Só Rio

Maria da Conceição Tavares 140814

Fui almoçar com minha Professora Maria da Conceição Tavares justamente no dia que tinha sido publicada a foto acima, tirada antes de sua participação no seminário “Brasil em Perspectiva II”, organizado pelo Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI, no Rio de Janeiro. Não fui convidado para tal seminário. Foi bom, pois em vez de “falar mais conosco mesmo”, dei uma palestra na Mackenzie-Rio para um número muito maior de estudantes da Zona Norte e dos suburbios cariocas.

Mas a Professora e eu sorrimos um para o outro quando comentamos a manchete logo abaixo dessa cobertura: “Para economistas, baixa poupança é obstáculo ao crescimento”. Isto quando a relação crédito / PIB se elevou de 23% para 56% em dez anos…

Ignorância é motivo de riso? Não. O sorriso foi porque quem afirmou tal asneira pré-keynesiana foi economista neoclássico em um seminário supostamente de pós-keynesianos! Entendeu? Não? Eu também não, então, só-rio!

Segundo Juliana Elias (Valor, 15/08/14), o baixo nível de poupança do Brasil foi destacado por alguns economistas como um dos maiores entraves aos investimentos, à recuperação da indústria e, principalmente, ao crescimento da economia com taxas mais robustas. O assunto foi destaque no ciclo de debates promovido em São Paulo pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Não basta a ANPEC, também essa Associação foi invadida por neoclássicos! Continuar a ler

Ondas de Inovações Tecnológicas

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[image]Timothy Aeppel (The Wall Street Journal, 20/06/2014) escreveu reportagem a respeito do futuro da inovação e do crescimento, sobre o qual Robert Gordon (dir.) e Joel Mokyr estabelecem um confronto entre um pessimista e um otimista.

Robert Gordon, um economista de 73 anos, acredita que os bons tempos já passaram. Depois de um século de inovações revolucionárias que geraram crescimento, o progresso humano está ficando cada vez mais lento, diz. Já o também economista Joel Mokyr, que tem 67 anos, imagina o surgimento de uma nova era de invenções, inclusive terapias genéticas para prolongar a vida e sementes milagrosas que podem alimentar o mundo sem a necessidade de fertilizantes.

Os dois conceituados colegas, que há 40 anos são professores na Universidade Northwestern, no Estado americano de Illinois, representam polos opostos do debate sobre o futuro da economia do século XXI:

  • de um lado, rápida inovação liderada pela manufatura robótica, impressão em 3-D e computação em nuvem;
  • do outro, anos de perdas de empregos, salários estagnados e desigualdade crescente.

As visões divergentes são mais que acadêmicas. Para muitos americanos, a recessão trouxe o desemprego e deprimiu salários e o preço dos imóveis. A questão, hoje, é se os tempos duros chegaram para ficar. A resposta depende de a quem você pergunta. Continuar a ler

Críticas à Autogestão

Autogestão

Dada a forte densidade ideológica do conceito de Autogestão, será conveniente examinar as críticas que lhe têm sido dirigidas, distinguindo, enquanto possível, as que foram feitas a experiências concretas, particularmente à iugoslava, nos anos 50 do século XX, das que visam o princípio como tal. As primeiras tendem em geral a pôr em evidência, com intenções políticas diversas, a incongruência de alguns dos resultados desta experiência com seus pressupostos socialistas. Continuar a ler

Autogestão como Princípio Político

Autogestão e natureza humana

Há a necessidade de estabelecer uma alternativa tanto para o formalismo abstrato da “democracia burguesa”, como para o esquema autocrático das chamadas “democracias populares”. Os teóricos da Autogestão acabaram por se integrar na corrente do pensamento democrático radical, apresentando este princípio de organização como solução do problema da democracia substancial.

