Poupança: Dedução Contábil Ilógica

Poupança Brasileira 2000-2012

A “sabedoria (sic) convencional” afirma que “uma taxa de poupança elevada, que permite o acúmulo de capital físico, é uma condição necessária para alcançar um crescimento acelerado do PIB ao longo de vários anos. Essa é uma afirmação bastante evidente. O investimento é o espelho da poupança e, em economias grandes, a poupança doméstica é a principal fonte de seu financiamento. O motivo é que o déficit em transações correntes financiável de grandes economias é, em geral, em torno de 3% do PIB, ou seja, seu papel [considerado “poupança externa”] para financiar o investimento doméstico é limitado.” O último a divulgar essa “pérola” do conhecimento econômico ortodoxo foi Marcelo Cirne de Toledo, no Destaque DEPEC – BRADESCO – Ano XI – Número 64 – 07 de agosto de 2013. Baixe o documento no link abaixo.

O problema desse tipo de investigação baseada nas Contas Nacionais é que não se atenta para a precariedade das informações e o viés metodológico que condiciona as análises realizadas a partir delas, caso o analista não esteja atento aos limites dessas proxies. A aproximação da realidade propiciada por elas é imperfeita, constituindo um indicador precário do financiamento do investimento no Brasil. A evidência deste deve ser buscada nas Estatísticas Financeiras, seja de crédito, seja de funding.

Por exemplo, na tabela acima, as estimativas da Poupança Privada e da Formação Bruta de Capital Fixo do Setor Privado são variáveis residuais. No entanto, essas definições contábeis são esquecidas quando o economista ortodoxo imputa nelas decisões cruciais.

Continuar a ler

Sistema de Crédito Mútuo

Na parte final do documentário acima, visto e analisado em aula de Economia Monetária Através de Filmes, são apresentadas algumas propostas de soluções do “problema” diagnosticado na parte inicial: a cobrança de juros para pagamento de empréstimos bancários que provoca a escassez de dinheiro e a disputa por acumular um excedente sob forma de riqueza. De início, seria por razão preventiva; depois, o instinto de competição acerbado por status e consumismo se torna a motivação essencial da vida cotidiana.

Já postamos a solução da Moedas Sociais, Complementares ou Locais. Neste post, registramos o Sistema de Crédito Mútuo. Ele possui o mesmo suposto de que a confiança mútua seria maior em comunidades menores. Nelas, estabelece-se maior coesão social e/ou poder de coerção, devido às relações interpessoais de vizinhança e clientela. Troca-se competição antagônica por cooperação mútua, ou seja, concorrência por solidariedade.

Continuar a ler

Moedas Sociais, Complementares ou Locais

moeda_aruak

Um tema sobre o qual sempre me perguntam em debates após palestras sobre Microcrédito diz respeito aos “clubes de trocas” ou “feiras de troca solidária” como batizaram os adeptos de Economia Solidária. Nesses mercados delimitados, os pequenos empreendedores locais disponibilizam seus produtos para comércio, utilizando para isso as chamadas “moedas sociais”.

Esses clubes de troca são uma forma dos empreendedores escoarem sua produção ao garantirem a demanda com utilização de “moedas sociais (locais ou complementares)” por parte dos associados.  Eventualmente, elas podem ser utilizadas em outras feiras de trocas.

Continuar a ler

Conceito do Dinheiro

Ilha Yap da Pedra-Moeda

Na minha aula sobre o Conceito de Dinheiro, eu conto para meus alunos uma história, que li em Milton Friedman, a da Ilha da Pedra-Moeda [i]. Eles acham que não é verdade! Que falta de credibilidade no professsor… :)

Eis a história: “Na virada do século, os cerca de 5.000 a 6.000 habitantes da ilha Yap, na Micronésia, adotavam moedas de pedras, feitas de calcário encontrado numa ilha que fica a uns 640 quilômetros de distância. Elas eram extraídas, moldadas e levadas, para Yap, em canoas ou balsas. Tinham a forma de círculo, para que um eixo as atravessasse e facilitasse o transporte. Sim, quanto maiores fossem, maior era considerado seu valor. As trocas eram baseadas na confiança mútua: depois de fazer um grande negócio, a dificuldade do transporte da moeda levava a que o dono aceitasse o mero reconhecimento da propriedade da pedra-moeda, sem nem mesmo uma marca para indicar a troca, deixando-a no mesmo lugar.

