A Ética do Capitalismo e o Espírito do Protestantismo: Desmitificação da Poupança

ateismo-matematico

Dado o declínio religioso na Europa, onde o ateísmo tende a superar o cristianismo, seja o protestantismo no norte europeu, seja o catolicismo no sul-mediterrâneo, Niall Ferguson (Civilização; 2012: 316) lança as seguintes perguntas:

  1. Será que, como próprio Max Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo corrompeu o ascetismo original dos devotos?
  2. O que no desenvolvimento econômico foi hostil à fé religiosa?
  3. Foi a transformação do papel da mulher e a degradação da estrutura familiar, que também parece explicar a diminuição do tamanho das famílias e o declínio demográfico do Ocidente, a explicação para a descrença?
  4. Ou foi o conhecimento científico – a “desmitificação do mundo”, especialmente, pela Teoria da Evolução de Darwin – que falseou a história bíblica da criação divina?
  5. Foi a melhoria na expectativa de vida que tornou a vida após a morte um destino mais distante e menos alarmante?
  6. Foi o Estado de Bem-Estar Social, “um pastor secular”, cuidando da população do berço ao túmulo?
  7. Ou será que o cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura moderna?

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Concepção Estrutural de Complexidade

Esqueleto-redes-complexas

Segundo Eleutério F. S. Prado, a concepção dedutivista é distinta da concepção saltacionista, ainda que ambas raciocinem nos marcos da explanação dedutiva. A diferença crucial entre elas vem a ser que a primeira considera esse modo de raciocinar abrangente e inescapável, enquanto que a segunda enxerga-o como limitado. Como a segunda nega a pretensão de universalidade da primeira, chegou-se à conclusão aparentemente inevitável de que se uma é verdadeira, a outra será necessariamente falsa. Isso põe um problema que se mostra de difícil solução. Mas, pergunta-se Prado,  e se ambas estiverem erradas?

Contrariamente ao formalismo antes apresentado por Prado, que leva ou não leva à disjunção entre propriedades resultantes e emergentes, torna-se necessário agora redefinir apropriadamente a noção de sistema. Esse conceito de todo organizado foi definido como um conjunto de elementos vinculados externamente, que se desenvolve por meio de interações pro e retroalimentadas. Essa mesma noção de sistema foi adotada, grosso modo, por ambas as concepções discutidas anteriormente.

Agora, porém, Prado vai se conceituar sistema complexo estruturado de um modo diverso dos anteriores. Ele será apreendido, doravante, como um conjunto de elementos vinculados internamente entre si, ou dizendo de outro modo, como um conjunto de partes efetivamente estruturadas – e não apenas configuradas como um arranjo de elementos vinculados externamente entre si.

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Composição Saltacionista de Complexidade

Complexidade demográfica

O todo pode se afigurar maior do que a soma das partes. Assim, segundo Eleutério F. S. Prado, viola-se o princípio de que a previsão do efeito decorre do conhecimento das causas.

Em consequência, com base na distinção referida, John Stuart Mill, em Sistema de Lógica, forjou um argumento contra a tese da unidade possível entre dedução e geração no sentido antes definido. O ponto de Mill foi retomado depois, no último quartel do século XIX e no primeiro do século XX, desenvolvendo-se uma doutrina ampla, e influente durante meio século ou pouco mais, sobre como surgem os fenômenos observáveis na natureza, na sociedade e na mente. É essa tradição que foi chamada de emergentismo clássico.

Para melhor entender as teses da concepção saltacionista, considere-se que os defensores do emergentismo clássico eram materialistas. Mantinham que todo o existente, em última análise, é feito de matéria e que esta é formada de partículas elementares, sendo, portanto, descontínua. Ademais, para eles, toda mudança no mundo dependia dos movimentos dessas partículas, os quais eram regidos inexoravelmente pelas Leis da Mecânica.

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Concepção Dedutivista de Complexidade

Complexidade-do-mecanismo

Eleutério F. S. Prado informa que a definição estritamente fenomênica de sistema o apresenta como conjunto de elementos observáveis entrelaçados por nexos exteriores, cujo funcionamento em processo depende de causalidade, direta e indireta, recíproca e circular, pró e retro-alimentadora.

