Só Rio

Maria da Conceição Tavares 140814

Fui almoçar com minha Professora Maria da Conceição Tavares justamente no dia que tinha sido publicada a foto acima, tirada antes de sua participação no seminário “Brasil em Perspectiva II”, organizado pelo Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI, no Rio de Janeiro. Não fui convidado para tal seminário. Foi bom, pois em vez de “falar mais conosco mesmo”, dei uma palestra na Mackenzie-Rio para um número muito maior de estudantes da Zona Norte e dos suburbios cariocas.

Mas a Professora e eu sorrimos um para o outro quando comentamos a manchete logo abaixo dessa cobertura: “Para economistas, baixa poupança é obstáculo ao crescimento”. Isto quando a relação crédito / PIB se elevou de 23% para 56% em dez anos…

Ignorância é motivo de riso? Não. O sorriso foi porque quem afirmou tal asneira pré-keynesiana foi economista neoclássico em um seminário supostamente de pós-keynesianos! Entendeu? Não? Eu também não, então, só-rio!

Segundo Juliana Elias (Valor, 15/08/14), o baixo nível de poupança do Brasil foi destacado por alguns economistas como um dos maiores entraves aos investimentos, à recuperação da indústria e, principalmente, ao crescimento da economia com taxas mais robustas. O assunto foi destaque no ciclo de debates promovido em São Paulo pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Não basta a ANPEC, também essa Associação foi invadida por neoclássicos! Continuar a ler

Determinismo Histórico

revolucion_bolchevique

Publiquei neste modesto blog dois posts a respeito da Transição entre Modos de Produção e da Oscilação entre Civilização Ocidental e Civilização Oriental. Neste último, eu interpretei as séries temporais de longo prazo (milênios) que Thomas Piketty apresentou em seu livro “O Capital do Século XXI” e lancei uma provocação: o Capitalismo Liberal já era! Tem deadline para seu encerramento: em meados deste século (2050)! Viva o Capitalismo de Estado ou o Socialismo de Mercado!

Considerando as ascensões e as quedas de outras civilizações, que tiveram ciclos “meio” milenares, a dedução do “determinismo histórico” (sic) é o seguinte:

  1. República Romana (550aC-44aC)
  2. Império Romano Ocidental (44aC-476dC); ambos: Civilização Ocidental I
  3. Império Bizantino (476-1453)
  4. Império Chinês I (Dinastia Ming 1368-Guerras do Ópio Anglo-Chinesa: 1839-1842 e 1856-1860); ambos: Civilização Oriental I
  5. Império Anglo-Saxão ou Euro-Americano (1492-2050) ou Civilização Ocidental II
  6. Império Chinês II (1979-…) ou Civilização Ocidental II

Evidentemente, essa periodização foi mera provocação para reflexão e/ou debate: uma hipótese para ser falseada com pesquisa de dados, coleta de informações e reunião de argumentos. Continuar a ler

Críticas à Autogestão

Autogestão

Dada a forte densidade ideológica do conceito de Autogestão, será conveniente examinar as críticas que lhe têm sido dirigidas, distinguindo, enquanto possível, as que foram feitas a experiências concretas, particularmente à iugoslava, nos anos 50 do século XX, das que visam o princípio como tal. As primeiras tendem em geral a pôr em evidência, com intenções políticas diversas, a incongruência de alguns dos resultados desta experiência com seus pressupostos socialistas. Continuar a ler

Autogestão como Princípio Político

Autogestão e natureza humana

Há a necessidade de estabelecer uma alternativa tanto para o formalismo abstrato da “democracia burguesa”, como para o esquema autocrático das chamadas “democracias populares”. Os teóricos da Autogestão acabaram por se integrar na corrente do pensamento democrático radical, apresentando este princípio de organização como solução do problema da democracia substancial.

Nela, ocorre o deslocamento do problema da autoridade do momento do seu exercício, ou seja, da emanação das ordens vinculantes, ao logicamente precedente da formação das decisões. A proposta é de “socialização” dos processos decisórios. Isto se torna possível pela atribuição a cada indivíduo de um diverso poder de decisão nos vários âmbitos concretos da sua vida associada. Continuar a ler

Autogestão ou Cogestão Universitária

Movimento Poder Popular

A autonomia universitária propiciou autogestão? Esta seria um sistema de organização das atividades educativas e administrativas, desenvolvidas mediante a cooperação de várias pessoas, onde as decisões relativas à gerência seriam diretamente tomadas por quantos delas participam. Haveria atribuição do poder decisório às coletividades (colegiados departamentais, congregações, conselhos), definidas por cada uma das estruturas específicas de atividade na Universidade.

