Colapso

A propósito da terremoto recente no Haiti, foram muito relembradas suas tragédias passadas com informações do esplêndido livro “Colapso – Como Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso” (Rio de Janeiro, Editora Record, 2005, 685 páginas), do biogeógrafo norte-americano Jared Diamond, 72, professor da Universidade da Califórnia, morador de Los Angeles, estrela entre os historiadores ambientais. Ele é também  autor do “Armas, Germes e Aço”, vencedor do Prêmio Pulitzer, o maior best-seller evolucionista, e “Livro de Cabeceira” deste blog.

A ilha, que se chamava Hispaniola, era partilhada a oeste pelo Haiti, com poucas terras férteis, e a leste pela República Dominicana e seu vales. Até o início do século 19, a França extraía da agricultura haitiana 25% da sua riqueza. A riqueza vinha da escravidão, do café, da cana e do desmatamento. Do outro lado da ilha, a banda fértil foi menosprezada pelos espanhóis. Em 1804, derrotados por rebelião negra, os franceses foram expulsos do Haiti, uma das primeiras nações latino-americanas a conquistar sua independência política. As terras foram divididas, mas a pequena propriedade derrubou a produtividade da agricultura. Na República Dominicana, a partir da segunda metade do XIX, estimulou-se a imigração europeia.

Mesmo com a descolonização, a maldição de golpes militares e ditaduras prevaleceu. Enquanto os haitianos mataram 20 dos 21 presidentes, entre 1843 e 1915, os dominicanos tiveram 50 presidentes e 30 revoluções, entre 1844 e 1930. No século passado, os dois países tiveram ditadores larápios e assassinos. O haitiano François Duvalier era médico pós-graduado nos Estados Unidos que pouco ligava para a modernização de sua terra. O dominicano Rafael Trujillo tinha pouca educação, mas foi em direção oposta. Tornou-se “déspota esclarecido”. A República Dominicana começou a preservar suas florestas em 1930. Trujillo e seu sucessor tomaram para si o monopólio do desmatamento, reprimiram a concorrência e expulsaram centenas de milhares de lavradores de suas roças. Hoje, 32% do território do país é ocupado por 74 reservas ambientais. No Haiti, os parques são apenas quatro e estão encolhendo. A renda per capita de um dominicano está em US$ 7.400, e a do haitiano vale US$ 1.300. Para comparação, estimada para 2009, a do brasileiro é de US$ 10.200.

Colapso” ajuda a colocar o meio ambiente no centro do debate sobre o futuro da sociedade, pois Diamond explica como as civilizações são perdidas. A leitura da sua mais recente obra leva à dedução fundamental para a civilização humana: baseada em tragédias ambientais do passado, a humanidade necessita mudar seu relacionamento com o ambiente.

Com a ajuda do estado da arte no conhecimento arqueológico e paleoclimático, abrangendo sociedades do passado, em estudos que vão dos maias aos escultores da ilha de Páscoa, dos vikings da Groenlândia aos anasazi do sudoeste dos Estados Unidos, e sociedades modernas, como o genocídio em Ruanda (África), o desastre ambiental na China, o círculo vicioso no meio ambiente da Austrália, Diamond reconstrói os fracassos ambientais que acabaram fazendo civilizações magníficas entrarem em colapso. Essas sociedades culturalmente, cronologicamente e geograficamente diversas tinham pelo menos cinco fatores em comum em seu declínio:

  1. danos ambientais,
  2. mudança climática,
  3. vizinhos hostis,
  4. problemas com parceiros comerciais e,
  5. culminando, respostas culturais desastrosas a esses fenômenos.

Em “Colapso”, de acordo com Cláudio Angelo (Folha de S. Paulo, 03/09/05), “Diamond retorna à tentativa ousada de escrever a ‘história natural’ da história humana, eliminando a fronteira entre os estudos sociais e ciências como a geologia, a arqueologia e a evolução. Seu primeiro mergulho nessa cientifização do passado foi o estrondoso ‘Armas, Germes e Aço’, no qual o biólogo atribuiu o triunfo da civilização européia a fatores geográficos e ambientais. Seu novo livro, lançado nos EUA em 2004, faz o caminho inverso”.

