Entrevista ao CAECO – Centro Acadêmico da Economia

Em reconhecimento da importância histórica do Instituto de Economia da UNICAMP no cenário nacional, o CAECO tomou a iniciativa de estimular o debate a respeito do período de reformas pelo qual passa. Concedi a entrevista abaixo, publicada no Jornal do CAECO online (Entrevista ao CAECO) e em sua versão impressa, para exprimir minha percepção pessoal a respeito das características e dos desafios de nossa Escola. As perguntas foram:

1)         Qual é a importância para o Brasil da ciência econômica nas Universidades?

2)         O que define, em termos epistemológicos e institucionais, determinada Escola de Economia?

3)         Qual é a Escola de Campinas?

4)         Qual é o papel da ANPEC e da CAPES e como elas influenciam o cotidiano no IE?

5)         Qual é a função da pós-graduação dentro do Instituto?

6)         Quais são as questões centrais desta reforma da pós-graduação no IE?

7)         Quais seriam as linhas gerais necessárias, epistemológicas e institucionais, para o IE, na próxima década, e qual seria o perfil desejado para seu pós-graduando?

Qual é a importância para o Brasil da Ciência Econômica nas universidades?

Eu acho que essa pergunta deve ser respondida para o caso específico desta Escola. Irei falar como professor desta Escola de Pensamento, a do Instituto de Economia da UNICAMP. Este tipo de pergunta já induz a resposta para nós: a formação de qualquer economista para a sociedade, ou seja, de profissional para o mercado de trabalho, seja no nível da graduação, seja no da pós, deve ser voltada para o desenvolvimento do Brasil! Isso que nos dá postura bem distinta da predominante em outros cursos, porque professores de outras escolas acham que a formação do economista é universal, sempre a mesma, baseada em “currículo mínimo” obrigatório. Partem do princípio que há apenas uma “Ciência Econômica”. Portanto, no plano abstrato, o que ela propõe para outros países deve servir também para o Brasil… e em qualquer época! Nesse nível de abstração, a teoria econômica seria adequada a qualquer lugar e em qualquer tempo.

A meu ver, nossa Escola de Pensamento começa rechaçando essa tese, que é classificada como mono-econômica. Os autores mais conhecidos abstraíram a partir da realidade dos países avançados. Nossos antecedentes da Cepal tentavam, justamente, conceber teoria do desenvolvimento em que se contemplasse a especificidade que havia na economia da América Latina. A “Escola de Campinas” nasceu para pensar qual é a especificidade da economia brasileira dentro da América Latina e do mundo. Isso significava que as teorias que foram criadas em países do chamado Primeiro Mundo, os desenvolvidos, tinham que ser requalificadas, adequadas e questionadas, antes de serem aplicadas à realidade brasileira. A Cepal também necessitava ser criticada por criar um modelo único para a América Latina, aliás, porque era essa interpretação o que se cobrava dela. Há inúmeros exemplos disso, como o da Teoria Cepalina da Inflação, que foi baseada na experiência chilena, onde se tinha problema de oferta agrícola. No Brasil, no entanto, a realidade era outra. Aliás, o país está para se tornar o maior produtor de alimentos do mundo. Então, tinha que se adequar aquela teoria estruturalista ao espaço e ao tempo. Por isso, a Escola de Campinas nasceu com a criação de sua pós-graduação em 1974, a partir do retorno de professores que estavam no Chile, depois do Golpe Militar derrubando o Governo Allende, em 1973. Eu sou da segunda turma do Mestrado, a de 1975.

A ideia era ter o que nós chamávamos na época de “visão endogenista” ou “de dentro para fora”, quando toda a visão da esquerda até então, influenciada pela ótica marxista, era “de fora para dentro”. Vinha da visão da colonização, em que a exploração colonial vinha de fora, ou seja, da metrópole. Nós pensávamos que deveríamos partir da especificidade de como se criaram as relações de produção capitalista aqui, no último país independente a extinguir a escravidão. Na época, havia viés bem marxista por parte dos alunos. Queríamos entender a luta de classes brasileira, verificar como se associavam, por exemplo, a nossa classe dominante e a classe dominante internacional. Para isso, achávamos que nós tínhamos que começar por entender “que país é este”, e depois verificar sua inserção internacional.

Inclusive fomos criticados dentro da esquerda, em debate que não é muito conhecido pelos atuais alunos, por um grupo de trotskistas franceses, que publicavam na revista chamada “Critiques de l’Economie Politique”. Era “semi-clandestina”, porém que se encontrava na livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro, onde inclusive o General Golbery, o homem-forte do governo Geisel, freqüentava… Foi a primeira crítica que a Escola de Campinas recebeu, porque eles tinham a visão exógena da esquerda, isto é, “de fora”, baseada na exploração ou no “intercâmbio desigual” como a característica essencial, permanente, das relações existentes entre a “periferia” subdesenvolvida e o “centro” capitalista. Marx descreve o processo da exploração a que esteve sujeita a periferia durante o período da acumulação primitiva no centro. Mas o futuro desses países periféricos estaria espelhado no presente das economias mais avançadas. Dizia: de te fabula narratur, isto é, “de ti fala a história”.

