Entre o SOREX e o MEREX…

SOREX foi a alcunha elaborada por Rudolf Bahro para designar o Socialismo Realmente Existente, ou seja, o “socialismo” burocrático que correspondia pouco ao que os militantes de esquerda imaginavam. Em 1977, ele publicou o livro onde propunha a transformação do sistema do Estado do SOREX na “alternativa” genuinamente socialista, portanto, com liberdades democráticas.

MEREX foi o neologismo, criado por Vinicius Torres Freire (Folha de S. Paulo, 20/08/09), para distinguir entre o Mercado Realmente Existente e o que aparece na teoria econômica ortodoxa. Esta se baseia em tautologia: caso o mundo não fosse como ele é, o mundo deveria ser como ela imagina que ele seja, isto é, caso o mercado não tivesse falhas, ele seria perfeito… Ao supor isso, os economistas imaginavam que conseguiriam identificar suas falhas e, assim, propor mudanças para atingir o idealizado por eles mesmos!

O Brasil deve optar entre o MEREX dos Estados Unidos e o SOREX da China? O país deve se submeter à imposição unilateral do poder imperial norte-americano ou à sedução chinesa para negociação bilateral de tratados comerciais, garantindo fornecimento de energia e commodities a preços preestabelecidos? Como alternativa ao dilema, houve esforço diplomático de expansão do G8 para o G20, isto é, as 19 maiores economias e a União Européia, como forma de coordenação mundial das políticas econômicas de enfrentamento da crise. Mas há dúvida se esse fórum coletivo terá força política  para resolver divergências e convencer todo os governos a assumir responsabilidades compartilhadas.

Entre outros problemas, nesta década, as reservas mundiais elevaram-se de US$ 1,9 trilhão para US$ 6,8 trilhões, sendo 1/3 delas (quase US$ 2,3 trilhões) pertencentes à China. Desde 2001, houve perda de 10 pontos percentuais na participação do dólar nessas reservas internacionais, estando atualmente em torno de 62%.  O abandono do dólar reforça a perda de poder aquisitivo das próprias reservas, pois a moeda americana se deprecia ainda mais.

Como a taxa de juros nos Estados Unidos está muito baixa, os investidores fazem carry trade, isto é, tomam empréstimos em dólar para comprar outros ativos, disparando as cotações de ações, ouro, commodities e outras moedas estrangeiras, inclusive o real. Portanto, é muito difícil o Brasil, isoladamente, se contrapor à tendência mundial de depreciação do dólar. Mas isso não deve significar inação. É necessário adotar medidas, mesmo que apenas paliativas, para impedir que a taxa de juros real brasileira esteja entre as maiores do mundo e a moeda nacional continue como a de maior apreciação.

O G2 (Estados Unidos e China) discute se a cotação da moeda chinesa pode ser flexibilizada de maneira a ser alternativa, atuando como suplemento ao papel central do dólar nas reservas mundiais. Transformado em moeda conversível, conjuntamente com o euro e o D.E.S. (Direito Especial de Saque do FMI), o Yuan poderia ser parte de um sistema de reservas multimoedas. Diminuiria também o superávit comercial chinês de quase US$ 270 bilhões (em 2008) com os Estados Unidos. Em contrapartida, a China, que possui US$ 1,4 trilhão em reservas aplicadas em ativos dolarizados, exige austeridade fiscal e elevação dos juros pagos pelos títulos da dívida pública norte-americana.

O que está por trás desse imbróglio é se haverá a substituição do papel central dos Estados Unidos como propulsor da economia mundial. As dívidas e o esforço de recomposição patrimonial das famílias restringem as importações para o mercado consumidor norte-americano. Para tanto, a China terá de mudar o foco na geração de mais 10 milhões de novos empregos por ano com base no dinamismo de suas exportações (2/5 de seu PIB) e, de certa forma, passar de seu “socialismo de mercado” para o de inclusão social. Com ampliação de seu sistema previdenciário e de saúde, aumento de produtividade no campo e urbanização estima-se que aumentará seu mercado interno em mais 200 milhões de consumidores. Em outras palavras, a abertura comercial para o mercado chinês seria a maior saída do desbalanceamento anterior da economia mundial, onde a América consumia e o resto do mundo financiava.

Face a esse cenário, o Brasil tem agora o trunfo da mobilidade social que possibilitou a ampliação do seu mercado interno, tornando-o talvez o quinto maior do planeta. Está na hora de cobrar ingresso de entrada? É prudente adotar, unilateralmente, administração agressiva do câmbio ou do comércio exterior? O protecionismo financeiro deverá ser retomado? Entre o SOREX e o MEREX, todo cuidado é pouco na discussão da estratégia geopolítica do Brasil, para não ficar no pior dos dois mundos: o MERDEX, isto é, o Mercado Deficiente Existente.

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