seu esquema Ponzi, que durou quase 20 anos, não foi na verdade culpa dele. Ele desdenhou os reguladores e aqueles que o denunciaram e chamou Harry Markopolos – um investigador de fraudes que alertou a Securities and Exchange Comission, ou SEC, a CVM americana – de “idiota”.

Vestindo calças e camisa de poliéster bege e um cinto da mesma cor, Madoff, de 75 anos, não mostrou sinais de estresse. Ele fez algumas brincadeiras e disse que se considera sortudo por estar numa prisão com a reputação de ser “calma”.

Como repórter para o web site “MarketWatch” (publicação irmã do The Wall Street Journal) inicialmente entrei em contato com Madoff para um artigo sobre transparência em Wall Street e clareza para os investidores, já que se aproximava o aniversário de cinco anos da descoberta do seu esquema Ponzi.

Mas já no começo da entrevista ficou claro que ele queria justificar os atos que resultaram em sua pena de prisão de 150 anos. Ele disse que se sentiu como se outras pessoas o tivessem colocado “numa cilada” e que ele sempre achou que seria capaz de sair dela. Seus investidores, disse, eram “pessoas sofisticadas” e deveriam saber o que era certo ou errado.

As pessoas me perguntavam o tempo todo como eu fazia. E eu me recusava a dizer, e eles ainda assim investiam“, disse. “As coisas precisam fazer sentido. Você precisa fazer perguntas certas”.

Ele insiste que bancos sabiam da fraude e que foram cúmplices dela por anos. Uma vez em que não entendi sua lógica sobre os bancos, ele arrancou meu bloco de anotações da minha mão e escreveu o que queria dizer.

Um fator que permitiu que o esquema Ponzi continuasse por muitos anos, disse, foi a credibilidade que ele tinha no mercado. Ele citou nomes de gente importante e falou sobre os bons tempos, quando ainda fazia parte da elite de Wall Street.

Ele minimizou a possibilidade de que os reguladores poderiam tê-lo flagrado antes se tivessem prestado atenção aos alertas de Markopolos, dizendo que ele era “um idiota, que deu pistas ruins para a SEC. Ele disse que a fraude durou tanto tempo porque auditores não verificaram ativos da firma em fundos de depósito. “Se eles tivessem checado, eu teria sido descoberto”, disse.

Madoff me disse que depois de ter sido pego, ele escreveu cartas pedindo desculpas para o ex-presidente da SEC Arthur Levitt e a atual, Mary Schapiro.

Mas ele insistiu que nenhum de seus funcionários, com exceção de Frank DiPascali Jr., sabia que ele estava envolvido em um esquema de pirâmide. Eles falsificaram registros, mas não sabiam da fraude, disse Madoff. DiPascali se declarou culpado e seu depoimento continuará nos próximos dias no julgamento de outros cinco empregados de Madoff. Todos se declararam inocentes.

Madoff lembrou a primeira vez em que sentiu que as condições econômicas poderiam se tornar frágeis, em 2008. Ele estava num clube de golfe na Flórida e seu caddie, “um jovem negro”, segundo ele, disse que estava comprando e vendendo casas. “Ele me disse que não precisava de crédito. Ele comprava casas, as reformava, e as vendia com lucro”, Madoff recorda. “Eu disse para a minha mulher: ‘Isso é o fim’.

O estouro da bolha imobiliária nos EUA foi um fator importante no colapso da fraude de Madoff, já que muitos investidores começaram a sair do mercado quando a economia se estagnou e o valor de ativos financeiros despencou.

Em outros momentos, ele quis falar mais amplamente sobre os mercados. Ele disse que se tivesse dinheiro, não o colocaria nos mercados porque eles já não servem mais para levantar capital. Ao invés disso, ele disse, que [os mercados] simplesmente embaralham o dinheiro entre os investidores. Ele também criticou o programa de estímulo econômico do Federal Reserve, o banco central americano, como a “maior manipulação” que ele já viu.

Madoff contou que outros prisioneiros e guardas constantemente pedem a ele conselhos de investimentos. Os prisioneiros queriam que ele desse um curso sobre como investir, mas ele disse que a prisão não permitiu.

Durante a maior parte da nossa conversa ele estava animado. Brincou que a prisão onde o irmão dele, Peter, está é um “acampamento” e muito melhor que a dele. Peter Madoff, que está cumprindo pena de dez anos por sua participação na fraude, se recusa a falar com o irmão.

Ninguém em sua família imediata fala com ele, nem mesmo sua esposa, ele diz, acrescentando que essa foi a pior consequência de sua condenação.

O filho, Andrew Madoff, recusa-se a falar com ele, disse. Madoff mencionou brevemente o outro filho, Mark, que cometeu suicídio após as revelações sobre o esquema Ponzi do pai. Madoff disse que sente muito que isso tenha acontecido, mas demonstrou pouca emoção. Os únicos familiares que o visitam são as filhas de uma sobrinha da mulher dele, que frequentam uma faculdade próxima à prisão, disse.

Os prisioneiros podem usar o telefone por 15 minutos por vez, até 300 minutos por mês, mas Madoff diz que não usa seu tempo porque “não tem ninguém com quem falar“.

 

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