Inúteis Tentativas de Economistas Racionalizarem A Vida dos Outros

Vendemos a alma mas por um bom preço

Mark Vandevelde (Financial Times apud Valor, 11/03/14) resenha o seguinte livro: “I Spend, Therefore I Am – The True Cost of Economics”. Philip Roscoe. Editora: Viking. 272 págs., £ 11,55.

Os economistas, por vezes, parecem diferentes de outros seres humanos, e não em um sentido edificante. Onde vemos desemprego em massa, eles veem ajuste econômico necessário. Onde vemos charmosa tradição, eles veem ineficiências.

Não se trata apenas de que a teoria econômica sugere uma visão preconceituosa do mundo. Parece também fazer as pessoas agirem de forma mais egoísta.

Suponha que um estranho pare você na rua e lhe dê dez libras. Ele não quer nada em troca, mas há um detalhe: você precisa me oferecer uma parte do dinheiro (quanto, fica a seu critério). Se eu aceitar sua proposta, você pode ficar com o restante; se eu recusar, o estranho recolhe a nota de dez libras. Quanto você estará inclinado a oferecer?

A resposta, como se verá, depende de você ter estudado Economia.

  1. Se você não é um economista, provavelmente faria o que qualquer adulto razoável decidiria fazer e dividiria o dinheiro meio a meio. Mas a teoria econômica-padrão critica esse tipo de comportamento, aconselhando-o a oferecer o mínimo possível, baseando-se na hipótese de que eu seria um tolo se recusasse.
  2. Quando estudantes de Economia jogam esse jogo, tendem a seguir o conselho de seus professores, reivindicando uma parcela exagerada do dinheiro em jogo. Quando recebem propostas irrisórias de outros economistas, parecem menos propensos do que as pessoas em geral a se mostrar indignados.

Estudar Economia, ao que parece, gela o coração e resigna as pessoas a uma fria visão sobre a existência humana.

Continuar a ler

Microeconomistas: Economistas Corporativos

Economistas cobiçadosBob Tita (WSJ, 07/03/14) informa que, às voltas com um enorme volume de dados, a Parker Hannifin contratou um jovem economista em 2008 para descobrir o que esses dados diziam sobre as diversificadas operações do conglomerado industrial. O que Ryan Reed disse aos executivos numa de suas primeiras apresentações não foi muito bem recebido. Ele analisou as taxas de utilização da capacidade de produção e disse que as vendas no negócio de automação da empresa seriam substancialmente menores em outubro. “Eles disseram: ‘Isso não pode estar certo. Outubro é normalmente um mês muito bom para nós’”, diz Reed, hoje com 32 anos.

Mas a previsão de Reed estava correta. Outubro de 2008 não foi um mês bom para a automação nem para nenhuma das unidades de negócios da empresa americana. A economia dos Estados Unidos estava à beira do que se tornaria a pior crise econômica desde a Grande Depressão.

Com mais dados disponíveis que nunca e mercados cada vez mais imprevisíveis, as companhias americanas estão expandindo suas equipes de economistas. O número de economistas no setor privado cresceu 57%, de 5.510 em 2009 para 8.680 em 2012, de acordo com a agência de Estatísticas do Trabalho do governo americano.

Continuar a ler

Top Executive Compensation 2013: Desnacionalização do Mercado de Trabalho de Executivos

Executivos estrangeiros

Edson Valente (Valor, 30/12/13) informa que, segundo o estudo Top Executive Compensation 2013, realizado pelo Hay Group, das 322 empresas pesquisadas no país, 38% disseram ter executivos vindos do exterior em seus quadros.

Foram computados, ao todo, 163 profissionais do exterior – 9% deles ocupando a presidência e 91% nos cargos de diretoria e vice-presidência. Entre as companhias que relataram contar com estrangeiros, 89% são multinacionais e 11% nacionais.

Continuar a ler

Rendimentos dos Diretores Financeiros no Brasil: Mérito Profissional e/ou Relacionamento Pessoal?

