Heranças e Diversidades: Identidades Verticais e Horizontais

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Andrew Solomon escreveu um livro extraordinário: Longe da Árvore: Pais, Filhos e a Busca da Identidade (tradução Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo, Pedro Maia Soares. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2013). Nele, estuda os casos de heranças e diversidades, inicialmente, indesejadas seja pelos pais seja pelos filhos. Depois, a arte de viver leva a superar essa repulsa inicial e aceitar as identidades verticais e horizontais.

Na medida em que nossos filhos se parecem conosco, eles são nossos admiradores mais preciosos, e, na medida em que são diferentes, podem ser os nossos detratores mais veementes.

Devido à transmissão de identidade de uma geração para a seguinte, a maioria dos filhos compartilha ao menos algumas características com os pais. São o que chamamos de identidades verticais. Atributos e valores são transmitidos de pai para filho através das gerações, não somente através de cadeias de DNA, mas também de normas culturais compartilhadas. Continuar a ler

Nacionalismo

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Ao lado da religião, o nacionalismo é uma de nossas mais poderosas fontes de crença. Apela-se para a intensidade do orgulho nacional para justificar a torcida para as seleções esportivas nacionais. Em geral, os patriotas acreditam que o que há de melhor no mundo em matéria de praias, clima, café, comida e “estilo de vida” em geral. Como é possível que uma pessoa queira viver em qualquer outro lugar quando o paraíso na Terra está aqui?!

Embora a lealdade à própria nação seja amplamente difundida entre as pessoas de quase todos os países, pode ser difícil definir que crenças estão envolvidas no nacionalismo como faz Roman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor.

Uma primeira forma de crença é a ideia de que nossa nação é superior às outras em aspectos particulares, como realizações culturais, beleza natural ou proezas esportivas. Cada povo acredita que tem a melhor comida do mundo. Todos têm igual convicção, simplesmente, devido ao hábito alimentar.

George Bernard Shaw reconheceu o absurdo disso tudo ao observar que “patriotismo é sua convicção de que um país é superior a todos os outros porque você nasceu nele”. Continuar a ler

Como Mudar de Opinião

ateus e cristaos

Durante a Grande Depressão, o economista John Maynard Keynes mudou suas ideias a respeito de política monetária. Quando criticado por incoerência, perguntou: “Quando os fatos mudam, mudo de opinião. E o senhor, o que faz?”

Método Científico X Método CriacionistaCom que frequência mudamos nossas crenças? Talvez não haja nada mais difícil que isso, em especial porque tantas delas – como as que têm origem no nacionalismo e na religião – são heranças culturais inculcadas durantes nossas impressionáveis infância e juventude. Além disso, nossas crenças podem estar tão entranhadas em nossas psiques que se tornam elementos inconscientes de nossa visão de mundo.

Precisamos compreender o que é necessário para mudar nossas crenças. Teremos de ser confrontados com novos fatos ou talvez com novas experiências ou novos argumentos? Se não soubermos o que altera nossas crenças, ou se estivermos convencidos de que nada poderia mudá-las, corremos o risco de ficarmos na obscuridade do dogma.

Dogma é o ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar. Pode ser visto como qualquer doutrina (filosófica, política, etc.) de caráter indiscutível em função de supostamente ser uma verdade aceita por todos que professam aquele credo. É um princípio estabelecido, uma opinião firmada, um preceito, uma máxima. Qualquer opinião sustentada em fundamentos irracionais e propagada por métodos que também o são pode ser vista como dogmática. Nas religiões, especialmente entre cristãos, doutrina dogmática é a atribuída a uma autoridade acima de qualquer opinião ou dúvida particular que possa ter um crente qualquer… Continuar a ler

Crença

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Segundo Roman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor, “nossas crenças são parte essencial do que somos. Poucas pessoas irão abrir mão de suas vidas por elas, mas a maioria tem os valores e princípios segundo os quais aspiramos a viver e que ajudam a definir nossa identidade. Essas crenças são muitas vezes expressões de ensinamentos religiosos ou credos políticos”.

Nossas crenças são uma lente através da qual vemos não só o mundo, como também a nós mesmos. Elas guiam as escolhas que fazemos, mas são, ao mesmo tempo, um padrão contra o qual julgamos nossas ações.

