Debate entre Steve Keen e Paul Krugman: Roupagem Nova para Velho Debate

O debate entre Steve Keen e Paul Krugman serve para atrair a atenção sobre um conhecimento fundamental que permanece indisponível à opinião pública em parte pelo snobismo da opinião especializada, isto é, da comunidade acadêmica de economistas: boa parte da criação monetária não é poder privativo do Banco Central, nem “está nas mãos dos banqueiros”, mas sim está no multiplicador monetário endógeno ao sistema bancário. É necessário, para isso, a cumplicidade entre credores (banqueiros) e devedores (clientes), pois depende de contratos mútuos entre mutuantes e mutuários. A ambos convém o endividamento crescente, de um lado, para alavancagem financeira da rentabilidade e/ou do bem-estar pessoal, de outro, para os lucros bancários aumentarem, paralelamente, satisfazendo os acionistas. O artigo-resenha abaixo de Alejandro Nadal foi publicado no site Carta-Maior. Os comentários críticos finais são meus.

Continuar a ler

Fim do Papel-Moeda

Dinheiro em forma de papel é um conceito antiquado. A origem dele pode ser encontrada há centenas de anos, como um recibo bancário que os portadores poderiam trocar por grãos estocados ou ouro. Hoje é um pouco mais do que um conceito abstrato, é valor ligado à percepção ao invés de bens. Nós ainda trocamos estes pedaços de papel, e recebemos bens e serviços por ele, assim como os antigos sumérios e chineses faziam. David Wolman acredita que chegou a hora de acabar com tudo isso. Seu novo livro, The End of Money, mostra seu anseio pelo surgimento de um mundo sem papel moeda.

O novo livro do colaborador da revista Wired, David Wolman, The End of Money: Counterfeiters, Preachers, Techies, Dreamers—and the Coming Cashless Society, foi publicado no dia 14 de fevereiro de 2012. Continuar a ler

Manifesto dos Indignados Norte-americanos: Ocupe Wall Street

Radicalmente, à direita e à esquerda, os “indignados” estão demonizando todos os banqueiros e o próprio sistema bancário, constituído pelo setor bancário e o público não bancário, isto é, todos nós, os clientes bancarizados. A que levará a ação coletiva, convocada via rede social, com a denúncia moralista da “corrupção” e/ou da “ganância”? O que se propõe no lugar do sistema bancário de pagamentos?

Examinemos seus argumentos. A surpresa dos leigos é que o dinheiro é criado como dívida, ou seja, empréstimos geram depósitos, e não o contrário. A cadeia gerada a partir desse crédito originário leva a um “empréstimo perpétuo”, pois os bancos lucram com o endividamento geral, tanto do governo, quanto do público. E qualquer corrida bancária para o resgate simultâneo de todos os depósitos em papel-moeda (ou outro lastro caso estivéssemos ainda no padrão-ouro) levaria ao “feriado bancário”, isto é, à derrocada do sistema financeiro. Conjuntamente, seria a falência de todos os depositantes e investidores e, consequentemente, de todo o sistema capitalista. Nessa situação de CGC (Crise Geral do Capitalismo), naturalmente, os governos e os Bancos Centrais se reúnem para salvar os “bancos grandes demais para falir”.

Continuar a ler

Manuais de Economia Monetária

Olá, F.

Olhe que interessante o que achei fuçando a internet [veja abaixo]. Agora não sei mais o link. Bjs, Glorinha.

Respondi-lhe:

É, Glorinha,

‘tá chegando a hora de me aposentar, pois já estou ao lado do Eugênio Gudin… rsrsrs

Ontem, fui na sala de um novo colega, que está fazendo concurso no IE. Mostrou-me que meu livro de Economia Monetária estava na sua mesa para ele consultar. Ele parece que leu tudo que escrevi… Acho que foi o único!

Será que, “quando eu estiver vendo grama crescer de baixo para cima”, a TAM (Teoria Alternativa da Moeda) virará ortodoxia?!

Grato, bjs

Fernando

Continuar a ler

Dinheiro Ideal?!

A jornalista Carolina Matos (Folha de S. Paulo, 12/09/11) viajou a convite dos organizadores do “4º Encontro de Ciências Econômicas de Lindau”, Alemanha, e entrevistou John Nash, a maior celebridade entre os economistas presentes em evento que reuniu em Lindau, na Alemanha, outros 16 premiados com o Nobel de Economia. Talvez por ter se tornado mais popular do que a maioria dos premiados, após sua história ser retratada no filme “Uma Mente Brilhante” (Ron Howard, 2001), que mostrou sua luta contra a esquizofrenia, o matemático foi o mais assediado por jovens economistas. A eles o formulador mais conhecido da Teoria dos Jogos, que introduziu na Economia a relevância da interação de dois ou mais indivíduos na tomada de decisões, exibe paciência ímpar para fotos, autógrafos e abraços. À jornalista, em entrevista exclusiva, ele explica seu conceito de “dinheiro ideal“, moeda indexada para estabilizar a “moeda internacional”. Ele alerta que é simples exercício teórico, mas ela leva a sério a proposta – e ele acaba demonstrando que também crê nela, como já acreditou em outras coisas inverossímeis.

