Liberal Clássico X Neoliberal Conservador

neoliberalismo

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). Foi diretor de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) entre 2004 e 2008. Publicou diversos livros, com destaque para “Ao leitor sem medo – Hobbes escrevendo contra o seu tempo”, “A última razão dos reis”, “A Universidade e a Vida Atual”, “O Afeto autoritário – televisão, ética, democracia”, “A sociedade contra o social”, ganhador do Prêmio Jabuti de Ensaio em 2001, e “Politica – para não ser idiota”, em parceria com Mário Sérgio Cortella. Apreciei seu artigo (Valor, 11/08/14) em que distingue bem o que seria um liberal clássico em relação a um neoliberal conservador, encontrado tipicamente no Brasil.

“Defendo o diálogo entre as forças democráticas, isto é, a esquerda e a direita não autoritárias. Mas, como minhas simpatias estão com a esquerda moderada, quero expor o que poderia ser um programa audacioso e avançado de direita ou, se preferirem, liberal. Parto da grande tese do liberalismo: cada indivíduo tem capacidades únicas, notáveis, que para florescerem só precisam que sejam removidas as ervas daninhas. O Estado ou qualquer externalidade, inclusive as Igrejas, mais prejudicam do que ajudam. Claro que essas instituições devem remover obstáculos – e o grande exemplo é a repressão policial ao crime – mas não devem impor direção às riquezas singulares de cada pessoa.

Liberal nada tem a ver com “libertarian“, expressão frequente só nos Estados Unidos e que não se confunde com libertário, que no resto do mundo é sinônimo de anarquista. O anarquista é contra o poder – do Estado, da Igreja, do capital ou do partido. Já o “libertarian” [neoliberal] é só contra o poder estatal, mesmo democrático; mas aceita a desigualdade social, mesmo aguda, ou o poder econômico, mesmo abusivo. Muito ao contrário disso, todo liberal autêntico tem uma teoria do homem, literalmente uma “antropologia”, que afirma a riqueza inesgotável de cada indivíduo. Ora, o resultado lógico dessa convicção é que ele defenda uma radical igualdade de oportunidades, para que todas as flores, na sua diferença, floresçam. Continuar a ler

Debate Tacanho

Ultraliberal GianettiUm debate tacanhoque ou quem é falto de clareza de ideias, de largueza de alma; estúpido — reuniu ontem (18/08/14)  assessores econômicos de Aécio Neves (Mansueto Almeida, neoliberal do IPEA, ex-assessor do ex-senador cearense Tasso Jeireissati, ex-presidente do PSDB) e Marina Silva (esta figura ao lado, ultraliberal, guia econômico-espiritual da messiânica Marina, que saiu da USP para prestar serviços diretamente a O Mercado no INSPER, ex-IBMEC, do fundador do Banco Garantia) e o trânsfuga ex-secretário de Política Econômica de Antonio Pallocci (Marcos Lisboa, ex-FGV-RJ, ex-Itau-Unibanco, VP da INSPER).

Naturalmente, essa mesa composta só de oposicionistas se reuniu com a missão de atacar o governo social-desenvolvimentista sem apresentar-lhe o direito de defesa. O ataque foi organizado pela “insuspeita consultoria”(sic) — Empiricus — que, sistematicamente, solta panfletos direitistas para seus clientes e já entrou em conflito com a campanha de Dilma Rousseff.

O economista Eduardo Giannetti, que dá a linha ultraliberal ao estafe de Marina, acrescentou um comentário totalmente preconceituoso às críticas contumazes ao governo. À pergunta da plateia, sobre onde os economistas do governo estudaram, ele estendeu a análise ao que considerou visão restrita advinda da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), “base de formação”, segundo o professor Giannetti, de profissionais hoje atuantes no governo. E responsabilizou a ditadura (1964-1985) pelo fato!

“O regime militar é culpado disso. A Unicamp é um produto típico do regime militar”, afirmou o economista, vendo como consequência do autoritarismo “um grupo que se fecha religiosamente em torno de um pensamento desconectado do mundo”. [?!] Compare seus livros superficiais de auto-ajuda com as pesquisas empíricas feitas no IE-UNICAMP!

