Estimativa Neoclássica da Função de Produção para Cálculo do PIB Potencial do Brasil

Capacidade Produtiva

A taxa de investimento aquém do necessário e a baixa produtividade continuam impondo dificuldades a um crescimento mais forte e sustentável da economia brasileira, mas um terceiro fator de restrição ao Produto Interno Bruto (PIB) potencial do país ganhou importância em 2013. Para um grupo de economistas, o indicador – que, na teoria, mede o quanto a atividade pode crescer sem pressionar a inflação – perdeu força no ano passado, bastante influenciado pela saída de pessoas do mercado de trabalho. Hoje, segundo os analistas ouvidos, o PIB potencial do Brasil estaria entre 2% e 3,5%.

Embora o produto potencial de uma economia, que mede a expansão da capacidade produtiva do país, seja uma variável de estimação imprecisa – ou, no jargão dos economistas, “não observável” – seu cálculo, geralmente, é feito com base na evolução de três componentes [estimativa neoclássica da função de produção]:

  1. estoque de capital,
  2. Produtividade Total dos Fatores (PTF), e
  3. oferta de mão de obra.

Este último item já vinha sendo apontado como mais um entre os vários gargalos de oferta no período recente devido à redução da taxa de desemprego. A saída de pessoas aptas a trabalhar da População Economicamente Ativa (PEA), no entanto, acentuou a influência negativa do contingente de mão de obra sobre o PIB potencial.

[FNC: Em outras palavras, o que é extremamente positivo para a economia brasileira em médio prazo, é lamentado por O Mercado míope em curto prazo: o aumento do nível de escolaridade dos jovens brasileiros e o bônus demográfico. Os economistas neoclássicos estão com saudade do desemprego que barateia a mão-de-obra... snif, snif...] Continuar a ler

Ex-Presidente do Palmeiras informa: Sai Poupança, Entra Funding ou Aplicação Financeira

 

Traffic confirma que não venderá jogadores do PalmeirasMeu caro professor, Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-86), é professor titular aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e, em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Com todo o didatismo, explica em artigo (Valor, 01/04/14) a relação vista por Keynes entre Investimento e Poupança.

Eu, herético radical, tirei do meu vocabulário econômico essa palavrinha-mágica: “poupança“. Joguei-a no lixo da história do pensamento econômico! Acho-a dispensável, pois pode perfeitamente ser substituída por conceitos como funding (composição passiva de bancos) e/ou aplicação financeira (decisão de portfólio de investidores pessoais) em um processo dinâmico de interação entre o multiplicador de renda e o multiplicador monetário. Sugiro fazer na leitura do artigo abaixo um exercício de ERRATA: onde se lê “poupança“, substituir por “aplicação financeira“. Confira se não faz sentido…

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Albert O. Hirschman, O Filósofo Mundano

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Felipe Gutierrez (FSP – Ilustríssima, 24/03/14) resenha uma biografia lançada nos EUA sobre Albert O. Hirschman (1915-2012), economista reconhecido por seus estudos sobre desenvolvimento, mas que escreveu, na minha opinião, a melhor narrativa sobre o fim da República Democrática Alemã, ou seja, “porque foi derrubado o Muro de Berlim”. A biografia narra vida marcada pela resistência ao nazismo e ressalta sua disposição para o trabalho de campo e para a integração de disciplinas (projeto que eu também acalento), que pode ter lhe custado o Nobel do qual muitos o julgavam merecedor. Reproduzo-a abaixo, pois poderá incentivar a leitura de seus excelentes livros, entre os quais aprecio, particularmente, Retórica da Intransigência, Autosubversão, As Paixões E Os Interesses, todos aqui já resenhados (click no link).

