Como Enfrentar Polêmica

Muitos economistas estão mais preocupados com a polêmica do que com o problema a ser resolvido. Polêmicas são parte da vida profissional e cultural. Surgem como fatalidade. Se tudo que é humano não é perfeito, torna-se natural a contestação. A dialética hipótese-tese-antítese dá movimento, propicia criação.

Existem polêmicas que são puro diletantismo, por exemplo, quando se questiona a importância de algum pensador clássico, reconhecida por diversas gerações. Por puro narcisismo, ou mesmo por enfado com a vida intelectual, há midiáticos que não se furtam a provocar falsa polêmica. É a saudade dos holofotes. Esquecem que não se mede o verdadeiro pelo número de aplausos.

Existem outras polêmicas, no entanto, que interessam, porque é essencial para o avanço cultural haver diversidade de opiniões expostas com clareza. Cultura de consenso é a morte da cultura. Predominando idéias dogmáticas, não existirá polêmica, haverá apenas exclusão.

No Brasil, segundo Roberto Romano (Folha de S. Paulo, 03/07/88), “o que se constata é a inexistência da polêmica, inclusive na Universidade, onde reina o silêncio covarde das pequenas seitas”. Diz mais: “as lutas antigas e novas, pelos postos, servilismo diante dos governos, burocracia, plágios, e outros aspectos, impedem o elogio irrestrito dos intelectuais, intra ou extra acadêmicos. Hilariante é a lisonja recíproca, no interior das seitas. Ela segue a auto-complacência e a caça voraz de verbas, públicas ou particulares”.

Muitos se imaginam melhores do que são, julgando os adversários piores do que podem ser, não lhes reconhecendo os méritos. A polêmica acaba revelando essa pobreza de espírito. Mas os medíocres se reúnem em grupos para tentar impor silêncio aos dissidentes, calando seus nomes, banindo seus escritos. Com o desgaste e a conseqüente alternância de poder, seja governamental, seja institucional, quem respeita apenas os “seus”, termina isolado.

A polêmica, por outro lado, é o agito necessário para se escapar da monotonia do cotidiano. Retira os indivíduos de sua solidão, de sua patota, de seu sectarismo. Envolve aspectos teatrais, inclusive o apelo ao “gesto verbal”.

Mas o respeito a determinadas regras é fundamental para sua própria eficácia. Se são usadas armas exterminadoras, fora dessas regras, não haverá adversários para reconhecer a vitória ou a superioridade. O polemista  deve possuir senso de oportunidade, escolher bem os interlocutores e responder apenas ao que pareça oportuno e significativo. Não deixar que uma pequena disputa estrague uma grande amizade. Em desentendimento com conhecidos queridos, deve-se enfocar apenas a situação em discussão, não falando do passado. Quando se der conta que cometeu algum erro, é necessário tomar as atitudes necessárias. Muitas vezes o silêncio é a melhor resposta.

A seguir, doze regras para que alguma polêmica não resulte em simples bate-boca, provocando calor, mas não produzindo luz. Aprenda as regras e, para ser polêmico, quebre algumas.

  1. Escolha a hora exata e o oponente certo.
  2. Não divida forças, lutando em várias frentes.
  3. Não tenha receio, pois pior do que a polêmica é o medo da polêmica.
  4. Não despreze o circunstancial, porque eventos importantes brotam de causas triviais.
  5. Não despreze o interlocutor, porque se deve ter orgulho do adversário.
  6. Não omita nada, nenhum aspecto do problema discutido, mesmo que isso lhe seja, aparentemente, desfavorável.
  7. Não dê golpes baixos, abusando do descuido do adversário, pois não lhe será dado o reconhecimento da vitória pelos assistentes.
  8. Não abdique da teatralidade, porque, na polêmica, a voz de um gesto é ouvida pelo público virtual.
  9. Seja audacioso.
  10. Ataque sempre, pois a preocupação com a defesa de alguma acusação lhe colocará em posição de inferioridade.
  11. Aja rápido.
  12. Saiba quando parar: “quem ultrapassa o fim comete o mesmo erro que quem não o atinge”(Montaigne).

2 thoughts on “Como Enfrentar Polêmica

  1. Unicamp (na maioria das vezes) à parte, os professores, que deveriam estimular debates e questionamentos, muitas vezes ridicularizam idéias diferentes das suas, aproveitado-se da condição de poder que lhes é dada.
    Como se as ciências, o conhecimento humano, já estivesse pronto e não mais se aceitasse contribuições…
    Estes professores serão facilmente substituídos por aulas virtuais.

    • Ronaldo,
      seu comentário é polêmico! Lamentavelmente, eu não colocaria a “Unicamp à parte”, pois aqui também sofro isolamento, segregação e outras indisposições com o polemista. Não é diferente do que ocorre em relação a professores dissidentes em outras Universidades.
      Concordo com sua opinião a respeito do conhecimento humano, mas tenho dúvida se os professores intolerantes serão substituídos por aulas virtuais…
      “Vaso ruim não quebra”! Não é o que dizem os que plantam flores?
      Abraço.

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