Assim, havia uma família cuja riqueza era indiscutível, reconhecida por todos. Sua fortuna baseava-se em uma pedra-moeda enorme, que jazia no fundo do mar, onde caíra, durante seu transporte para Yap, devido a uma tempestade. O acidente não deu má sorte à família, pois todos os companheiros de viagem testemunharam que a magnífica moeda se perdera sem que o proprietário tivesse qualquer grau de culpa.

Outro evento digno de nota ocorreu quando os alemães colonizadores  impuseram uma multa aos nativos por desobediência à ordem de manutenção das estradas em boas condições. A multa foi cobrada, marcando um certo número das pedras-moedas mais valiosas com uma cruz, com tinta preta, para mostrar os direitos do governo alemão sobre elas. O povo, tristemente empobrecido assim, reparou as estradas. Então, o governo apagou as cruzes. Pronto! Os cidadãos retomaram a posse de seu capital… e viveram felizes para sempre!”

Agora, eu tenho o testemunho de Martin Sandbu (FSP, 22/06/13), editorialista econômico do “Financial Times“. Será que meus incrédulos alunos agora acreditarão, vendo a foto acima?

Continuar a ler

Debate entre Steve Keen e Paul Krugman: Roupagem Nova para Velho Debate

O debate entre Steve Keen e Paul Krugman serve para atrair a atenção sobre um conhecimento fundamental que permanece indisponível à opinião pública em parte pelo snobismo da opinião especializada, isto é, da comunidade acadêmica de economistas: boa parte da criação monetária não é poder privativo do Banco Central, nem “está nas mãos dos banqueiros”, mas sim está no multiplicador monetário endógeno ao sistema bancário. É necessário, para isso, a cumplicidade entre credores (banqueiros) e devedores (clientes), pois depende de contratos mútuos entre mutuantes e mutuários. A ambos convém o endividamento crescente, de um lado, para alavancagem financeira da rentabilidade e/ou do bem-estar pessoal, de outro, para os lucros bancários aumentarem, paralelamente, satisfazendo os acionistas. O artigo-resenha abaixo de Alejandro Nadal foi publicado no site Carta-Maior. Os comentários críticos finais são meus.

Continuar a ler

Fim do Papel-Moeda

Dinheiro em forma de papel é um conceito antiquado. A origem dele pode ser encontrada há centenas de anos, como um recibo bancário que os portadores poderiam trocar por grãos estocados ou ouro. Hoje é um pouco mais do que um conceito abstrato, é valor ligado à percepção ao invés de bens. Nós ainda trocamos estes pedaços de papel, e recebemos bens e serviços por ele, assim como os antigos sumérios e chineses faziam. David Wolman acredita que chegou a hora de acabar com tudo isso. Seu novo livro, The End of Money, mostra seu anseio pelo surgimento de um mundo sem papel moeda.

O novo livro do colaborador da revista Wired, David Wolman, The End of Money: Counterfeiters, Preachers, Techies, Dreamers—and the Coming Cashless Society, foi publicado no dia 14 de fevereiro de 2012. Continuar a ler

Manifesto dos Indignados Norte-americanos: Ocupe Wall Street

Radicalmente, à direita e à esquerda, os “indignados” estão demonizando todos os banqueiros e o próprio sistema bancário, constituído pelo setor bancário e o público não bancário, isto é, todos nós, os clientes bancarizados. A que levará a ação coletiva, convocada via rede social, com a denúncia moralista da “corrupção” e/ou da “ganância”? O que se propõe no lugar do sistema bancário de pagamentos?

