Kit Eleição X Depreciação da Moeda Nacional

Especulação após primeiro turno de 2014

Téo Takar e Aline Cury Zampieri (Valor, 07/10/14) informam que a disputa entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) no segundo turno das eleições presidenciais também deve provocar uma bipolaridade entre ações relevantes da Bovespa, com dois grupos claros – o “kit eleição” e as exportadoras – seguindo direções opostas até a eleição, em 26 de outubro.

O chamado “kit eleição“, constituído basicamente por bancos e ações de estatais, como Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil, continuará como carro-chefe da volatilidade do Ibovespa, oscilando ao sabor das pesquisas. Isto ocorre pelo fato de ser um mercado de ações relativamente muito diminuto face ao mercado de de dinheiro (títulos de dívida pública que lastream operações compromissadas diárias): até o dia 10 de outubro 2014, o volume médio diário negociado no ano corrente era apenas R$ 6,952 bilhões; em agosto de 2014, p.ex., as operações compromissadas tinham saldo diário de R$189,7 bilhões.

Em que pese isto, a capitalização bursátil das 367 empresas com ações cotas na Bovespa atingiram até o dia 10/10/14 cerca de R$ 2,414 trilhões. Esse valor de mercado equivale menos do que a metade do PIB brasileiro. Se considerar os maiores volumes financeiros negociados em setembro de 2014, Petrobras PN representava 19,1% e Petrobras ON 6,1%, logo, as ações da maior empresa brasileira participava em 1/4 das negociações. Depois, vinham ItauUnibanco PN (7,2%), Vale (PNA) 6,6% e Banco do Brasil ON (5,3%). Essas quatro empresas representavam 44,3% do mercado! Duas são exportadoras de commodities (petróleo e minério), duas são bancos: elas retratam muito bem o capitalismo brasileiro.

Caso Aécio Neves supere Dilma Rousseff nos levantamentos, segundo o modelo gangorra (Tico-e-Teco) dos especuladores, o “kit eleição” sobe. Mais do que os valores exatos de intenção de votos, as pesquisas serão importantes para confirmar se as tendências das se mantêm.

O tucano é o “queridinho” de O mercado, pois a avaliação é que a equipe econômica por trás do candidato, com nomes como Armínio Fraga, ex-assessor do megaespeculador George Soros, representa melhores perspectivas para adotar a ideologia de “liberar-geral” nos próximos quatro anos, isto em época de crise mundial e de adoção generalizada de protecionismo.

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Especulação Cambial

Dólar X Bolsa

Luciana Seabra (Valor, 06/10/14) informa que o mais famoso gestor brasileiro, Luis Stuhlberger, respirou aliviado em setembro de 2014. O fundo Verde, administrado por ele, rendeu 6,69% em um único mês depois de uma dura fase em que Stuhlberger repetia em entrevistas e palestras que estava apanhando “mais do que cachorro vira-lata”. A carteira da Credit Suisse Hedging-Griffo, que teve prejuízo em seis dos nove meses do ano, ainda não bate o Certificado de Depósito Financeiro (CDI), mas passou ao campo positivo – rende 3% no ano. A explicação para a virada do Verde é a valorização do dólar ante o real, de 9,44% no mês. É essa também a explicação para a carteira mais rentável em setembro: os fundos cambiais, que ganharam 8,99% somente em setembro de 2014.

O fortalecimento do dólar era mais do que esperado e anunciado pelos gestores desde que o governo americano começou a sinalizar a retirada de estímulos. Poucos, entretanto, capturaram o movimento de setembro. Na média, os multimercados macro, que apostam em tendências para os ativos, renderam 0,47% no mês, menos do que o 0,9% do CDI. O tipo multiestratégia, que concentra a maior parte do patrimônio dos multimercados, teve ganho médio de 0,16%. Continuar a ler

Especuladores Domésticos X Investidores Estrangeiros

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Aline Cury Zampieri, José de Castro e Lucinda Pinto (Valor, 03/10/14) informam que a mudança repentina do quadro eleitoral mostrada pelas pesquisas de opinião pegou o investidor local em ações e renda fixa no contrapé. Muito mais sensível que os investidores estrangeiros aos efeitos da definição do próximo governo sobre a economia e o valor dos ativos, os especuladores domésticos vinha assumindo posições a partir da aposta de que haveria uma vitória da oposição e, na última hora, teve de corrigir sua rota. É ele, portanto, quem mais sofre em momento que a perspectiva de reeleição volta a ganhar força.