No entanto, poucos de nós praticam a auto subversão das próprias crenças. Só as questionamos muito raramente. Einstein comentou: “o senso comum é a coleção de preconceitos que adquirimos antes dos dezoito anos”…

Não submetemos nossas crenças a exame sistemático. Sócrates nos exortou a não a viver a vida sem questioná-la. Continuar a ler

Empatia de Massa e Mudança Social

Empatia entre pintos

A ideia de empatia tem nítida conotação moral e muitas vezes é associada a “ser bom”. Mas a empatia experiencial sugere que é muito mais interessante expandir nossa mente fazendo intercâmbio para dentro da vida de outras pessoas – e permitindo-lhes ver a nossa. Em vez de perguntar a nós mesmos “Para onde posso ir da próxima vez?”, a pergunta adequada seria: “No lugar de quem posso me colocar da próxima vez?”

empatia entre gatosRoman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor, afirma que “a empatia também é um fenômeno de massa, com o potencial de produzir mudança social básica. Muitas das mudanças mais importantes na história não ocorreram quando houve uma troca de governo, de leis ou sistemas econômicos, mas quando houve um florescimento de empatia coletiva em relação a estranhos que serviu para criar novos tipos de compreensão mútua e construir pontes sobre as divisões sociais”.

Esses momentos do passado são relevantes para a arte de viver. Por que? Porque participar de movimentos empáticos de massa nos ajuda a escapar da camisa de força de nosso individualismo e nos faz sentir conectados a algo maior que nós mesmos. Encontramos sentido e realização na vida não apenas ao perseguir ambições privadas, mas por meio de ação social em que nos juntamos a outros em busca de metas comuns. Continuar a ler

Empatia

Resiliência e Empatia

A empatia é a arte de se pôr no lugar do outro e ver o mundo de sua perspectiva. Ela requer um salto da imaginação, de modo que sejamos capazes de olhar pelos olhos dos outros e compreender as crenças, experiências, esperanças e os medos que moldam suas visões do mundo.

Tecnicamente conhecida como “empatia cognitiva”, não é uma questão de sentir pena de alguém – isso é comiseração ou piedade –, mas de tentar nos transportar para o personagem e a realidade vivida de outrem. Olhar a vida do ponto de vista do outro não só nos permite reconhecer suas dores ou alegrias, mas pode nos estimular a agir em favor dele. Imaginar como é ser uma pessoa diferente da que somos está no cerne de nossa humanidade.

No entanto, a empatia importa não apenas por nos tornar bons, mas por ser boa para nós. Ela tem o poder de:

  1. curar relacionamentos desfeitos,
  2. erodir nossos preconceitos,
  3. expandir nossa curiosidade em relação a estranhos, e
  4. nos fazer repensar nossas ambições.

Em última análise, a empatia cria os vínculos humanos que tornam a vida digna de ser vivida. Desenvolver nossa empatia é essencial para o bem-estar pessoal. O especialista em Economia da Felicidade, Richard Layard, defende “o cultivo deliberado do instinto primitivo da empatia” porque “se você se importa mais com os outros que consigo mesmo, tem maior probabilidade de ser feliz”. Continuar a ler

Economia do Compartilhamento

Economia do Compartilhamento

Em complemento ao post anterior, Vida Simples, compartilho uma reportagem sobre inovações no estilo de vida contemporâneo, pós-CGC (Crise Geral do Capitalismo) e pós-TIC (Tecnologia de Informações e Comunicações).

Alexandre Rodrigues (Valor, – Eu&Fim-de-Semana, 25/07/14) informa que cento e vinte mil turistas viajaram pelo Brasil sem um hotel onde ficar durante a Copa do Mundo, segundo o Airbnb, site de hospedagens americano. No caso de muitos turistas, não foi acertada pela rede hoteleira, mas justamente por meio do Airbnb, que opera no Brasil desde 2012.

Esquemas de compartilhamento como o Airbnb criaram uma economia em áreas que pouco haviam sido monetizadas antes. Nas sombras da economia formal, transações de pessoa para pessoa, chamadas de P2P (sigla em inglês para de Pessoa para Pessoa), já movimentam US$ 3,5 bilhões por ano nos Estados Unidos, segundo a consultoria americana Gartner. No país, envolvem não apenas hospedagem como compartilhamento de carros, pequenos trabalhos e aluguel de ferramentas, roupas e praticamente qualquer objeto.

