O Drible

O Drible

Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé (MG), em 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, crítico literário e jornalista, é autor do romance Elza, a garota (Nova Fronteira) e das coletâneas de contos O homem que matou o escritor (Objetiva) e Sobrescritos (Arquipélago), entre diversos outros livros. Criou em 2006 o blog Todoprosa (todoprosa.com.br), referência na web literária brasileira, hospedado desde 2010 no portal Veja.com. Em 2011, ganhou o Prêmio Cultura do Governo do Estado do Rio pelo conjunto de sua obra.

Em seu romance O Drible, ele conta a história de um cronista esportivo de oitenta anos, desenganado pelos médicos, testemunha dos “anos de ouro” do futebol brasileiro, que tenta se reaproximar do filho com quem brigou há um quarto de século. Toda semana, em pescarias dominicais, Murilo Filho preenche o tempo contando histórias dos craques do passado em uma última tentativa para se aproximar de Neto.

Revisor de livros de autoajuda, Neto leva uma vida medíocre colecionando quinquilharias dos anos 1970 e conquistando moças que trabalham no comércio perto de sua casa, no bairro carioca da Gávea. Desde os cinco anos, quando a mãe se suicidou, sente-se desprezado pelo pai famoso.

Como nos romances anteriores de Sérgio Rodrigues, há um contraponto de vozes narrativas. Entremeado com o relato principal, há capítulos do livro que Murilo escreve sobre um extraordinário jogador dos anos 1960, chamado Peralvo, que teria sido “maior que Pelé” se não tivesse encontrado um fim trágico.

A alternância entre a história de Neto, desencantado pela vida real, e o realismo mágico da história de Peralvo sinaliza a perícia de Sérgio Rodrigues, um dos narradores mais habilidosos de sua geração.

O velho cronista faz uma celebração da história do futebol raras vezes empreendida pela literatura brasileira. Murilo Filho, porém, é mais do que isso. Com atraso, encarando “o drible”, Neto vê na ginga do pai — e o leitor, um pouco antes dele — a tentativa de esconder um segredo de família e um episódio da ditadura militar.

Reproduzo abaixo uma passagem exemplar (e excelente) do livro sobre o qual Tostão comentou: “É o livro que eu gostaria de ter escrito”. Continuar a ler

O Brasil é bom

O Brasil É Bom

O Brasil É Bom é meio ruim meio bom. Irrita, mas faz pensar.

Sem informações prévias sobre o livro ou o autor, fui atraído pelo título, pela capa, pelo texto da contracapa. “Usando a ironia como principal arma, e adotando o ponto de vista de seres movidos a preconceito, Sant’anna constrói um verdadeiro livro-bomba. Ao denunciar a pobreza moral da classe média e as tensões raciais e sociais em ebulição no Brasil, estes contos compõem um retrato urgente, atual e necessário do nosso país”.

Pensei: necessito conhecer com maior profundidade o ponto de vista da “nova direita”. Por que surgiu essa safra de newcons que assolam as colunas da “grande” imprensa brasileira? Por que aquela revista que se vê em sala-de-espera conseguiu alçar aquele colunista direitista raivoso que baba vociferações contra-governo a ponto da Folha contratá-lo para completar o leque diário de ataques antipetistas? Continuar a ler

Nuances (por Gregorio Duvivier)

Nuances

Assento: põe-se embaixo. Acento: põe-se em cima.

Barco: qualquer embarcação. Barca: embarcação lenta.

Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme de coisa.

Contagiante: alegria. Contagiosa: doença.

Corda: em qualquer lugar. Cabo: a corda, quando num barco.

Cumpridas: as leis não são. Compridas: as leis são.

Depressão: tristeza de rico. Desespero: tristeza de pobre.

Despensa: armário. Dispensa: o que você não guarda na despensa.

Discriminar: o que é feito com o usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.

Ecologia: proteger o verde. Economia: multiplicar o verde.

Em trânsito: em movimento. No trânsito: sem movimento.

Eu te amo: quando se ama. Eu também: quando não se quer cometer uma grosseria.

Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa.

Excelência: perfeição. Vossa Excelência: crápula.

Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino: na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.

Golfinho: baleia extrovertida. Tubarão: golfinho sociopata.

Golpe: revolução pra quem sofreu. Revolução: golpe pra quem participou.

Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.

Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais.

Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército.

Javali: porco de raiz. Porco: javali metrossexual.

Língua: dialeto de rico. Dialeto: língua de pobre.

Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta, no mojito ou no suco de abacaxi.

Mentira: na vida real. Inverdade: na política.

Mitologia: religião sem adeptos. Religião: mitologia com seguidores.

Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz com ele.

Policial: em qualquer ocasião. Tira: quando você está sendo dublado.

Recife: quando você não é de Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não é de Recife e está imitando alguém de Recife.

Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.

Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca: violino bêbado.

Vocabulário: léxico de quem não tem muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.

 

Fonte: FSP, 24/04/14

Nuances naturais para harmonizar

Ser Escritor?! Ora, Conta Outro Conto!

Romance X Conto

Miguel Sanches Neto, doutor pela Unicamp, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, é romancista, poeta, contista e ensaísta. Autor, entre outros, do romance “A Máquina de Madeira” (Companhia das Letras) e da coletânea de contos “Então Você Quer Ser Escritor?” (Record), escreveu artigo (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 21/03/14) sobre este último título: nossa ambição de ser escritor, de início, de contos.

Continuar a ler

Moda Reaça (por Gregorio Duvivier)

direita-conservadora

Aproveitando essa onda reaça que tá super-mega tendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na sociedade meritocrática — apesar dos impostos, é claro.

Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos! Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Super orna.

Continuar a ler

Meu Irmão (por Gregório Duvivier)

gregrio_duvivier_out_2009

Meu irmão faz aniversário no dia 19 — depois de amanhã, se você estiver lendo essa coluna no dia em que ela saiu. Cinco anos mais velho que eu, João faz 33 anos. Mas parece que sempre teve 33 anos, desde que nasceu.

Quando era pequeno, João gostava de brincar de trânsito. A brincadeira consistia em colocar os carrinhos enfileirados e fazer bibi e fonfon por horas e horas. Num dia muito animado, eventualmente, ele aparecia com uma ambulância — ió-ió-ió. Depois que ela passava, os carros retomavam suas posições e tudo voltava ao normal. Bibi. Fonfon.

Na ansiedade característica de uma criança de três anos, eu vinha com o carro a mil por hora, tentava uma ultrapassagem perigosa que gerasse uma batida cinematográfica e — Plouft! Cataplouft! E o João, com a calma de sempre, dizia: não agita. E voltava ao trânsito seu de cada dia. Feliz da vida.

Continuar a ler

Guinada à direita (por Antonio Prata)

Brasil a direita no protesto

A propósito do comentário da crônica dominical da ombudswoman da Folha de S. Paulo, Suzanna Singer — “A contratação de Reinaldo Azevedo é coerente com o ‘saco de gatos’ da Folha, que dá abrigo à ambientalista Marina Silva e à defensora do agronegócio Kátia Abreu, a dois filósofos tão díspares quanto Luiz Felipe Pondé e Vladimir Safatle, à contundente Barbara Gancia e ao delicado Antonio Prata” — este último reagiu de maneira irônica e inteligente ao endireitamento editorial do jornal paulista.

Atenção, interniotas: por meio da ironia se passa uma mensagem diferente, muitas vezes contrária, à mensagem literal, geralmente, com objetivo de criticar ou promover humor:)

Leia maishttp://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/10/27/internauta-idiota-interniota/

ANTONIO PRATA

Guinada à direita

“Há uma década, escrevi um texto em que me definia como “meio intelectual, meio de esquerda“. Não me arrependo. Era jovem e ignorante, vivia ainda enclausurado na primeira parte da célebre frase atribuída a Clemenceau, a Shaw e a Churchill, mas na verdade cunhada pelo próprio Senhor: “Um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração; um homem que permaneça socialista aos 40 não tem cabeça”. Agora que me aproximo dos 40, os cabelos rareiam e arejam-se as ideias, percebo que é chegado o momento de trocar as sístoles pelas sinapses.

Continuar a ler