Redução de Tarifas Unilateral: Proposta Neoliberal Frente a Parceiros Protecionistas

Importações de partes e componentes por grupo de países 1996-2012

Sergio Leo é jornalista e especialista em relações internacionais pela UnB. É autor do livro “Ascensão e Queda do Império X“, lançado em 2014. Ele se exaspera em sua coluna (Valor, 27/10/14) com o desempenho conjuntural do comércio exterior brasileiro. É necessário fazer uma abordagem estruturalista dessa atividade comercial, contemplando tanto o lado da oferta brasileira quanto o lado da demanda estrangeira, isto é, a elasticidade da demanda aos preços das commodities, além da evolução recente dos termos de troca do Brasil. Reproduzo seu artigo abaixo.

“Apurado o resultado das urnas, não basta acreditar (ou negar) que a política comercial brasileira tenha sido movida por ideologia, ou prejudicada pela crise internacional. Há um consenso no setor privado que algo precisa ser feito. E o que for feito influenciará o esforço urgente do governo para aumentar a taxa de investimento na economia brasileira.

Ainda neste ano, está prevista uma reunião de autoridades do Ministério do Desenvolvimento brasileiro e da Secretaria de Comércio dos Estados Unidos, que já discutem e pretendem acertar medidas para facilitar a entrada de produtos nos dois mercados, com o reconhecimento mútuo de certificados exigidos na importação. A agenda inclui esforços governamentais para ampliar comércio em setores onde a ação do governo possa ter peso. O cenário pós-eleitoral é tema obrigatório dessa reunião. Continuar a ler

Pauta Brasileira de Exportação: Desempenho Após Explosão da Bolha de Commodities

Desempenho da Exportação 2006-2014

Marta Watanabe (Valor, 27/10/14) informa que os dados parciais de comércio exterior de 2014 mostram que a exportação brasileira caminha em sentido oposto ao do movimento internacional. No ano passado, a exportação mundial cresceu 2,2% em relação ao ano anterior. Os embarques brasileiros, porém, caíram 0,16% no período. Neste ano, no acumulado até agosto do ano corrente, a exportação mundial cresce 2,5% em relação a igual período do ano anterior enquanto a brasileira apresenta piora, com recuo de 1,7% na mesma comparação, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Depois da explosão da bolha de commodities em 2011, a comparação com o desempenho de países e blocos regionais importantes no cenário internacional também não favorece o Brasil. De janeiro a agosto, a exportação dos Estados Unidos subiu 3,3% e a dos países da União Europeia, 3,7%, com elevação nos embarques internos ao bloco, embora com redução de 1,2% na venda aos países de fora, entre os quais as importações que faziam dos produtos brasileiros. Os embarques chineses cresceram 3,8%.

Entre os vizinhos mais próximos, o Brasil não ficou sozinho na queda de exportações. Os embarques chilenos recuaram 0,3% enquanto a dos argentinos caíram 10,2%. A redução, porém, não foi a regra se considerar o país vizinho dos EUA, membro do NAFTA (acordo comercial bilateral): a jornalista considera a economia mexicana em muitos aspectos comparável à do Brasil e questiona-o, porque o México teve crescimento de 4% nas exportações!

Para analistas, a pauta brasileira de exportação, dominada por commodities agrícolas e metálicas, explica parte do descompasso dos embarques brasileiros com os do mundo. O recuo dos valores de negociação das commodities se reflete nos preços de produtos básicos e semimanufaturados. As duas classes de produtos representam pouco mais de 60% do valor total exportado. Continuar a ler

Abordagem Estruturalista do Grau de Abertura Comercial

Índice de Corrente Comercial 2009-2013

Rodrigo Zeidan é professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral e da Nottingham University Business School China. Publicou artigo (Valor, 21/10/14) para afirmar que “o Brasil é o país mais fechado do mundo para o comércio internacional. Isso é um fato, não é uma opinião”.

Os dados do Banco Mundial que ele usa para demostrar isso é que, se tomarmos a média dos últimos cinco anos (período de Grande Depressão Mundial), o índice de corrente de comércio do Brasil é o mais baixo entre 178 países. O índice é a relação entre a soma das importações e exportações e o PIB de cada país. Ele mede a importância do comércio internacional em relação à capacidade de geração de renda de um país.

