Arte de Escrever

Barbara TuchmanBárbara Tuchman é a historiadora de maior sucesso nos Estados Unidos, duas vezes agraciada com o Prêmio Pulitzer. Em seus textos e palestras, apresenta-nos lições sobre sua arte[1]. Vamos compilá-las.

Antes de tudo, a paixão pelo assunto é indispensável para se escrever bem. Mas não basta. Bárbara descobriu que se aprende a escrever, escrevendo. Descobriu que o elemento essencial para se escrever bem é ter bom ouvido. Devemos ouvir o som de nossa prosa. Em sua opinião, as palavras curtas são sempre preferíveis às longas. Quanto menos sílabas, melhor! Os monossílabos… são os melhores de todos!

Quando ela escreve, é seduzida pelo som das palavras e pela interação de som e sentido. As palavras constituem material sedutor e perigoso, a ser usado com cautela.

Sua exposição deve ser feita em todo o seu valor emocional e intelectual, a público amplo, através da difícil arte da literatura. Note-se: “amplo público”! A ênfase deve sempre ser dada à escrita para o leitor comum, em contraposição à escrita apenas para os colegas eruditos. Quando escrevemos para público amplo, temos de ser claros e interessantes. Esses são os critérios que determinam bom texto.

O leitor é a pessoa que deve estar sempre presente na mente. Escrevamos nossos textos com um cartaz pregado acima de nossa mesa, perguntando: – “Irá o leitor virar a página?”

O objetivo do autor é, ou deveria ser, manter a atenção do leitor. Querer que o leitor vire a página e continue a fazê-lo até o fim. Isso só acontece quando a narrativa avança com firmeza, e não quando entra em impasse, sobrecarregada de todos os detalhes descobertos na pesquisa, significativos ou não. Contra o texto tipo “rol de roupa”, o lema: “a exclusão de tudo que é redundante e de nada do que é significativo”!

O leitor é a outra metade essencial do autor. Entre eles há ligação indissolúvel. São necessários os dois para cumprir a função da palavra escrita. Os escritos não nascem,ou seja, não têm vida independente, enquanto não são lidos. Logo, primeiro é preciso prender a atenção do leitor.

O objetivo do escritor é a comunicação. Deve ter sempre presente o leitor como fosse ouvinte, cuja atenção deve ser mantida, para que não vá embora.

Quem escreve tem várias obrigações com o leitor se quiser conservá-lo. A primeira é destilar. Deve fazer o trabalho preliminar para o leitor: reunir as informações, dar-lhes sentido, selecionar o essencial, rejeitar o irrelevante, sobretudo, rejeitar o irrelevante, e colocar o restante de modo a formar narrativa dramática que se desenvolve de modo a capturá-lo. Oferecer massa de fatos não digeridos é inútil para o leitor. Constitui simples preguiça do autor ou pedantismo para mostrar o quanto leu.

O produto final é resultado daquilo que se escolheu para incluir, bem como daquilo que preferiu deixar de lado. Colocar tudo, simplesmente, é fácil, e seguro, e resulta em uma dessas obras imensas, nas quais o autor abdicou e deixou ao leitor todo o trabalho.

Para eliminar o desnecessário, é preciso coragem e também mais trabalho. Pascal terminou carta de 4 páginas a um amigo dizendo: – “Desculpe-me tê-lo cansado com carta tão longa, mas não tinha tempo para escrever-lhe carta breve”.

A arte de escrever, isto é, a prova do artista, é resistir à atração de desvios fascinantes e apegar-se ao seu assunto. São necessárias, simplesmente, coragem e confiança para fazer escolhas e, acima de tudo, para deixar certas coisas de lado. O melhor quadro é aquele que mostra apenas as partes da verdade que produzem o efeito do todo.

Ler, como escrever, é o maior dom com que o homem se dotou, por meio do qual podemos realizar viagens ilimitadas. Ler possui sedução interminável. Escrever, pelo contrário, é trabalho pesado. É preciso sentar-se na cadeira, pensar e transformar o pensamento em frases legíveis, atraentes, interessantes, que tenham sentido e que façam o leitor prosseguir. É trabalhoso, lento, por vezes penoso, por vezes, agonia. Significa reorganizar, rever, acrescentar, cortar, reescrever. Mas provoca animação, quase êxtase, um momento no Olimpo! Em suma, é ato de criação!

Tal como a Bárbara vê, o processo criativo tem três partes. Primeira, a visão extra com a qual o artista percebe uma verdade e a transmite pela sugestão. Segunda, o meio de expressão: a língua para os escritores, a tinta, para os pintores, o barro ou a pedra para os escultores, o som expresso em notas musicais para os compositores. Terceira, o plano ou a estrutura.

A estrutura é, principalmente, problema de seleção, tarefa angustiante, porque há sempre mais material do que se pode usar. Não se pode colocar tudo; o resultado seria massa informe. O trabalho consiste em encontrar a linha narrativa sem se afastar dos fatos essenciais, ou sem deixar de fora qualquer fato essencial, e sem deformar o material para que sirva às nossas conveniências.

Quando se trata de linguagem, nada mais satisfatório do que escrever boa frase. É prazer realizar, quando se pode, prosa clara e corrente, simples e ao mesmo tempo cheia de surpresas. Isso não acontece por acaso. Exige habilidade, trabalho árduo, bom ouvido e prática constante. As metas, como já disse, são a clareza, o interesse e o prazer estético. É importantíssima a arte de tornar o sentido claro!

A comunicação é, afinal de contas, o objetivo para o qual a linguagem foi inventada. Há critério tríplice para sua avaliação: a convicção do autor de que tem alguma coisa a dizer; que vale a pena ser dita, e que pode dizê-la melhor do que ninguém. Dizer não para poucos, mas para muitos. Juntamente com a compulsão de escrever, deve estar o desejo de ser lido. Nenhuma página se torna viva, a menos que o escritor veja, do outro lado de sua mesa, o leitor, e busque, constantemente, a palavra ou a frase que levará a ele a imagem desejada e despertará a emoção que deseja criar nele. Sem a consciência de um leitor vivo, o que o autor escreve morrerá em sua página.

De todos os instrumentos, a crença na grandeza de seu tema é o mais estimulante. É assim que o autor deve considerar seu assunto. Isso faz com que nenhum leitor possa deixar seu texto de lado!


[1] TUCHMAN, Bárbara W.. A Prática da História. Rio de Janeiro, José Olympio, 1991 (original de 1989).

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