Uma das características centrais dessa compreensão é que tais sistemas de partes em interação podem e devem ser prioritariamente descritos de modo matemático. A linguagem formal, em sua primeira apresentação “deve seguir o caminho estreito e reto da retidão científica e da exposição matemática” (Bertalanffy, 1969, p. xxiii).  Louva as vantagens dos modelos matemáticos, pois eles:

  1. eliminam as ambiguidades,
  2. possibilitam raciocinar dedutivamente,
  3. permitem chegar a expressões reduzidas que supostamente podem ser testadas de modo empírico.

A vocação operacional e utilitária desse saber assim transparece.

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Três Concepções de Complexidade

Complexidade Gestão

Eleutério F. S. Prado, no artigo com o título acima, afirma que o ponto de partida teórico da chamada Teoria dos Sistemas Complexos se situa na constatação das limitações dos procedimentos analíticos na investigação científica, os quais foram consagrados por Descartes, Galileu e Newton, pensadores esses conhecidos como os pais-fundadores da Ciência moderna.

Na formulação de Descartes, eles se apresentam assim:

  1. pensar de modo claro e distinto, seguindo fielmente a lógica da identidade;
  2. dividir os objetos mais complexos nas suas menores partes constituintes para poder explaná-los convenientemente;
  3. “começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos”;
  4. fazer enumerações e revisões completas até ter certeza de nada omitir.

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Economia: Complexidade e Dialética

Economia Complexidade e Dialética

Gustavo de Oliveira Aggio, Doutorando em Economia do IE/Unicamp, em Economia & Sociedade (vol.19, no.3, Campinas, Dec. 2010), publicou uma resenha do mais recente livro do professor Eleutério Prado, Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009) um conjunto bem articulado de cinco ensaios que segundo o autor, na sua introdução, “[...] pretende ser uma contribuição adicional ao estudo das bases filosóficas da ciência da mercadoria, da produção de mercadoria, da circulação de mercadoria” (Prado, 2009, p. 11). O leitor que percorrer o livro todo, ou mesmo aquele que focar em um ou outro ensaio em particular, confirmará que o autor cumpre seu objetivo, o que coloca esta obra, na minha opinião, em pé de igualdade com Economia como Ciência.

Aggio, porém, enfatiza um aspecto mais específico do livro, a saber, o seu caráter como base metodológica para novas construções teóricas em Economia. Para isto, ele realiza antes uma breve digressão sobre o tema da Complexidade na Ciência e na Economia como Ciência. Resumo-o abaixo.

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Economia e Complexidade: Bibliografia

ComplexO Programa de Pesquisa do grupo de pesquisadores do Complex da FEA-USP em Economia e Complexidade foi coordenado pelo Professor Euletério Fernando Silva Prado. Ele se afastava da ortodoxia em Economia na medida em que era crítico à noção de equilíbrio, uma constante nas teorias econômicas do mainstream de ontem e de hoje. Ela tem sido entendida:

  • como centro de gravidade,
  • como balanço de forças,
  • como compatibilidade de planos,
  • como correção de expectativas,
  • como ausência de tendência para a mudança,
  • como solução de jogo,
  • como resultado estatístico, etc.

De qualquer modo, há duas possibilidades:

  1. ou a teoria, de partida, pensa o sistema econômico em equilíbrio;
  2. ou ela, desde o início, considera que ele funciona fora do equilíbrio.

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Lógicas de Ação e Instituições

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Lógicas de ação são conjuntos de normas socialmente compartilhadas de pensamento e comportamento. Como tal, são instituições.

As lógicas de ação, que David Dequech define, são instituições com algumas características importantes.

Em primeiro lugar, elas são especialmente concebidas em relação a muito amplos domínios de provisionamento, como o mercado, a família, e a política. Daí, o uso da expressão lógicas de ação de provisão. Esta constitui  o ato ou o efeito de prover.

Provisionamento seria o provimento, o abastecimento ou o fornecimento de um conjunto de artigos de consumo e reserva de alimentos necessários à manutenção de uma comunidade, família ou pessoa durante certo período. É uma reunião de coisas quaisquer destinadas ao uso futuro, espécie de sortimento ou estoque. Os agentes econômicos buscam o acúmulo de coisas, fazendo reservas para o futuro incerto ou buscando a demonstração de abundância e exuberância com a reserva em dinheiro ou valores pecuniários e mobiliários.

