Lulismo e Populismo

Os adversários, primeiro, caricaturam o que chamam de “lulismo” como ideologia de coesão social. Argumentam que ela extrapola os partidários militantes, simpatizantes ou eleitores do PT. Os votos nele para presidente, como era de se esperar, superaram todos os votos nos candidatos do PT para os legislativos. A aprovação pessoal e de seu governo é dada por cerca de 80% da população. Logo, extrapola em muito determinadas classes sociais ou facções políticas.

Segundo, os adversários comparam o “lulismo” com o “getulismo”: o velho se transforma e passa a ser porta-voz do novo. Mas é inevitável reconhecer que o getulismo como ideologia e como corrente política perdeu força ao longo de mais de meio século desde sua morte em 1954. O brizolismo, herdeiro de Vargas, foi corroído pelo excessivo personalismo do líder e pela ascensão de outra estrela, a do PT. Lula emergiu no novo sindicalismo alijando da cena sindical os velhos pelegos da herança getulista.

O propósito da analogia  com o getulismo é assustar com o fantasma do terceiro mandato. O “queremismo” foi o movimento político surgido em 1945 com o objetivo de defender a permanência de Getúlio Vargas na presidência da República. A expressão se originou do slogan utilizado pelo movimento: “Queremos Getúlio”. Significava o adiamento das eleições presidenciais, com o lançamento da candidatura de Vargas, e a convocação da Assembléia Nacional Constituinte. No entanto, todas as declarações de Lula, reconhecendo a importância de votar a alternância (ou não) de poder, contrariam essa hipótese.

Terceiro, os adversários sugerem que o carisma e a empatia do Lula, tanto com as massas, quanto com os empresários, são sintomas do seu populismo. Para a elite brasileira, basta referir-se ao “povo”, dizer alguma “demagogia” e acentuar o carisma “popular” para que a pecha de populismo seja imputada.

O populismo é expressão política que encontra representantes tanto na esquerda quanto na direita. Mas, em São Paulo, surgiram apenas políticos populistas de direita, como Adhemar de Barros (”rouba, mas faz”) e Paulo Maluf (“estupra, mas não mata”). Eles tinham como alvo de sua ação política a exploração das carências dos extratos menos organizados da população urbana, com os quais estabeleciam relação empática baseada na defesa de políticas autoritárias de “moral e bons costumes” e/ou “Lei e Ordem”. O maior representante do populismo de direita no Brasil talvez tenha sido o ex-presidente Jânio Quadros (“fi-lo, porque qui-lo”).

No populismo, toda ação política é referida à pessoa do líder populista, que se coloca idealmente acima de todas as classes. Lula, porém, tem lado, claramente assumido. Isto nunca o impediu de negociar com todas as classes sociais, de acordo com sua boa tradição de ex-líder sindicalista, e traz  elemento novo na política brasileira.

Antes, as classes populares, inclusive a classe operária, não se representavam diretamente na política, enfrentando ou transacionando com os interesses das demais classes. Eram manipuladas por líderes ou partidos que vinham de “classes superiores”. Pela primeira vez, na história brasileira, inegavelmente (daí muito da reação elitista contra sua cinebiografia), possuem representante autêntico. Quando ele propõe políticas públicas para mudar a vida dos pobres, está falando de dificuldades que realmente viveu.

O Estado brasileiro era visto como expressão das classes dominantes, as classes populares até se mobilizavam contra ele, mas não no sentido de participar dele, de orientá-lo para contemplar também seus interesses. Elas ainda não se expressavam através do seu próprio partido, o Partido dos Trabalhadores, mas sim por “movimentos” de composição política heterogênea, lideranças personalistas ou partidos dirigidos por “nomenklatura”.

Quarto, os adversários atribuem a apreciação da moeda nacional “ao populismo cambial, já que o câmbio valorizado é bom para reeleger candidatos”. É errado falar em “populismo cambial” na reeleição do Lula, quando, ao contrário do que ocorreu na reeleição do FHC, havia superávit em conta corrente, superávit comercial e aumento de reservas. Com câmbio flexível, a apreciação do real foi resultado desses fluxos comercial e de entrada de capital positivos, inclusive por decisões externas dos importadores e investidores estrangeiros.

Finalmente, dentro dessa linha dedutiva que acaba na acusação de “populismo cambial”, aparece a defesa dos interesses concretos dos seus adversários. A apreciação cambial favorece o controle da inflação e a manutenção do poder de compra popular. A depreciação cambial beneficiaria, principalmente, industriais sem produtividade competitiva com produtos estrangeiros e exportadores que preferem o ganho fácil com preços internacionais abaixo da concorrência do que o investimento difícil em economia de escala. No passado, via manipulação do mercado cambial, sempre se privilegiou essa elite e se prejudicou o povo. Se a atual inversão da prioridade social é “populismo”, a anterior era o “elitismo” rejeitado nas urnas em 2002 e 2006.

A reação adversária tenta desmoralizar a novidade política brasileira estabelecendo a equação política: lulismo = getulismo = populismo. É falsa, porém, assusta ainda mais aos elitistas, principalmente em São Paulo.

7 thoughts on “Lulismo e Populismo

  1. Seu comentário é surpreendente! Ameaça ir em uma linha e termina em outra!
    Nas áreas em que somos mundialmente competitivos, considerando a delicada situação mundial, continuamos exportando apesar do câmbio valorizado.
    E o poder de compra do brasileiro está maior assim.
    Vamos promover políticas de incentivo à pesquisa e desenvolvimento, para melhorar nossa produtividade dentro de um contexto mundial, e não proteger ineficiência com câmbio oficialmente desvalorizado.

