Celso Furtado: 10 Anos Depois

Celso Furtado - Foto Eduardo Simões

Rosa Freire d’Aguiar, viúva do Celso Furtado, narra seus últimos momentos. E descreve o esforço que todos nós, seus herdeiros intelectuais e políticos, fizemos para preservar seu grandioso legado.

20 de novembro de 2004: era um sábado, final da manhã. Celso queria ver o documentário “Sob a névoa da guerra”, em que Robert McNamara relembra seus tempos de ex-presidente do Banco Mundial e ex-secretário de Defesa americano. Tínhamos perdido o filme em Paris, desde então premiado com o Oscar de melhor documentário. Eu ia à locadora pegar o dvd e, na volta, passaria pela feirinha da Arcoverde para comprar salmão e quem sabe uma pamonha. Antes, resolvi fazer um café. Quando entrava na cozinha percebi que Celso, em pé e levemente debruçado sobre a mesa de jantar, lendo as manchetes do jornal do dia, fez um movimento para trás. Recuei, o segurei pelo braço: “Cuidado, você vai cair.” Caiu. Parada cardíaca. Nada a fazer.

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Contas Regionais do Brasil -2012

PIB Grandes Regiões - 2012 PIBs Regionais e Estaduais - 2012

De 2002 a 2012, a participação relativa da região Centro–Oeste no PIB do país foi a que mais cresceu, indo de 8,8% para 9,8%. No entanto, o Sudeste continua com a maior participação entre as regiões (55,2%), embora tenha recuado 1,5 ponto percentual em relação a 2002.

Em 2012, oito unidades da federação (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Distrito Federal e Bahia) concentravam 76,6% no PIB brasileiro. Em relação a 2002, este grupo perdeu 3,1 pontos percentuais de participação. São Paulo concentrava 32,1% do PIB brasileiro em 2012. Em 2002, era 34,6%.

O “espírito conservador paulistano” não vê a responsabilidade de seguidos governos estaduais tucanos e coloca como “bode-expiratório” o governo federal! Na realidade, o crescimento relativo de serviços (inclusive comércio e administração pública) acima do crescimento da indústria de transformação e  da agropecuária explica mais esse fenômeno de diminuição da desigualdade regional.

O Distrito Federal mostrou o maior PIB per capita (R$ 64 653,00), quase três vezes a média brasileira e quase o dobro do vice-líder, São Paulo (R$ 33 624,41). Maranhão (R$ 8 760,34) e Piauí (R$ 8 137,51) tinham os dois menores PIB per capita entre as 27 unidades da federação.

A publicação completa das Contas Regionais 2012 pode ser acessada em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasregionais/2012/default.shtm

Download da ApresentaçãoContas Regionais do Brasil – 2012 Continuar a ler

Dólar X Petróleo = Inflação

Dólar X Gasolina

Os governos social-desenvolvimentistas tiveram a coragem de recolocar a Petrobras como patrimônio do povo brasileiro. O Estado voltou a ter a maioria de suas ações. A política de preços dos combustíveis passou a ser realizada em favor do interesse público — evitando repasses automáticos da volatilidade da taxa flutuante de câmbio para o custo do óleo diesel e da gasolina, como era na Era Neoliberal — e não mais voltado apenas para o interesse corporativo, ou seja, dos acionistas minoritários e/ou especuladores de O Mercado.

Evidentemente, isso contraria interesses arraigados dos que “antes davam as cartas” — e a imprensa os representa. Mas evita que choques cambiais, como o recente overshooting eleitoral, transformem-se em permanente choque inflacionário.

Cláudia Schüffner e Fernando Torres (Valor, 13/11/14) informam que, sem uma sinalização do governo de que vai mudar a política de preços dos combustíveis, a cotação do dólar passou a ser uma variável tão sensível para os resultados da Petrobras que um analista chegou a classificar a ação da estatal hoje como um “derivativo cambial”. Continuar a ler

Maxidepreciação e Dependência do Petróleo

Taxa de Câmbio Nominal 1994-2014

Taxa-real-de-cambio 1982-2014No último governo do regime militar, em regime de câmbio fixo, Delfim Netto fez uma primeira  maxidesvalorização da moeda nacional (30%) em dezembro de 1979. A taxa de inflação anual passou de 70% para 110%. A segunda (também de 30%) foi realizada em fevereiro de 1983. A taxa de inflação dobrou para 220%. Provocou a “crise do subprime brasileira”, inclusive com a quebra do Banco Nacional de Habitação (BNH). O regime militar deixou como “herança maldita” o regime de alta inflação inercial.

Durante o primeiro governo Dilma, não houve um tratamento de choque a la tortura, mas sim uma gradual maxidepreciação da moeda nacional, desde 02/01/2011, quanto a taxa de câmbio estava em R$ 1,65. Chegou a R$ 1,53 no final de julho daquele ano, e começou a se elevar, alcançando R$ 2,53 em 06/11/2014. Em menos de três anos e meio, houve essa elevação de um real na cotação de um dólar – ou 65%! E a “flutuação suja”, isto é, controlada pelo Banco Central, permitiu ela não impactar muito a taxa de inflação, pois esta se manteve dentro da meta inflacionária. Continuar a ler

Mercado não pode existir sem um Estado para regulá-lo (por Antonio Delfim Netto)

Votação em Faculdade de Economia 2014

O levantamento acima não seguiu critérios metodológicos rigorosos. O jornal procurou as melhores escolas de economia do Brasil, segundo avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Foram consultadas as que atingiram as faixas máximas para atestar o nível de excelência dos programas de pós-graduação, com notas entre 5 e 7. Das 21 escolas que se enquadram nesse perfil, 12 concederam a autorização para a realização da enquete com o corpo docente. Dos 249 professores doutores convidados para a pesquisa, sob a condição de anonimato, apenas 84 responderam. Portanto, é apenas o esboço de uma caricatura.