Na Bovespa, enquanto o saldo de capital externo bate sucessivos recordes de ingressos líquidos, os aplicadores locais retiraram recursos em praticamente todos os meses do ano. A exceção ficou por conta de agosto de 2014, justamente o mês em que o candidato Eduardo Campos (PSB) morreu em um acidente de avião e Marina Silva ganhou força como opção a Dilma Rousseff.

A dedução é que os investidores estrangeiros fazem análise fundamentalista com previsão das perspectivas da economia brasileira em longo prazo, enquanto os especuladores brasileiros preferem praticar o terrorismo econômico para tirar proveito dos incautos (“inocentes úteis”, sic). Compram ações da Petrobras e outras do “kit eleição” barato e vendem-nas logo que seus preços sobem…

Não é à toa que o número de contas de investidores pessoas físicas (571.963 em abril) está em queda. Os estrangeiros já constituem a maioria (50,3%) na Bolsa de Valores de São Paulo. Confira abaixo:

Participação dos Investidores na BOVESPA 1994-2014

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Manipulação de O Mercado

 

Desempenho do Ibovespa 1994-2014

Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão / Você pagou com traição / Chora, não vou ligar / Chegou a hora / Vai me pagar / Pode chorar, pode …
Especulação eleitoral

Desde o início do “terrorismo econômico midiático”, no período pré-eleitoral, análises técnicas ou fundamentalistas perderam qualquer relevância na formação dos preços das ações para dar espaço apenas às pesquisas eleitorais. O Mercado tem assistido a um aumento enorme da volatilidade, reagindo a cada nova sondagem e, antes disso, à tentativa dos agentes de tentar antecipar o resultado das pesquisas. Os iiissspiertos (sic) usaram à vontade informações privilegiadas vazadas das diversas pesquisas, cujos números não batem um com os outros e muito menos conferiram com a realidade apresentada pelas urnas no primeiro turno.

O comportamento especulativo de O Mercado ilustra exatamente a sensibilidade dos investidores às antecipações ou aos vazamentos de informações sobre a corrida eleitoral. Criaram um modelo gangorra, tipo Tico-e-Teco, binário (0 ou 1), “2 Neurônio”: o crescimento da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas divulgadas é argumento para uma onda de venda de ações e, consequentemente, uma queda do Ibovespa. Falseada essa especulação, a bolsa devolveu todo o “efeito Marina”, iniciado no dia 18 de agosto de 2014, quando sondagem feita pelo Datafolha mostrou chances de a candidata ir para um segundo turno com Dilma Rousseff e, mais que isso, com maior probabilidade de vitória. Depois da queda, ficou barato comprar ações do “kit eleições” aproveitar nova onda de especulação do substituto “efeito Aécio”.

Nesse jogo especulativo desregrado ou desmiolado, só entra quem possui o viés heurístico do excesso de otimismo (ou de autoestima), achando que sempre conseguirá ser mais esperto: comprar ou vender logo antes dos outros. Continuar a ler

A Força das Ideias para Um Capitalismo Sustentável

 

A força das ideias para um capitalismo sustentávelNo primeiro semestre de 2007, fui convidado por Raymundo Magliano, então presidente da Bovespa, para um almoço lá. Disseram-me que ele queria me conhecer e trocar ideias. Fui meio ressabiado, pois só tinha dado uma palestra na Bolsa de Valores de São Paulo para diversos participantes de O Mercado com o propósito de apresentar uma proposta para destravar a securitização no Brasil. Eu já tinha feito uma apresentação no Banco Central em Brasília e convidaram-me para repeti-la.

