Previsor diz que não é Cassandra, a Profetisa

Cassandra em Troia

A mitologia grega conta como Cassandra e o seu irmão gêmeo, Heleno, ainda crianças, foram ao Templo de Apolo brincar. Os gêmeos brincaram até ficar demasiado tarde para voltarem para casa, e assim, foi-lhes arranjada uma cama no interior do templo. Na manhã seguinte, a ama encontrou as crianças ainda a dormir, enquanto duas serpentes passavam a língua pelas suas orelhas. A ama ficou aterrorizada mas as crianças estavam ilesas. Como resultado do incidente os ouvidos dos gêmeos tornaram-se tão sensíveis que lhes permitiam escutar as vozes dos deuses.

Cassandra tornou-se uma jovem de magnífica beleza, devota servidora de Apolo. Foi de tal maneira dedicada que o próprio deus se apaixonou por ela e ensinou-lhe os segredos da profecia. Cassandra tornou-se uma profetisa, mas quando se negou a dormir com Apolo, ele, por vingança, lançou-lhe a maldição de que ninguém jamais viesse a acreditar nas suas profecias ou previsões.

Cassandra passa a ser considerada como louca ao tentar comunicar à população troiana as suas inúmeras previsões de catástrofe e desgraça. A falta de credibilidade das previsões e profecias de Cassandra levou à queda e consequente destruição de Troia, quando esta viu frustradas as suas sucessivas tentativas de implorar a Príamo que ele destruísse o cavalo de madeira (Cavalo de Troia) engendrado por Ulisses para a conquista de Troia pelo seu interior.

Moral da estória: Ninguém dá fé para quem (ateu heterodoxo como eu) não se entrega aos deuses… Acabam se ferrando! :)

Assis Moreira (Valor, 22/07/14) alerta que a economia mundial pode esperar outra crise já para abril de 2015, que duraria pelo menos um ano. Essa é a previsão do professor Arturo Bris, diretor do Centro de Competitividade Mundial da escola de administração IMD, de Lausanne (Suíça), considerada uma das melhores do mundo.

Alertas sobre mercados muito aquecidos como imobiliário, de ações e de títulos de dívida de longo prazo, que poderiam causar outra crise econômica, têm se multiplicado nos ultimos tempos. Mas certos analistas notam que prever uma próxima grande turbulência global está se tornando uma espécie de esporte ultimamente.

Cssandra's TaleBris, porém, que ensinou também finanças na Universidade de Yale (EUA) por vários anos, procura deixar claro que não é uma “Cassandra” (em referência à figura da mitologia grega que tentava comunicar à população suas inúmeras previsões de catástrofe e desgraça). Em entrevista ao Valor, ele argumenta se basear em análises estatísticas e aponta oito cenários possíveis que podem ser a causa da crise, dentro de nove meses.

A frequência de uma crise é a cada sete anos, exatamente a cada 58 meses“, afirma. “Se pegamos a última crise em seu pico, em fevereiro de 2009, a seguinte vai ocorrer no ano que vem.” Já o Nobel de Economia Roberto Schiller admite a frequência de turbulências, mas estima que de fato só houve três grandes crises globais em cem anos: 1929-33, 1980-82, e 2007-9. Continuar a ler

Bolhas? Ora bolas…

Four-Horsemen-of-the-Apocalypse

Economistas sonham “equilíbrios” e têm pesadelos com “bolhas”. Ficaram muito traumatizados com a inadvertência profissional pré-Grande Crash de 2008. Era óbvio para (quase) todos que se estava inflando uma “bolha imobiliária” nos EUA (e na Espanha também) desde 2001, mas o “efeito-riqueza” inebriava quem dela se beneficiava, no caso, vendendo “consultorias” aconselhando alavancagem financeira, e aí daquele “terrorista” que ousasse “furar a bolha”… Teria perdida sua boa reputação, junto o bom nome profissional, duramente construído, sendo totalmente desacreditado, depreciado, desonrado.