Examinemos seus argumentos. A surpresa dos leigos é que o dinheiro é criado como dívida, ou seja, empréstimos geram depósitos, e não o contrário. A cadeia gerada a partir desse crédito originário leva a um “empréstimo perpétuo”, pois os bancos lucram com o endividamento geral, tanto do governo, quanto do público. E qualquer corrida bancária para o resgate simultâneo de todos os depósitos em papel-moeda (ou outro lastro caso estivéssemos ainda no padrão-ouro) levaria ao “feriado bancário”, isto é, à derrocada do sistema financeiro. Conjuntamente, seria a falência de todos os depositantes e investidores e, consequentemente, de todo o sistema capitalista. Nessa situação de CGC (Crise Geral do Capitalismo), naturalmente, os governos e os Bancos Centrais se reúnem para salvar os “bancos grandes demais para falir”.

Continuar a ler

Manuais de Economia Monetária

Olá, F.

Olhe que interessante o que achei fuçando a internet [veja abaixo]. Agora não sei mais o link. Bjs, Glorinha.

Respondi-lhe:

É, Glorinha,

‘tá chegando a hora de me aposentar, pois já estou ao lado do Eugênio Gudin… rsrsrs

Ontem, fui na sala de um novo colega, que está fazendo concurso no IE. Mostrou-me que meu livro de Economia Monetária estava na sua mesa para ele consultar. Ele parece que leu tudo que escrevi… Acho que foi o único!

Será que, “quando eu estiver vendo grama crescer de baixo para cima”, a TAM (Teoria Alternativa da Moeda) virará ortodoxia?!

Grato, bjs

Fernando

Continuar a ler

Dinheiro Ideal?!

A jornalista Carolina Matos (Folha de S. Paulo, 12/09/11) viajou a convite dos organizadores do “4º Encontro de Ciências Econômicas de Lindau”, Alemanha, e entrevistou John Nash, a maior celebridade entre os economistas presentes em evento que reuniu em Lindau, na Alemanha, outros 16 premiados com o Nobel de Economia. Talvez por ter se tornado mais popular do que a maioria dos premiados, após sua história ser retratada no filme “Uma Mente Brilhante” (Ron Howard, 2001), que mostrou sua luta contra a esquizofrenia, o matemático foi o mais assediado por jovens economistas. A eles o formulador mais conhecido da Teoria dos Jogos, que introduziu na Economia a relevância da interação de dois ou mais indivíduos na tomada de decisões, exibe paciência ímpar para fotos, autógrafos e abraços. À jornalista, em entrevista exclusiva, ele explica seu conceito de “dinheiro ideal“, moeda indexada para estabilizar a “moeda internacional”. Ele alerta que é simples exercício teórico, mas ela leva a sério a proposta – e ele acaba demonstrando que também crê nela, como já acreditou em outras coisas inverossímeis.

Aos 83 anos, John Nash, ganhador do Nobel de Economia em 1994, é simples e direto ao falar sobre dinheiro. O matemático americano enxerga uma dependência tamanha do dinheiro que as pessoas “deixaram de raciocinar” sobre sua eficiência. Contra esse processo, ele propõe a criação do “dinheiro ideal”. Obviamente, é apenas algo idealizado, não cabe achar que o padrão monetário hegemônico no mundo, o dólar, será substituído pela razão. A “violência da moeda” relaciona-se sempre com a correlação de forças e não com estratégia racional de jogo.

