Só Negação da Política e Cidadania Incompleta

soneguei

Os diálogos entre Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, reproduzidos no livro “Política: para não ser idiota”, permitem lembrar que, no passado, havia algo de sagrado nas reuniões políticas. A ideia de uma ekklesia (o vocábulo grego para reunião, o qual deu origem à palavra igreja) referia-se a uma comunidade de fé, uma assembleia como “eclésia”.

A política era vista como arte que nos faz humanos. A la Aristóteles, nossa classificação seria – gênero próximo: humano; diferença específica: racional; diferença específica entre os humanos: político. O contrário disso é o idiota – que, portanto, é menos humano. O que nos torna mais humanos é justamente a capacidade do exercício da Política como convivência coletiva e como conexão de uma vida.

Hoje existem sociabilidades intensas, mas parciais. As pessoas conseguem se reunir e se entusiasmar com movimentos de reivindicação dos direitos dos negros, dos gays, das mulheres, entre outros. Mas o que caracteriza essa sociabilidade intensa de hoje? Continuar a ler

Cidadania em SOREX – Socialismos Realmente Existentes

marxismo

Na obra de Marx e Engels, há interpretação inovadora, cujo conhecimento é fundamental, a respeito do capitalismo industrial até o seu tempo histórico. Seria incoerente desdobrar dela uma visão determinista do futuro, seja do capitalismo financeiro dos séculos XX e XXI, seja de eventual modo de produção socialista. No entanto,  como resultante do debate político entre os socialistas no século XIX, e talvez na esperança de maior convencimento ideológico de operários a respeito do seu papel revolucionário, eles esboçaram um devir otimista.

Devir como verbo de ação indica vir a ser, tornar-se, transformar-se ou devenir. Substantivamente, refere-se ao fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes. A etimologia de devenir significa “tornar-se, começar a ser o que não era antes”. Por que Marx e Engels tinham essa expectativa otimista a respeito do futuro socialista?

Será que as longas e heterogêneas experiências históricas de transição entre modos de produção escravista, feudalista e capitalista indicavam alguma razão científica para a dedução de que a transição para um futuro modo de produção socialista e, posteriormente, comunista, se daria por uma ruptura súbita, um “golpe de sorte” ou, pior, um “golpe de Estado”?! Não, isso seria pura ficção científica.

Continuar a ler

Liberais Conservadores

Liberais Conservadores

Os principais interlocutores dos socialistas utópicos eram os liberais. Sob o impacto da Revolução Francesa, o liberalismo tendeu a deslocar-se para posições comprometidas com o conservadorismo.

Edmond Burke (1729-1797) afirmava que o que os revolucionários haviam demonstrado na França é que as massas, convocadas pelos demagogos que faziam a pregação da igualdade, fizeram tumultos, criando uma situação caótica. O vazio de poder foi preenchido por uma ditadura. Portanto, para preservar a liberdade, era preciso combater as perigosas ilusões de igualdade.

Continuar a ler

Ideias Socialistas que Romperam Fronteiras

French_revolution

Leandro Konder, no nono capítulo do livro História da Cidadania (organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky; 6a. ed.; São Paulo; Contexto; 2013; 573 páginas), afirma que “o socialismo moderno é incompreensível, em sua origem, sem a Revolução Francesa”.  Os jacobinos, liderados por Robespierre, haviam se defrontado com um dilema no exercício do poder:

  1. ou respeitavam o direito dos proprietários e corriam o risco de perder o apoio das massas populares,
  2. ou intervinham no direito à propriedade, acirravam a resistência da oposição ao governo revolucionário e recorriam ao Terror.

Sem contestar o direito à propriedade em si, os jacobinos optaram por confiscos de emergência e, em condições de guerra contra os invasores estrangeiros, radicalizaram a repressão. O desgaste e a derrota dos jacobinos tiveram consequências históricas profundas.

Continuar a ler

Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade como Metas Coletivas

República francesaNilo Odalia, no oitavo capítulo do livro História da Cidadania (organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky; 6a. ed.; São Paulo; Contexto; 2013; 573 páginas), defende que os muitos processos históricos, cujas origens remontam ao final da Idade Média e início da Idade Moderna (séculos XV e XVI), depois de passar por Reforma e Contrarreforma, culminam nas revoluções burguesas do século XVII e XVIII, destruindo o Estado Monarquista Absoluto. Por sua vez, origina o longo processo histórico, ainda em andamento, de conquista de direitos civis, políticos e sociais por parte de todos os seres humanos sem nenhuma discriminação de gênero, sexual ou étnica.

Ao compreender-se a Revolução Francesa (1789) como fundadora dos direitos civis reconhece-se também o século XVIII como o século do Iluminismo Ilustrado de Voltaire, Montesquieu, Kant, Goethe, Rousseau, Mozart e Beethoven, entre outros luminares. Nele se deu, também, a tentativa de transformar as Ciências da Natureza em Ciência da Razão e da Experimentação, como verdadeiro caminho para o estabelecimento do conhecimento científico. O fato, a análise e a indução passaram a ser objetos da razão, no método histórico-indutivo, diferentemente do século XVII, quando apenas praticava-se o método racional-dedutivo.

Continuar a ler

Cidadania Norte-Americana: Inclusiva Para Alguns e Excludente Para Muitos

Edward Snowden

Segundo Leandro Karnal, a liberdade passou a ser constituída como fator de integração nacional e de invenção do novo Estado norte-americano em 1776. O gesto de selecionar momentos fundacionais não é uma exclusividade dos Estados Unidos. A historiografia oficial argentina canonizou San Martin e a venezuelana fez o mesmo com Simon Bolívar. O primeiro morreu no exílio e o segundo a caminho dele. E Tiradentes, no Brasil, morreu enforcado! A invenção da memória histórica é sempre um capítulo importante na construção do Estado nacional.

Porém, se é verdade que o episódio da migração puritana foi uma escolha com claros contornos políticos, é evidente que a origem da liberdade dos Estados Unidos passou pelo protestantismo. Este representava uma ruptura com a tradição cristã católica, mesmo quando liderado por reformistas que se tornaram posteriormente reacionários — os que se opõem às ideias voltadas para a transformação da sociedade, reagindo contra a evolução histórica — como Lutero, Calvino e mesmo Henrique VIII e seu anglicanismo.

Continuar a ler

Revolução Americana: Estados Unidos, Liberdade e Cidadania

American revolution

Leandro Karnal, no sétimo capítulo do livro História da Cidadania (organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky; 6a. ed.; São Paulo; Contexto; 2013; 573 páginas), discute a Guerra da Independência dos Estados Unidos da América, suas implicações para uma nova concepção política e as transformações importantes nos conceitos de cidadania e liberdade.

Na verdade, não existe um conceito universal e atemporal de cidadania. Ela é uma construção histórica específica da Civilização Ocidental. Houve uma invenção específica, a cidadania e a liberdade nos Estados Unidos da América. Esses conceitos transformaram-se muito ao longo do tempo.

Continuar a ler