Agora, os economistas midiáticos ficaram obcecados com os riscos de bolhas. Em vez de em apontar caminhos para a retomada do crescimento mudial — a la Schumpeter: inovação – empreendedorismo – crédito –, estão com a razão obscurecida e insistem no erro de “Maria vai com as outras”. Continuam irracionalmente inflexíveis, obstinados, teimosos. Só que, desta vez, foram todos para o lado oposto. Viraram catastrofistas, anunciando o “Apocalipse Now” a todo momento, alertando que caminhamos irremediavelmente para o abismo. Perguntinha-chave: quando ocorrerá essa catastrofe? Se os empreendedores neles acreditarem, não investirão e não tomarão crédito para a alavancagem financeira de suas atividades. E a profecia autorrealiza…

Sérgio Lamucci (Valor, 21/07/14) entrevistou um deles para o qual “há bolhas de ativos em todos os lugares” (!). O alerta recorrente, porém inoperante, é de William White, ex-economista-chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), preocupado com os efeitos colaterais da política monetária ultraexpansionista adotada nos países desenvolvidos. “Os mercados de ações estão em níveis recordes de alta. Bônus livres de risco estão em níveis recordes de baixa. O custo de fazer hedge ou cobertura está em recorde de baixa, como indicado pelo VIX, o chamado ‘índice do medo’. Há uma grande possibilidade de problemas à frente por causa desses acontecimentos“, afirma ele, para quem há excessos tanto em países desenvolvidos como emergentes.

Para White, enfrentar esses excessos pede “provavelmente” uma combinação de juros mais altos e instrumentos macroprudenciais. É uma visão bastante diferente da apresentada no começo do mês pela presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Janet Yellen [leia post anterior], que deixou claro ver com reservas altas de juros para combater eventuais bolhas, preferindo as ferramentas macroprudenciais, como mudar o nível de exigência de capital dos bancos. Continuar a ler

EUA: Economia de Bolhas e o Fed

Retomada da Bolha de Ações em NY

Boas notícias sobre a economia dos Estados Unidos empurraram a Média Industrial Dow Jones acima dos 17.000 pontos pela primeira vez ontem, fortalecendo a convicção entre os investidores que o mercado altista, que já dura cinco anos, ainda tem espaço para subir mais.

O recorde, que foi atingido apenas 153 pregões depois de o Dow Jones ter fechado pela primeira vez acima de 16.000 pontos, em 21 de novembro de 2013, marca também a sétima alta de 1.000 pontos mais rápida da história do índice. Com o avanço recente, o Dow acumula uma alta de 3% e 14 recordes batidos no ano até agora. Nos últimos 12 meses, o índice subiu quase 14%.

O salto para acima dos 17.000 foi estimulado por um relatório da Agência de Estatísticas do Trabalho dos EUA informando que o país adicionou 288.000 postos de trabalho em junho, bem acima dos 215.000 previstos pelos economistas.

A taxa de desemprego, nos EUA, caiu inesperadamente para 6,1% no mês passado, ante 6,3% em maio.

A força dos dados de junho de 2014 levou alguns analistas e investidores a se perguntar se o Federal Reserve, o banco central americano, vai elevar os juros antes do esperado em meados do próximo ano. A probabilidade de o Fed aumentar os juros na sua reunião de junho de 2015 subiu para 57% depois da divulgação do relatório, ante 51% na véspera, segundo a avaliação do CME Group. Há um mês, a probabilidade era de 43%. O rendimento das notas de dez anos do Tesouro americano subiu ligeiramente, para 2,65% ao ano.

Por enquanto, os investidores em ações não veem uma alta nos juros como uma preocupação imediata, considerando a ausência de pressões inflacionárias. Veja o resumo do discurso da presidente do Fed abaixo.

Por outro lado, a melhora do mercado de trabalho foi recebida como um sinal de que a economia pode sustentar uma alta ainda maior das bolsas neste ano.

“Isso confirma que as tendências econômicas mais amplas estão bem saudáveis”, segundo um analista de O Mercado. É ver para crer… Continuar a ler

A Copa do Mundo Acabou e A Crise Mundial Continua…

 

Crescimento Mundial sob CriseModelo de Crescimento InsustentávelCondições monetárias e financeirasLucros Retidos dos Bancos

Eu estava feliz… e sabia! Imaginem sem a Copa… Ainda bem que não padecemos sob a visão tacanha dos neoliberais…

Sete anos depois, a Grande Crise Financeira ainda lança uma longa sombra sobre a economia mundial. A boa notícia é que a economia global está se recuperando e o crescimento global tem avançado desde o ano passado. As reformas vão sendo feitas, embora de forma desigual. A recuperação nas economias avançadas ampliou bastante. A zona do euro tem, finalmente, emergido da recessão, enquanto a desaceleração nas economias de mercado emergentes (EMES) parece ter diminuído. A expectativa de consenso é do crescimento global de retornar gradualmente às taxas pré-crise (Gráfico 1).

A má notícia é que os desafios continuam a ser graves e novos riscos estão surgindo. Pelos padrões históricos, a recuperação tem decepcionado. Mas isso não deve ser surpreendente. Consumidores, empresas e bancos nas economias em crise ainda estão reparando seus balanços às voltas com uma sobrecarga de dívida. Desalavancagem financeira do setor privado está mais avançada nos Estados Unidos; em outros países, incluindo grandes extensões de área do euro, ainda há muito trabalho em andamento.