Nela, ocorre o deslocamento do problema da autoridade do momento do seu exercício, ou seja, da emanação das ordens vinculantes, ao logicamente precedente da formação das decisões. A proposta é de “socialização” dos processos decisórios. Isto se torna possível pela atribuição a cada indivíduo de um diverso poder de decisão nos vários âmbitos concretos da sua vida associada. Continuar a ler

Livre-Pensar – Livre-Iniciativa – Livre-Arbítrio

Livre-Pensar

Economia de Livre Mercado ou Sistema de Livre Iniciativa quando os agentes econômicos agem de forma livre, com pouca ou nenhuma intervenção dos governos? Se não existe isso na realidade, trata-se de uma abstração, ou seja, um livre mercado idealizado, segundo a qual todas as ações econômicas individuais, voluntariamente, respeitam a transferência de dinheiro, bens e serviços, e alcançam uma ordem espontânea em nível sistêmico.

Dada a inexistência disso, o cumprimento de contratos assinados é obrigatório, punível por lei caso não ocorra. Por via das dúvidas, a propriedade privada também é protegida pela lei – e garantida pela polícia. Em tese, nesse “livre mercado”, ninguém pode ser forçado a trabalhar para terceiros. O único risco da recusa é o da morte por inanição, caso não tenha nada a mais para vender além de sua força de trabalho… Continuar a ler

A Ética do Capitalismo e o Espírito do Protestantismo: Desmitificação da Poupança

ateismo-matematico

Dado o declínio religioso na Europa, onde o ateísmo tende a superar o cristianismo, seja o protestantismo no norte europeu, seja o catolicismo no sul-mediterrâneo, Niall Ferguson (Civilização; 2012: 316) lança as seguintes perguntas:

  1. Será que, como próprio Max Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo corrompeu o ascetismo original dos devotos?
  2. O que no desenvolvimento econômico foi hostil à fé religiosa?
  3. Foi a transformação do papel da mulher e a degradação da estrutura familiar, que também parece explicar a diminuição do tamanho das famílias e o declínio demográfico do Ocidente, a explicação para a descrença?
  4. Ou foi o conhecimento científico – a “desmitificação do mundo”, especialmente, pela Teoria da Evolução de Darwin – que falseou a história bíblica da criação divina?
  5. Foi a melhoria na expectativa de vida que tornou a vida após a morte um destino mais distante e menos alarmante?
  6. Foi o Estado de Bem-Estar Social, “um pastor secular”, cuidando da população do berço ao túmulo?
  7. Ou será que o cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura moderna?

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Concepção Estrutural de Complexidade

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Segundo Eleutério F. S. Prado, a concepção dedutivista é distinta da concepção saltacionista, ainda que ambas raciocinem nos marcos da explanação dedutiva. A diferença crucial entre elas vem a ser que a primeira considera esse modo de raciocinar abrangente e inescapável, enquanto que a segunda enxerga-o como limitado. Como a segunda nega a pretensão de universalidade da primeira, chegou-se à conclusão aparentemente inevitável de que se uma é verdadeira, a outra será necessariamente falsa. Isso põe um problema que se mostra de difícil solução. Mas, pergunta-se Prado,  e se ambas estiverem erradas?

Contrariamente ao formalismo antes apresentado por Prado, que leva ou não leva à disjunção entre propriedades resultantes e emergentes, torna-se necessário agora redefinir apropriadamente a noção de sistema. Esse conceito de todo organizado foi definido como um conjunto de elementos vinculados externamente, que se desenvolve por meio de interações pro e retroalimentadas. Essa mesma noção de sistema foi adotada, grosso modo, por ambas as concepções discutidas anteriormente.

Agora, porém, Prado vai se conceituar sistema complexo estruturado de um modo diverso dos anteriores. Ele será apreendido, doravante, como um conjunto de elementos vinculados internamente entre si, ou dizendo de outro modo, como um conjunto de partes efetivamente estruturadas – e não apenas configuradas como um arranjo de elementos vinculados externamente entre si.

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