O que causa a Inércia Comportamental?

Indivíduo X Grupo

A relação entre comportamento irracional no nível individual e no agregado é o núcleo da colaboração de Ernest Fehr e Jean-Robert Tyran, What Causes Nominal Inertia? Insights From Experimental Economics. Como eles argumentam, uma das principais diferenças entre os pesquisadores em Psicologia e Economia é a seguinte.

  • Por um lado, os psicólogos analisam as anomalias individuais e, então, extrapolam-nas para o comportamento agregado.
  • Por outro lado, os economistas superestimam a probabilidade que as forças competitivas do mercado corrijam as anomalias individuais.

Esse artigo analisa o problema do comportamento irracional no nível individual e no nível agregado no caso da “ilusão monetária”. Esta teoria, grosseiramente, diz que as livres ilusões dos indivíduos reagem às mudanças nos preços reais, mas não às mudanças nos preços nominais. Em outras palavras, qualquer um deveria sentir igualmente feliz caso tanto a taxa de inflação quanto seu salário aumentassem em 4% porque eles permaneceriam constantes em termos reais.

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Psicologia e Mercado Financeiro: Aplicações para Entender e Remediar a Tomada de Decisão Irracional

Nem louco rasga dinheiro

Denis Hilton revê os traços psicológicos, vieses heurísticos e erros de julgamento que se sobressaem ao jogarem um importante papel em contextos financeiros. Seu paper inicia-se, como é comum nessa literatura comportamentalista, com uma descrição das ações individuais e julgamentos que podem ser classificados como “irracionais” de acordo com a tradicional definição do Homo Economicus, assim como algumas experiências que suportam a reincidência desses comportamentos equivocados. Estes incluem a ilusão de controle, o excesso de confiança, uma falsa interpretação das evidências, a aversão à perda, os efeitos enquadramentos, e a subutilização de informações.

O autor então analisa algumas condutas sociais que também são difíceis de conciliar com o tradicional paradigma da maximização da utilidade: comportamento de manada irracional, sobre ou sub reação às notícias, comunicação e agregação ineficiente de informações, os efeitos de contabilização na tomada de decisões.

Por fim, Hilton providencia algumas aplicações possíveis de bem conhecidas descobertas no neuromarketing dos produtos financeiros e na gestão dos recursos humanos. Particularmente, discute:

  1. como o desenho e a apresentação dos produtos financeiros afetam as decisões dos investidores não-profissionais, e
  2. como um treinamento eficiente dos negociantes, dirigido para corrigir seus vieses de julgamento, pode elevar seus desempenhos.

A contribuição de Hilton é um claro exemplo dos benefícios propiciados por uma estreita colaboração nos campos da Psicologia e Finanças. Em anos recentes, houve uma crescente tendência no campo das Finanças Comportamentais em redescobrir a propensão do indivíduos em cometer erros sistemáticos no julgamento e tomada de decisões.

Uma mais eficiente estratégia de pesquisa resgataria a rica tradição que os psicólogos têm em análise de padrões de comportamentos. Usando as conclusões já alcançadas, é possível desenhar as inferências que são mais relevantes para esse campo de análise e providenciar prescrições de políticas  para elevação da eficiência das instituições.

Entretanto, um dos maiores perigos de adoção dessa estratégia é a possibilidade de perda do rigor e da abordagem crítica que os economistas sempre apresentaram quando analisaram o comportamento humano. Em outras palavras, ante de invocar um argumento fora-do-padrão para explicar dado comportamento, talvez seja útil compreender claramente se e como as tradicionais teorias não fornecem explanações satisfatórias da questão sob estudo.

Um ponto interessante para futura pesquisa é estudar as circunstâncias sob as quais um comportamento individual irracional pode sobreviver em longo prazo. O valor social da irracionalidade individual tem sido reconhecido há longo tempo. Um exemplo tomado emprestado da literatura financeira é: um indivíduo completamente desgarrado de regras de comportamento público em favor de seu próprios critérios acaba por revelar, por meio das consequências de suas ações de contraponto, informação particular preciosa à população inteira.