Durante o boom, os recursos foram mal distribuídos, em grande escala, e por isso vai levar tempo para movê-los para usos novos e mais produtivos. Enquanto isso, uma série de economias emergentes mudou-se para a fase final de seus próprios booms financeiros, devido à explosão da bolha de commodities. Embora esses booms tenham ajudado a livrar a economia global da Grande Recessão, os investidores já estão enfrentando nos EME uma ampla gama de riscos econômicos. E esses riscos não podem ser totalmente compensados pela margem de manobra suplementar que a política anticíclica adotada nas economias emergentes produziram por si mesmos ao longo dos últimos anos.

 The financial cycle, the debt trap and secular stagnation

Presentation by Claudio Borio, Head of the Monetary and Economic Department

 The changing face of financial intermediation
Presentation by Hyun Song Shin, Economic Adviser and Head of Research

Previsões “bullshit” de charlatães como economistas, professores universitários e jornalistas de opinião

Cisne Negro

Phillipa Leighton-Jones e Jon Sindreu (The Wall Street Journal, 11/07/14) informa que as previsões do Goldman Sachs para a Copa do Mundo, superadas até certo ponto por um polvo, foram pegas de surpresa pela realidade. Um modelo complicado que previa que o Brasil ganharia o torneio ao vencer a Holanda deixou a desejar depois que os dois times ficaram de fora da final.

Os economistas do banco compilaram dados de 14 mil jogos para chegar a um relatório de 67 páginas, que estimou resultados para todos os jogos, publicado em 30 de maio. Depois da primeira fase, ficou claro que a realidade não corresponde 100% a dados históricos.

Analisando as previsões originais, feitas antes do início da Copa, apenas 37,6% dos jogos da primeira fase terminaram da forma que o modelo do Goldman Sachs previu. O banco calculou uma das três possibilidades – vitória, derrota ou empate – corretamente em pouco mais de 33% das vezes, quase o mesmo de uma previsão aleatória. Dos jogos calculados corretamente, o Goldman conseguiu prever o número de gols em 17% dos casos, ou seja, em três ocasiões: Argentina x Bósnia, Coreia do Sul x Rússia e Argélia x Rússia.

Quando o banco atualizou suas previsões no fim da primeira fase do torneio, ele acertou o resultado das partidas – vitória, derrota ou empate – em 60% das vezes. Mas fracassou na tentativa de acertar os resultados das semifinais e acabou prevendo equipes erradas na final.

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Escolas de Pensamento Econômico

Comparações entre Diferentes Escolas de Economia

Do autor que escreveu “O menor livro econômico no mundo“; e “23 coisas que não vão te dizer sobre capitalismo” (link para download nos Comentários), foi lançado o guia de bolso final de Ha-Joon Chang sobre as diferenças (e semelhanças) entre todas as escolas de pensamento econômico.

Como Chang discute em seu novo livro,

  • apesar do que os especialistas querem que você acredite, há mais do que uma única forma de pensar a economia.
  • as pessoas têm sido levados a acreditar que, como a Física ou a Química, a Economia é uma “ciência” em que há apenas uma resposta correta para tudo; assim, os não especialistas deveriam simplesmente aceitar o “consenso profissional”, isto é, entre os idolatras de O Mercado, e parar de pensar em alternativa.
  • ao contrário do que a maioria dos economistas quer levar a crer, não existe apenas um tipo de Economia: a Economia Neoclássica. Na verdade, existem nada menos que nove tipos diferentes, ou Escolas, como esses tipos são conhecidos. E nenhuma dessas Escolas de Pensamento Econômico pode reivindicar superioridade sobre as outras e menos ainda o monopólio sobre a verdade.

A tabela acima deve ajudá-lo a superar o seu receio inicial frente às linhas alternativas de pensamentos econômicos — e incentivá-lo a estudá-las! Um economista completo conhece todas! Coisa que os economistas ortodoxos denigrem por ignorá-las…

Leia maishttp://www.thelittlebluebook.co.uk/

Lembrei-me que publiquei tabelas similares no primeiro capítulo do meu livro “Economia em 10 Lições“, lançado no ano 2000. Confira abaixo:

Leia maishttp://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2011/12/26/15432/

Obras Clássicas da História do Pensamento EconômicoPrincipais Correntes do Pensamento Econômico ContemporâneoEscolas de Pensamento Econômico

Rentista: Inimigo da Democracia?