Os colapsos históricos são contrapostos a histórias de sucesso, antigas e modernas. Um entre os contrastes mais impressionantes é o feito entre a ilha de Páscoa e o Japão, ambas sociedades complexas que floresceram em ilhas do Pacífico. Os habitantes de Páscoa (Rapa Nui, na língua local) ficaram famosos pelas gigantescas estátuas de pedra que construíram, os moai. Acontece que, no apogeu do período de construção dos moai – e talvez por causa dela –, Páscoa foi completamente desmatada. A falta de árvores, até hoje característica da ilha, levou a fome e mortandade em massa. O mesmo problema de desmatamento ameaçava o Japão da era Tokugawa na mesma época, entre os séculos 17 e 18. A resposta dos shoguns foi diferente: o governo iniciou processo maciço de reflorestamento que fez do Japão um dos países mais verdes do mundo, pois 80% de seu território é coberto por florestas.

Hoje, o planeta vive enorme encruzilhada ambiental, agravada por:

  1. a globalização
  2. o efeito estufa,
  3. o esgotamento dos solos para a agricultura,
  4. a perda acelerada de habitats e
  5. a superpopulação.

Para o mundo quiser sair dessa encruzilhada, seus líderes terão de optar pelo caminho apontado pelo ativismo dos japoneses, tirando lição da tragédia produzida pela passividade mítica dos rapa nui.

A sociedade tal como a conhecemos não deve acabar em colapso se forem tomadas providências. Como civilização, há problemas muito sérios, mas de possível resolução, desde que se decida que se quer resolver estes problemas.

Em seu livro anterior, Diamond analisa como a sociedade européia se sobrepôs às outras; no mais recente, estuda civilizações do último milênio para saber o que diferencia as que se deram bem das que se extinguiram. O que há de comum entre os livros (e as respostas às suas perguntas) é a influência do meio ambiente. Fatores ecológicos, mais freqüentemente que guerras ou política, determinam o sucesso e o fracasso de povos.

“O problema principal”, afirma, “é escolher o problema principal para resolver”. Não se tem apenas um único problema, mas doze deles. Se haver concentração em apenas um e se esquecer os outros onze, ou vice-versa, a sociedade humana estará perdida da mesma maneira. Por exemplo, se resolver a escassez de petróleo e as mudanças climáticas, mas não lidar com a questão da água, esta sozinha pode a destruir.

Novamente, seus críticos o acusam de examinar civilizações antigas e novas, e os motivos de algumas delas terem sido bem-sucedidas e outras não, mas, no final, o motivo parece estar sempre ligado a alguma causa ambiental. Para eles, isto constitui reducionismo, ou seja, certo determinismo ecológico.

Diamond, naturalmente, não concorda com a crítica. Diz que este é o problema de ter título chamativo, impactante e pequeno para o livro – Colapso. Ele acha que o título mais completo diria que este livro é sobre Civilizações, ponto. Algumas delas deram certo, e ele procura examinar o porquê, e outras deram errado, e ele diz que nem sempre foi por problemas ambientais.

Por exemplo, examinando o colapso do Paraguai no século XIX, Diamond opina que a sociedade paraguaia foi destruída não por conta de alguma questão ambiental, mas por seu governo ter tomado algumas decisões ditatoriais que levaram o país à guerra contra os vizinhos Uruguai, Argentina e Brasil, simultaneamente. A maioria dos homens paraguaios morreu. Outra civilização citada é a União Soviética, que entrou em colapso. Sim, houve desastres ambientais na ex-URSS, mas não foram decisivos para o fim do país: a política foi.

Outro título teria sido mais representativo para o livro: “O Colapso de Sociedades Envolvendo Componente Ambiental e em Alguns Casos Contribuições de Mudança de Clima, Vizinhos Hostis, Parceiros Comerciais, Mais o Questionamento sobre a Resposta da População”. Seria longo subtítulo, tal como os subtítulos de livros clássicos do século XVIII, mas diria mais a respeito de seu conteúdo.