Aos 83 anos, John Nash, ganhador do Nobel de Economia em 1994, é simples e direto ao falar sobre dinheiro. O matemático americano enxerga uma dependência tamanha do dinheiro que as pessoas “deixaram de raciocinar” sobre sua eficiência. Contra esse processo, ele propõe a criação do “dinheiro ideal”. Obviamente, é apenas algo idealizado, não cabe achar que o padrão monetário hegemônico no mundo, o dólar, será substituído pela razão. A “violência da moeda” relaciona-se sempre com a correlação de forças e não com estratégia racional de jogo.

Continuar a ler

Bitcoins, “saberes”, “talentos” e “alegrias”: moedas relativas a intangíveis

Com todas as grandes moedas sob olhares desconfiados, não falta quem aponte a solução para o sistema monetário fora do quadro de referência tradicional. O impasse europeu, por exemplo, poderia ter saída razoavelmente simples, segundo Bernard Lietaer, que participou da criação da moeda única quando era diretor do Banco Central belga, nos anos 1990. Nem seria preciso manter o euro em bases artificiais, como tem sido desde sua entrada em vigor, nem países como Grécia, Itália, Portugal e Espanha teriam de abandoná-lo em nome, respectivamente, do dracma, da lira, do escudo e das peseta. “Por que não ambos?”, provoca Lietaer, lembrando que muitos estabelecimentos do Reino Unido aceitam pagamentos em euro, embora façam a contabilidade em libras. Ele parece desconhecer a Lei de Gresham…

Continuar a ler

Inversão da Lei de Gresham

Diego Viana (Valor – Eu & Fim de Semana, 26/08/11) escreveu matéria jornalística muito boa sobre as diversas formas da moeda contemporânea e intitulou  “dinheiro bom é para poucos”. É a inversão da Lei de Gresham, que se resume na seguinte oração: “A má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda“. Refere-se ao princípio econômico que diz que “moedas que têm valor pleno, em termos de metal precioso, tendem a desaparecer quando circulam em sistema monetário depreciado”. De acordo com esta lei, as boas moedas são exportadas (ou derretidas caso fossem em metal precioso) para se capitalizar o seu valor de mercado mais alto no câmbio estrangeiro (ou no mercado de ouro ou joias). Em sistema pluri-monetário, os agentes racionais guardam a “moeda boa” e colocam para circular as “má(s) moeda(s)”.

A Lei de Gresham foi atribuída, originalmente, a Sir Thomas Gresham, conselheiro da Rainha Isabel I de Inglaterra, que afirmou em 1558 que “a moeda má expulsa a moeda boa”. Tal frase, proferida quando o valor da moeda era determinado pelo seu peso em metal precioso, significava que se o Estado decidisse cunhar novas moedas com o mesmo valor facial, mas com menos conteúdo de metal precioso (ouro, prata ou cobre), os agentes económicos tenderiam a entesourar a moeda mais pesada (“a moeda boa”) e a fazer circular apenas a nova moeda mais leve (“a moeda má”). Pouco a pouco, toda a moeda boa acabaria por ser substituída pela moeda má.

Esta Lei foi generalizada com o significado de que, quando os agentes econômicos suspeitam de qualquer componente da oferta de moeda, tenderão a entesourar a “moeda boa” e a desfazer-se da “moeda má”, passando-a aos outros. O efeito de gradual substituição da “moeda boa” pela “moeda má” é, portanto, semelhante.

Como gosto do assunto, pois fui professor de Teoria Monetária e autor de Tese de Livre-Docência na matéria, cujo título era Por Uma Teoria Alternativa da Moeda: a Outra Face da (Teoria da) Moeda (veja entre as Categorias na coluna da direita deste blog), vou divulgar a matéria do Diego Viana em dois posts. A segunda parte virá em seguida.

Continuar a ler

O que é moeda? É distinta de dinheiro?

As diversas formas de moeda e o que determina o seu poder de compra – sua aceitabilidade mercantil – constituem problema analítico, para a teoria monetária, e não simplesmente questão de “fatos históricos”.

Vários autores resumem a história monetária em função das características essenciais ou dos requisitos físicos da moeda-mercadoria:

  1. indestrutibilidade e inalterabilidade (que evita falsificações);
  2. divisibilidade (que permite múltiplos e submúltiplos);
  3. transferibilidade (ao portador);
  4. facilidade de manuseio e transporte (quando pequena quantidade corresponde a grande valor).

Essa visão liberal da história monetária enxerga a moeda apenas como uma mercadoria, escolhida segundo critério de comodidade e/ou segurança por um sistema econômico auto-regulável, sem a arbitrária intervenção estatal. Essa imagem idílica escamoteia a violência da história monetária. Basta dizer que a soberania do Estado nacional tem dois pilares básicos: o poder militar, dado pelo monopólio oficial da violência, e o poder de gasto, dado pelo monopólio da emissão da moeda.

