Taxa Natural de Crescimento e de Desemprego

Esmagamento humano

Taxa natural de crescimento, no modelo de Harrod e Domar, é aquela que corresponde à taxa de crescimento da força de trabalho empregada. Mantendo fixos os coeficientes das funções de produção, de acordo com a visão da síntese-neoclássica, a taxa natural é a máxima taxa de crescimento sustentado da renda ou produto real. Ela é composta pela taxa de crescimento da população mais o progresso técnico de trabalho extensivo.

Taxa natural de desemprego, em contrapartida, é a taxa de desemprego que não pode ser reduzida pela elevação da demanda agregada. De acordo com a abordagem da Curva Vertical de Phillips, qualquer tentativa de reduzir essa taxa resultaria em processos de aceleração inflacionária. Ela é também definida como o desemprego remanescente depois de ter sido alcançado o pleno emprego, ou seja, economia de mercado nunca emprega todo o mundo!

Isso tem um sentido lógico. Por exemplo, quando um setor produtor de bens intermediários chega ao pleno-emprego, ele não terá mais capacidade física de entregar os insumos demandados por setor produtor de bens finais. Logo, este não alcançará o pleno emprego, ficando com capacidade produtiva ociosa. Em outras palavras, em uma economia diversificada, setorialmente, nunca ocorreria pleno emprego! Continuar a ler

Lei das Duas Taxas de Juros

Visão de apoioKnut Wicksell mostrou a falha de vários autores em tratar a moeda contemporânea como uma mercadoria semelhante a todas outras mercadorias tal como na época do padrão-ouro. Continuaram a recorrer à Teoria Quantitativa da Moeda para explicar o valor da moeda. Esta teoria seria aceitável somente no caso extremo de um sistema de puro pagamento à vista. Com crédito, a velocidade de circulação da moeda tornar-se-ia uma variável e não se provaria a relação entre a quantidade de moeda e o nível de preços.

Em uma economia de endividamento, a quantidade de moeda em circulação efetiva ficaria determinada endogenamente por sua demanda.  A oferta de moeda deixaria de ser excessiva e, portanto, não determinaria os preços. Pelo contrário, o valor da moeda dependeria dos preços. Continuar a ler

Poupança: Dedução Contábil Ilógica

Poupança Brasileira 2000-2012

A “sabedoria (sic) convencional” afirma que “uma taxa de poupança elevada, que permite o acúmulo de capital físico, é uma condição necessária para alcançar um crescimento acelerado do PIB ao longo de vários anos. Essa é uma afirmação bastante evidente. O investimento é o espelho da poupança e, em economias grandes, a poupança doméstica é a principal fonte de seu financiamento. O motivo é que o déficit em transações correntes financiável de grandes economias é, em geral, em torno de 3% do PIB, ou seja, seu papel [considerado “poupança externa”] para financiar o investimento doméstico é limitado.” O último a divulgar essa “pérola” do conhecimento econômico ortodoxo foi Marcelo Cirne de Toledo, no Destaque DEPEC – BRADESCO – Ano XI – Número 64 – 07 de agosto de 2013. Baixe o documento no link abaixo.

O problema desse tipo de investigação baseada nas Contas Nacionais é que não se atenta para a precariedade das informações e o viés metodológico que condiciona as análises realizadas a partir delas, caso o analista não esteja atento aos limites dessas proxies. A aproximação da realidade propiciada por elas é imperfeita, constituindo um indicador precário do financiamento do investimento no Brasil. A evidência deste deve ser buscada nas Estatísticas Financeiras, seja de crédito, seja de funding.

Por exemplo, na tabela acima, as estimativas da Poupança Privada e da Formação Bruta de Capital Fixo do Setor Privado são variáveis residuais. No entanto, essas definições contábeis são esquecidas quando o economista ortodoxo imputa nelas decisões cruciais.

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Sistema de Crédito Mútuo

Na parte final do documentário acima, visto e analisado em aula de Economia Monetária Através de Filmes, são apresentadas algumas propostas de soluções do “problema” diagnosticado na parte inicial: a cobrança de juros para pagamento de empréstimos bancários que provoca a escassez de dinheiro e a disputa por acumular um excedente sob forma de riqueza. De início, seria por razão preventiva; depois, o instinto de competição acerbado por status e consumismo se torna a motivação essencial da vida cotidiana.

Já postamos a solução da Moedas Sociais, Complementares ou Locais. Neste post, registramos o Sistema de Crédito Mútuo. Ele possui o mesmo suposto de que a confiança mútua seria maior em comunidades menores. Nelas, estabelece-se maior coesão social e/ou poder de coerção, devido às relações interpessoais de vizinhança e clientela. Troca-se competição antagônica por cooperação mútua, ou seja, concorrência por solidariedade.