 

hotel-hermitage-salle-belle-epoqueThomas Piketty afirma que não há nenhuma garantia de que a distribuição do capital herdado não acabará por se tornar tão desigual no século XXI como era no século XIX. Como observado em post anterior, não há força inelutável que impeça o caminho de um retorno à extrema concentração de riqueza, tão extrema como na Belle Époque, especialmente se o crescimento desacelerar e o retorno sobre o aumento de capital se acelerar, o que poderá acontecer, por exemplo, caso a “guerra (concorrência) fiscal” entre as nações estourar.

Se isso vier a acontecer, Piketty acredita que essa extrema concentração de riqueza levaria à reviravolta política significativa. As nossas sociedades democráticas apoiam sua coesão em uma visão de mundo baseada na meritocracia, ou pelo menos em uma esperança meritocrata. Imagina-se que deve haver predomínio. em qualquer sociedade, organização, grupo, ocupação, etc., daqueles que têm mais méritos, ou seja, dos mais trabalhadores, mais dedicados e mais bem dotados intelectualmente. O “discurso da competência” se dobra à suposição de existência de uma classe ou um grupo de líderes desse tipo, cuja hierarquia de recompensa e/ou promoção, por exemplo, em um emprego, estaria fundamentada apenas no mérito pessoal.

Piketty se refere à crença de que a desigualdade dessa sociedade está mais baseada no mérito e esforço individual do que no parentesco e no recebimento de aluguéis. Essa crença e essa esperança meritocrata desempenham um papel muito importante na sociedade moderna por uma razão simples: em tal democracia, a igualdade professada nos Direitos Universais do Homem para todos os cidadãos contrasta fortemente com a desigualdade real das condições de vida. A fim de superar esta contradição, é vital se certificar de que as desigualdades sociais derivam de princípios racionais e universais, em vez de contingências arbitrárias. Continuar a ler

Rentistas e Gestores “Supermanagers”

11.9 Parte da Herança nos Recursos Totais11.10 Padrão de Vida de Herdeiros X Supermanagers

Recapitulando o que Thomas Piketty disse: em uma sociedade em que os rendimentos do capital herdado predominam sobre a renda do trabalho na cúpula da hierarquia salarial, tal como em uma sociedade descrita por Balzac e Austen, duas condições devem ser satisfeitas. Primeiro, o capital social e, dentro dela, a participação do capital herdado, deve ser grande. Normalmente, a relação capital / renda deve ser da ordem de 6 ou 7, e a maioria do capital social deve ser composta por capitais herdados. Em tal sociedade, a herança da riqueza pode ser responsável por cerca de um quarto da média dos recursos disponíveis para cada coorte, isto é, grupo de indivíduos de mesma idade (ou mesmo um terço se a pessoa obtém um alto grau de desigualdade no retorno sobre o capital). Este foi o caso nos séculos XVIII e XIX, XX até 1914. Esta primeira condição, que diz respeito ao estoque de riqueza herdada, está mais uma vez perto de ser satisfeita hoje.

A segunda condição é que a riqueza herdada deve ser extremamente concentrada. Se as riquezas herdadas fossem distribuídas da mesma forma que os rendimentos de trabalho (com níveis idênticos para o decil superior, o top percentil, etc., tanto no caso das hierarquias de herança, quanto no dos rendimentos do trabalho), então o mundo descrito na literatura clássica nunca poderia existir: os rendimentos do trabalho sempre superariam os rendimentos de riqueza herdada (por um fator de pelo menos três), e o top 1% dos rendimentos auferidos, sistemática e mecanicamente, superariam o top 1% dos rendimentos do capital herdado. Continuar a ler

Rejuvenescimento da Riqueza em Virtude da Guerra

11.6. Fluxo Sucessorial Observado e Simulado França 1920-2100Tabela 11.1. Perfil do Patrimônio em função da Idade

O mecanismo de auto-sustentação da riqueza colapsou devido aos repetidos choques sofridos pelo capital e seus proprietários no período 1914-1945. Um rejuvenescimento significativo da riqueza foi uma consequência das duas guerras mundiais. Vê-se isso, claramente, no Gráfico 11.5 (ilustração do post anterior): pela primeira vez na história, e até hoje a única vez, a riqueza média dos mortos caiu abaixo a riqueza média dos vivos em 1940-1950. Este fato emerge ainda mais claramente nos perfis detalhados por faixa etária na Tabela 11.1 (veja acima).

