Serra Leoa 1 X 2 Brasil

A comparação do número de pobres do Brasil com o de outros países é dificultada em razão dos diferentes critérios e métodos por vezes usados pelos países. No entanto, em termos de desigualdade, é possível afirmar que a distribuição de renda no Brasil somente agora está deixando de ser uma das piores do mundo. Considerando o índice de Gini de 130 países selecionados, no governo FHC, o Brasil era o penúltimo colocado (0,60), superado apenas por Serra Leoa (0,62). O índice brasileiro era aproximadamente duas vezes e meia pior que o verificado na Suécia (0,25), nação que estava entre as que tinham renda mais bem distribuída no mundo, e também pior que o observado em países com características semelhantes às brasileiras, como o México (0,53). Dizia o IPEA, na época, que “o que distingue o caso do Brasil em termos internacionais é que os elevados níveis de pobreza não estão relacionados à insuficiência generalizada de recursos, mas sim à extrema desigualdade em sua distribuição”.

Mas que país é esse – Serra Leoa – com pior distribuição de renda do que a do Brasil? Sua população era de 5,2 milhões de habitantes em 2004. Mas a nacionalidade leonesa era composta de pelo menos 10 etnias, porém a maioria da população pertencia a duas etnias: os temnes (31,7%), seguidores do islamismo, e os mendes (34,6%), em geral animistas. A religião principal era o islamismo (45,9%), mas as crenças tradicionais (40,4%), o cristianismo (11,5%), e os sem religião (2%) tinham peso. Possuía 4 idiomas: inglês (oficial), crioulo, mende, limba, temne. Seu PIB atingiu US$ 783 milhões, em 2002. Seu regime político era de República presidencialista, mas seu presidente estava no poder desde 1996, pois, deposto em 1997, retornou em 1998, e foi reeleito em 2002.

Situada na costa oeste africana, Serra Leoa possui áreas de extração de diamante, a principal atividade econômica do país. Na década de 1990, quando o país mergulhou na guerra civil entre o governo e a Frente Revolucionária Unida (RUF), esta facção obtinha recursos para comprar armas explorando as minas de diamante sob seu controle. O turismo, cujo atrativo era as reservas de animais selvagens, sofria os efeitos negativos dos recentes conflitos internos.

O início de sua história foi semelhante à brasileira. Em meados do século XV, os portugueses chegaram à região, então habitada pelos temnes, com os quais passaram a comerciar escravos. Mas o território foi ocupado pela Inglaterra no século XVII. Em 1786, certa companhia comercial britânica fundou a cidade de Freetown (Cidade Livre), que recebeu ex-escravos refugiados do Canadá e do Reino Unido. No início do século XIX, a Coroa Britânica adquiriu parte do território, transformando-o em colônia. Após a proibição do tráfico de escravos, em 1807, milhares de africanos interceptados em navios negreiros foram levados a Serra Leoa, onde passaram a enfrentar os temnes, em luta que se prolongou até o fim do século XIX. Apoiados pelos ingleses na luta contra os nativos, os ex-escravos compõem a elite do país.

Em boa parte da África, a escravidão manteve-se até a segunda e a terceira décadas do século. Serra Leoa foi onde mais se demorou a extinguir a escravidão.

As nações européias mantiveram o controle efetivo da África até as independências nacionais, concentradas em torno dos anos 60´s. A independência de Serra Leoa, obtida em 1961, embora tenha rompido os laços com o Reino Unido, não trouxe grandes alterações à política da nação. Houve sucessão de golpes e contragolpes militares. O regime de partido único foi aprovado em plebiscito em 1978. Porém, nova Constituição, aprovada em plebiscito, marcou a redemocratização, em 1991. No ano seguinte, entretanto, novo golpe despertou, no sudeste do país, a guerrilha da Frente Revolucionária Unida (RUF), que assumiu o controle de parte do território. O primeiro governo civil em quase duas décadas iniciou diálogo com a guerrilha. Em 1997 e 1998, houve novo golpe e contragolpe militar. Quando as tropas rebeldes tomaram a capital, lançaram campanha de terror contra a população civil, promovendo amputações em massa.

O acordo de paz, assinado em 1999, levou a ONU anunciar o envio de 6 mil soldados de uma força internacional para garantir a pacificação. Em 2000, contudo, reiniciaram-se os combates. A ONU decidiu ampliar a tropa para até 17,5 mil homens, tornando-se a maior força de paz do mundo. Finalmente, o governo e os rebeldes chegaram a outro acordo de paz. Nos meses seguintes, a força internacional desarmou 70 mil combatentes das forças pró e contra o governo. Em dez anos, a guerra civil matou 50 mil pessoas.

No começo de 2002, houve a instalação de tribunal de crimes de guerra, para julgar as atrocidades dos líderes dos dois lados em conflito. O Fundo Monetário Internacional (FMI) anulou 80% da dívida externa (950 milhões de dólares) e reescalonou o pagamento do resto.

Não é o caso de fazer humor e dizer que “esse país existe para o nosso parecer melhor do que é”. Trata-se sim de tirar lição dessa história comparada: a herança maldita (e comum) herdada de colonização, escravidão, ditaduras e conflitos internos – lá, guerra civil, aqui, guerra do tráfego de drogas – resultou na tragédia de Serra Leoa e Brasil terem as piores desigualdades sociais no mundo no final dos anos 90.

Entretanto, devem ser ressalvadas as diferenças. O Brasil, hoje, tem o nono maior PIB (por paridade de poder de compra) do mundo, fruto de economia diversificada. Serra Leoa é uma das nações mais pobres do mundo e tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano. O atraso histórico de lá em relação à independência, à conquista de democracia e à coesão social, inclusive tolerância política, racial e religiosa, é muito maior do que o daqui.

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