Vantagem Competitiva dos Executivos Brasileiros

Edson Valente (Valor, 11/12/13) informa que, “em 2014, os salários pagos para executivos de Finanças e de Contabilidade em grandes indústrias no Brasil estarão entre os maiores do mundo, de acordo com estudo realizado pela consultoria Robert Half.

Para chegar aos números que indicam os valores mínimos e máximos dos rendimentos brutos desses executivos no Chile, Brasil, Estados Unidos, Japão, Austrália e Reino Unido foram consultados 25 mil profissionais e candidatos a cargos financeiros e contábeis. As projeções para o ano que vem levam em conta as variações percentuais de reajuste esperadas para cada posição.

É nas empresas brasileiras que os diretores financeiros vão ganhar mais, tanto na faixa dos menores como na dos maiores salários auferidos. Os recebimentos mensais brutos para essa função aqui devem variar de US$ 12.870 (R$ 29.891) a US$ 34.320 (R$ 79.708) e chegarão a ser o dobro do que se paga nos EUA – lá, a variação será de US$ 11.833 a US$ 17.000. Já o teto do Chile para o cargo é de US$ 28.791 e só perderá para o do Brasil.

Continuar a ler

Mascate Educacional: O Estilo Mercantilista de Educar

Chaim Zaher

Beth Koike (Valor, 18/12/13) traça o perfil biográfico de Chaim Zaher, que nasceu em Beirute e chegou ao Brasil com sete anos. “Ele já vendeu de tudo na vida – de calendários a roupas. Mas é na área da educação que fechou grandes negócios. Nos últimos seis anos, levantou cerca de R$ 2 bilhões ao participar das principais “janelas de oportunidade” do setor. Tornou-se neste ano o maior acionista da Estácio, uma das maiores companhias de ensino superior, e pretende, a partir de agora, liderar um processo de consolidação de escolas de educação básica.

Continuar a ler

Grupo São Francisco do Assis: O Estilo “Meio Franciscano” de Ser

Estevam Duarte de Assis

Marcos de Moura e Souza (Valor, 11/11/13) traça o perfil biográfico do empresário Estevam Duarte de Assis. Ele assinou há três anos um contrato bilionário com o grupo varejista chileno Cencosud. Vendeu por R$ 1,35 bilhão a rede de supermercados Bretas, que seu pai havia fundado no interior de Minas Gerais. Era dinheiro para mudar sua vida e de toda a família. Mas quem o vê hoje tem às vezes a sensação de que ele empobreceu. Assis mora a maior tempo em um quartinho minúsculo, equipado apenas com um banheiro, em Belo Horizonte, e circula em um Pálio pela cidade. Doa, segundo um amigo, 90% de seus ganhos pessoais.

Aos 57 anos, o ex-presidente do Bretas – cuja venda ajudou a fazer do Cencosud a quarta maior rede de supermercados do país – dedica parte do seu tempo à recuperação de rapazes e moças que se afundaram no consumo de drogas, sobretudo o crack.

Ele é um dos principais apoiadores em Minas da Fazenda Esperança, uma comunidade terapêutica, ligada à Igreja Católica, especializada em recuperar dependentes químicos. Assis dá palestras aos jovens, atrai empresários dispostos a doar dinheiro ao projeto e também tira do bolso recursos para ajudar a manter o trabalho vivo.

Continuar a ler

Para cada economista, há um igual e oposto; ambos estão errados…

Prêmio Nobel de Economia - 2013

Os americanos Eugene Fama, Robert Shiller e Lars Peter Hansen conquistaram o prêmio Nobel de Economia de 2013 pelos estudos de análise sobre preços de ativos, como ações e títulos. Fama, 74, e Hansen, 60, são ligados à Universidade de Chicago. Shiller, 67, é professor na Universidade Yale.

Gosto — e não posso deixar de dar um sorriso — quando economistas “iguais e opostos” compartilham o Prêmio Nobel de Economia, como ocorreu neste ano de 2013. Conforme a piada corporativa, prova que “ambos estão errados”!

