Meritocracia

Meritocracia é o predomínio em alguma sociedade, organização, grupo ou ocupação, daqueles que, supostamente têm mais méritos, tais como os mais trabalhadores, mais dedicados, mais bem dotados intelectualmente, etc. Os meritocratas compõem o grupo de adeptos ou defensores do sistema baseado em algum tipo de recompensa e/ou promoção fundamentado no mérito pessoal, por exemplo, da carreira universitária.

Outro dia, em reunião de professores da pós-graduação, jovem colega discursava, intransigentemente, em defesa de determinado padrão de excelência como o único critério de alocação na poucas disciplinas disponíveis. Outro colega mais gaiato comentou baixinho: – É porque ele alcançou o  nível 1A… Desinformado, ingenuamente, indaguei: – Triple A?! Sem risco de mercado?

Fui, então, me informar sobre a notável importância da classificação dos pesquisadores brasileiros, realizada por “comissão de sábios” (Comissão de Sábios), de acordo com os seguintes requisitos, considerados em conjunto: produção científica; formação de recursos humanos em nível de pós-graduação; contribuição científica, tecnológica e para inovação; coordenação ou participação em projetos de pesquisa; participação em atividades editoriais, de gestão científica, administração de instituições e núcleos de excelência científica e tecnológica. Os pesquisadores são agrupados nas categorias 1 e 2, com o intuito de distinguir pesquisadores seniores e pesquisadores juniores ou recém-integrados ao sistema, levando-se em conta os níveis A, B, C e D para a categoria 1.

De antemão, surpreendeu-me que tão brilhante currículo acadêmico não tivesse ainda meritório reconhecimento entre os próprios colegas. Talvez, também na área profissional, o sucesso de crítica não implique, automaticamente, em sucesso de público… Mas o que lhe importa se o resto do mundo não o aprecia? Afinal, deve pensar ele, “a opinião pública é a pior de todas as opiniões”. A opinião especializada é, de fato, mais sábia, arguta e imparcial? O mercado não importa para o intelectual? Importa apenas o reconhecimento intra pares, isto é, colegas da mesma especialização?

Nos Estados Unidos, diz George Stigler, “Harvard acha importante ter uma forte influência sobre a opinião pública, e, de fato, é provável que a maioria das outras também ache, apesar de não ter tanto sucesso neste aspecto. (Existe uma anedota, em Harvard, que diz que é difícil conseguir quorum quando os Democratas estão na Casa Branca.)”

Mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), o Instituto de Economia da UNICAMP deve considerar importante ter forte influência junto à opinião pública, na medida em que tem, na eleição presidencial de 2010, os dois principais candidatos com passagem por ele. Dilma foi aluna no Mestrado e Doutorado, inclusive é minha ex-aluna. Serra deu aulas durante dois anos, logo que voltou do exílio, antes que abraçasse a carreira política, mas se aposentou pela Universidade. Fora essa evidência, possui professor que é senador da República pelo Estado de São Paulo e sempre, com professores e ex-alunos, forneceu quadros para o governo federal e os estaduais, inclusive para a presidência de empresas estatais como Petrobrás, Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social e Caixa Econômica Federal.

Postura comum entre os desenvolvimentistas que constituíram nossa Escola de Pensamento foi o rechaço da tese monoeconômica. Adotamos a concepção de que os países subdesenvolvidos possuem características econômicas distintas dos países industrializados avançados. Em conseqüência, a teoria econômica convencional, baseada no debate destes últimos países, deverá modificar-se, em aspectos importantes, quando for aplicada aos países subdesenvolvidos.

Como já reconhecemos, em outro post (Qual-is: qual é?), é essencial que o jovem estudioso se especialize: só dessa maneira conseguirá adquirir mais conhecimentos (e publicações) que seus colegas mais velhos e mais experientes. George Stigler salienta que “a especialização adotada por geração mais jovem [“geração Qualis”] constitui a estrada real tanto na vida intelectual quanto na econômica. O indivíduo amplamente treinado simplesmente não pode manter sua posição em qualquer campo frente ao indivíduo de habilidade e energia iguais que se especializa no assunto. Na verdade, o indivíduo que atualmente tenta abarcar uma ciência ou disciplina inteiras é considerado como um popularizador (“jornalista”), ou mesmo como charlatão, mas definitivamente não como estudioso criativo”.

