Ecografia transvaginal, mamografia e densitometria óssea (por Dayse Torres)

Cabelos Brancos

– Você toma assim?

– Como?

– Sem açúcar?

– Sim.

– Não é ruim?

– Não.

(A mulher serve um dedo de café sem açúcar no copinho de plástico.)

– Credo! Como você consegue? Que mau gosto!

– Eu gosto.

– Então, você vai gostar do café de jacu.

– De quem?

– Café de jacu. Você não conhece? Passa toda hora na televisão.

(Mais um café gourmet?, afff…)

– Jacu é um pássaro que só come grãos de café.

(E eu com isso?)

– Aí pegam as fezes dele e plantam. É o café mais caro do mundo! Famoso.

(Só porque não uso açúcar, acha que vou gostar de café de merda de jacu.)

– Passa toda hora na televisão um programa que conta a história do café de jacu. Quem não vê televisão, nunca vai aprender histórias assim.

(Continuo de olhos grudados na revista semanal do Jornal Valor Econômico, mas me sinto esquadrinhada do Oiapoque ao Chuí, com uma parada estratégica no botton de estrela vermelha em minha camiseta e um exame cirúrgico nos meus cabelos brancos desgrenhados, enquanto ela alisa suas longas madeixas de louro-menopausa, lisas feito uma cortina de fórmica.)

– Vi na televisão que minha candidata vai ganhar.

(Ignoro, mas reflito como o pronome possessivo feminino primeira pessoa do singular pode se referir a duas pessoas tão diferentes. Posso repetir a frase com convicção, letra por letra, e ao mesmo tempo discordar radicalmente da mesmíssima frase, dita por ela.)

– Por que você não vê televisão? A gente se atualiza vendo televisão.

(Ai ai, o último filme do Jorge Furtado aplicado na veia de quem precisa. Ela diria “Jorge quem???”, com a mesma entonação com que me referi ao tal do jacu.)

– Você tem alergia a tintura de cabelo?

(Já estou vacinada para esse tipo de pergunta. A melhor resposta é um silêncio absoluto e prolongado, encarando a interlocutora olho no olho.)

– Tenho fé em Deus que minha candidata vai ganhar. Graças a Deus! Uma mulher iluminada por Ele, sofrida, que já venceu a morte tantas vezes. É enviada pelos céus para dar jeito no Brasil.

(Ok. Agora cutucou a onça.)

– Não gosto de açúcar nem de café de merda, não vejo tv, sou petista, adoro meus cabelos brancos e não acredito em deus.

(Silêncio absoluto e prolongado.)

– Senhora Dayse? Pode me acompanhar à sala 3, por favor?

Dayse TorresDayse dez 2005

O Drible

O Drible

Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé (MG), em 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, crítico literário e jornalista, é autor do romance Elza, a garota (Nova Fronteira) e das coletâneas de contos O homem que matou o escritor (Objetiva) e Sobrescritos (Arquipélago), entre diversos outros livros. Criou em 2006 o blog Todoprosa (todoprosa.com.br), referência na web literária brasileira, hospedado desde 2010 no portal Veja.com. Em 2011, ganhou o Prêmio Cultura do Governo do Estado do Rio pelo conjunto de sua obra.

Em seu romance O Drible, ele conta a história de um cronista esportivo de oitenta anos, desenganado pelos médicos, testemunha dos “anos de ouro” do futebol brasileiro, que tenta se reaproximar do filho com quem brigou há um quarto de século. Toda semana, em pescarias dominicais, Murilo Filho preenche o tempo contando histórias dos craques do passado em uma última tentativa para se aproximar de Neto.

Revisor de livros de autoajuda, Neto leva uma vida medíocre colecionando quinquilharias dos anos 1970 e conquistando moças que trabalham no comércio perto de sua casa, no bairro carioca da Gávea. Desde os cinco anos, quando a mãe se suicidou, sente-se desprezado pelo pai famoso.

Como nos romances anteriores de Sérgio Rodrigues, há um contraponto de vozes narrativas. Entremeado com o relato principal, há capítulos do livro que Murilo escreve sobre um extraordinário jogador dos anos 1960, chamado Peralvo, que teria sido “maior que Pelé” se não tivesse encontrado um fim trágico.

A alternância entre a história de Neto, desencantado pela vida real, e o realismo mágico da história de Peralvo sinaliza a perícia de Sérgio Rodrigues, um dos narradores mais habilidosos de sua geração.

O velho cronista faz uma celebração da história do futebol raras vezes empreendida pela literatura brasileira. Murilo Filho, porém, é mais do que isso. Com atraso, encarando “o drible”, Neto vê na ginga do pai — e o leitor, um pouco antes dele — a tentativa de esconder um segredo de família e um episódio da ditadura militar.

