Reação dos Reacionários

Os reacionários reagem contra a evolução social. O conservadorismo das posições conquistadas, segundo o “discurso da competência”, dependeria da ambição (ou da arrogância) de se acreditar superior aos outros (“por se dizer mais competente, eficaz e sério”), em sociedade de desiguais.

Para a ideologia de direita, como os homens são seres biológicos desiguais, devem submeter-se à “lei do darwinismo social”. O que define a posição de direita é a idéia de que a vida em sociedade reproduz a vida natural. A economia de mercado não faz seleção, neste caso “social”, entre os indivíduos que podem se desenvolver e os que podem apenas sobreviver?

A regra de ouro da direita é: quem melhor se adapta ao meio ambiente econômico enriquece, inclusive dando continuidade a sua dinastia. O homem de direita, acima de tudo, preocupa-se com a defesa da tradição e da herança.

A atitude de esquerda pressupõe a negação da herança “natural”. A sociedade se desenvolve, opondo-se às forças cegas da natureza. Quem acredita na essência humana como essencialmente egoísta e imutável é de direita, mesmo sem saber.

A direita acredita que as desigualdades sociais podem ser diminuídas à medida que se favoreça a competitividade geral; minimiza a proteção social e maximiza o esforço individual. A esquerda prioriza a proteção contra a competição social. Na escolha entre a competitividade e a solidariedade, prioriza esta última.

Assim, são de esquerda as pessoas, e os partidos políticos que reúnem essas pessoas em ação coletiva, que lutam pela eliminação das desigualdades sociais. Ao contrário, a direita insiste na convicção de que as desigualdades são naturais e, enquanto tal, não são elimináveis.

Podemos tomar como exemplos dessa clivagem ideológica as críticas ao governo Lula. A extrema esquerda, seja partidária, seja acadêmica, sem base social, critica, em geral, “o tratamento insuficiente de projetos para a transformação da sociedade, tornando-se agente funcional da dinâmica do capital com a continuidade da política econômica do governo FHC”. A crítica moralista de direita, geralmente, utiliza-se dos jargões da “traição da classe (e de suas bases partidárias)”, devido à ambição pessoal pela “mordomia dos cargos”, para desqualificar moralmente o governo Lula.

O temor dos conservadores de tudo perder em razão dos avanços sociais e econômicos produz ansiedade exponencial pela obsessiva apresentação pela mídia das realizações governamentais como constituíssem série de calamidades.

Então, a direita diz: “só faltava a chegada do PT ao poder para ele tornar-se igual aos outros; por isso, o jogo está zerado, não há diferença entre o PT e a oposição, e o pêndulo da política deve levar à vitória dos derrotados em 2002”. Diz mais: “não há porque acreditar que o PT seja partido ideológico diferenciado eticamente em relação aos demais. No poder, pratica os mesmos defeitos dos outros”.

São dois tipos de ilustrações usuais dessas críticas. Uma cita os defeitos pessoais de alguns membros do governo (ou do PT), para, implicitamente, generalizar a todos os outros “colegas” ou “companheiros”. Não é justo condenar todos por atitudes condenadas (e punidas) de alguns poucos.

Da mesma forma, condenar alguns programas sociais que conseguem sucesso com 99% de suas ações em razão de 1% de seus desvios não é correto. Apontar também problemas históricos das instituições brasileiras que não foram ainda resolvidos no atual governo é ato de má-fé.

Mas o debate pré-eleitoral vai ficando mais claro, quando aparecem os interesses econômicos. “Esquerda” e “direita” possuem contrastes não só de idéias, mas também de interesses econômicos e de prioridades a respeito da direção a ser seguida pela sociedade.

Quando a crítica central se dirige para “o excesso de gastos públicos” ou “a elevada carga tributária”, a reação dos reacionários fica transparente. Gastos sociais visam alcançar estado de bem-estar social e são geradores de emprego. O problema não é o fato de eles crescerem, mas sim não serem financiados de forma adequada. Agora, a reação conservadora é forte justamente quando se faz arrecadação fiscal progressiva (ricos pagam mais que pobres) e pressão crescente sobre os sonegadores, as pessoas físicas camufladas em pessoas jurídicas, os mais beneficiados com o crescimento da renda, etc.

Essa é a forma que a esquerda adota para realizar o programa com que ganhou as eleições presidenciais: crescimento com desconcentração de renda. Aliás, não há outra forma democrática capaz de superar a maior vergonha nacional, ou seja, a desigualdade social: gastar com os mais pobres com tributos pagos pelos mais ricos. É, na prática, o combate ao “darwinismo social”.

2 thoughts on “Reação dos Reacionários

  1. Olá professor, gostei bastante desse post, ainda mais em um ano eleitoral quando as opiniões de esquerda e de direita são exacerbadas e confrontadas pela mídia. Para mim, é de grande valia entender a ciência política e a real postura por trás dos argumentos.
    Abs
    Fred

    • Este artigo foi originalmente publicado no dia 29 de junho de 2005, na Falha (sic) de S. Paulo, no auge das denúncias contra o governo Lula. Desde então, eu que tinha publicado praticamente um artigo por mês no jornal, nos dois anos antes de ir para o governo, encontrei pouquíssimo espaço lá. Parece-me que, quase cinco anos após, o artigo está atualizado.
      Grato pelo comentário. Continuarei, nos próximos dias, com posts sobre retóricas e/ou análises de discursos políticos.
      Abraço.

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