Há quem diga que as inovações tecnológicas, que adquiriram velocidade e acessibilidade inéditas, na era atual, salvaria a civilização humana do colapso ambiental, mas Diamond acha que é exatamente o contrário. Usa-se essa desculpa, a esperança dos avanços tecnológicos, para continuar com o mesmo estilo de vida baseado no desperdício. Entretanto, a tecnologia pode ter alguma contribuição positiva. Para ficar no campo da energia, pode-se descobrir maneira mais eficiente de usar o vento ou a maré para ajudar a reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.

Sendo a base de comparação algumas civilizações passadas e pequenas, como a da ilha de Páscoa, seria possível fazer a conexão com sociedades maiores e mais complicadas como a de hoje? Diamond contra-argumenta que ele discute também a maior civilização do Novo Mundo, a dos Maias. Eram cerca de 50 milhões habitantes, mas houve jeito de se destruir. Entre os casos grandes bem-sucedidos, cita, por exemplo, o Japão, que sobreviveu isolado, pois resolveu seus problemas florestais no século XVI.

Diamond diz que, quando estuda o colapso de alguma sociedade, procura por cinco características comuns:

  1. o grau e a natureza do dano ambiental;
  2. o grau e a natureza das mudanças climáticas;
  3. o nível de hostilidade das sociedades vizinhas;
  4. o grau de confiabilidade dos parceiros comerciais; e
  5. a resposta da sociedade aos seus problemas.

Há, atualmente, cerca de 25 países em que ele encontra essas características de maneira negativa. Por exemplo, o citado Haiti, que divide a ilha de Hispaniola com a República Dominicana. O país tem problemas terríveis de desflorestamento, o que causou mudanças de clima, com a redução da quantidade de chuva. Ele possui inimigos internos, e não há muitas nações amigas dispostas a ajudar o país. O Haiti tem problemas com a resposta interna da população à mudança: sua elite política e econômica está apenas interessada em continuar rica e poderosa e não em resolver os problemas do país e de seu povo.

Aliás, ele adverte que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, pode enfrentar problema semelhante, por conta da Amazônia. Isto porque Diamond não tem absoluta convicção de que a elite política brasileira não está mais interessada em ajudar o povo do que em enriquecer. Infelizmente, ele nunca esteve no Brasil. Foi convidado algumas vezes, mas apenas esteve em Iquitos, na Amazônia peruana.

Tendo visto in loco a floresta amazônica, Diamond vê muitas possibilidades. Para ele, “é o complexo biológico mais rico da Terra, o ambiente que tem mais plantas e espécies animais do planeta”. Na verdade, de acordo com Liszt Vieira, presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, “a Mata Atlântica, hoje reduzida a cerca de 8% da vegetação original, tem uma biodiversidade muito mais rica do que a Amazônia”. Na parte brasileira, Diamond enxerga a mais rica floresta do mundo, verdadeira “farmácia a céu aberto”. Mas a floresta amazônica sobrevive de sua grande quantidade de chuva. Quando se corta as grandes árvores, diminui a quantidade de chuva. Há problemas ainda na riqueza do solo, cujos nutrientes vêm principalmente dessas grandes árvores, que estão sendo cortadas. Para ele, “esse é o maior problema ecológico, no Brasil, hoje”.

Embora ele tenha colegas da academia que dizem que a próxima guerra será por água, não por petróleo, Diamond acha que isso não ocorrerá, necessariamente. “Há muito pelo que ir à guerra ainda. Há lugares em que a próxima guerra será causada por fome. Mas concordo que a água já é problema sério. Síria e Turquia, aliás, China e Bangladesh e Vietnã, EUA e México, Hungria e Eslováquia, todos já estão brigando por água. Mas a grande guerra do petróleo ainda está longe de acabar” (Folha de S. Paulo, 11/03/05).

Ao escrever este livro, “Colapso”, Diamond não quis pregar aos convertidos, a quem já concorda que se vive, atualmente, grande problema ambiental, mas sim convencer os que discordam dessa idéia. Todos deveriam colocá-lo como “Livro de Cabeceira”.

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