Discordo. A literatura academicista em Economia está a cada dia mais se aprimorando em sua chatice e irrelevância. Quem lê aquilo?! O leitor é a pessoa que deve estar sempre presente na mente quando escrevemos. Devemos nos perguntar a cada passo: – “Irá o leitor virar a página?” O que nos leva a escrever é o desejo de divulgar nossas opiniões a público amplo. Destaco: “amplo público”! A ênfase deve sempre ser dada à escrita para o leitor comum, em contraposição à escrita apenas para os colegas eruditos. Quando escrevemos para público amplo, temos de ser claros e interessantes. Esses são os critérios cruciais que determinam bom texto.

Portanto, acho risível o argumento que não há mérito quando o editor comercial e/ou jornalista faz seleção de alguma obra ou artigo a publicar. O editor tem sim seus vieses ideológicos, mas aquele autor que, sabidamente, atinge grande público (“mercado”) tem sua obra considerada. Publicar em diário com mais de 320.000 exemplares atinge gente muito além do campus. Influencia o debate. Parece-me que a opinião pública não é pior do que a opinião especializada…

PS:

A alternativa de escapar da “ditadura dos editores” é escrever na web. Agrada-me mais saber que meu blog recebeu média de 157 visitas diárias, em seu segundo mês de vida, totalizando, ontem (06/04/10), 7.008 visitas desde o início de fevereiro, do que nunca saber quantos leitores obtiveram meus artigos em revista acadêmica.

Os leitores digitais aumentam a cada dia. No ano passado, enquanto a indústria do livro nos Estados Unidos apresentou aumento de 4,1%, os e-books deram salto de 176,6%, com vendas de US$ 169,5 milhões no período. De participação insignificante, os livros eletrônicos passaram a responder por 3,31% do mercado de livros nos Estados Unidos, em 2009, segundo dados da Association of American Publishers (AAP).

Com incentivos como o iPad, da Apple, que chegou às lojas americanas nesse último sábado, 3 de abril de 2010, e a adesão crescente das editoras ao formato, há previsões de que os e-books possam chegar a 10% do mercado norte-americano neste ano. Trata-se, portanto, de mercado de massa, cujo impacto mais forte é esperado no campo dos livros didáticos.

A literatura e os autores da academia ficarão à margem dessa evolução, sem usar os recursos de interatividade, como a possibilidade de consultar informações e fazer pesquisas on-line por cada aluno em sala de aula? Nesse caso de repulsa à massificação do ensino à distância, a meritocracia não seria apenas elitismo, ou seja, política que visa antes de tudo à formação e seleção de elite intelectual?

3 thoughts on “Meritocracia

  1. Olá, Fernando.
    Dê uma olhada no blog do CAECO. A discussão sobre a avaliação da CAPES e a reforma na pós tem sido um ponto quente. A reforma na graduação, no ano passado, tb agitou, mas com seu momentos de altas e baixas mobilizações.

    http://ieunicamp.wordpress.com

    Fuçando um pouco na net vi que o Qualis não tem agradado muito tb em outras áreas, como na Química e na Computação. Nesta última, não há sequer uma revista brasileira com classificação A !

    http://cienciabrasil.blogspot.com/2008/11/favor-de-impacto-por-marcelo-leite.html

    Abraços
    Vinícius

  2. Olá Fernando,´lí seu artigo, estou em um projeto de pesquisa onde abordo o tema Meritocracia – o reconhecimento de quem se empenha.Preciso referenciar artigos cientificos e me perdi. há possibilidade de ser notificada de novos posts?

    • Prezada Letícia,
      é possível subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email. Clique embaixo, na coluna da direita.
      Sobre o tema, escrevi uma série sobre o Qualis: pesquise com palavra-chave no alto à direita.
      Esse tema está na moda: é oportuno relembrá-lo à véspera de montar nova equipe de governo!
      Mas previne-se contra achar que mérito é apenas títulos universitários e/ou publicações acadêmicas.
      Política não é concurso de cátedra.
      Att.

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