Autoanálise Social do Brasileiro

A forma como o brasileiro vê a si mesmo, em termos de posição na pirâmide socioeconômica, condiz pouco com a realidade. Em sua maioria, os ricos no país não acreditam que são realmente ricos. A maior parte dos pobres creem que pertencem, no pior dos cenários, à classe média baixa. Essas conclusões fazem parte de estudo inédito de 60 páginas, realizado por grupo de grandes empresas de consumo e pelas consultorias Accenture e Plano CDE, cujo resumo foi publicado pelo Valor (07/05/2010), em que se aponta série de detalhes sobre pretensas incoerências na autoanálise do brasileiro.

Fica claro no estudo como as imagens criadas se confundem e se distorcem. Um entre cada dois brasileiros ouvidos que pertecem à classe A se autoavalia como consumidor de classe média ou classe emergente. Ainda nesse grupo de endinheirados, 2% cre que é pobre, ou seja, faria parte da classe E, que pelo estudo ganha até R$ 600 por mês. Os ricos que se consideram “apenas” pertencentes à classe média alta são 35% da amostra, ou seja, um em cada três.

Outro dado em especial chama a atenção dos consultores. Metade dos entrevistados que efetivamente pertencem à classe C não acredita que faz parte dessa imensa e crescente classe média brasileira. Nesse caso, há espécie de diminuição de posto: 9% imagina que é pobre e 37%, classe média baixa. Ainda há 1% que pensa ser rico mesmo não recebendo mais que R$ 3 mil ao mês.

Para se chegar a esse resultado, os consultores primeiramente questionaram os entrevistados, em janeiro e fevereiro de 2010, cerca de 1,6 mil pessoas ouvidas nas ruas de duas cidades, São Paulo e Recife, para descobrir em que posição da pirâmide social estavam. No relatório, os pesquisadores arbitraram como consumidores de classe A aqueles que recebem acima de R$ 6.000,00 ao mês e os valores decrescem até a classe E, com renda até R$ 600,00. Com base na renda familiar, perguntavam em que classe acreditavam pertencer.

Essa imagem refletida se distorce por razões culturais e comportamentais. Há aspecto altamente subjetivo que pesa nessa análise. No caso dos mais abastados, existe o fator de aspiração à ascendência maior que pode deturpar a autoanálise. O rico que viaja com frequência, e conhece a classe média americana, por exemplo, acredita que tem muito menos recursos e bens do que esse americano de alto padrão. Por isso, o rico brasileiro não acha que é rico. É o “complexo de inferioridade pós-globalização”.

É forma de pensar exatamente oposta àquela da base da pirâmide. Entre os pobres ouvidos na pesquisa, mais da metade (53%) acredita ser classe média ou média baixa. Em outras palavras, ele sempre acha que está melhor do que a sua classificação indica. Acesso à estudo tem peso nisso. Pessoas das classes D e E com fundamental completo têm maior probabilidade de se autodefinirem de classe média baixa.

De acordo com especialistas em consumo e renda, esse grupo entende que está mais acima na pirâmide também porque ele se baliza pelo ambiente onde vive. Se a família possui filhos que conseguem ir à faculdade ou adquire carro, ainda que em parcelas a perder de vista, ela passa a crer que já é classe média. Pode até ser que essa família realmente tenha se tornado classe média por causa dessas conquistas. Mas o que importa sempre é a percepção, ou seja, o salário relativo e não o absoluto em termos nominais. Ela vê o vizinho ao lado sem nada semelhante ao seu consumo e acredita que está melhor ou subiu de padrão de vida.

Essas percepções se formaram em período de forte migração de classes. Dados da FGV, com base em números da PNAD/IBGE, mostram que a classe E diminuiu de tamanho, passou de 28% para 15,3% da população entre 2003 e 2008. Nesse mesmo período, a classe C passou de 37,6% para pouco mais de 50% do total de brasileiros em idade ativa, o que equivale a cerca de 80 milhões de pessoas em 2008, com base na PNAD daquele ano. Entre brasileiros da classe alta, a ampliação do bolo foi mais lenta. Passou de 7,6% do total para 10,6% entre 2003 e 2008.

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