Anti-Heróis: Homens Difíceis

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Por que presenciamos o sucesso de anti-heróis? Anti-herói é o termo que designa o personagem caracterizado por atitudes referentes ao contexto do conto contemporâneo, mas que não possuem vocação heróica ou que realizam a justiça por motivos egoístas, pessoais, vingança, por vaidade ou por quaisquer gêneros que não sejam altruístas, ou seja, é o antônimo da ideia que se tem de herói. A maioria dos anti-heróis da ficção são mais populares que os heróis.

Isabelle Moreira Lima (FSP, 30/03/14) comenta que “criaturas infelizes, moralmente incorretas e complicadas. Aquele tipo de gente que você não teria coragem de convidar para a sua casa. Para o escritor e jornalista Brett Martin, foram personagens com essas características que mudaram a história da televisão para sempre”.

No livro “Homens Difíceis“, lançado neste mês no Brasil, o autor fala sobre a primeira fase da nova era de ouro da TV. O período vai de 1997, com a série “Oz“, sobre uma prisão de segurança máxima, a 2013, com “Breaking Bad“, sobre um professor que se transforma em chefão do tráfico.

Martin afirma que o segredo desses personagens era serem profundamente humanos. Enfrentavam “batalhas cotidianas que os espectadores reconheciam”, ainda que polígamos (“Big Love“) ou serial killers (“Dexter“).

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Um Sonho Intenso

Um Sonho Intenso

Um sonho intenso é o novo documentário de José Mariani, que dirigiu em 2006 o doc “O longo amanhecer – cinebiografia de Celso Furtado”.

Desta vez José Mariani traça um panorama da economia brasileira desde meados do século 20, com fantásticas imagens de arquivo e atuais e comentários de economistas e historiadores.

O cineasta José Mariani já realizara um documentário exemplar - ” O longo amanhecer-cine biografia de Celso Furtado” – menção honrosa no festival É tudo verdade, de 2007.

Como um tema tão árido como economia podia se transformar em um filme agradável, instigante e ao mesmo tempo muito claro e denso ?

Pois Mariani mostrou que é possível, sim, e volta à carga neste ano de  2014  com um novo documentário - “Um sonho intenso” – que retoma por um outro viés a temática do desenvolvimentismo, tônica do primeiro trabalho.

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Séries de TV: Anos 60 Cinquenta Anos Após

Recebi a seguinte mensagem de advertência:

Para a turma das antigas!!!

Só para os (MUITO) maiores de 18 anos…

É uma amostra das séries de TV norte-americanas que existiam na época da infância da “geração 68″, nascida no baby-boom após a II Guerra Mundial. Coincidiu também com o início de transmissão da própria TV nos anos 50. Vale a lembrança para comparar com as séries da TV atual.

Não há mais herois do faroeste. Há apenas anti-herois contemporâneos: traficante de drogas (Breaking Bad), terrorista (Homeland), político corrupto (House of Cards), detector de mentiras (Lie to Me)… E a gente gosta!

Bastardos

Quem recomendar assistir esse filme arrisca-se a ser, depois, responsabilizado por “perdas e danos”. O espectador sairá do cinema, provavelmente, se perguntando: “quem foi o bastardo que me recomendou perder (ou passar) tempo com sofrimento?!”

Será isso mesmo? Depois, com mais vagar, talvez o espectador reflita melhor sobre sua catarse, imediata e aparentemente negativa, como algo positivo! Viu que, “olhando de perto, todos são loucos”, não salva ninguém! Relativiza a sua família: até que, relativamente, não é tão ruinzinha, não é?

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Álbum de Família

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Álbum de Família [August: Osage County] é o segundo filme longa-metragem para cinema comercial do diretor John Wells. O primeiro, A Grande Virada [The Company Men ou "Homens de Negócio"], lançado em 2010, tem a seguinte sinopse: o executivo Bobby Walker (Ben Affleck) não tem o que reclamar da vida. Tem uma bela família, um bom emprego e um Porsche na garagem da residência de alto padrão — e joga golfe em clube “nobre”. O que ele não esperava era que, devido a uma política de redução de pessoal após a explosão da crise de 2008, fosse subitamente demitido. Phil Woodward (Chris Cooper) e Gene McClary (Tommy Lee Jones), seus colegas de trabalho, passam pela mesma situação. A mudança faz com que o trio de executivos tenha que redefinir suas vidas de provedores de luxo, como maridos e pais de família. Em síntese, é um filme sobre os relacionamentos masculinos.

O segundo filme, Álbum de Família, é sobre relacionamentos femininos. Para nós, homens, seja como “observadores-externos”, seja como “participantes-ativos”, não há nada mais difícil de entender do que os relacionamentos neuróticos entre mãe e filha – e entre irmãs. Daí a dificuldade masculina em representar tais relacionamentos em um bom roteiro, focalizando a doença senil (e cancerígena) da matriarca da família, tal como foi alcançado por Tracy Letts.