Em essência, essa economia de pequenos serviços não é muito diferente do que ocorria quando alguém oferecia serviços em um mural ou emprestava algo a conhecidos. Mas o surgimento dos smartphones, combinado com a internet, tornou mais fácil contratá-los. Mapas e GPS permitem encontrar um táxi, uma furadeira ou um apartamento para alugar. Redes sociais e recomendações dos usuários ajudam a estabelecer confiança e os pagamentos on-line evitam calotes. Continuar a ler

Vida Simples

A vida é simples

A história da vida simples, na sociedade consumista norte-americana, passou pelas comunas hippies dos anos 1960, seguidas pela ascensão do movimento anticonsumista ecologicamente consciente dos anos 1970, cujo objetivo era “obter o máximo de bem-estar com o mínimo de consumo”. A filosofia da “simplicidade voluntária” promovia o consumo consciencioso em vez do consumo conspícuo e uma vida exteriormente simples, internamente rica. Mas será que nós do século XXI podemos viver uma vida boa sem tirar a carteira do bolso a todo instante?

Essa é a pergunta-chave que Roman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor, se coloca. O ponto de partida mais prático é reduzir o consumo cotidiano. Comprar a maior parte de nossas roupas em segunda mão em bazares de caridade ou brechós. Utensílios de cozinha, utilidades domésticas diversas e mesmo carros só usados, especialmente, comprados de “família viaja e vende tudo”. Cultivar em horta comunitária, apoiar produtores locais e raramente comer em restaurantes, preferindo reunir pessoas em volta da mesa de casa.

Casa com beleza rústica com móveis feitos de madeira reaproveitada é possível de ser construída e habitada. Recolher sem constrangimento bens doados por pessoas que não os querem mais — é possível descobri-los, navegando em certos sites da internet. Morar em habitação cooperativa administrada por locatários é uma alternativa.

Radicalizando, alguns ecologicamente corretos só usam software de código aberto gratuito. Utilizam só bicicleta e transporte público. O passeio preferido é excursão a pé em um parque acessível…

A meta é nunca trabalhar mais de 24 horas por semana! A principal questão financeira da vida não seria “quanto dinheiro eu gostaria de ganhar”, mas sim “qual é o mínimo de dinheiro que necessito para viver?” Continuar a ler

Consumismo

Consumismo (1)

Em Sobre A Arte De Viver, Roman Krznaric analisa as lições que o passado oferece, inclusive a respeito dos dois aspectos simétricos da história do dinheiro:

  1. como o consumismo se tornou ideologia dominante de nossa era; e
  2. se podemos prosperar na frugalidade, tornando-nos especialistas em vida simples.

Pela primeira vez na história, no século XX, fazer compras tornou-se uma forma de lazer. Ao entregarem-se a uma pequena terapia “comprista”, quase um entre dez ocidentais se tornaram oniomaníacos, ou seja, viciados em compras. A farra comprista tornou-se o modo de levantar o ânimo ou a autoestima. A maioria das pessoas deseja os confortos, conveniências e belezas do consumismo. O pensamento do “eu mereço” predomina como autojustificativa. Na sociedade do consumo, expressa-se quem somos através do que compramos, tipo “compro, logo existo”…

Essa cultura consumista é um desenvolvimento recente pós-industrial. Antes, o ato de comprar, em si, não era considerado uma rota para a satisfação pessoal ou a autorrealização. A palavra “consumidor”, até meados do século XVIII, era pejorativa e designava o sujeito esbanjador ou perdulário. Foi só a partir do início do século XX que confundimos a vida boa com uma vida de bens.

A origem e a ascensão do hábito de fazer compras está nas novas atitudes em relação à riqueza que emergiram no início do período moderno entre os séculos XVI e XVIII. Antes, a preocupação maior era evitar a pobreza em vez de enriquecer. Com o capitalismo comercial adquirir riqueza tornou-se ambição pessoal muito difundida. Continuar a ler

Amor em Pedaços X O Mito do Amor Romântico

Amor em pedaços

Em Sobre A Arte De Viver, Roman Krznaric analisa as lições que o passado oferece, no caso, a respeito do amor.

A ideia do amor apaixonado, romântico, que emergiu no Ocidente durante o último milênio é uma de nossas heranças culturais mais destrutivas. Isso porque sua principal aspiração – a descoberta de uma alma gêmea – é praticamente inatingível.

