Eleição entre A Religião e A Ciência

Bertrand Russell, 1951

Nesta campanha eleitoral em que a disputa se dá entre uma crente evangélica e uma defensora do Estado laico, vale (re)ler o texto clássico de Bertrand Russel, intitulado A Filosofia entre A Religião e A Ciência. Vamos apresentá-lo em uma série de pequenos posts, sublinhando seus conceitos-chave.

Os conceitos da vida e do mundo que chamamos “filosóficos” são produtos de dois fatores:

  1. um, constituído de fatores religiosos e éticos herdados;
  2. o outro, pela espécie de investigação que podemos denominar “científica”, empregando a palavra em seu sentido mais amplo.

Os filósofos, individualmente, têm diferido amplamente quanto às proporções em que esses dois fatores entraram em seu sistema, mas é a presença de ambos que, em certo grau, caracteriza a Filosofia.

Filosofia” é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras, umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empregá-la em seu sentido mais amplo, como Russel procura explicar adiante.

A Filosofia, conforme Bertrand Russel entende a palavra, é algo intermediário entre a Teologia e a Ciência.

Como a Teologia, consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como Ciência, apela mais à razão humana do que à autoridade, seja esta a da tradição ou a da revelação.

Todo conhecimento definido pertence à Ciência; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à Teologia.

Mas entre a Teologia e a Ciência existe uma Terra de Ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ninguém é a Filosofia. Continuar a ler

Estado Laico X Moral Religiosa Conservadora

Marcha Conservadora

Renata Batista (Valor, 09/09/14) informa que a crescente força da questão religiosa e de debates como o da união civil de homossexuais na política reflete o conservadorismo dos brasileiros. A avaliação é do Ipsos Public Affairs, instituto de pesquisa com atuação em 86 países. O Ipsos acaba de fechar um estudo de comportamento em 20 países, mas as respostas dos brasileiros foram, inicialmente, desconsideradas pelos analistas estrangeiros que consolidaram os dados globais para estudos específicos sobre a questão feminina e sobre as causas homossexuais.

“Eles acharam que tinha alguma coisa errada pois as respostas não eram consistentes com a imagem que tinham do país“, resume o diretor do Ipsos no Brasil, Dorival Mata Machado, que na época estava chegando na empresa e precisou avaliar os resultados ponto a ponto para reverter a situação.

 Para Machado, as respostas também estão distantes do próprio imaginário do brasileiro, que não percebe esse viés. “O conservadorismo moral do brasileiro está mais próximo de países percebidos internamente como mais fechados ou com forte influência religiosa, como China e Índia, do que de vizinhos da América Latina, como a Argentina”, avalia, e faz o contraponto com a imagem externa do país. “Lá fora, existe uma percepção do Brasil não tão conservador. Eles percebem que o país está crescendo, mudando, e não têm ideia de que é uma sociedade calcada em uma posição conservadora, principalmente na base da sociedade. Não conseguem entender a distância entre o Brasil novo e as posições conservadoras”. Em outras palavras, os estrangeiros não entendem a herança maldita de um regime escravocrata, com larga influência da Igreja Católica e agora, pior, da Igreja Evangélica, que coloca em risco o Estado laico em caso da vitória eleitoral da Marina Silva.

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Posfácio de “A Nascente” (por Leonard Peikoff)

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Antes de começar um romance, Ayn Rand escrevia copiosamente em seus diários a respeito do tema, dos personagens e do enredo. Ela escrevia não para qualquer outro leitor, mas para si mesma – para alcançar maior clareza em sua própria compreensão. Entretanto, para os seus admiradores, os diários de A Nascente são uma cornucópia de tesouros. Entre outras coisas, eles incluem os primeiros esboços dos personagens, anotações indicando a evolução do enredo, sua própria análise do primeiro rascunho da Parte I e uma ampla pesquisa sobre arquitetura, com passagens de livros de várias autoridades copiadas à mão e seguidas de seus próprios comentários. Permeando os diários, é claro, de uma forma ou de outra, há também filosofia – ou seja, as ideias que terminariam por culminar no objetivismo. Continuar a ler

Defesa de Howard Roark no livro “A Nascente” de autoria de Ayn Rand

A nascente

“– Há milhares de anos, o primeiro homem descobriu como fazer o fogo. Ele provavelmente foi queimado na fogueira que ensinara seus irmãos a acender. Foi visto como um homem maligno que havia tratado com um demônio temido pela humanidade. Mas, a partir de então, os homens possuíram o fogo para aquecer-se, para cozinhar sua comida, iluminar suas cavernas. Ele lhes deixou uma dádiva que não haviam concebido e removeu a escuridão da face da Terra.

Séculos mais tarde, o primeiro homem inventou a roda. Ele provavelmente foi despedaçado na própria roda que ensinara seus irmãos a construir. Foi visto como um transgressor que se aventurou em território proibido. Mas, a partir de então, os homens puderam viajar além de qualquer horizonte. Ele lhes deixou uma dádiva que não tinham concebido e abriu as estradas do mundo.