O filme foi baseado na sua peça vencedora do Pulitzer de Teatro em 2008, August: Osage County. Letts, nascido em 4 de julho de 1965, portanto, com 48 anos, é um americano dramaturgo, roteirista e ator, que recebeu também um Tony Award por sua interpretação de George na reapresentação de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? Ele recupera o estilo daqueles grandes roteiros dramáticos do cinema norte-americano, baseados em peças teatrais, por exemplo, Um Bonde Chamado Desejo, Farrapo Humano, A Malvada, Morte do Caixeiro Viajante.

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Telinha X Telona = Cinema-Adulto X Cinema-Infanto-Juvenil

Séries de TV

João Luiz Rosa (FSP, 23/12/13) avalia que a internet mudou a maneira de ver televisão ao permitir que as pessoas assistissem em outras telas – como as de computadores, celulares e tablets – o que antes só podia ser visto no televisor. Serviços de vídeo on-line como o da Netflix mostraram que não já não era preciso chegar em casa para ver filmes e séries, ao mesmo tempo em que os espectadores descobriam, encantados, que podiam usar até aparelhos de videogame para acessar alguns de seus programas favoritos.

Mas todo esse barulho deixou de lado outra discussão, que agora começa ganhar a dimensão apropriada – é a própria produção da TV, ou seja, o conteúdo, aquilo que atrai o espectador para a frente da tela, seja ela de que natureza for. Não é só como se assiste TV, mas o que se assiste.

Nos Estados Unidos, o entusiasmo em relação à produção atual é tanto que muitas pessoas no setor estão convictas de que a TV americana ingressou no que seria sua terceira fase de ouro – a primeira teria ocorrido no início dos anos 50 e a segunda, na década de 80.

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10 Melhores Filmes de 2013

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Hora do ócio. Mente vazia, moradia do diabo… Pensar bobagem… Qual? A típica dos fins-de-ano: lista dos 10 melhores do ano nas diversas artes. Como minha memória periférica já era, passei a ter memória do  HD como apoio, no caso, este modesto blog. Fiz minha lista sem critério de ordem, mas sim pelas resenhas que aqui postei. Supostamente, foram a respeito dos filmes, lançados em 2013, que mais me impactaram em termos estéticos e emocionais.

Resenhei filmes “adolescentes” – Azul é A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele)Bling-Ring: Oh, My God!, e o antigo, mas representativo das manifestações de rua do ano que passou, V de Vingança e Ideologia dos Anarcopunks –, que apenas representaram o zeitgeist do ano de 2013, isto é, o espírito de uma época determinada, a característica genérica de um período específico. Filmes infanto-juvenis são o “sinal do tempo” atual. Completei, então, minha lista dos “10 Mais” com séries de TV. Em média com uma dúzia de capítulos de 50 minutos cada, há mais tempo para reviravoltas em roteiros (mais adultos) na telinha do que na telona… Vamos lá, os links são, em sua maior parte, para resenhas. Não está em ordem de preferência. Ranking (ordenado exatamente) não faz sentido em arte, pois sua avaliação não é só racional, embora ajude o público-alvo a fazer escolhas de o que ver, se ainda não viu, além de detectar concordâncias e discordâncias.

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Razão Econômica da Má Qualidade de Cópias de Filmes-de-Arte

Assisti ao filme A Grande Beleza no único cinema com 4 salas de “filmes-de-arte” de Campinas. Fica no outro lado da cidade, em relação a onde eu moro, ao lado do campus da UNICAMP. Pelo anel rodoviário, levo quase meia hora para lá chegar, ou seja, metade do tempo para chegar em São Paulo. Pior, a projeção ainda não é digitalizada. Roma, “a grande beleza”, estava uma feiúra! Esmaecida, esverdeada, pálida, fiquei boquiaberto quando vi trechos digitalizados do filme no YouTube. Aprecie o vídeo acima com sua bela trilha sonora.

Lendo a matéria de Matheus Magenta (FSP, 23/12/13), entendi a razão econômica da má qualidade da cópia de filme-de-arte.

“Os cinemas brasileiros correm contra o tempo para digitalizar seus projetores antes do fim de novas cópias em película, previsto pelos grandes estúdios para 2014.

Enquanto isso, o mercado teme dois possíveis efeitos colaterais:

  1. o fechamento de 300 das 2.500 salas do país e
  2. o sufocamento da circulação de filmes independentes.

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A Grande Beleza

Toni Servillo em A Grande Beleza

O filme “A Grande Beleza“, dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, ganhou o prêmio máximo do European Film Awards, uma espécie de Oscar europeu, e concorreu à Palma de Ouro em Cannes. Sorrentino é um dos expoentes da nova geração do cinema italiano. Tem apenas 43 anos, mas prefere retratar nas telas tipos mais velhos. Foi o caso do impagável Cheyenne (Sean Penn), personna do Robert Smith, líder da banda de rock dark, The Cure, que se arrasta para dar um sentido ao seu fim de vida ao recuperar seu relacionamento post-mortem com o pai, ex-prisioneiro do Campo de Concentração de Auschwitz. Dedica-se à perseguição do velho algoz nazista no interior dos Estados Unidos. Leia maisAqui É Meu Lugar.

