Economia de Mercado de Capitais X Economia de Endividamento

Entre 1992 e 2000, o patrimônio líquido total das famílias norte-americanas cresceu mais rapidamente que sua renda disponível, devido às elevações dos preços das ações e das propriedades. Principalmente os 20% de americanos mais ricos, cujo patrimônio líquido quase duplicou, gastaram prodigamente. Os gastos dos consumidores alcançaram cerca de 70% de todo o crescimento econômico norte-americano, no final da década dos 90, daí os responsáveis pelas instâncias decisórias os terem observado com o cuidado de sustentar o emprego. Com a queda das cotações na Bolsa de Valores, tanto em 2001, quanto em 2008, o Banco Central norte-americano invocou a queda do efeito riqueza para explicar sua decisão de cortar a taxa de juros em curto prazo.

De um lado, a redução nas taxas de juros promovida pelo Federal Reserve, de 6,5% para 1,75% em 2001, permitiu a renegociação das dívidas hipotecárias, garantindo mais renda que foi direcionada para o consumo. De outro lado, o aumento nos preços dos imóveis possibilitou a captação de novos empréstimos pelas famílias, aumento no endividamento e, portanto, no consumo. Esse processo deu o fôlego aos consumidores para puxar a recuperação americana pelo menos até que a “bolha imobiliária” estourasse em meados de 2006. O Federal Reserve tinha elevado o juro básico de referência de 1% aa, em meados de 2004, para 5,25% aa, no início de 2006.

Em sistemas baseados em mercado de capitais, a volatilidade dos preços dos ativos – cambiais, mobiliários, de créditos e imobiliários –, que representam parcela importante do patrimônio das famílias e das empresas, reflete-se seja em “efeito riqueza”, seja em “efeito pobreza”. A percepção de aumento relativo no patrimônio eleva os gastos de consumo e deriva em investimento, inclusive pelo fornecimento de capitais de risco para financiá-lo. Isso ocorre mesmo sem a liquidação das posições,ou seja, na ausência da realização dos lucros imaginados. O ciclo de ativos financeiros pode, então, resultar em ciclo produtivo, com aceleração da taxa de crescimento.

Por aqui, no Brasil, não se constituiu “economia de mercado de capitais”. Em economia com grande instabilidade inflacionária e cambial, a forma preferida de manutenção de fortuna local era em bens de raiz. No passado, predominava o estoque de riqueza em escravos, terras, engenhos, imóveis urbanos, etc. No mercado financeiro, desde o século XIX, as emissões de títulos de dívida pública fornecem lastro para aplicações financeiras, contrapondo-se, parcialmente, às fugas de capital para o ouro ou as divisas estrangeiras. Evitam a dolarização da economia.

Grande parte da riqueza dos “novos ricos” surgiu de atividades não-produtivas, geralmente ligadas a ganhos de capital por meio de valorizações financeiras, como a venda de bens – imóveis, ações, fazendas, empresas, participações, etc. – comprados com preços baixos e vendidos após forte alta. Os empreendedores pioneiros investiram, inicialmente, em “zonas de fronteiras” e/ou espaços urbanos ainda não atendidos por determinadas atividades. Com o controle monopolista de mercados locais obtiveram “ganhos de fundadores” extraordinários, com o crescimento das cidades.

“Bolhas” são situações nas quais os preços dos ativos são inconsistentes com seus valores fundamentais. A economia de boom, ou seja, com alto crescimento, gera bolha de ativos quando a escala de influxos de riqueza ultrapassa a capacidade de criação de ativos de capital. Portanto, a economia de bolha é economia de boom com bolha de ativo: é o boom que se tornou especulativo e corre o risco de quebrar. Não há razão para esperar que os valores patrimoniais e os de mercado se correspondam sempre: por isso, as bolhas de ativos e/ou os colapsos de ativos são virtualmente onipresentes em economias com fronteiras delimitadas. Os fluxos de riqueza através de fronteiras são fluxos nominais à caça de ativos reais. As bolhas afetam, continuamente, os resultados econômicos.

No governo Lula, ocorreu a maior taxa de crescimento do consumo das famílias brasileiras nas últimas décadas. Não se podia imaginar crescimento sustentável se o consumo das famílias se mantivesse em queda. A política de estabilização inflacionária e cambial, com rígidas políticas fiscal e monetária, provocou a queda anterior, inclusive pelo “efeito pobreza”, provocado pela desinflação de ativos, particularmente da cotação do dólar. A política de expansão do crédito e de declínio das taxas de juros, a partir de junho de 2003, levou-a à recuperação do crescimento.

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