Surpresa maior é que Eugene Fama, conhecido pelos testes da Hipótese do Mercado Eficiente, dividiu o Nobel com Robert Shiller, que afirma que os mercados podem ser irracionalmente exuberantes. Fama e Shiller, à primeira vista, são novo exemplo de um prêmio dado a economistas que discordam completamente um do outro: Fama defendia que os mercados eram eficientes, e Schiller, que não eram.

Tal contraste de opiniões ocorreu também em 1974, quando o economista socialista sueco, Gunnar Myrdal, um dos criadores da Escola de Estocolmo, obteve o Prêmio Nobel de Economia compartilhado com o ultraliberal F.A. von Hayek, um dos principais autores da Escola Austríaca! Aquele escreveu um trabalho pioneiro com método dinâmico para explicar as flutuações econômicas e mostrou a interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais. Este último, Friedrich Hayek, tinha uma visão ideológica oposta, ou seja, abominava qualquer planejamento que atuasse contra a “ordem espontânea” do mercado.

Continuar a ler

Dia do Economista

Caros amigos economistas e amigos dos economistas,

Hoje, 13 de agosto, é o Dia do Economista. O dia foi escolhido devido à Lei 1441 que regulamentou a profissão de economista no dia 13.08.1951 (um século após Knut Wicksel nascer e um mês e meio antes de eu nascer predestinado :) ). Esta lei foi sancionada pelo presidente Getúlio Vargas. Economista é a profissão daqueles que buscam compreender, modelar e prever o comportamento dos indivíduos, instituições e os fenômenos macroeconômicos ou sistêmicos da sociedade.

Continuar a ler

Vida de Médico: Glamour Sans l’Amour

Radiografia das especializações médicas

Sou filho de médico. Convivi muitos anos com as agruras dessa categoria profissional tão importante em nossas vidas. Em momento que seu corporativismo entra na berlinda, é interessante ler a matéria a respeito da “vida de médico”, publicada por Rafael Sigollo (Valor, 15/07/13).

“Quem é médico no Brasil tem emprego garantido e salário alto. Essa afirmação, praticamente um senso comum, reflete apenas parte da verdade sobre essa profissão tão nobre e, aparentemente, incompreendida pelo governo – dada a insatisfação geral dos representantes da classe em relação às propostas mais recentes. [Parece-me que os médicos corporativistas e/ou mercantilistas também tem dificuldade de ter empatia com o governo ou a sociedade que, em última análise, lhes paga os estudos, mesmo em faculdades privadas.]

Continuar a ler

Mercado de Trabalho de Ocupações de Nível Superior

Ranking multivariado de carreiras universitárias 2010

Com base nos microdados do Censo 2010, o presidente do IPEA, Marcelo Neri, produziu um estudo que permite, ao vestibulando que vai optar por uma carreira no ENEM, analisar, a partir de suas vocações profissionais, o desempenho no mercado de trabalho das ocupações pretendidas.

A pesquisa aponta, por exemplo, a carreira mais bem remunerada: Medicina, com salário médio de R$ 8.459,00. Religião é o campo de trabalho para nível superior com pior salário, com resultado médio de R$ 2.175,00.

A carga de trabalho também varia: enquanto profissionais graduados em Engenharia Mecânica trabalham, em média, 42,9 horas semanais, quem se forma e atua na área da Física se ocupa 34,6 horas por semana.

O estudo é o primeiro capítulo da edição especial do boletim Radar – Tecnologia, Produção e Comércio Exterior.

Acesse a íntegra da publicação.

Veja os gráficos da apresentação:

Escolhas Universitárias e Performance Trabalhista

Mapa Ensino Superior na PIA 

Perspectivas Profissionais: Nível Técnico e Superior

Maiores Ganhos Salariais de Ocupações de Nível SuperiorMaiores Perdas Salariais de Ocupações de Nível Superior

Pobres economistas… Têm que se tornar Professores de Ciências Humanas do Ensino Superior!

A Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea realizou um mapeamento sobre as ocupações de nível técnico e superior que mais geraram empregos e tiveram os maiores ganhos salariais entre os anos de 2009 e 2012 em todo o país.

Produzido pelos técnicos de Planejamento e Pesquisa do Ipea Aguinaldo Nogueira Maciente e Paulo A. Meyer M. Nascimento, e pelo bolsista Lucas Rocha Soares de Assis, o trabalho se apoiou nos dados mensais fornecidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). As profissões consideradas na pesquisa foram extraídas das famílias ocupacionais da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).

Continuar a ler

Carta Aberta ao Coordenador do Scielo

Atire a primeira pedra

Campinas, 16 de junho de 2013

Prezado Senhor Rogerio Meneghini,

Coordenador Científico do Programa SciELO de Revistas Científicas Brasileiras

Li com curiosidade seu artigo intitulado “O discreto perfil acadêmico dos economistas”, publicado na Folha de S. Paulo no dia 10 de junho do ano corrente. Brindou minha profissão com o adjetivo “discreto”, coisa rara para qualificá-la, já que sua presença contínua na vida cotidiana torna mais comum o xingamento de “arrogante”.

Como reação corporativista, veio imediatamente à mente a pergunta: “mas quem ele pensa que é?!” Hoje, graças ao trabalho de gente proeminente como o senhor, basta “dar um Google” para descobrir Who’s Who.

E o critério de medição de qualidade é puramente quantitativo, como apraz à “boa ciência”. Assim, além da vasta titulação, inclusive no exterior, vi que Vossa Excelência, antes de se dedicar à avaliação, mensuração com indicadores e comparação de sua obra com a de outros acadêmicos, publicou cerca de 86 trabalhos internacionais em áreas de sua especialização profissional,  na área de comunicação científica 20 artigos completos em periódicos (7 internacionais), 5 capítulos de livros e 30 artigos em revistas e jornais de alta e média circulação.

Infelizmente, constatei que V.Ex.a publicou apenas 2 livros que, convenhamos, fica para gerações posteriores! Um há vinte anos, “Performance Of Brazilian Scientists And The Pattern Of Scientific Training” (Santiago: Centro de Estudios Cientificos de Santiago, 1993), outro há trinta anos, como Organizador, “Mutagênese e Carcinogênese Ambiental” (Academia de Ciências do Estado de São Paulo, 1982). Ambos por editoras oficiais, ou seja, não se maculou passando pelo crivo de editoras comerciais – e de leitores interessados!

Não consta em seu vasto currículo se toda essa produção foi lida ou apreciada… Talvez caiba V.Ex.a aprimorar a minuciosa mensuração do Scielo com o número de vendas e/ou edições esgotadas dos livros ou o número de visitas em blogs.

Consta que o Senhor já atingiu a maravilhosa idade da serenidade. Com 72 anos e tantas titulações – que devem ter lhe roubado maravilhosas horas de lazer e prazer em favor do notável avanço da ciência brasileira com experiências inovadoras em laboratórios, estudos profundos no aconchego de sua biblioteca e reuniões incansáveis com a burocracia da ciência –, imagino que usou todo o tempo restante a partir, digamos, dos 22 anos, para em meio século escrever 141 trabalhos – três/ano! Pouco? Muito? Não sei, não os li…

E se eu, discreto economista acadêmico, os tivesse lido? Eu os entenderia? Minha capacitação me permitiria?

Talvez aí esteja o problema do “monismo metodológico”. É uma visão extremamente restritiva segundo a qual existe apenas uma metodologia comum tanto para as Ciências Sociais quanto para as Naturais, opondo-se ao “dualismo metodológico”, que argumenta que as Ciências Sociais não podem empregar a metodologia das Ciências Naturais.

Mutatis mutandis, é o que acontece também na vida profissional, pública e acadêmica, como V.Ex.a deverá concordar, caso aprofunde sua análise da vida dos outros.

Atenciosamente,

Fernando Nogueira da Costa

PS: Senão, examinemos suas rasas ideias expressas no citado artiguete.

Continuar a ler