Sorrentino diz que não se dá bem com os jovens: “Gosto dos personagens mais vividos, que manifestam sentimentos como nostalgia, melancolia e tristeza”. Será que os jovens apreciarão esses sentimentos de tiozão?!

Apenas “jovens-cabeça” apreciarão o ar blasé do protagonista. Ele exprime completa indiferença pela novidade, pelo que deve comover ou chocar. Está embotado pelo excesso de estímulos (sensoriais, afetivos, intelectuais etc.) ou de prazeres, então, se tornou insensível ou indiferente a eles. Demonstra apatia ou desinteresse em relação a tudo, por sentir ou crer ter esgotado todas as possibilidades de experiências ou sensações. Representa aquele sujeito que se mostra entediado (sinceramente ou por afetação) com relação a coisas pelas quais a maioria das pessoas demonstra interesse. Faz o tipo “crianças, já vi tudo!

A etimologia da palavra francesa blasé vem de 1837, significando “indiferente, apático, que não demonstra emoção”. É o partícipio passado do verbo blaser (séculos XVII-XVIII), que significa “embotar o sentido do gosto, por excesso de comida e bebida, tornar-se indiferente ou insensível”. Mas  Gep Gambardella prima pela sensibilidade em relação à grande beleza de Roma — aquela que leva turista japonês ter ataque de coração!

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A Crise Vista no Cinema

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O objetivo da CAROLINA AFONSO – Monografia – Crise Vista no Cinema (click no link para download) em seu Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação do Instituto de Economia – UNICAMP, defendida no dia 10 de dezembro de 2013, com 75 páginas, sob minha orientação – é analisar a repercussão da crise financeira, que explodiu em 15 de setembro de 2008, conforme foi veiculada ao grande público pelo Cinema.

Ainda poucos explorados pelos acadêmicos de Economia, os filmes constituem fontes de informações legítimas e não menos importantes do que outras fontes como a literatura, os relatórios de pesquisas, as estatísticas, etc. A maioria das pessoas irá se deparar com sua análise através de opiniões formadas a partir de filmes, sejam documentários, sejam dramas.

Todo o mundo foi severamente afetado pelo colapso financeiro de 2008, o que fez surgir a curiosidade em entender a dinâmica e os personagens de um mundo que lhe é pouco familiar, o de Wall Street. Neste contexto, diversos filmes sob diferentes perspectivas ideológicas foram lançados sobre a crise.

Carol desejava investigar, primeiramente, as contribuições de dois gêneros cinematográficos distintos sobre o tema: documentário e drama. A partir da resenha de sete filmes selecionados pelo critério de sucesso de público (e de crítica), seu trabalho explorou os pontos relevantes levantados por cada gênero e sua adequação ao dialogar com público leigo e especialista. Por fim, ela buscou entender como os documentários e os dramas se complementam e/ou se contrapõem para formar a opinião pública e a especializada em relação à crise recente.

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Tradição e Transformação do Documentário

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Segundo João Moreira Salles, no Prefácio do livro de Sílvio Da-Rin, “Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário” (Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2004), todo documentarista enfrenta dois grandes problemas:

  1. maneira como ele trata seus personagens – uma questão ética, isto é, os princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano;
  2. modo como apresenta o tema para o espectador – uma questão epistemológica, ou seja, uma reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano.

Todos os documentários conterão, necessariamente, essas duas dimensões. Será medido, em grande parte, pelas soluções específicas que o documentarista adotar.

Nenhum deveria esquecer da ética, pois as pessoas filmadas para um documentário continuarão a viver sua vida depois que o filme ficar pronto. A dimensão epistemológica justifica-se porque o documentário é uma representação do mundo e toda representação precisa justificar seus fundamentos.

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Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele)

Azul é a Cor Mais Quente 1

“Clémentine tinha 15 anos quando avistou Emma na rua pela primeira vez entre transeuntes apressados. Apesar de lutar contra o turbilhão de sensações que lhe vinham à tona cada vez que pensava na misteriosa Emma e seus cabelos azuis, Clémentine sabia que não poderia controlar seus desejos por muito tempo. Enfrentando os olhares alheios e a moral vigente, Clém entrega-se a essa intensa relação, descobrindo sua sexualidade e seu lugar no mundo.”

É esse o enredo da história em quadrinhos “adulta” (sic), Azul é a cor mais quente (Le bleu est une couleur chaude). A obra, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh, serviu de inspiração para o longa vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, La vie d’Adele (Azul é a cor mais quente) do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche.

Pois é, até o cinema francês se rendeu à infantilização operada no cinema norte-americano, inspirada em história em quadrinhos! Este abusa de efeitos especiais (em 3D), em mundos da fantasia, atraentes para seu público-alvo com mentalidade infanto-juvenil. Ou então é a boçalidade ultraviolenta estilizada, cheia de sonoras explosões e desastres catastróficos, que atrai adultos com complexo de Peter Pan.

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