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“A coisa marcante é que nenhum dos eventos que estamos vendo foram antecipados” (Profeta do Passado)

David Harvey

O geógrafo britânico David Harvey lotou auditórios em três diferentes cidades do país – Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro – em novembro de 2013, quando veio para falar sobre o capitalismo e promover um de seus livros mais antigos, “Os Limites do Capital”, lançado em 1982 nos Estados Unidos, mas somente agora traduzido para o português pela Boitempo. A plateia, formada por pessoas especialmente na faixa dos 20 anos, mostra o interesse cada vez maior pelo autor, sobretudo, entre os leitores mais jovens. Curioso isso, não? Marxistas cada vez mais velhos só atraem a atenção de leitores cada vez mais novos… E que nenhum direitista venha com piadinha de mau-gosto acrescentando ao comentário “e recém-alfabetizados”…

Segundo a editora, 4,2 mil pessoas participaram dos quatro eventos realizados com o autor no país. Aos 78 anos, o próprio Harvey não sabe explicar essa audiência tão grande. Uma possível resposta, diz, é que há um aumento de interesse pelas ideias de Karl Marx (autor de referência para Harvey) após 2007-2008, a maior crise do capitalismo desde 1930. Mas, segundo o geógrafo, isso é só parte da verdade.

Harvey acha que se tornou uma pessoa mais conhecida ao fazer um site na internet há cinco anos e por ter colocado um curso gratuito na rede sobre “O Capital”, obra de Marx. Ele conta que já são 2,5 milhões de visitantes no seu site [pô, no meu modesto blog só recebi 2,2 milhões visitas... snif... snif... Mas também só tem 4 anos...] e o curso já está traduzido para 27 idiomas, com a contribuição voluntária de pessoas que criaram legendas para as aulas.

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De Volta À Financeirização e Mundialização do Capital

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Recebi a  recomendação por parte do colega Humberto Miranda (Coordenador do CEDE - Professor IE/UNICAMP) de leitura de “mais um dos belos trabalhos jornalísticos, no campo da economia política, feitos por nossa aluna doutoranda Vanessa Jurgenfeld. A entrevista com Chesnais foi publicada no Valor (05/03/14). Na sequência, a entrevista feita com David Harvey em dezembro de 2013″.

De fato, tenho de arranjar disposição para ler esse ícone formulador de termos como “financeirização” ou “mundialização do capital”, que não entram no meu vocabulário. Tenho certa implicância com essas novas denominações para velhas ideias, prática muito costumeira entre intelectuais franceses. Para quem já leu os originais de Karl Marx (inclusive o Livro II e III de O Capital), Rudolf Hilferding, Isaac Rubin, Roman Rosdolsky, entre outros inúmeros intérpretes da obra de Marx, soa como platitudes afirmações como: “O capital financeiro resulta da centralização e concentração do capital bancário, industrial e mercantil” ou “A maior parte dessa massa de juros e dividendos nunca deixa a arena dos mercados financeiros”. Parece que os materialistas até hoje só dão valor à produção material…

Queda do PIB Potencial dos EUA

PIB Efetivo X PIB Potencial

Brendan Greeley e Matthew Philips (Bloomberg Businessweek apud Valor, 14/03/14) informam que uma das muitas estatísticas que os economistas examinam em busca de pistas sobre o desempenho econômico futuro é o produto potencial, também conhecido como PIB potencial. Essa é uma medida não de como a economia está se saindo, e sim de como poderá se sair: uma estimativa do PIB máximo que a economia poderá alcançar durante um período de tempo prolongado se estiver operando perto do emprego pleno, usando todos os seus recursos. Qualquer nível inferior, a economia não estará trabalhando de maneira a preencher seu potencial. Qualquer nível superior, ela corre um risco maior de inflação. Para ajudar a conduzir a política econômica, os economistas preveem o hiato do produtoa diferença entre o PIB potencial e o PIB de fato – dos anos vindouros.

Em 28 de fevereiro, o Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos (CBO, na sigla em inglês) corrigiu uma estimativa para o PIB potencial de 2017 que havia sido feita em 2007. A nova estimativa é 7,3% menor que a original. Essa correção para baixo elimina US$ 1,5 trilhão do PIB potencial, segundo Andrew Fieldhouse, sócio do centro de estudos Century Foundation. Portanto, em vez de prever um PIB potencial de quase US$ 20,7 trilhões, o CBO estima agora um PIB potencial próximo de US$ 19,2 trilhões.

