Eficácia e Combinação de Políticas Econômicas

14 Eficácia e combinação de políticas econômicas

–       Você poderia me resumir o que foi dito a respeito de em quais situações é necessário utilizar determinada política econômica? Surgindo tal oportunidade, qual eu usarei?

–       O Senhor Presidente pode se sentir confuso, pois, como vimos pelo Quadro 9.2, há oito situações possíveis de acordo com a combinação entre os dois regimes cambiais, os dois instrumentos de política econômica e os quatro graus de mobilidade de capital.

Resumidamente, quanto à eficácia na busca de maior nível de emprego, com um regime de câmbio fixo e a condição de haver certa mobilidade de capital, só a política fiscal atende a essa meta. Nesse regime cambial, a política monetária perde toda autonomia, porque o impacto monetário da variação de reservas cambiais anula o movimento inicial da oferta de moeda.

Se a flexibilidade do câmbio aumenta a eficácia da política monetária, ela não é condição absoluta de sua autonomia. Em regime de câmbio fixo, um banco central pode – temporariamente – esterilizar, através da política de crédito, o impacto monetário contrário das variações das reservas externas e ter, assim, política monetária conjuntural autônoma. Entretanto, expansão do crédito, compensando a diminuição das reservas, impulsiona o déficit externo e acentua a perda de reservas; acontece o contrário, no caso de política restritiva de crédito.

A política de esterilização do impacto monetário das variações das reservas cambiais, em regime de câmbio fixo, encontra duplo limite teórico:

  1. O esgotamento das reservas externas, no caso de política monetária expansiva;
  2. O desaparecimento do refinanciamento dos créditos à economia por conta do banco central, no caso de política monetária restritiva.

Dentro desses limites, a duração dessa esterilização depende da velocidade do ajuste do balanço de pagamentos às variações da política monetária. Isso depende de diversos parâmetros, principalmente da elasticidade dos movimentos dos capitais às variações da taxa de juros. Depende também do grau de dependência da produção local em relação aos bens negociáveis internacionalmente, ou seja, do grau de abertura da economia ao exterior.

Com regime de câmbio flexível, a margem-de-manobra torna-se maior. Dependendo do grau de mobilidade de capital, determinante chave. as variações da taxa de câmbio restabelecem, quase automaticamente, o equilíbrio de balanço de pagamentos. A política monetária é tão mais eficaz e a política fiscal tão menos eficaz quanto mais forte for a mobilidade de capital.

Nesse regime cambial flexível, uma elevação dos gastos governamentais aumenta a demanda por moeda em relação à oferta monetária e, em conseqüência, os juros domésticos ficam acima dos internacionais (i > i*). Com forte mobilidade de capital, há entrada líquida de capital estrangeiro e um superávit do balanço de pagamentos. Mas a apreciação da moeda nacional deteriora a competitividade-preço dos produtos nacionais, caindo então a demanda estrangeira. Este efeito depressivo limita ou anula o efeito expansionista inicial da política fiscal. Contrariamente, a política monetária expansiva provoca depreciação e um efeito estimulante sobre a demanda estrangeira que reforça o estímulo inicial da política monetária sobre o nível de atividades.

Em economia aberta, isto é, com abertura comercial e financeira, o efeito crowding-out financeiro, provocado por expansão dos gastos públicos, é limitado pelo afluxo de capital estrangeiro. De certa forma, há substituição por crowding-out cambial, devido à queda da taxa de câmbio ou apreciação da moeda nacional, e conseqüente perda de mercado, tanto interno quanto externo, dos produtos nacionais.

Essas conclusões são válidas desde que a flutuação cambial garanta o equilíbrio do balanço de pagamentos. Se não for o caso, isto é, se o câmbio for fixo, a restrição externa absoluta à entrada de capital limita o sucesso da política econômica, qualquer que seja ela. Assim,  para a busca simultânea do equilíbrio interno (nível de preços e emprego) e externo (balanço de pagamentos), há a necessidade de combinar os instrumentos. Os Quadro 9.5 resume as possibilidades, de acordo com a análise anterior, propiciada pelo Modelo de Mundell-Fleming.

QUADRO 9.5

ATRIBUIÇÃO DE INSTRUMENTOS DE POLÍTICA ECONÔMICA

À BUSCA DE EQUILÍBRIO INTERNO

MOBILIDADE REGIME CAMBIAL
DE CAPITAIS Câmbio fixo Câmbio flexível
Nula nenhuma política Duas políticas
Fraca só política fiscal Duas políticas
Forte só política fiscal mais política monetária
Perfeita só política fiscal só política monetária

Fonte: GÉNEREUX, Jacques. Macroéconomie Ouverte. Paris, Hachette, 1996. p. 114.

A regra de Mundell é regra de atribuição de funções aos instrumentos de política econômica: é conveniente atribuir à política monetária a busca do equilíbrio externo (no balanço de pagamentos) e à política fiscal a busca do equilíbrio interno, no combate ao desemprego e à inflação.

QUADRO 9.6

COMBINAÇÃO ÓTIMA DE POLÍTICAS ECONÔMICAS ADAPTADA A QUATRO POSSÍVEIS SITUAÇÕES:

SITUAÇÃO POLÍTICA MONETÁRIA POLÍTICA FISCAL
Desemprego e
déficit externo
contrativa expansionista
Desemprego e
superávit externo
expansionista expansionista
Inflação e
déficit externo
contrativa contrativa
Inflação e
superávit externo
expansionista contrativa

Fonte: GÉNEREUX, Jacques. Macroéconomie Ouverte. Paris, Hachette, 1996. p. 117.

