Razão Econômica da Má Qualidade de Cópias de Filmes-de-Arte

Assisti ao filme A Grande Beleza no único cinema com 4 salas de “filmes-de-arte” de Campinas. Fica no outro lado da cidade, em relação a onde eu moro, ao lado do campus da UNICAMP. Pelo anel rodoviário, levo quase meia hora para lá chegar, ou seja, metade do tempo para chegar em São Paulo. Pior, a projeção ainda não é digitalizada. Roma, “a grande beleza”, estava uma feiúra! Esmaecida, esverdeada, pálida, fiquei boquiaberto quando vi trechos digitalizados do filme no YouTube. Aprecie o vídeo acima com sua bela trilha sonora.

Lendo a matéria de Matheus Magenta (FSP, 23/12/13), entendi a razão econômica da má qualidade da cópia de filme-de-arte.

“Os cinemas brasileiros correm contra o tempo para digitalizar seus projetores antes do fim de novas cópias em película, previsto pelos grandes estúdios para 2014.

Enquanto isso, o mercado teme dois possíveis efeitos colaterais:

  1. o fechamento de 300 das 2.500 salas do país e
  2. o sufocamento da circulação de filmes independentes.

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Blue Jasmine: Triste Anomia provocada pela Queda Social

Cate BlanchettWoody Allen é um diretor excepcional — e a cada filme tende a se aperfeiçoar mais. Sob sua direção muitos atores e atrizes ganharam o Oscar: Diane Keaton, Dianne Wiest, Mira Sorvino, Penélope Cruz, Michael Caine. Desta vez, Cate Blanchett, atriz extraordinária, tem atuação digna de receber esse prêmio. Sua transformação dramática em plena cena é notável. É a protagonista que “rouba a cena” durante quase todo o filme Blue Jasmine (2013).

Mas Allen é também o roteirista genial, criador de diálogos irônicos, mordazes, enfim, que respeitam a inteligência do expectador. Na fase atual do cinema norte-americano, isso é totalmente “fora-da-série” de filmes infanto-juvenis cheio de efeitos especiais (e violência) ou das comédias debiloides. Ele não cria mundos imaginários, mas trata com agudeza o mundo real que nos observamos no dia-a-dia de maneira inteiramente verossímil.  Apresenta-nos a comédia de costumes da vida cotidiana de maneira perspicaz e sutil.

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Os Amantes Passageiros

Lições que aprendi com a cinefilia: não se deve “levar a sério” uma comédia de costumes, apenas rir com as ironias. Não se deve também guiar-se por críticos de cinema que desejam ser sempre “levados a sério”. Eles são apenas mal humorados. Tanto que foram surpreendidos com a (des)continuidade da obra de Pedro Almodóvar, pois esperavam mais um melodrama sofisticado ou uma visita eventual a outro gênero cinematográfico, tipo sua incursão na ficção científica em A Pele Que Eu Habito.

Os apreciadores da obra do diretor espanhol, como eu, novamente constatarão que ele não é linear. Preza, antes de mais nada, sua liberdade criativa. Os fãs se divertirão com mais uma comédia escrachada, Os Amantes Passageiros, no estilo de sua primeira fase: Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, Labirinto de Paixões, Maus Hábitos e Que Fiz Eu Para Merecer Isto?.

Eu estava com saudade de seu Cinema! Mesmo em comédias, que críticos da “Ilustrada” concedem uma única estrela (tipo Ruim), ele faz refletir sobre (e rir de) a cena contemporânea, muito mais do que a série de filmes adolescentes de 3D e efeitos especiais que recebem diversas estrelas desses “ilustres críticos”.

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Proteção para Produção Audiovisual (Cinema) Nacional

Market-share do Cinema nacional

Ana Paula Sousa (Valor, 30/01/13) informa que, “apesar de, em 2012, as salas de cinema no Brasil terem arrecadado o recorde histórico de R$ 1,6 bilhão, apenas 10,6% do público foi ver filmes nacionais – em 2012, o “market share” da produção brasileira tinha sido de 12,13%”. Lança, então, duas importantes perguntas:

  1. Por que é tão pequena a participação de mercado do filme nacional?
  2. É papel do Estado continuar bancando uma produção que, em sua maioria, não dá retorno financeiro e sofre para cavar espaço no circuito?

Apesar de tais questionamentos virem a reboque da ideia de que “algumas coisas acontecem só no Brasil”, no caso do cinema, as dificuldades enfrentadas pelo país são – ou já foram – enfrentadas por todos os países que consideram importante ter uma produção audiovisual.

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Django Livre X KKK

Django-Livre-poster-12Nov2012

Django Unchained ou Django Livre é um filme de faroeste e drama, escrito e dirigido por Quentin Tarantino. Estrelado por Jamie FoxxLeonardo DiCaprioChristoph Waltz e Samuel L. Jackson, esse é o 7° filme de Quentin Tarantino. Recebeu cinco indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor FilmeMelhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Melhor Roteiro OriginalMelhor Edição de Som e Melhor Fotografia. O titulo do filme originalmente seria The Angel, the Bad and the Wise para homenagear o cineasta Sergio Leone, porém Tarantino resolveu mudar o nome para Django Unchained baseado no filme italiano de 1966, Django, estrelado pelo ator Franco Nero, que faz uma participação no filme de Tarantino.

Todas informações factuais sobre o filme Django Livre você encontra clicando neste link. O que você não encontra é a reação preconceituosa de Spike Lee (“Faça a coisa certa“), em entrevista ao site da revista “Vibe“, contou que se recusa a assistir ao “Django Livre“, alegando que o novo filme de Quentin Tarantino é “desrespeitoso aos seus ancestrais“. É tipo comum de preconceito: “não vi e não gostei“…

“Eu não posso falar sobre isso [o filme] porque eu não vou vê-lo. Tudo o que eu vou dizer é que é desrespeitoso aos meus antepassados. Isso sou eu. Eu não estou falando em nome de ninguém”, afirmou Lee.

O cineasta também escreveu em seu Twitter sobre o filme. “A escravidão nos Estados Unidos não foi um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, disse.

Estranhamente, parece-me que o filme de Quentin Tarantino faz mais pelo combate ao racismo nos EUA do que todos os filmes de Spike Lee já fizeram. Por que? Porque ele sabe usar a arma da arte massiva: a violência debochada. Ironiza corrosivamente os racistas, assim como nos tinha colocado destruindo a imagem do mal nazista em seu filme anterior, “Bastardos Inglórios“.

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Gonzaga – de Pai para Filho: Pai Ausente, Filho Carente

Gonzaga – De Pai para Filho, cinebiografia de Luiz Gonzaga (1912-1989) e Gonzaguinha (1945-1991), é dirigido por Breno Silveira, cineasta que capta todos os sentimentos de estórias de vidas de brasileiros, haja visto “2 Filhos de Francisco” e À Beira do Caminho. O filme aborda a vida do “rei do baião” desde criança, quando ainda vivia na zona rural do sertão de Pernambuco, até sua morte. A história de seu filho, Gonzaguinha, criado no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, é marcada pela ausência de seu pai e consequente carência afetiva. Isso resultou em uma conflituosa relação com o pai até 1980, quando finalmente se entenderam, e passaram a gravar juntos.

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