O idiota faz uma correlação com a época em que foi fundada a Escola de Campinas, formada justamente por economistas resistentes à ditadura, e deduz que “a Unicamp é um produto típico do regime militar”! Continuar a ler

Como Mudar de Opinião

ateus e cristaos

Durante a Grande Depressão, o economista John Maynard Keynes mudou suas ideias a respeito de política monetária. Quando criticado por incoerência, perguntou: “Quando os fatos mudam, mudo de opinião. E o senhor, o que faz?”

Método Científico X Método CriacionistaCom que frequência mudamos nossas crenças? Talvez não haja nada mais difícil que isso, em especial porque tantas delas – como as que têm origem no nacionalismo e na religião – são heranças culturais inculcadas durantes nossas impressionáveis infância e juventude. Além disso, nossas crenças podem estar tão entranhadas em nossas psiques que se tornam elementos inconscientes de nossa visão de mundo.

Precisamos compreender o que é necessário para mudar nossas crenças. Teremos de ser confrontados com novos fatos ou talvez com novas experiências ou novos argumentos? Se não soubermos o que altera nossas crenças, ou se estivermos convencidos de que nada poderia mudá-las, corremos o risco de ficarmos na obscuridade do dogma.

Dogma é o ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar. Pode ser visto como qualquer doutrina (filosófica, política, etc.) de caráter indiscutível em função de supostamente ser uma verdade aceita por todos que professam aquele credo. É um princípio estabelecido, uma opinião firmada, um preceito, uma máxima. Qualquer opinião sustentada em fundamentos irracionais e propagada por métodos que também o são pode ser vista como dogmática. Nas religiões, especialmente entre cristãos, doutrina dogmática é a atribuída a uma autoridade acima de qualquer opinião ou dúvida particular que possa ter um crente qualquer… Continuar a ler

Livre-Natureza X Livre-Mercado

Corrida Eleitoral

Nesta eleição, ao contrário da eleição de 2010, quando os dois candidatos que chegariam ao segundo turno (Dilma e Serra) esperavam contar com os votos dos eleitores de Marina Silva, esta candidata receberá críticas dirigidas ao seu “pensamento criacionista-sonhático“. O que é isto?! Mistura de “criacionismo” — rejeição, por motivação religiosa, de certos processos biológicos científicos, particularmente, a Teoria da Evolução de Charles Darwin — e rejeição ao pragmatismo político que exige alianças políticas no Congresso para conseguir governar o País.

Ela terá que provar que saberá governar o País sem o desmanche dos projetos social-desenvolvimentistas, em andamento, seja na Amazônia (hidrelétrica do Belo Monte), seja no Pré-Sal. Continuar a ler

Escola de Campinas: Uma Linha de Pensamento Econômico

Ensino Superior UNICAMPCaro professor Fernando,

O artigo foi publicado hoje de manhã, é a manchete do site e tem chamada também no Portal Unicamp.
Mais uma vez, MUITO obrigado por sua valiosa colaboração.
Aqui está o link:
grande abraço,

Ricardo Whiteman Muniz
editor executivo
revista Ensino Superior
Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
Labjor / Unicamp

Tucanistão (por Vladimir Safatle)

vladimir safatleVladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Publicou (FSP, 05/08/14) o seguinte artigo, desde já, um “clássico da ironia política”.

“Bem-vindos ao Tucanistão, a terra da plena felicidade. Vocês acabam de desembarcar no aeroporto internacional que leva o nome do fundador de nossa dinastia, governador de nossa terra há 32 anos. Desde então, nossa amada dinastia está presente no coração de nosso povo de maneira praticamente ininterrupta. Continuar a ler

Crença

Tracos_crença

Segundo Roman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor, “nossas crenças são parte essencial do que somos. Poucas pessoas irão abrir mão de suas vidas por elas, mas a maioria tem os valores e princípios segundo os quais aspiramos a viver e que ajudam a definir nossa identidade. Essas crenças são muitas vezes expressões de ensinamentos religiosos ou credos políticos”.

Nossas crenças são uma lente através da qual vemos não só o mundo, como também a nós mesmos. Elas guiam as escolhas que fazemos, mas são, ao mesmo tempo, um padrão contra o qual julgamos nossas ações.

No entanto, poucos de nós praticam a auto subversão das próprias crenças. Só as questionamos muito raramente. Einstein comentou: “o senso comum é a coleção de preconceitos que adquirimos antes dos dezoito anos”…

Não submetemos nossas crenças a exame sistemático. Sócrates nos exortou a não a viver a vida sem questioná-la. Continuar a ler