Em 1912, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, os octogenários eram mais de duas vezes e meia mais ricos que as pessoas na casa dos cinquenta anos. Em 1931, eram apenas 50% mais ricos. Em 1947, os com cinquenta e poucos anos eram 40% mais ricos do que os com oitenta e poucos anos. Para adicionar “um insulto à essa injúria”, a riqueza dos octogenários até caiu para um pouco menos do que a de pessoas em seus quarenta anos nesse ano. Este foi um período em que todas as velhas certezas foram postas em causa. Continuar a ler

Riqueza dos Mortos, Riqueza dos Vivos

11.3. Idade Média Ao Receber Herança11.5. Relação entre Patrimônios de Mortos e Vivos

É interessante dar uma olhada mais de perto na evolução de μ, a relação entre a riqueza média no momento da morte e da riqueza média da vida, o que Piketty apresentou na Figura 11.5 (veja acima). Note-se, em primeiro lugar, que, ao longo dos últimos dois séculos, desde 1820 até o presente, os mortos (antes da morte) foram sempre (em média) mais ricos do que os que permaneceram vivos na França: μ sempre foi superior a 100 por cento, exceto no período em torno de a Segunda Guerra Mundial (1940-1950), quando a relação (sem correção para doações realizadas antes da morte) caiu para um pouco abaixo de 100 por cento.

Lembre-se que, de acordo com a teoria do ciclo de vida de Modigliani, a principal razão para acumular riqueza, especialmente em sociedades envelhecidas, seria pagar a aposentadoria. Sua dedução lógica é que as pessoas mais velhas deveriam consumir a maior parte de suas economias durante a velhice e, portanto, deveriam morrer com pouca ou nenhuma riqueza. Este é o famoso “triângulo Modigliani“, ensinado a todos os estudantes de Economia, de acordo com o qual a riqueza, em primeiro lugar, aumenta com a idade, pois os indivíduos acumulam poupança em antecipação à aposentadoria, e depois diminui. A relação μ deveria, portanto, ser igual a zero ou próximo disso, em qualquer caso, muito menos do que 100 por cento.

Mas essa teoria do capital e sua evolução nas sociedades avançadas, o que é perfeitamente plausível a priori, não pode explicar os fatos observados – isto para dizer o mínimo. Claramente, poupar para a aposentadoria é apenas uma das muitas razões, e não a mais importante, porque, entre as razões para as pessoas acumularem riqueza, o desejo de perpetuar a fortuna da família sempre desempenhou um papel central. Continuar a ler

As Três Forças: A Ilusão do Fim de Herança

11.2. Taxa de Mortalidade na França 1820-2100

Na verdade, a principal vantagem da abordagem pelo fluxo econômico, adotada por Thomas Piketty, é que ela nos obriga a ter uma visão abrangente das três forças que em toda parte determinam o fluxo de herança e sua evolução histórica.

Em geral, o fluxo econômico anual de sucessões e doações, expressa como proporção da renda nacional by, é igual ao produto de três forças:

by = μ × m × β, onde:

  1. β é a relação capital / renda (ou, mais precisamente, a proporção da riqueza privada total que, ao contrário dos bens públicos, pode ser transmitida por herança, em relação à renda nacional),
  2. m é a taxa de mortalidade, e
  3. μ é a relação entre a riqueza média no momento da morte e a riqueza média dos indivíduos que vivem.

Esta decomposição é uma identidade contábil pura: por definição, é sempre verdade em todos os tempos e lugares. Em particular, esta é a fórmula utilizada por Piketty para estimar o fluxo económico representado na Figura 11.1 (veja figura do post anterior). Embora esta decomposição do fluxo econômico em três forças seja uma tautologia, ele acha que é uma tautologia útil na medida em que permite esclarecer uma questão que tem sido a fonte de muita confusão, desde o passado, mesmo que a lógica subjacente não seja terrivelmente complexa.

Piketty examina as três forças, uma a uma. Continuar a ler

Fluxos de Herança ao Longo do Tempo

11.1. Fluxo de Heranças Anual

Thomas Piketty começa sua análise pelo início da História. Em todas as sociedades, existem duas principais formas de acumular riqueza: através do trabalho ou da herança. Qual delas é mais comum no topo dos percentis e decis da hierarquia de riqueza? Esta é a pergunta-chave.

Na literatura de época, a resposta é clara: estudo e trabalho não podem levar a uma vida confortável e elegante, logo, a única estratégia realista é casar com gente rica e sua herança. Um dos principais objetivos deste trabalho de Piketty é descobrir o quão perto a sociedade francesa do século XIX se assemelhava à sociedade descrita na literatura desta época, acima de tudo, para aprender como e por que este tipo de sociedade evoluiu ao longo do tempo. Continuar a ler