Podemos passar anos à procura dessa pessoa elusiva que satisfará todas as nossas necessidades emocionais e nossos desejos sexuais, que nos proporcionará amizade e autoconfiança, conforto e risos, estimulará nossas mentes e compartilhará nossos sonhos. Imaginamos que existe alguém no éter amoroso que é nossa outra metade perdida, e que nos fará sentir completos, bastando apenas que possamos fundir nosso ser com o dele na sublime união do amor romântico. Continuar a ler

Sobre A Arte de Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor

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Roman Krznaric, historiador da cultura e membro docente fundador da The School of Life de Londres, lecionou sociologia e política na Universidade de Cambridge e na City University. É conselheiro de inúmeras organizações, entre as quais a Oxfam e as Nações Unidas. Autor de Como encontrar o trabalho da sua vida e How Changes Happens, foi descrito pelo Observer com um dos mais importantes pensadores britânicos dedicados ao estudo dos estilos de vida. Para saber mais sobre o autor, acesse: http://www.romankrznaric.com

Para resolver nossos problemas cotidianos, estamos habituados a recorrer a:

  1. a sabedoria dos filósofos que se dedicaram às questões da vida, do Universo e de todas as coisas;
  2. os ensinamentos das religiões e dos pensadores espirituais;
  3. a ciência da felicidade desenvolvida pelos psicólogos, que oferece pistas para resolver velhos hábitos e manter uma visão positiva.

Há ainda o conselho dos gurus da autoajuda, que muitas vezes empacotam todas essas abordagens de maneira simplória em um projeto de cinco itens. Existe, no entanto, uma área a que poucos recorrem para equacionar nossos dilemas: a história.

Para o historiador da cultura Roman Krznaric, conhecendo a história e os diferentes modos de vida de nossos ancestrais, podemos adaptá-los às necessidades de nosso tempo. Em Sobre A Arte De Viver, o autor analisa as lições que o passado oferece, explorando doze temas universais – do trabalho ao amor, do dinheiro à criatividade (veja sumário em pdf abaixo) – e revelando a sabedoria que falta para enfrentar, entre outros desafios cotidianos:

  1. o declínio do diálogo nas famílias,
  2. a insatisfação no trabalho ou ainda
  3. a excessiva individualização do amor.

Há muito o que aprender com:

  1. a Grécia Antiga sobre as variedades do amor;
  2. a Grã-Bretanha da Revolução Industrial sobre a satisfação no trabalho;
  3. a Europa medieval sobre paixão e morte; e
  4. os antigos peregrinos japoneses sobre a arte de viajar.

Nesse campo de conhecimento, destacam-se personagens de todas as épocas e partes do mundo: de Gandhi a Goethe, de Galileu a George Orwell. Com linguagem acessível, essa obra de “história aplicada” – assim como o Freakonomics se utiliza de microeconomia aplicada a temas excêntricos ou inusitados, e o Mais Platão Menos Prozac recorre à filosofia aplicada à vida cotidiana – joga uma nova luz sobre as decisões que tomamos no dia a dia. Continuar a ler

Um estatístico se afogou atravessando um rio que tinha, em média, um metro de profundidade…

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Nate Silver, guru das previsões políticas nos Estados Unidos, autor do livro intitulado “O sinal e o ruído”, afirma que “os resultados das pesquisas de opinião em campanhas políticas costumam vir devidamente acompanhados das respectivas margens de erro, um indicador de que contém certo grau de incerteza. Por outro lado, em previsões econômicas, na maioria das vezes, menciona-se apenas um número, por exemplo, a economia criará 150 mil empregos no próximo mês; a previsão de crescimento do PIB para o ano que vem é de 3%; o preço do barril de petróleo chegará a 120 dólares.”

Isso gera a noção de que essas previsões são incrivelmente precisas. É comum vermos nos cadernos de Economia manchetes que expressam surpresa diante de qualquer pequeno desvio, por exemplo, “Aumento inesperado na taxa de desemprego: taxa de desemprego de 9,2% aflige mercados”. Lendo as letras miúdas dessa matéria, descobrimos que o resultado “inesperado” foi a taxa de desemprego ter sido 9,2% — e não 9,1%, como os economistas haviam projetado. Se um erro de um décimo foi suficiente para o assunto virar notícia, parece que essas projeções devem ser muito confiáveis.

No entanto, elas são, no máximo, instrumentos grosseiros que em geral conseguem prever pontos de virada econômicos com apenas alguns meses de antecedência. Na verdade, várias vezes esses instrumentos não conseguiram “prever” recessões mesmo depois que elas já se haviam instalado: a maior parte dos economistas americanos só percebeu as três últimas crises — em 1990, 2001 e 2007 — depois que elas haviam começado! Continuar a ler