Continuar a ler

Bitcoins, “saberes”, “talentos” e “alegrias”: moedas relativas a intangíveis

Com todas as grandes moedas sob olhares desconfiados, não falta quem aponte a solução para o sistema monetário fora do quadro de referência tradicional. O impasse europeu, por exemplo, poderia ter saída razoavelmente simples, segundo Bernard Lietaer, que participou da criação da moeda única quando era diretor do Banco Central belga, nos anos 1990. Nem seria preciso manter o euro em bases artificiais, como tem sido desde sua entrada em vigor, nem países como Grécia, Itália, Portugal e Espanha teriam de abandoná-lo em nome, respectivamente, do dracma, da lira, do escudo e das peseta. “Por que não ambos?”, provoca Lietaer, lembrando que muitos estabelecimentos do Reino Unido aceitam pagamentos em euro, embora façam a contabilidade em libras. Ele parece desconhecer a Lei de Gresham…

Continuar a ler

Inversão da Lei de Gresham

Diego Viana (Valor – Eu & Fim de Semana, 26/08/11) escreveu matéria jornalística muito boa sobre as diversas formas da moeda contemporânea e intitulou  “dinheiro bom é para poucos”. É a inversão da Lei de Gresham, que se resume na seguinte oração: “A má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda“. Refere-se ao princípio econômico que diz que “moedas que têm valor pleno, em termos de metal precioso, tendem a desaparecer quando circulam em sistema monetário depreciado”. De acordo com esta lei, as boas moedas são exportadas (ou derretidas caso fossem em metal precioso) para se capitalizar o seu valor de mercado mais alto no câmbio estrangeiro (ou no mercado de ouro ou joias). Em sistema pluri-monetário, os agentes racionais guardam a “moeda boa” e colocam para circular as “má(s) moeda(s)”.

A Lei de Gresham foi atribuída, originalmente, a Sir Thomas Gresham, conselheiro da Rainha Isabel I de Inglaterra, que afirmou em 1558 que “a moeda má expulsa a moeda boa”. Tal frase, proferida quando o valor da moeda era determinado pelo seu peso em metal precioso, significava que se o Estado decidisse cunhar novas moedas com o mesmo valor facial, mas com menos conteúdo de metal precioso (ouro, prata ou cobre), os agentes económicos tenderiam a entesourar a moeda mais pesada (“a moeda boa”) e a fazer circular apenas a nova moeda mais leve (“a moeda má”). Pouco a pouco, toda a moeda boa acabaria por ser substituída pela moeda má.

Esta Lei foi generalizada com o significado de que, quando os agentes econômicos suspeitam de qualquer componente da oferta de moeda, tenderão a entesourar a “moeda boa” e a desfazer-se da “moeda má”, passando-a aos outros. O efeito de gradual substituição da “moeda boa” pela “moeda má” é, portanto, semelhante.

Como gosto do assunto, pois fui professor de Teoria Monetária e autor de Tese de Livre-Docência na matéria, cujo título era Por Uma Teoria Alternativa da Moeda: a Outra Face da (Teoria da) Moeda (veja entre as Categorias na coluna da direita deste blog), vou divulgar a matéria do Diego Viana em dois posts. A segunda parte virá em seguida.

Continuar a ler

O que é moeda? É distinta de dinheiro?

As diversas formas de moeda e o que determina o seu poder de compra – sua aceitabilidade mercantil – constituem problema analítico, para a teoria monetária, e não simplesmente questão de “fatos históricos”.

Vários autores resumem a história monetária em função das características essenciais ou dos requisitos físicos da moeda-mercadoria:

  1. indestrutibilidade e inalterabilidade (que evita falsificações);
  2. divisibilidade (que permite múltiplos e submúltiplos);
  3. transferibilidade (ao portador);
  4. facilidade de manuseio e transporte (quando pequena quantidade corresponde a grande valor).

Essa visão liberal da história monetária enxerga a moeda apenas como uma mercadoria, escolhida segundo critério de comodidade e/ou segurança por um sistema econômico auto-regulável, sem a arbitrária intervenção estatal. Essa imagem idílica escamoteia a violência da história monetária. Basta dizer que a soberania do Estado nacional tem dois pilares básicos: o poder militar, dado pelo monopólio oficial da violência, e o poder de gasto, dado pelo monopólio da emissão da moeda.

Continuar a ler