As duas determinações essenciais do conceito de autogestão são:

  1. a superação da distinção entre quem toma as decisões e quem as executa;
  2. a autonomia decisória de cada unidade de atividade, ou seja, a superação da interferência de vontades alheias às coletividades participantes na definição do processo decisório.

Referidas ao funcionamento de um sistema social global, estas duas determinações, em tese, especificam a autogestão como um modelo de organização da sociedade alternativo ao modelo estatista burocrático.

A autonomia universitária, de um lado, visava a superação da lógica da planificação centralizada, imposta “de fora” por parte de Secretaria do Estado, e da consequente apropriação do poder por parte do aparelho burocrático. Para tanto, conquistou-se a atribuição de uma plena autonomia gerencial às diversas unidades universitárias.

De outro lado, era uma experiência quanto à redefinição do caráter coletivista da organização social. Isto ocorreria mediante a desestruturação do ordenamento estatal e sua transformação em um sistema de autonomias locais que permitiria a tais coletividades o controle direto das condições da sua reprodução social. Continuar a ler

Livre-Pensar – Livre-Iniciativa – Livre-Arbítrio

Livre-Pensar

Economia de Livre Mercado ou Sistema de Livre Iniciativa quando os agentes econômicos agem de forma livre, com pouca ou nenhuma intervenção dos governos? Se não existe isso na realidade, trata-se de uma abstração, ou seja, um livre mercado idealizado, segundo a qual todas as ações econômicas individuais, voluntariamente, respeitam a transferência de dinheiro, bens e serviços, e alcançam uma ordem espontânea em nível sistêmico.

Dada a inexistência disso, o cumprimento de contratos assinados é obrigatório, punível por lei caso não ocorra. Por via das dúvidas, a propriedade privada também é protegida pela lei – e garantida pela polícia. Em tese, nesse “livre mercado”, ninguém pode ser forçado a trabalhar para terceiros. O único risco da recusa é o da morte por inanição, caso não tenha nada a mais para vender além de sua força de trabalho… Continuar a ler

A Ética do Capitalismo e o Espírito do Protestantismo: Desmitificação da Poupança

ateismo-matematico

Dado o declínio religioso na Europa, onde o ateísmo tende a superar o cristianismo, seja o protestantismo no norte europeu, seja o catolicismo no sul-mediterrâneo, Niall Ferguson (Civilização; 2012: 316) lança as seguintes perguntas:

  1. Será que, como próprio Max Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo corrompeu o ascetismo original dos devotos?
  2. O que no desenvolvimento econômico foi hostil à fé religiosa?
  3. Foi a transformação do papel da mulher e a degradação da estrutura familiar, que também parece explicar a diminuição do tamanho das famílias e o declínio demográfico do Ocidente, a explicação para a descrença?
  4. Ou foi o conhecimento científico – a “desmitificação do mundo”, especialmente, pela Teoria da Evolução de Darwin – que falseou a história bíblica da criação divina?
  5. Foi a melhoria na expectativa de vida que tornou a vida após a morte um destino mais distante e menos alarmante?
  6. Foi o Estado de Bem-Estar Social, “um pastor secular”, cuidando da população do berço ao túmulo?
  7. Ou será que o cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura moderna?

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Concepção Estrutural de Complexidade

Esqueleto-redes-complexas

Segundo Eleutério F. S. Prado, a concepção dedutivista é distinta da concepção saltacionista, ainda que ambas raciocinem nos marcos da explanação dedutiva. A diferença crucial entre elas vem a ser que a primeira considera esse modo de raciocinar abrangente e inescapável, enquanto que a segunda enxerga-o como limitado. Como a segunda nega a pretensão de universalidade da primeira, chegou-se à conclusão aparentemente inevitável de que se uma é verdadeira, a outra será necessariamente falsa. Isso põe um problema que se mostra de difícil solução. Mas, pergunta-se Prado,  e se ambas estiverem erradas?

Contrariamente ao formalismo antes apresentado por Prado, que leva ou não leva à disjunção entre propriedades resultantes e emergentes, torna-se necessário agora redefinir apropriadamente a noção de sistema. Esse conceito de todo organizado foi definido como um conjunto de elementos vinculados externamente, que se desenvolve por meio de interações pro e retroalimentadas. Essa mesma noção de sistema foi adotada, grosso modo, por ambas as concepções discutidas anteriormente.