Tive uma tremenda surpresa agradável ao almoçar com o Magliano. Muito culto, ele era simpatizante das ideias de Antonio Gramsci e, especialmente, de Norbetto Bobbio. E eu compartilhava esse interesse com ele. O almoço se esticou pela tarde e, no final, convidou-me para conhecer a Biblioteca Norbetto Bobbio, que ele tinha instalado na rua em frente à Bolsa de Valores de São Paulo. Tinha as obras completas do maior filósofo italiano do final do século XX!

Por isso (e por outras ideias), quando meus colegas esquerdistas criticam os “rentistas”, eu apenas sorrio e penso: — Perdoai-os, ó Marx, eles não sabem o que dizem

Angelo Pavini (Valor, 01/07/14) resenhou o livro recém lançado: “A Força das Ideias para um Capitalismo Sustentável” de autoria de Raymundo Magliano Filho (Editora: Manole. 112 págs., R$ 29,00). Reproduzo a resenha abaixo. Continuar a ler

Abertura de Capital nos EUA: Novo Boom

Estreia nas bolsas americanas

A Economia de Mercado de Capitais a la americana tem vantagens e desvantagens em relação à Economia de Endividamento Bancário a la brasileira. A  facilidade e custo de abertura de capital por parte de empresas norte-americanas na Bolsa de Valores é muito maior e os investidores aplicam em renda variável (ações) mais do que em renda fixa (títulos desindexados) que pagam juros próximos de zero. Com isso, arriscam-se a ondas de booms e crashes. Nessa Economia de Bolhas, quando há a alta perseverante, o efeito riqueza só provoca euforia e alegria: fartura e abundância em uma sociedade de consumo e desperdício. Quando advém o crash, o efeito pobreza só dá pânico e tristeza: desemprego e despejo em uma sociedade de miséria implacável. Diferentemente do protestantismo ascético de lá, o catolicismo misericordioso de cá leva a juizes perdoarem dívidas contratuais para fazerem justiça social com as próprias mãos. Tem gente que gosta de lá; tem outras pessoas que gostam de cá…

Telis Demos (WSJ, 07/03/13) informa que, em uma agitação que lembra o auge da internet nos anos 90, empresas estão correndo para abrir seu capital no ritmo mais acelerado em anos. A ideia é aproveitar o boom no mercado acionário e a demanda dos investidores, enquanto eles duram.

Entre janeiro e fevereiro, 42 empresas abriram o capital nos Estados Unidos, levantando US$ 8,3 bilhões. O ano de 2014 já compete com 2007 como o mais concorrido início de ano para ofertas públicas iniciais de ações desde 2000, quando foram feitas 77 operações do gênero, de acordo com a Dealogic. Em 2013 — ano que também foi forte em aberturas de capital — foram realizadas 20 ofertas no primeiro bimestre.

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Excesso de Emissões de Ações e Títulos de Dívida

Superaquecimento de emissões

E. S. Browning (The Wall Street Journal,  11/11/13) avalia que, justo quando os mercados financeiros americanos estavam se recuperando da turbulência em Washington, um novo sinal de perigo começa a ser visto, na forma de uma enxurrada de emissões de ações e títulos de dívida.

Muitas pessoas não veem nenhum problema nesse quadro. Elas consideram toda a atividade emocionante, como a euforia ao redor da oferta inicial de ações de US$ 2,1 bilhões do Twitter Inc. mostrou. O processo alimenta o empreendedorismo e as emissões de títulos são como leite materno para as corretoras, gerando enormes lucros.

Mas quando novas emissões se tornam tão gigantes como nos níveis atuais, pode significar que os mercados estão superaquecendo e se preparando para reverter alguns ganhos. É por isso que alguns investidores experientes não estavam em clima de festa na abertura de capital do Twitter.

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