Reproduzo abaixo uma passagem exemplar (e excelente) do livro sobre o qual Tostão comentou: “É o livro que eu gostaria de ter escrito”. Continuar a ler

O Brasil é bom

O Brasil É Bom

O Brasil É Bom é meio ruim meio bom. Irrita, mas faz pensar.

Sem informações prévias sobre o livro ou o autor, fui atraído pelo título, pela capa, pelo texto da contracapa. “Usando a ironia como principal arma, e adotando o ponto de vista de seres movidos a preconceito, Sant’anna constrói um verdadeiro livro-bomba. Ao denunciar a pobreza moral da classe média e as tensões raciais e sociais em ebulição no Brasil, estes contos compõem um retrato urgente, atual e necessário do nosso país”.

Pensei: necessito conhecer com maior profundidade o ponto de vista da “nova direita”. Por que surgiu essa safra de newcons que assolam as colunas da “grande” imprensa brasileira? Por que aquela revista que se vê em sala-de-espera conseguiu alçar aquele colunista direitista raivoso que baba vociferações contra-governo a ponto da Folha contratá-lo para completar o leque diário de ataques antipetistas? Continuar a ler

Nuances (por Gregorio Duvivier)

Nuances

Assento: põe-se embaixo. Acento: põe-se em cima.

Barco: qualquer embarcação. Barca: embarcação lenta.

Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme de coisa.

Contagiante: alegria. Contagiosa: doença.

Corda: em qualquer lugar. Cabo: a corda, quando num barco.

Cumpridas: as leis não são. Compridas: as leis são.

Depressão: tristeza de rico. Desespero: tristeza de pobre.

Despensa: armário. Dispensa: o que você não guarda na despensa.

Discriminar: o que é feito com o usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.

Ecologia: proteger o verde. Economia: multiplicar o verde.

Em trânsito: em movimento. No trânsito: sem movimento.

Eu te amo: quando se ama. Eu também: quando não se quer cometer uma grosseria.

Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa.

Excelência: perfeição. Vossa Excelência: crápula.

Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino: na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.

Golfinho: baleia extrovertida. Tubarão: golfinho sociopata.

Golpe: revolução pra quem sofreu. Revolução: golpe pra quem participou.

Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.

Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais.

Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército.

Javali: porco de raiz. Porco: javali metrossexual.

Língua: dialeto de rico. Dialeto: língua de pobre.

Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta, no mojito ou no suco de abacaxi.

Mentira: na vida real. Inverdade: na política.

Mitologia: religião sem adeptos. Religião: mitologia com seguidores.

Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz com ele.

Policial: em qualquer ocasião. Tira: quando você está sendo dublado.

Recife: quando você não é de Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não é de Recife e está imitando alguém de Recife.

Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.

Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca: violino bêbado.

Vocabulário: léxico de quem não tem muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.

 

Fonte: FSP, 24/04/14

Nuances naturais para harmonizar

Ser Escritor?! Ora, Conta Outro Conto!

Romance X Conto

Miguel Sanches Neto, doutor pela Unicamp, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, é romancista, poeta, contista e ensaísta. Autor, entre outros, do romance “A Máquina de Madeira” (Companhia das Letras) e da coletânea de contos “Então Você Quer Ser Escritor?” (Record), escreveu artigo (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 21/03/14) sobre este último título: nossa ambição de ser escritor, de início, de contos.

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Moda Reaça (por Gregorio Duvivier)

direita-conservadora

Aproveitando essa onda reaça que tá super-mega tendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na sociedade meritocrática — apesar dos impostos, é claro.

Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos! Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Super orna.

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Meu Irmão (por Gregório Duvivier)

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Meu irmão faz aniversário no dia 19 — depois de amanhã, se você estiver lendo essa coluna no dia em que ela saiu. Cinco anos mais velho que eu, João faz 33 anos. Mas parece que sempre teve 33 anos, desde que nasceu.

Quando era pequeno, João gostava de brincar de trânsito. A brincadeira consistia em colocar os carrinhos enfileirados e fazer bibi e fonfon por horas e horas. Num dia muito animado, eventualmente, ele aparecia com uma ambulância — ió-ió-ió. Depois que ela passava, os carros retomavam suas posições e tudo voltava ao normal. Bibi. Fonfon.

Na ansiedade característica de uma criança de três anos, eu vinha com o carro a mil por hora, tentava uma ultrapassagem perigosa que gerasse uma batida cinematográfica e — Plouft! Cataplouft! E o João, com a calma de sempre, dizia: não agita. E voltava ao trânsito seu de cada dia. Feliz da vida.

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