A Regra de Mundell baseia-se no bom senso: a cada instrumento deve ser atribuída a perseguição do objetivo para o qual tem a eficácia relativa mais forte. A política fiscal deve ser expansionista, para combater o desemprego, e contrativa, no combate à inflação. A política monetária deve ser restritiva contra o déficit externo. Inversamente, no caso de um superávit do balanço de pagamentos, adotando-se política monetária expansiva, via diminuição da taxa de juros, propicia-se a saída de capital necessária para diluir o excesso.

Essa é regra válida com regime de câmbio fixo e mobilidade imperfeita de capital. Esta mobilidade está próximo do que ocorre na realidade. Também existem intervenções das autoridades monetárias, no mercado de câmbio, mesmo em  regime de câmbio flexível. Vimos, na Lição anterior que, na realidade, a flutuação cambial não consegue restabelecer, rapidamente, o equilíbrio do balanço de pagamentos. Em conseqüência, em regime de câmbio flexível, a política econômica sofre restrição externa, temporariamente, semelhante àquela associada ao regime de câmbio fixo.

–       Acho que está clara a Lição: tanto na democracia, quanto estou em economia aberta, não posso fazer exatamente o que eu quiser, meu poder tem limites!

16 thoughts on “Eficácia e Combinação de Políticas Econômicas

  1. quais as combinações necessárias, entre política monetária e fiscal para combater o desemprego?

    • Este é o tema de cerca de ⅓ do curso de Macroeconomia Aberta, portanto, leia as aulas correspondentes na Categoria assim denominada, no lado direito do Blog.
      Não é possível resposta sintética em apenas uma frase, pois depende de análise combinatória consistente entre quatro instrumentos de política econômicas, isto é, políticas monetária, fiscal, cambial (fixo/flexível) e quatro graus de controle de capital. Portanto, há 16 combinações possíveis com eficácias distintas.
      Att.

  2. Por favor poderia responder essas duvida/
    Como a taxa de juros pode ajudar no combate a inflação ?

    2)Como a política de credito pode combater a inflação?

    3)Como os instrumentos da politica monetaria pode ajudar a combater a inflação ?

    o Brasil está em um ranking IGine,.
    .

    1)Como a politica monetária pode ajudar o brasil a entrar nesse ranking?

    2)Como a politica de credito pode ajudar o brasil a entrar nesse ranking?

    3) é a política fiscal… ?
    7) Em período de recessão, como as transferencias ajudam o país a deinamizar a economia?

    Att

    Mari

  3. Por favor me tire uma duvida…

    Caso esteja em um cenário de câmbio fixo, mobilidade imperfeita e politica monetária contracionista, como a aeconomia se comportará?
    e a politica fiscal contracionista nesse mesmo cenário de câmbio e mobilidade?
    Tenho conhecimento do cenário com mobilidade perfeita, mas essa eu gostaria de saber..

    Abçs Claudio

  4. Boa Tarde Professor;

    em que ambiente os instrumentos das politicas economicas sao mais eficientes?

    Um Abraço

    • Prezado Mário,
      a pergunta correta seria a inversa: os instrumentos de política econômica são eficientes para qual ambiente? O “ambiente macroeconômico”, geralmente, é entendido como contexto. Pode ser de pleno emprego, crescimento, recessão, depressão, inflação, estagflação, etc. De acordo com o diagnóstico, escolhe-se a terapia, ou seja, o medicamento.
      Há quatro instrumentos básicos: política monetária, política fiscal, política cambial, controle de capital. Este último define o grau de abertura da economia em quatro níveis: imobilidade de capital, mobilidade imperfeita (alta ou baixa), mobilidade perfeita. Portanto, a análise combinatória de todos os instrumentos resultará em dezesseis situações possíveis de se estudar em Macroeconomia Aberta.
      Eu era professor dessa matéria durante um semestre no terceiro ano da graduação de economista. Portanto, não é assunto trivial que se possa tratar de maneira ligeira.
      Att.
      Fernando

  5. Qual seria a combinação para resolver problemas de baixa renda do governo e aumentar emprego?quanto na política fiscal quanto na monetária?

  6. Num sistema de câmbio fixo/flutuante com mobilidade imperfeita de capital, a política fiscal tende a provocar sempre déficit no BP?

    • Prezada Daniele,
      expansão fiscal para aumentar o nível de emprego, com câmbio flexível, ao contrário do que ocorre em regime de câmbio fixo, a forte mobilidade de capital limita os efeitos da política fiscal. Isto porque a apreciação da moeda nacional freia atividades de empresas exportadoras e das empresas competidoras com importações.

      No caso de fraca mobilidade de capital, o efeito expansionista da política fiscal, reforçado pela depreciação da moeda nacional, estimula exportações e desestimula importações.
      att.

    • Prezado Lucas,
      se os juros abaixam demasiadamente há o risco de fuga de capital do carregamento dos títulos de dívida pública para a compra de dólares. Pela disparidade dos tamanhos do mercado, qualquer vazamento poderá resultar em um choque cambial e, daí, em um choque inflacionário.
      att.

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