Para a média do período de 2009 a 2013, o índice ficou em 25% para o Brasil, menor que os 31% da Argentina, 37% de Cuba e os 62% do México, dentro da divisão de trabalho do NAFTA, isto é, integrado na cadeia produtiva norte-americana que explora sua mão-de-obra mais barata em montadoras próximas da fronteira com os EUA.

Zeidan não dimensiona o mercado interno de cada país: em número de consumidores, o do Brasil é o quinto maior do mundo. Aliás, essa é a mesma razão pela qual os índices dos EUA e Japão são baixos, cerca de 29%. Continuar a ler

Extração de Petróleo do Pré-Sal: Prioridade Estratégica para Educação e Saúde

VIDA DE EMBARCADO - PLATAFORMA P-43

Cláudia Schüffner, Fernando Torres e Daniela Meibak (Valor, 16/10/14) informam que o tão desejado fim da defasagem de preços da gasolina pelos acionistas minoritários chegou, e ao mesmo tempo em que o nível de produção de petróleo da Petrobras se mostra ascendente. Mas esses jornalistas avaliam que a aparente boa notícia para a estatal esconde pelo menos dois riscos para a companhia no médio e longo prazo.

Se a queda da cotação do petróleo tipo Brent de pouco mais de US$ 100 por barril para US$ 85 em cerca de duas semanas deve minimizar daqui para frente o prejuízo que a empresa tem desde o início de 2011 com a importação de derivados, que já chega a R$ 59 bilhões nesse período, ela põe em xeque a viabilidade do plano de investimentos da companhia e levanta questões sobre até que preço do petróleo a exploração do pré-sal continua rentável.

Os jornalistas desconhecem o conceito de “decisão crucial”, aquela que altera o contexto de maneira irreversível, a não ser a custa de brutal prejuízo. Investimentos em longo prazo, que constituem o maior pacote atual em extração de petróleo no mundo, colocados em andamento, não se revertem por oscilações conjunturais no preço dessa commodity.

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Retrospectiva: Petrobras na Era Neoliberal

petrobras-x-petrobrax

1993 – Como ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso fez um corte de 52% no orçamento da Petrobrás previsto para o ano de 1994, sem nenhuma fundamentação ou justificativa técnica. Ele teria inviabilizado a empresa se não tivesse estourado o escândalo do orçamento, envolvendo vários parlamentares apelidados de “anões do orçamento”, no Congresso Nacional, assunto que desviou a atenção do País, fazendo com que se esquecessem da Petrobrás. Todavia, isto causou um atraso de cerca de 6 meses na programação da empresa, que teve de mobilizar as suas melhores equipes para rever e repriorizar os projetos integrantes daquele orçamento;

1994 – ainda como ministro da Fazenda, com a ajuda do diretor do Departamento Nacional dos Combustíveis, manipulou a estrutura de preços dos derivados do petróleo, de forma que, nos 6 últimos meses que antecederam o Plano Real, a Petrobrás teve aumentos mensais na sua parcela dos combustíveis em valores 8% abaixo da inflação. Por outro lado, o cartel internacional das distribuidoras de derivados teve aumentos de 32%, acima da inflação, nas suas parcelas. Isto significou uma transferência anual, permanente, de cerca de US$ 3 bilhões do faturamento da Petrobrás, para o cartel dessas distribuidoras.

A forma de fazer isto foi através dos dois aumentos mensais que eram concedidos aos derivados, pelo fato de a Petrobrás comprar o petróleo em dólares, no exterior, e vender no mercado em moeda nacional. Havia uma inflação alta e uma desvalorização diária da nossa moeda. Os dois aumentos repunham parte das perdas que a Petrobrás sofria devido a essa desvalorização. A Petrobrás vendia os derivados para o cartel e este, além de pagá-la só 30 a 50 dias depois, ainda aplicava esses valores e o valor dos tributos retidos para posterior repasse ao tesouro no mercado financeiro, obtendo daí vultosos ganhos financeiros em face da inflação galopante então presente. Quando o Plano Real começou a ser implantado com o objetivo de acabar com a inflação, o cartel reivindicou uma parcela maior nos aumentos porque iria perder aquele duplo e absurdo lucro.