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Inúteis Tentativas de Economistas Racionalizarem A Vida dos Outros

Vendemos a alma mas por um bom preço

Mark Vandevelde (Financial Times apud Valor, 11/03/14) resenha o seguinte livro: “I Spend, Therefore I Am – The True Cost of Economics”. Philip Roscoe. Editora: Viking. 272 págs., £ 11,55.

Os economistas, por vezes, parecem diferentes de outros seres humanos, e não em um sentido edificante. Onde vemos desemprego em massa, eles veem ajuste econômico necessário. Onde vemos charmosa tradição, eles veem ineficiências.

Não se trata apenas de que a teoria econômica sugere uma visão preconceituosa do mundo. Parece também fazer as pessoas agirem de forma mais egoísta.

Suponha que um estranho pare você na rua e lhe dê dez libras. Ele não quer nada em troca, mas há um detalhe: você precisa me oferecer uma parte do dinheiro (quanto, fica a seu critério). Se eu aceitar sua proposta, você pode ficar com o restante; se eu recusar, o estranho recolhe a nota de dez libras. Quanto você estará inclinado a oferecer?

A resposta, como se verá, depende de você ter estudado Economia.

  1. Se você não é um economista, provavelmente faria o que qualquer adulto razoável decidiria fazer e dividiria o dinheiro meio a meio. Mas a teoria econômica-padrão critica esse tipo de comportamento, aconselhando-o a oferecer o mínimo possível, baseando-se na hipótese de que eu seria um tolo se recusasse.
  2. Quando estudantes de Economia jogam esse jogo, tendem a seguir o conselho de seus professores, reivindicando uma parcela exagerada do dinheiro em jogo. Quando recebem propostas irrisórias de outros economistas, parecem menos propensos do que as pessoas em geral a se mostrar indignados.

Estudar Economia, ao que parece, gela o coração e resigna as pessoas a uma fria visão sobre a existência humana.

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Microeconomistas: Economistas Corporativos

Economistas cobiçadosBob Tita (WSJ, 07/03/14) informa que, às voltas com um enorme volume de dados, a Parker Hannifin contratou um jovem economista em 2008 para descobrir o que esses dados diziam sobre as diversificadas operações do conglomerado industrial. O que Ryan Reed disse aos executivos numa de suas primeiras apresentações não foi muito bem recebido. Ele analisou as taxas de utilização da capacidade de produção e disse que as vendas no negócio de automação da empresa seriam substancialmente menores em outubro. “Eles disseram: ‘Isso não pode estar certo. Outubro é normalmente um mês muito bom para nós’”, diz Reed, hoje com 32 anos.

Mas a previsão de Reed estava correta. Outubro de 2008 não foi um mês bom para a automação nem para nenhuma das unidades de negócios da empresa americana. A economia dos Estados Unidos estava à beira do que se tornaria a pior crise econômica desde a Grande Depressão.

Com mais dados disponíveis que nunca e mercados cada vez mais imprevisíveis, as companhias americanas estão expandindo suas equipes de economistas. O número de economistas no setor privado cresceu 57%, de 5.510 em 2009 para 8.680 em 2012, de acordo com a agência de Estatísticas do Trabalho do governo americano.

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Sistema de Pagamentos na China e no Brasil

Meios de Pagamentos na ChinaNúmero de Cartões de Pagamento no BrasilUso de POS per capita por Países Selecionados Gastos em Tecnologia Bancária ATMs a cada 10000 Adultos

Veja acima que o Brasil já tem 750 milhões de cartões de pagamentos distribuidos. Leia mais sobre Mercado de Cartões de Pagamento no Brasil em Aula 4 SPB e Mercado de Cartões de Pagamentos 2014.

Financial Times (apud FSP, 11/03/14) informa que a China abandona rapidamente o hábito secular de pagar as contas com dinheiro vivo e faz a transição para formas virtuais de pagamento em velocidade mais rápida que a de qualquer outro país.

São 2 bilhões de cartões de pagamentos em circulação, o que bastaria para que cada morador da China continental portasse ao menos três deles.