Quantos professores brasileiros de Economia concordariam com o artigo abaixo do Delfim Netto, decano dos economistas brasileiros?

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Prócer do regime militar, ex-post, comparado com a onda neoliberal dominante na maioria das Faculdades de Economia do país, ele revela características de um liberal-desenvolvimentista. Alguns classificam-no como desenvolvimentista de direita. Outros como o liberal clássico — sem a cegueira ideológica dos neoliberais que são apenas pró-mercado e desigualitários. O artigo abaixo reproduzido (Valor, 21/10/14) é muito demonstrativo de seu contumaz raciocínio. Recupera a Economia Política e Histórica, apresentando claramente a relação entre O Mercado e O Estado. Com isso, talvez não agrade a “gregos” e “troianos”, “girondinos” e “jacobinos”, extremistas de direita e de esquerda…

O gráfico abaixo, apresentado por Delfim Netto (Valor, 28/10/14), revela o comportamento de um “índice do bem-estar” (que leva em conta o crescimento da renda média real corrigido pelo índice de igualdade). Ele mostra que se atingiu uma estabilidade que, em breve, poderá mudar o humor do “andar de baixo”. Delfim acha que isso foi fundamental no resultado da eleição.

Índice de Bem-Estar Social Continuar a ler

Espírito Paulistano: Ai, Como Dói Uma Saudade…

José Mujica - Presidente do UruguaiO Brasil tem uma burguesia paulista muito forte, que custa a entender que não é mais tempo de colonizar, mas sim de juntar aliados para construir empresas transnacionais latino-americanas. Estão muito fechados em São Paulo e com uma visão de elite. Isso tende a provocar um temor em eventuais competidores da região. Isso vai contra à integração. A briga é internacional. Mas São Paulo não pode ir sozinho. Não vamos pedir aos empresários paulistas que sejam socialistas. Mas temos que pedir-lhes que sejam latino-americanos.” Essa sábia declaração foi dada por José Mujica, presidente do Uruguai (Valor, 07/11/14).

Lorenna Rodrigues e Murillo Camarotto (Valor, 07/11/14) informam que, apesar de responder por 31,3% da produção industrial brasileira — o maior percentual entre as 27 unidades da federação – a industrialização crescente em outros locais fez de São Paulo o Estado que mais perdeu participação no PIB da indústria entre 2001 e 2011, último ano com dados disponíveis, período governado por tucanos. Entende-se, então, o “espírito paulistano conservador”, em vez de analisar “o que é“, imaginam “o que deveria ser” de acordo com a ideologia esnobe predominante entre a elite paulistana que se considera “a rainha da cocada-preta”… :)

De acordo com o estudo “Perfil da Indústria nos Estados“, divulgado no dia 06/11/14 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o percentual do Estado de São Paulo recuou 7,7 pontos percentuais na década analisada. Reduções, ainda que menores, foram registradas também por Rio Grande do Sul (-1,2 ponto percentual), Paraná (- 1) e Bahia (-0,2). E nem por isso, os baianos se tornaram conservadores nativistas como os conservadores paulistas e sulinos… Continuar a ler

Economia Subterrânea > Indústria de Transformação?!

Economia Informal 2003-2014

A desindustrialização é um fenômeno mundial, na avaliação do pesquisador Régis Bonelli, do Ibre/FGV, porque a tendência é de consumo menor de produtos manufaturados e de mais serviços. Ele mostrou que a participação da indústria no PIB vem caindo não só no Brasil, onde passou de 25%, na década de 80, para 13% no ano passado, como na Europa (de 1970 para 2013, passou de 31% para 13,5%), na América do Norte (de 25% para 12%) e até na China. No país asiático, a tendência é declinante também, apesar de ainda estar em 31%.

Se isso for verdade — no caso citado, a participação refere-se à Indústria de Transformação e não à Indústria Geral que mantém sua participação no PIB, já que a Indústria Extrativa, a de Construção Civil e a de Serviços de Utilidade Pública (p.ex., Hidrelétricas) preenchem aquele “esvaziamento” relativo –, a estimativa abaixo da economia subterrânea no Brasil indica que esta supera a Indústria de Transformação! Convenhamos que isto é um absurdo… Seria prudente rever a metodologia desse cálculo.

Juliano Basile (Valor, 12/11/14) informa que a economia subterrânea – produção de bens e serviços não reportada ao governo – cresceu em 2014, deve ultrapassar R$ 833 bilhões até o fim do ano e atingir 16,2% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual é apenas 0,1% inferior ao registrado em 2013 (16,3%), o que indica que a queda na informalidade, na comparação com o PIB, está praticamente estagnada no país. Continuar a ler