Continue a ler o depoimento de uma servidora pública da Petrobras na época em:

FHC e os Estragos Produzidos na Petrobras

Recordar é viver…

Obs: como é praxe de quem apoia candidatura de machista-homofóbico, que agride até mulheres, contra esses argumentos recebi xingamentos da campanha do Aécio nos “elegantes” termos: “O maior erro do PSDB foi não ter conseguido privatizar a Petrobras, Eletrobras, Furnas e todos os outros cabides de PTralhas espalhados pelo país.” Vejam o que os aecistas estão prometendo caso ele seja eleito: privatização do patrimônio público brasileiro para fazer a “caça às bruxas”!

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Mito I do Debate Econômico Pré-Eleitoral: “Modelo de Crescimento pelo Consumo”

China PIB 1997-2016

Octávio de Barros, Diretor do Departamento Econômico do Bradesco, desde quando era economista-chefe do BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria) tinha montado o melhor Departamento Econômico entre todos os bancos. Como ex-colega e amigo, fui visitá-lo para aprender como montar um para a Caixa Econômica Federal, que não tinha sequer um assessor-econômico para sua Tesouraria. Ensinou-me: “contrate gente muito competente em econometria e defina o plano de trabalho; você fica com a elaboração da análise estratégica”. O BBVA foi adquirido pelo Bradesco e ele teve a oportunidade de ampliar, imensamente, o escopo de seu trabalho.

Foi com muita alegria que o recebemos no IE-UNICAMP, para uma Palestra na Semana de Economia promovida pelo CAECO (Centro Acadêmico da Economia), no dia 6 de setembro de 2014. Ele foi professor do IE entre 1987-1994, coincidindo com o período em que fui Coordenador do Ensino de Graduação (1989-1991).

Ele faz um trabalho extraordinariamente útil para todos os que acessarem o site do Bradesco na aba “Relação com Investidores”. Prestando um serviço de utilidade pública, coloca em acesso livre suas apresentações mensalmente atualizadas sobre a Conjuntura Econômica. Melhor, entre os inúmeros quadros estatísticos, recupera longas séries temporais anuais, permitindo se fazer análise de tendências históricas, ou seja, o passado se desdobrando para o futuro.

Gentilmente, ele me remeteu sua Apresentação na Semana de Economia — OCTAVIO DE BARROS Apresentação no IE-UNICAMP EM 05-09-2014 –, cujos dados permite desmentir vários mitos do terrorismo econômico, cometido na mídia por economistas neo e ultraliberais, no período pré-eleitoral. Chegaram a organizar seminário com a denominação “O Fim do Brasil”! Continuar a ler

The Wall Street Journal se rende à Realidade do Petróleo no Brasil

Plataforma para Exploração do Petróleo em Águas Profundas

Luciana Magalhães (WSJ, 08/08/14) lembra que, quando a Petrobras revelou a maior descoberta de reservas de petróleo da sua história, em 2007, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva brincou que a descoberta havia provado que Deus é brasileiro.

Novos dados de produção estão levando muitos na indústria a compartilhar esse otimismo. Segundo a Petrobras, os campos do pré-sal estão produzindo mais de 500.000 barris de petróleo por dia, cerca de três vezes mais que em 2012, e já representam perto de 25% da produção total da empresa, de dois milhões de barris por dia.

É um crescimento rápido para a Petrobras em uma das regiões petrolíferas mais desafiadoras do mundo. Os depósitos se encontram a cerca de 320 quilômetros longe da costa sudeste do Brasil, enterrados no solo oceânico sob uma grossa camada de sal, o que dá nome aos campos.

“Em termos de produtividade e da velocidade com que a Petrobras saiu de uma produção zero para 500.000 barris por dia é [algo] meio sem precedentes“, diz Ruaraidh Montgomery, analista da firma de pesquisa Wood Mackenzie.

Os ganhos de produção nos campos do pré-sal são extremamente necessários para compensar a queda de desempenho dos campos mais antigos da Petrobras. A produção total da empresa caiu de 1,98 milhão de barris equivalentes de petróleo por dia em 2012 para 1,93 milhão no ano passado. Em 2014, com o pré-sal, a produção total aumentou. Em junho, foi de 2,008 milhões de barris diários.

Com o pré-sal, o Brasil pretende ser um dos cinco principais produtores de petróleo do mundo até 2020, quando a produção deve chegar a quatro milhões de barris por dia. Mas, para atingir essa meta ambiciosa, a Petrobras terá que superar desafios financeiros, técnicos e políticos. Continuar a ler