Agora, porém, Prado vai se conceituar sistema complexo estruturado de um modo diverso dos anteriores. Ele será apreendido, doravante, como um conjunto de elementos vinculados internamente entre si, ou dizendo de outro modo, como um conjunto de partes efetivamente estruturadas – e não apenas configuradas como um arranjo de elementos vinculados externamente entre si.

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Composição Saltacionista de Complexidade

Complexidade demográfica

O todo pode se afigurar maior do que a soma das partes. Assim, segundo Eleutério F. S. Prado, viola-se o princípio de que a previsão do efeito decorre do conhecimento das causas.

Em consequência, com base na distinção referida, John Stuart Mill, em Sistema de Lógica, forjou um argumento contra a tese da unidade possível entre dedução e geração no sentido antes definido. O ponto de Mill foi retomado depois, no último quartel do século XIX e no primeiro do século XX, desenvolvendo-se uma doutrina ampla, e influente durante meio século ou pouco mais, sobre como surgem os fenômenos observáveis na natureza, na sociedade e na mente. É essa tradição que foi chamada de emergentismo clássico.

Para melhor entender as teses da concepção saltacionista, considere-se que os defensores do emergentismo clássico eram materialistas. Mantinham que todo o existente, em última análise, é feito de matéria e que esta é formada de partículas elementares, sendo, portanto, descontínua. Ademais, para eles, toda mudança no mundo dependia dos movimentos dessas partículas, os quais eram regidos inexoravelmente pelas Leis da Mecânica.

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Concepção Dedutivista de Complexidade

Complexidade-do-mecanismo

Eleutério F. S. Prado informa que a definição estritamente fenomênica de sistema o apresenta como conjunto de elementos observáveis entrelaçados por nexos exteriores, cujo funcionamento em processo depende de causalidade, direta e indireta, recíproca e circular, pró e retro-alimentadora.

Uma das características centrais dessa compreensão é que tais sistemas de partes em interação podem e devem ser prioritariamente descritos de modo matemático. A linguagem formal, em sua primeira apresentação “deve seguir o caminho estreito e reto da retidão científica e da exposição matemática” (Bertalanffy, 1969, p. xxiii).  Louva as vantagens dos modelos matemáticos, pois eles:

  1. eliminam as ambiguidades,
  2. possibilitam raciocinar dedutivamente,
  3. permitem chegar a expressões reduzidas que supostamente podem ser testadas de modo empírico.

A vocação operacional e utilitária desse saber assim transparece.

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Três Concepções de Complexidade

Complexidade Gestão

Eleutério F. S. Prado, no artigo com o título acima, afirma que o ponto de partida teórico da chamada Teoria dos Sistemas Complexos se situa na constatação das limitações dos procedimentos analíticos na investigação científica, os quais foram consagrados por Descartes, Galileu e Newton, pensadores esses conhecidos como os pais-fundadores da Ciência moderna.

Na formulação de Descartes, eles se apresentam assim:

  1. pensar de modo claro e distinto, seguindo fielmente a lógica da identidade;
  2. dividir os objetos mais complexos nas suas menores partes constituintes para poder explaná-los convenientemente;
  3. “começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos”;
  4. fazer enumerações e revisões completas até ter certeza de nada omitir.

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Economia: Complexidade e Dialética

Economia Complexidade e Dialética

Gustavo de Oliveira Aggio, Doutorando em Economia do IE/Unicamp, em Economia & Sociedade (vol.19, no.3, Campinas, Dec. 2010), publicou uma resenha do mais recente livro do professor Eleutério Prado, Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009) um conjunto bem articulado de cinco ensaios que segundo o autor, na sua introdução, “[...] pretende ser uma contribuição adicional ao estudo das bases filosóficas da ciência da mercadoria, da produção de mercadoria, da circulação de mercadoria” (Prado, 2009, p. 11). O leitor que percorrer o livro todo, ou mesmo aquele que focar em um ou outro ensaio em particular, confirmará que o autor cumpre seu objetivo, o que coloca esta obra, na minha opinião, em pé de igualdade com Economia como Ciência.

Aggio, porém, enfatiza um aspecto mais específico do livro, a saber, o seu caráter como base metodológica para novas construções teóricas em Economia. Para isto, ele realiza antes uma breve digressão sobre o tema da Complexidade na Ciência e na Economia como Ciência. Resumo-o abaixo.

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