O valor privado da irracionalidade recebeu também certa atenção. De imediato, há sempre um indivíduo “louco” em todo os grupos ou tribos… Esta pessoa, usualmente, faz os melhores negócios em situações de barganhas simples, independentemente de seu nível de insanidade. Seria interessante providenciar uma análise sistemática do tipo de situação na qual a irracionalidade pode obter melhores resultados para o próprio indivíduo ou para a sociedade como um todo.

Senão, a conclusão seria apenas aquela da sabedoria popular: nem louco rasga dinheiro!

Psicologia das Decisões Econômicas

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Os pesquisadores de Psicologia Econômica e Economia Comportamental tem que trabalhar em conjunto, aprendendo uns com os outros. Eles focalizam os mesmos tipos de questões. Problemas similares podem ser vistos sob diferentes ângulos. Complementariedade justifica a cooperação mútua.

Entretanto, os pesquisadores estranham os instrumentos de pesquisa e as metodologias empregadas no outro campo de análise. É um prejulgamento achar que outra perspectiva é, necessariamente, menos adequada. Isto constitui um obstáculo para o debate e as interações.

O objetivo do livro The Psychology of Economic Decisions, editado por Isabelle Brocas e Juan D. Carrillo (Oxford University Press, 2004), não é providenciar uma resposta certeira para essa questão a respeito do relacionamento profissional entre psicólogos e economistas. Ao contrário, cada paper da coletânea sugere alguns resolvidos e outros não resolvidos “quebra-cabeças” que devem encorajar reflexões posteriores.

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Max Weber e os Tipos Ideais

Max_Weber_1894

Em sua obra inacabada, Economia e Sociedade, Max Weber (1864-1920) fez uma tentativa de descrever o funcionamento da sociedade, bem como um método pelo qual uma nova disciplina, a Sociologia, poderia avançar. Um dos métodos de estudo de Weber era o uso de noções abstratas como os “tipos ideais”.

Semelhante a uma caricatura, um tipo ideal exagerava as principais características e reduzia as menos importantes, visando esboçar a verdade subjacente. Essa abordagem era chave para o método de Weber, permitindo-lhe entender as partes complexas da sociedade por uma versão simplificada.

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Empreendedorismo segundo Benjamin Franklin

BenFranklinDuplessis

Os principais pensadores do rotulado Iluminismo norte-americano foram inspirados por escritores iluministas europeus, como John Locke, Edmund Burke, Jean-Jacques Rousseau, Voltaire e Montesquieu. O sistema de governo do federalismo denominado Estados Unidos da América nasceu dos Princípios Liberais e Republicanos.

Os constituintes norte-americanos se opuseram à autoridade centralizada e absoluta, bem como aos privilégios aristocráticos. Apoiaram-se em alicerce constituído a partir de ideais pluralistas, a proteção dos direitos dos indivíduos e a cidadania universal.

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Pensamento Liberal de John Locke: Governo para Proteção da Vida, Liberdade e Propriedade

Fluxograma da revolução inglesa

Questão central na teoria política diz respeito ao papel do governo e às funções que deve desempenhar. Igualmente importante é a questão do que dá ao governo o direito de governar, bem como dos limites de autoridade governamental.

Alguns eruditos medievais argumentavam que os reis tinham o direito de governar dado por Deus (Igreja), enquanto outros proclamavam que a nobreza tinha um direito de nascença para governar. Pensadores iluministas começaram a desafiar essas doutrinas. Mas se o poder de governar não foi dado pela “vontade divina” ou por nascimento, então eram necessárias outras fontes de legitimidade.

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Política: Ação Coletiva para Alcançar Poder e/ou Direitos

Políticos

Pensadores refletiram, desde o século XVI, sobre o equilíbrio de Poder entre o governo, as comunidades e os indivíduos. Até o século XVII, a ideia dominante ainda era a de um Estado centralizado com o poder no soberano absolutista.

As visões radicais do filósofo calvinista alemão Johannes Althsius (1557-1638) sobre o papel do Estado, da soberania e da política abriram caminho para o conceito moderno de federalismo. Althusius redefiniu a Política de uma atividade relacionada apenas ao Estado para um movimento social que se revela em associações coletivas subjacentes ao Estado. Ele apresentou a ideia de Consorciação, a qual serviu de base ao pensamento federalista.