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Lógicas Cívicas e Familiares

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A posição, o papel, ou a capacidade associada com a lógica civil é aquela pertencente a algum membro de uma comunidade. Os limites do domínio civil podeM variar enormemente, sendo eles os de um bairro ou uma cidade, um estado, uma região, um país ou, simplesmente, do mundo. Tal como o outros domínios discutidos por David Dequech, este é também bastante complexo, onde diferentes lógicas de ação são possíveis, ou seja, não apenas a lógica cívica. Por exemplo, a lógica do mercado atua, geralmente, como a principal norteadora de ambas as partes em uma relação de corrupção que envolve matéria cívica, enquanto o nepotismo por definição envolve apenas a lógica da família.

Pertencer à comunidade e contribuir para o interesse coletivo são as principais qualidades em que a medição (ordinal) de valor das pessoas é baseada no domínio cívico. Um dever de um membro da comunidade é defender o interesse coletivo da comunidade. A lógica cívica pode ser perseguida instrumentalmente ou não instrumentalmente.

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Vieses Heurísticos ou Lógicas de Mercado

Logica de pinguim

O termo heurístico significa o processo pelo qual as pessoas aprendem as coisas por si só, na “Escola da Vida”, através de tentativa e erro. Esse processo de aprendizagem experimental leva as pessoas a desenvolverem as chamadas “regras de bolso”, que são usadas para simplificar o processo de tomada de decisão e, em geral, se apoiam em generalizações perigosas ou falsas.

Um  dos  grandes  avanços  da  Psicologia Econômica ou Economia Comportamental  foi identificar:

  1. os princípios que regem essas regras de bolso;
  2. os erros sistemáticos que elas causam;
  3. os tipos de agentes econômicos, cujas características permitem predizer seus comportamentos face a diferentes problemas de escolha.

As pessoas em suas tentativas e erros para aprender algo criam princípios gerais para diferentes situações – suas regras de bolso. Julgamentos em situações de incerteza, para decisões práticas, são baseados em número limitado de  regras simplificadoras em vez do processamento cognitivo consciente,  mais formal e extensivo. Passam, então, a se utilizar dessas regras de bolso para fazer inferências a partir das informações disponíveis. Como as regras nem sempre funcionam, acabam por cometer erros em diversas situações, repetidamente. Errar é humano; repetir erro é também comum entre os seres humanos! Nós tomamos muitas decisões baseando-nos em estereótipos ou mesmo preconceitos.

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É Lógico? Sim, Porque Há Muitas Lógicas…

logica convencional X religiosa

O conceito de lógicas, desde que qualificado por algum adjetivo, delimita o pressuposto de existência de um universo infinito de raios de ação. Lógica é a parte da Filosofia que trata das formas do pensamento em geral (dedução, indução, hipótese, inferência etc.) e das operações intelectuais que visam à determinação de o que é verdadeiro ou não é. Aprende-se, formalmente, em tratados ou compêndios de lógica racional, uma maneira rigorosa de raciocinar. Os iluministas e seus descendentes pressupunham que, assim, essa racionalidade se tornaria uma lógica implacável – e universal!

Mas o conceito foi estendido de modo a abarcar a forma por que costuma raciocinar uma pessoa ou um grupo de pessoas ligadas por um fato de ordem social, psíquica, geográfica, etc. Em termos da Economia Institucionalista, refere-se às lógicas ligadas a um domínio de ação. Deduz-se assim a maneira pela qual necessariamente se encadeiam os acontecimentos, as coisas ou os elementos de natureza efetiva, buscando coerência ou fundamento nas decisões.

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Economia Institucional e Economia Comportamental

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David Dequech no artigo “Economic institutions: explanations for conformity and room for deviation” (Journal of Institutional Economics, 9(1): 81-108, 2013), afirma que “mais diálogo e integração também são necessários, tanto dentro da Ciência Econômica quanto entre diferentes disciplinas das Ciências Sociais”.

Ele está preocupado em levantar explicações para a conformidade dos agentes com regras institucionais existentes na vida econômica. Baseia-se na Nova Economia Institucional (NEI), e tenta adicionar contribuições de diferentes vertentes da Economia, bem como de outros disciplinas. A principal questão cuja resposta é discutida por Dequech é: o que leva os agentes individuais ou coletivos, inclusive aqueles em busca de um ganho pecuniário, a seguir uma regra institucional econômica existente?

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