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Moedas Sociais, Complementares ou Locais

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Um tema sobre o qual sempre me perguntam em debates após palestras sobre Microcrédito diz respeito aos “clubes de trocas” ou “feiras de troca solidária” como batizaram os adeptos de Economia Solidária. Nesses mercados delimitados, os pequenos empreendedores locais disponibilizam seus produtos para comércio, utilizando para isso as chamadas “moedas sociais”.

Esses clubes de troca são uma forma dos empreendedores escoarem sua produção ao garantirem a demanda com utilização de “moedas sociais (locais ou complementares)” por parte dos associados.  Eventualmente, elas podem ser utilizadas em outras feiras de trocas.

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Conceito do Dinheiro

Ilha Yap da Pedra-Moeda

Na minha aula sobre o Conceito de Dinheiro, eu conto para meus alunos uma história, que li em Milton Friedman, a da Ilha da Pedra-Moeda [i]. Eles acham que não é verdade! Que falta de credibilidade no professsor… :)

Eis a história: “Na virada do século, os cerca de 5.000 a 6.000 habitantes da ilha Yap, na Micronésia, adotavam moedas de pedras, feitas de calcário encontrado numa ilha que fica a uns 640 quilômetros de distância. Elas eram extraídas, moldadas e levadas, para Yap, em canoas ou balsas. Tinham a forma de círculo, para que um eixo as atravessasse e facilitasse o transporte. Sim, quanto maiores fossem, maior era considerado seu valor. As trocas eram baseadas na confiança mútua: depois de fazer um grande negócio, a dificuldade do transporte da moeda levava a que o dono aceitasse o mero reconhecimento da propriedade da pedra-moeda, sem nem mesmo uma marca para indicar a troca, deixando-a no mesmo lugar.

Assim, havia uma família cuja riqueza era indiscutível, reconhecida por todos. Sua fortuna baseava-se em uma pedra-moeda enorme, que jazia no fundo do mar, onde caíra, durante seu transporte para Yap, devido a uma tempestade. O acidente não deu má sorte à família, pois todos os companheiros de viagem testemunharam que a magnífica moeda se perdera sem que o proprietário tivesse qualquer grau de culpa.

Outro evento digno de nota ocorreu quando os alemães colonizadores  impuseram uma multa aos nativos por desobediência à ordem de manutenção das estradas em boas condições. A multa foi cobrada, marcando um certo número das pedras-moedas mais valiosas com uma cruz, com tinta preta, para mostrar os direitos do governo alemão sobre elas. O povo, tristemente empobrecido assim, reparou as estradas. Então, o governo apagou as cruzes. Pronto! Os cidadãos retomaram a posse de seu capital… e viveram felizes para sempre!”

Agora, eu tenho o testemunho de Martin Sandbu (FSP, 22/06/13), editorialista econômico do “Financial Times“. Será que meus incrédulos alunos agora acreditarão, vendo a foto acima?

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Monetarismo de Milton Friedman: Controle Geral da Oferta de Moeda como Regra

Milton_Friedman_Pensamentos

Agora que já surge uma novidade para os “modernos conservadores”, isto é, a nova-direita pró-mercado, após a ressaca da crise do livre-mercado, antes de abraçar o Monetarismo de Mercado, vale a pena reler Milton Friedman no original. Geralmente, esta leitura os jovens econometristas brasileiros dispensam em nome da leitura dos manuais norte-americanos com “divulgação mastigadinha da última fronteira-do-pensamento”…

O discurso de Friedman, pronunciado no 8º Encontro Anual da American Economic Association, em Washington, DC, 29 de dezembro de 1967, tornou-se obra clássica na história do pensamento econômico (FRIEDMAN, Milton (1968). O Papel da Política Monetáriain CARNEIRO, R. (org.). Os clássicos da economia 2. SP, Atica, 1997. pp. 254-270.). No discurso, ele critica a hegemonia da política econômica keynesiana. Temos de considerar o contexto da exposição sobre o papel da política monetária por Friedman, em que, de fato, havia hegemonia intelectual dos seguidores dessa política keynesiana, na equipe econômica do governo norte-americano. A primazia era a promoção do pleno emprego. A prevenção da inflação era um objetivo secundário.

Friedman, nesse discurso, destaca os limites da política monetária discricionária de ativismo da demanda. Argumenta que  a autoridade monetária não pode usar seu controle sobre quantidades nominais, para fixar, em nível predeterminado a priori, qualquer quantidade real: a taxa de juros real, a taxa de desemprego, o nível da renda nacional real, e/ou a quantidade de moeda real. Portanto, vale refletir a respeito da razão dessa proposição, monetaristas de mercado!

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