Algoritmos

Os algoritmos são responsáveis pela maioria das transações com ações e derivativos nos Estados Unidos. Começam a ganham espaço por aqui os softwares que desenvolvem cálculos estatísticos para identificar oportunidades de ganho nas bolsas. Corretoras, fabricantes de softwares e a BM&FBovespa fazem investimentos para acessar a nova tecnologia. O mercado está caminhando para adoção de algoritmos. O volume de novas transações que esses programas poderão gerar em breve, imagina-se, vai se traduzir em mais faturamento. E em risco sistêmico?

Depois de alimentar os softwares com certos parâmetros estatísticos, os computadores dispensam a ação humana para disparar ordens de compra e venda de ativos. Seguem sequência de comandos, isto é, o algoritmo, para identificar ínfimas distorções de preços dos ativos e fazer as operações automaticamente. Se forem conectados a sistemas de transmissão de dados rápidos, os computadores negociam os papéis com velocidade que nenhum investidor conseguiria atingir, o que faz com que sejam chamados de sistemas de alta frequência. Como os ganhos por transação tendem a ser pequenos, o segredo para faturar alto é fazer grande volume de operações em frações de segundo, o que tende a turbinar a movimentação total nas bolsas.

Nos Estados Unidos, os algoritmos representam 60% das transações à vista e metade do fluxo que vai para futuros e opções, enquanto aqui a participação é de apenas 6% no segmento Bovespa e inferior a 1% na BM&F. Mas, como esse tipo de negociação só começou a virar realidade no Brasil com o fim do pregão viva voz, encerrado definitivamente em julho de 2009, a expectativa é de crescimento dos negócios.

Para dar conta do volume crescente de operações que a tecnologia deve agregar, a BM&FBovespa vai dobrar, em 2010, sua capacidade de processamento, para 3 milhões de negócios por dia no segmento Bovespa e 400 mil na BM&F. Ainda vai demorar para alcançar os patamares internacionais.

As corretoras se preparam para oferecer aos clientes algumas estratégias algorítmicas, ao mesmo tempo em que fazem conexões em alta velocidade com a BM&FBovespa para acelerar a chegada das ordens de compra e venda de ativos à bolsa. A maioria delas guarda segredo das cifras investidas. É necessário inclusive construir “espelhos” ou “clones”, onde ficam os computadores reserva, para o caso de pane ou qualquer outro tipo de problema nos aparelhos que estão instalados na corretora. Muitas corretoras aproveitam a experiência desenvolvida no exterior, seja trazendo dos Estados Unidos os executivos responsáveis pela implantação das ferramentas, seja importando das matrizes os programas para o Brasil.

As estratégias de algoritmos incluem desde operações triviais como se adquirir certa ação com cotação determinada, até transações reativas, que disparam compras quando algum ativo atinge, por exemplo, nível de negociação de 100 mil ações. A aquisição de grande lote de papéis também pode ser distribuída em intervalos de tempo para se replicar preço médio já alcançado antes. Para resguardar a segurança dessas ordens, por exemplo, o BofA Merrill Lynch repetiu no Brasil o modelo aplicado em outros 30 países, em que os operadores da corretora não têm acesso às transações efetuadas pelos sistemas de algoritmos, ou seja, há “chinese wall”. São ordens invisíveis, que garantem a privacidade do investidor final.

Segredo é a alma do negócio nesse mercado. Dados aparentemente simples como a velocidade para se efetuar transação, tamanho da equipe dedicada às estratégias com algoritmos e investimentos são mantidos em sigilo pelas corretoras que fazem operações de alta frequência em sistemas desenvolvidos internamente. Ao se valer dos algoritmos, os investidores buscam validar fluxos grandes de transações de tal forma que tenham o menor impacto perceptível no mercado. Arbitragem entre ativos, operações de volatilidade e fluxo de ordens com o objetivo de obter preço médio para determinado papel estão entre as táticas mais usuais entre os clientes.

A inglesa Icap chegou ao Brasil há pouco mais de um ano e logo colocou as programações algorítmicas na prateleira. Maior “broker” do mundo, responsável por intermediações da ordem de US$ 1,5 trilhão ao dia, a Icap usa tanto plataformas proprietárias como sistemas existentes no mercado. Apesar de fornecer a conectividade, não monta estratégias, deixando isso a cargo dos clientes. Em boa medida, eles são grandes gestores de fundos quantitativos, que têm nos algoritmos a alma do seu negócio. Para esse público, a infraestrutura de hardware, a capacidade de rede, a velocidade e confiabilidade do link é que contam.

O Bradesco também optou por não desenvolver a programação dos softwares já que não é especialista nisso. Então preferiu deixar isso para as empresas indicadas aos clientes. Sua tarefa é conectar o software do cliente à rede da bolsa.

Dificilmente, essas operações via algoritmos atingirão as fatias que detêm nos Estados Unidos. Um dos motivos é o fato de no Brasil existir apenas uma Bolsa de Valores, o que reduz as chances de arbitragem. Se o mesmo ativo for negociado em diversas plataformas, aumenta a chance de distorções nos seus preços. Outro fator limitador é a incidência do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que passou a recair sobre os investimentos estrangeiros em ações, em outubro de 2009, inibindo a participação do público que mais tem afinidade com as negociações de alta frequência.

Leia sobre o risco sistêmico do uso de algoritmos: A culpa é dos algoritmos 130510

2 thoughts on “Algoritmos

  1. Prof. Fernando, ainda nesse tema, leu o artigo: A culpa é dos algoritmos? (Por Alex Ribeiro – Valor Econômico – 13/05/2010).
    Observe este trecho:

    \”Se a maioria dos operadores está tomando decisões com base em análises fundamentais, o mercado tenderá a ser mais estável\”, afirma Sethi. Nessa situação, os algoritmos identificam e tomam carona nas tendências ditadas pelos fundamentalistas. \”Se muita gente usa programas de computador para prever os movimentos de mercado, os riscos de instabilidade são maiores.\” Nessa situação, o risco é que os algoritmos apenas reajam os ruídos feitos por outros algoritmos.

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