Continuar a ler

Apresentação da Teoria Alternativa da Moeda

“Talvez, no século XX, os economistas desempenhem o papel dos padres na Idade Média. Outrora, a Igreja e os padres defendendo o Sacro Império Romano. E os economistas, hoje, defensores da doutrina da moda do capitalismo. E nós, brasileiros, somos sempre unânimes. Outrora, quem discordava era herege. Morria queimado na fogueira. Hoje, é heterodoxo – causa pânico no mercado financeiro. Está ‘queimado’ para qualquer cargo público” (João Sayad, FSP, 24/10/93).

Mmmmm, standin’ at the crossroad

I tried to flag a ride

Didn’t nobody seem to know me

everybody pass me by

(“Crossroad Blues”, Robert Johnson, 1936).

“A encruzilhada sempre foi onde se toma uma decisão: o caminho que será escolhido, o caminho que será abandonado. Ambos estão juntos numa encruzilhada. Ambos se transformam em um caminho só – mas por um pequeno período de tempo apenas. Ninguém pode ficar ali para sempre: uma vez feita a escolha, é preciso seguir adiante” (“Maktub” de janeiro de 1994, Paulo Coelho, o ex-parceiro de Raul Seixas, a Metamorfose Ambulante da Sociedade Alternativa).

Continuar a ler

Metodologia da Teoria Alternativa da Moeda

A abordagem metodológica da Teoria Alternativa da Moeda vai contra a opinião que as instituições monetárias mudaram tanto que hoje temos orfandade teórica. Os institucionalistas acham que o melhor que podemos fazer é contar histórias. Este é método de teorizar que junta fatos, generalizações de baixo nível, teorias de alto nível e julgamentos de valor em narrativa coerente e, à primeira vista, convincente. Porém, não é falsificável e, portanto, não passaria pelos critérios para aceitação e rejeição de programas de pesquisa científica, segundo a metodologia popperiana. Esta metodologia de cunho positivista tornou-se praticamente oficial no mainstream dos economistas.

Continuar a ler

Sumário da Teoria Alternativa da Moeda

Minha Tese para Concurso de Livre Docência no IE-UNICAMP, defendida em novembro de 1994, Por Uma Teoria Alternativa da Moeda: A Outra Face da (Teoria da) Moeda,  nunca tinha sido totalmente publicada. Versão extremamente sintética foi apresentada sob forma de artigo no XXI Encontro Nacional de Economia, promovido pela ANPEC em 1993, e publicada em: COSTA, Fernando Nogueira da. Postulados de Uma Teoria Alternativa da Moeda. Ensaios FEE. Porto Alegre, Ano 15, no 1, 1994. pp. 62-79.

É possível, agora, neste blog, reconstituir essa Tese via a série de artigos sob o tag Teoria Monetária, classificados na categoria Teoria Alternativa da Moeda. Fica, dessa forma, acessível para eventual leitor. Minha tese, simplesmente, diz respeito à possibilidade de elaborar postulados de Teoria Alternativa da Moeda, lógica e consistente, a partir das críticas às premissas da Teoria Quantitativa da Moeda, realizadas ao longo de determinado percurso conceitual da história do pensamento econômico.

Em seguida, apresenta-se o Sumário original da Tese de Livre Docência com links para os artigos correspondentes.

Continuar a ler

Postulados da Teoria Alternativa da Moeda

Resumo: A Teoria Alternativa da Moeda é a outra face da (teoria da) moeda. A contra-Teoria Quantitativa da Moeda pode ser construída a partir da inversão lógica de seus postulados, sempre realizada pelos seus críticos, ao longo dos últimos 200 anos. Contra esta teoria monetária dos preços se ergue a teoria da fixação dos preços. Esta explica o valor da moeda. Este não é explicado pela quantidade da própria moeda. O nível geral dos preços estabelece o poder de compra da moeda, independentemente de sua quantidade em circulação, que sanciona esse determinado nível. A quantidade de moeda em circulação é estabelecida, endogenamente, pelas forças do mercado, não sendo possível o total controle exógeno pela autoridade monetária. A moeda importa nas decisões de gastos, mas não é crucial nas decisões de fixação de preços.

Abstract: The Alternative Theory of Money is the other side of the (theory of) money. The counter-Quantity Theory of Money can be constructed from the logic inversion of its postulates, always held by its critics over the past 200 years. Against this theory of monetary price rises the theory of the decisions of pricing. This explains the value of the money. This is explained by the amount of own currency. The general level of prices down the purchasing power of money, regardless of the amount outstanding, successful completion of that particular level. The amount of currency in circulation is established, endogenously, by market forces, it is not possible the full control by exogenous monetary authority. Money matters in spending decisions, but is not crucial in the decisions of pricing.

Postulados da Teoria Alternativa da Moeda