Esse homem, o primeiro, que não se submete a ninguém, figura nos primeiros capítulos de todas as lendas que a humanidade já registrou sobre suas origens. Prometeu foi acorrentado a uma rocha e despedaçado por abutres… porque roubou o fogo dos deuses. Adão foi condenado a sofrer… porque comeu o fruto da árvore do conhecimento. Qualquer que fosse a lenda, em algum lugar nas sombras de sua memória, a humanidade sabia que sua glória começou com um único homem, e que ele pagou pela sua coragem.

Ao longo dos séculos, existiram homens que deram os primeiros passos em novos caminhos, armados apenas com sua própria visão. Seus objetivos variavam, mas todos eles tinham algo em comum: o seu passo era o primeiro, o seu caminho era novo, a sua visão era original e a reação que receberam… o ódio.

Os grandes criadores… pensadores, artistas, cientistas, inventores… – enfrentaram sozinhos os homens de seu tempo. Todas as grandes ideias originais foram atacadas. Todas as invenções revolucionárias foram denunciadas. O primeiro motor foi considerado uma bobagem. O avião, impossível. A máquina de tear, maligna. A anestesia, pecaminosa. Mas os homens de visão independente seguiram adiante. Eles lutaram, sofreram e pagaram. Mas venceram. Continuar a ler

Individualismo do Criador X Altruísmo do Parasita

Ter empatia — processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro — é necessário para verificar se vale a pena ter uma atitude cooperativa com seu adversário em um jogo de antagonismo. É uma forma de cognição do eu social mediante três aptidões:

  1. para se ver do ponto de vista de outrem,
  2. para ver os outros do ponto de vista de outrem, ou
  3. para ver os outros do ponto de vista deles mesmos.

Essa atitude não implica em ter simpatia — afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas ou a faculdade de compenetrar-se das ideias ou sentimentos de outrem. Não tenho atração por discursos de ódio como o anticomunista e/ou o anticoletivista. Mas Ayn Rand tem muita capacidade de formular uma argumentação inteligente a favor do criador independente, que se apresenta como individualista, e contra o parasita, que se diz altruísta.

Gosto da postura independente. Acho intelectualmente necessário submeter, de tempo em tempo, minhas ideias a um processo de autosubversão, ou seja, de testes de minhas hipóteses para verificar se elas se sustentam de maneira racional para mim. Ler os adversários e verificar se é o caso de rever meus conceitos — meus, individuais e intransferíveis na responsabilidade pessoal de adotá-los.

Por exemplo, pelo que vi do Programa do PSB e das declarações do Eduardo Giannetti, assusta-me vislumbrar o ultraliberalismo ganhando eleição no País. Alternância de poder exige buscar criar um consenso social em torno das ideias oposicionistas. Será que todos os eleitores conhecem e medem as consequências práticas das ideias ultraliberais dos assessores econômicos da Marina Silva? Ela própria sabe o que virá caso seja eleita?

Os livros de Ayn Rand têm o maior sucesso editorial nos Estados Unidos depois da Bíblia. Li (e gostei de) o romance A Nascente – Ayn Rand. Queria conhecer a razão do individualismo ter tantos adeptos lá — e catequizar discípulos acá no Instituto Ludwig von Mises, Instituto Millenium, PUC-Rio e coisas como tais…

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Limites do Conhecimento: Idealismo Transcendental

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A posição filosófica que sustenta que certo estado ou atividade da mente é anterior e mais fundamental do que as coisas experimentadas é chamada de idealismo. Kant nomeou sua própria posição de idealismo transcendental.

Ele insistiu que espaço, tempo e certos conceitos são características do mundo que experimentamos, ou seja, do mundo fenomenal, em vez de características do mundo em si, considerado separadamente da experiência dos sentidos, ou seja, referente ao mundo numênico. Este adjetivo refere-se a númeno ou numenal.

No kantismo, númeno é a realidade tal como existe em si mesma, de forma independente da perspectiva necessariamente parcial em que se dá todo o conhecimento humano. A coisa em si é nômeno, noúmeno. Embora possa ser meramente pensado, por definição é um objeto incognoscível. Estabelece-se por oposição a fenômeno.

As alegações sobre o conhecimento a priori têm consequências positivas e negativas. Continuar a ler

Intuições e Conceitos: Crítica da Razão Pura por Kant

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Em sua obra mais famosa, Crítica da Razão Pura (1781), Kant argumenta que nossa experiência de mundo envolve dois elementos:

  1. sensibilidade”: nossa capacidade de experimentar diretamente coisas particulares no espaço e no tempo – essa experiência direta ele chama de intuições.
  2. entendimento” – nossa capacidade de ter e usar conceitos, que é uma experiência indireta com as coisas.

Sem conceitos não saberíamos que nossa intuição era a de um determinado objeto.

Sem intuições, nunca saberíamos que existem essas coisas.

Cada um desses elementos tem, por sua vez, dois lados:

  1. na sensibilidade está a minha intuição de uma coisa particular no espaço e no tempo e a minha intuição de espaço e tempo como tal.
  2. no entendimento está o meu conceito de algum tipo de coisa e meu conceito de uma “coisa” como tal substância.

Um conceito como substância define o que significa ser uma coisa em geral, em vez de definir algum tipo de coisa. Continuar a ler