    1. Prezado Ronaldo,
      não entendi sua primeira linha (duas primeiras frases), pois concordo com todas as outras três frases…
      Talvez minha dificuldade em entender sua discordância diga respeito ao que você quer dizer com “câmbio oficialmente desvalorizado”. No atual regime de câmbio flexível, mesmo com “flutuação suja”, os fluxos comerciais e/ou de capital superavitários determinaram a apreciação da moeda nacional. Você propõe que se mude o regime de câmbio para o fixo? O Banco Central desvalorizaria a moeda nacional, anunciando nova cotação oficial dólar, muito mais elevada, e a defenderia com as reservas cambiais?
      Não sou favorável a esse choque cambial/inflacionário, que prejudica o poder aquisitivo da população, nem ao regime de câmbio fixo, que fica sujeito a ataques especulativos.
      Abraço.

  2. Estava lendo seu blog e fiquei bastante surpreso!! Não imaginei que alguém pudesse defender com tantos argumentos (por mais que falsos e mentirosos) e tanta veemência a quadrilha que chefia o Brasil. É impressionante como ainda há ser defendedor de pessoas que têm em suas biografias, participações nos maiores esquemas de corrupção da nação. Governo populista, o qual não se envergonha em manter uma administração sem reais investimentos na educação, saúde e segurança; mas gaba-se por conquistar seus votos mediante desvio da receita que deveria ser destinada a investimentos concretos para serem empregados em bolsas e mais bolsas que pouco ajudam no crescimento social deste país. Este é um governo de cotas, de projetos aprovados por parlamentares comprados, de aloprados, de analfabetos, de corruptos, de IMPROVISO.
    O PT manda no país há dez anos, já provou sua mediocridade, já provou que é composto por mentirosos, já provou que é INEFICIENTE!
    Chega disso! O Brasil necessita de mudanças urgentemente! O país roga por melhorias!! O povo pede para que as propagandas das campanhas eleitorais se tornem realidade!!!
    Os seguidores dessa gente no país são desinformados. A não ser que dependam deles ou sejam, simplesmente, comprometidos com o atraso.

    1. Prezado Paulo,
      felizmente, comentários feitos o seu recebo poucos. Disso deduzo que, também felizmente, meu blog recebe poucos visitantes de direita. Isto é um auto elogio…
      Esses comentários agressivos desabafam, agressivamente, contra o governo dos últimos 10 anos, em nome de um suposto populismo. Mas, na verdade, seus autores expressam apenas problemas psicológicos pessoais, que se transformam em ideologia direitista. Em geral, eu os jogo no lixo, ferramenta útil disponível para blogueiros.
      Como estou bem humorado, hoje vou autorizá-lo como uma demonstração prática de como a direita é agressiva e xinga “todos os outros” de coisas que incomodam em si própria. Em outros termos, a direita teve um longo período de ditadura e de governo neoliberal em que não conseguiu as realizações atuais.
      Por esse comportamento rancoroso antipetista, perdeu, até agora, todas as eleições relevantes. E não aprende, continua cometendo o autoengano e xingando a todos que pensam diferente. Felizmente, a maioria pensa a política de maneira mais racional e menos emocional…
      att.

      1. Deixe desse discurso de “direitismo” e “esquerdismo”!! Não quero nada disso. A eficiência de governos passados não é o foco da discussão aqui. Não se pode justificar erros cometidos neste governo dizendo que outros também cometeram…
        Não houve avanço considerável no Brasil nos últimos dez anos. As promessas não foram cumpridas!
        Quero, como muitos outros, o bem desse povo. O governante pode ser qualquer um, desde que cumpra suas promessas, desde que não minta, desde que encaminhe nosso país para o rumo certo, aproveitando o grande potencial que tem.
        O PT provou que não sabe governar, ali estão, infelizmente, grandes charlatões da política brasileira.
        Veja o estado de Brasília: falta energia, nem que seja por alguns minutos, todas as semanas na capital federal desde que o governador petista assumiu. Hoje, carros flutuavam nas ruas alagadas do centro da cidade! Isso é, no mínimo, descaso com a cidade.
        E sobre sua afirmação em que diz que a maioria pensa a política mais racional e e menos emocional, observo grande equívoco. Lula não me parece racional, já que nem falar sabe muito bem, e os eleitores são menos ainda. Nas eleições passadas, foram eleitos homens como tiririca (que ao menos é alfabetizado), que não representa nenhuma racionalidade, mas sim a palhaçada… Também há esses que nunca saem do poder, como Sarney, que não merece elogios. Além é claro da Dilma, ah, a Dilma…

      2. Prezado Paulo,
        nosso diálogo será inútil, pois você afirma que “Não houve avanço considerável no Brasil nos últimos dez anos.” Se você não aceita evidências empíricas ou estatísticas, já tem seus dogmas antipetistas, como poderemos concordar com alguma opinião em comum?
        Acho risível culpar o PT até por problemas metereológicos…
        Se você acha que fala (e pensa) melhor que o Lula, deveria se candidatar – e ver se encontra sua turma!
        att.

  3. Fernando, há muito deixei de responder a tipos como esse que, na melhor das hipóteses, só fazem confirmar que a ignorância, diferentemente da inteligência, não tem limite!
    A solução é ignorar, para alguma coisa nos serve a ignorância, e seguir em frente… Bloquear também ajuda.
    Sds.

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