O número de cartões bancários de débito é 10 vezes maior que o de crédito (3,8 bilhões ante 391 milhões), mas as emissões de cartões de crédito também cresceram 19% em 2013, segundo dados do banco central chinês.

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Financiamento dos Investimentos no Brasil: Funding X Poupança

Queda de Poupança

Quem sou eu para discordar do economista decano do Brasil, Antonio Delfim Netto, e querer convencer os colegas do contrário do que ele diz?! Não tenho esperança desse convencimento. Estou pregando no deserto. O problema é que discordo do uso que a sabedoria convencional da profissão faz do conceito pré-keynesiano de Poupança. Para mim, este conceito deveria estar na “lata-de-lixo da história do pensamento econômico”! Poupança não fará falta ao raciocínio. Crédito ou financiamento, sim, é o que faz falta os economistas para terem um bom entendimento da Interação dos Multiplicadores de Moeda e Renda.

O problema do tipo de investigação da Poupança, baseada nas Contas Nacionais, é que os economistas ortodoxos não se atentam para a precariedade das informações e o viés metodológico que condiciona as análises realizadas a partir delas, caso o analista não esteja atento ao limites dessas proxies. A aproximação da realidade propiciada por elas é imperfeita, constituindo um indicador precário do financiamento do investimento no Brasil.

Por exemplo, na tabela abaixo, as estimativas da Poupança Privada e da Formação Bruta de Capital Fixo do Setor Privado são variáveis residuais. No entanto, essas definições contábeis são esquecidas quando o economista ortodoxo imputa nelas decisões cruciais!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Em seu conhecido estilo carregado de adjetivos, seu artigo (Valor, 19/11/13) elogia o trabalho sobre Poupança realizado pelo CEMEC-IBMEC. Reproduzo-o abaixo e depois faço uma pequena crítica construtiva, colocando a ideia de autofinanciamentofunding (ex-post) como crucial para se entender o circuito de financiamento.

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Revisão de Terapias Receitadas por Doutores Economistas

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David Wessel (The Wall Street Journal, 14/11/13) afirma que “crise faz grandes economistas reverem antigos remédios”.  Grandes?! Quem?! Os ortodoxos?! Copiam receitas dos heterododoxos?!

“Há um ritual de ensino em medicina conhecido como “grand rounds” (algo como grandes rodadas) em que os sintomas, o diagnóstico e o tratamento de um caso interessante de um paciente são apresentados para um auditório de médicos e estudantes.

O Fundo Monetário Internacional promoveu uma versão dessas grandes rodadas recentemente, reunindo alguns dos maiores nomes da Macroeconomia para refletir sobre as lições dos tumultuados últimos cinco anos. A paciente era a economia global. Ela sofreu um choque financeiro cuja chegada, virulência e efeitos duradouros surpreenderam quase todos os distintos médicos econômicos. Nessa cidadela de conhecimento tradicional — o FMI — tornou-se claro que as reprimendas e remédios antigos são inadequados.

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Espírito Animal (por Robert Shiller & George Akerlof)

Espírito AnimalNa visão das Finanças Comportamentais, os ciclos de euforia e depressão da economia não podem ser entendidos sem levar em conta o papel das emoções nos processos de tomada de decisão dos consumidores, das empresas e dos investidores. A lição deixada por John Maynard Keynes (1883-1946) foi que as oscilações da economia decorrem em boa parte da própria natureza humana, regida menos pela lógica e mais pelo “espírito animal”, ou seja, pelos impulsos irracionais dos seres humanos sem autocontrole e guiados apenas por seus instintos primários.

Em outras palavras, o Homo economicus não rasga dinheiro, pois “nem louco faz isso”, mas está longe de ser contabilista sereno e previsível no trato de suas economias. “A lição foi esquecida, e os economistas levaram ao extremo a ideia oposta, a de que os mercados são sempre racionais e eficientes”, afirma Robert Shiller, professor da Universidade Yale, autor, em parceria com o também Nobel de Economia, George Akerlof, coautor do livro O Espírito Animal (Campus/Elsevier).

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