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Comportamento Econômico Complexo

Quem sou euJohn Davis considera a aplicação da análise de intencionalidade coletiva para a Economia como a principal contribuição substancial de seu livro The Theory of the Individual in Economics: Identity and Value (2003). O que é importante sobre essa análise é que ela fornece uma maneira de compreender os indivíduos integrados especificamente como indivíduos. Assim, a análise da intencionalidade coletiva é individualista, ontologicamente falando, mas também é holista ao ser capaz de explicar a influência que os grupos tem sobre os indivíduos.

Esta análise funciona, por outro lado, através de um par de bem aceitos caminhos teóricos:

  1. a ideia de que o comportamento padrão é proposital ou intencional, e
  2. a explicação para a interação entre as pessoas em termos de conjuntos de expectativas recíprocas que elas têm uma da outra.

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Relação Estrutura-Agente

Dualismo analítico

Os cinco temas que John Davis considera centrais para seu livro The Theory of the Individual in Economics: Identity and Value (2003) são:

  1. a reavaliação do tratamento do indivíduo pela Economia Ortodoxa;
  2. o argumento de que a Economia Heterodoxa, ao contrário do que muitos economistas supõem, tem elementos importantes de uma Teoria do Indivíduo;
  3. a ênfase na reflexividade sobre o comportamento individual;
  4. análise da intencionalidade coletiva como um meio de explicar o comportamento econômico como complexo;
  5. a visão do indivíduo integrado, socialmente, em termos práticos e normativos;

A Economia Ortodoxa tem representado a si mesmo como “individualista”, tanto em termos teóricos, como normativos. Com efeito, a sua posição a este respeito – a defesa da liberdade comportamental dos indivíduos como fosse racional equilibradora – tem sido sempre a chave para o seu amplo suporte ideológico na sociedade.

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Disputa Histórica: Indivíduos versus Sociedade

Diálogos

Para a esquerda pré-libertária, o coletivo sempre deve predominar em relação ao individual. Cabe uma reflexão mais devagar sobre questões contemporâneas. Deve prevalecer o direito de manifestação de vândalos ou a segurança pública e da propriedade? O das corporações ou o do futuro do país e da maioria da população? O voluntarismo de um punhado de protetores de animais ou as pesquisas científicas que beneficiam a todos? O que deve prevalecer: o interesse coletivo ou o privado?

John Davis, em The Theory of the Individual in Economics: Identity and Value (2003), se deu conta de como as ideias sobre a natureza do indivíduo evoluíram, historicamente, na Economia Ortodoxa e na Economia  Heterodoxa. No seu entendimento, cada tradição começa com uma concepção do indivíduo que é essencialmente metafórico por natureza.

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Identidade Econômica versus Identidade Pessoal

Identidade CerebralJohn Davis apresentou o tema da identidade individual em Economia no seu livro, The Theory of the Individual in Economics: Identity and Value (2003), comparando-o com o tema da identidade pessoal investigado pelos filósofos. Os dois temas são semelhantes naquilo em que ambos estão preocupados, ou seja, com o que deve ser assumido a fim de ser capaz de atribuir uma identidade imutável a um indivíduo ou a uma pessoa.

Os dois temas também são diferentes no que se refere a um problema adicional que a Economia enfrenta quanto à necessidade de ser capaz de dizer como e/ou quando os indivíduos são distintos um do outro, como agentes econômicos independentes. No entanto, Davis forneceu um meio de dizer como os indivíduos na vida econômica podem ser pensados de formas distintas uma da outra: o problema da individualização.

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Ontologia em Economia

ontologia

O que distingue o argumento principal no livro de John Davis, The Theory of the Individual in Economics: Identity and Value (2003),  de muitos outros sobre o tema do indivíduo na Metodologia Econômica é seu foco explicitamente ontológico. Isso pode dar aos argumentos apresentados uma aparência de desconhecimento, uma vez que os problemas ontológicos na Economia são menos discutidos do que os epistemológicos.

Ontologia é a parte da filosofia que tem por objeto o estudo das propriedades mais gerais do ser, apartada da infinidade de determinações que, ao qualificá-lo particularmente, ocultam sua natureza plena e integral. Epistemologia é o estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história.

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