Nossa visão, pelo contrário, vinda de nossa tradição cepalina, era que tínhamos que construir a nação com a nossa especificidade, buscar a autonomia nacional no relacionamento com o resto do mundo. Até hoje, a tradição nacional-desenvolvimentista tem esse propósito: inserção internacional autônoma. Hoje, no final do governo Lula, isso está muito claro, quando temos política externa muito diferente da anterior, porque busca relacionamento diplomático independente – negocia com o Irã, com os outros BRIC, a África, o Oriente Médio, o Sudeste Asiático –, ou seja, busca autonomia na inserção internacional. No governo anterior, o de Fernando Henrique Cardoso, aliás, o autor mais conhecido da Teoria da Dependência, achava que a globalização era muito positiva! Assim, não tinha jeito, a inserção seria subordinada mesmo. Não havia essa busca da autonomia nacional, que era bandeira de luta da ideologia nacional-desenvolvimentista desde os anos 50, no segundo governo Vargas, com a campanha popular “O Petróleo é Nosso”.

Então, a importância da Ciência Econômica para o Brasil, aqui, para nós, é sob ponto de vista diferente do predominante nas outras Universidades. A nossa é buscar a inserção soberana do Brasil no mundo e analisar a especificidade econômica brasileira e, para isso, necessitamos adequar as teorias abstratas para aplicar à nossa realidade e tentar transformá-la em “o que deveria ser” de maneira democrática. Não podemos só ficar só no plano abstrato, temos que construir a Nação, de maneira civilizada e autônoma!

O que define epistemologicamente determinada Escola de Economia?

Qualquer Escola de Pensamento Econômico é definida em torno do desenvolvimento interrelacionado de certo tema comum entre os seus membros em determinada instituição ou local. Essa Escola deve ter a capacidade de se comunicar e influenciar outros membros da profissão, no caso, a de economista, porque se ela se fecha em si ela não é reconhecida pela comunidade profissional como fonte de conhecimentos. Ela deve ser capaz de influenciar não necessariamente só os economistas, formando opinião especializada, mas também a opinião pública. Isto eu acho que é característica da nossa Escola de Campinas: a capacidade de dialogar com empresários, sindicalistas, políticos, governantes. Essa é uma característica muito importante, a capacidade de conversar “extramuros” acadêmicos, não ficar restrito a debates teóricos com outras comunidades acadêmicas, em Congressos da Anpec, mas ligar sua atividade à realidade. Por isso ela está fortemente ligada ao seu local e tempo.

Como exemplo, cito uma das que mais admiro entre todas as Escolas de Pensamento Econômico: a Escola de Estocolmo. Ela durou apenas dez anos: de 1929 a 1939. A partir deste ano, seus membros se dispersaram. Eles eram brilhantes, pois elaboraram teoria macroeconômica dinâmica, antes do Keynes apresentar, em 1936, sua macroeconomia estático-comparativa. Sua discussão metodológica era muito mais avançada do que a de Keynes. Não se tornou tão conhecida, porque eles escreviam, inicialmente, apenas em sueco, traduzido no máximo para o alemão. Então, apenas alguns economistas ingleses tomavam conhecimento de suas teses. John Hicks tomou, e isso o influenciou muito. O Keynes só a conheceu depois de publicada a Teoria Geral. Tanto que ele se propunha reescrever a Teoria Geral com base na metodologia ex-ante e ex-post da Escola de Estocolmo. Entretanto, depois de prometer isso, teve problema cardíaco e não pôde fazê-lo. Depois, veio a Segunda Grande Guerra e aí, definitivamente, não pode mais cumprir a promessa. Ele apenas escreveu um artigo sobre isso. Porque a Escola de Estocolmo acabou em 1939? Não só porque começou a guerra, mas também porque seus membros se tornaram políticos, deputados, até houve secretário-geral da Unesco. Eles passaram a estudar o desenvolvimento econômico em outros países, inclusive o racismo. Portanto, ultrapassaram as fronteiras suecas e da teoria abstrata. Foram reconhecidas suas contribuições através de Prêmio Nobel de Economia e da Paz.

Qual é a Escola de Campinas?

A gente tem que analisar a Escola de Campinas, metodologicamente, em três planos. Qual foi o tema comum nos primórdios da nossa Escola? Reinterpretar o capitalismo brasileiro do ponto de vista endógeno, não apenas focalizando sua relação de subordinação. Utilizou, para isso, novos autores, abandonando a síntese keynesiano-neoclássica em que se baseava a Escola da CEPAL. Nossa geração estudou o marxismo nos cursos de Economia Política, a tese de doutorado do Belluzzo, por exemplo, é sobre a teoria do valor em Marx. Estudamos também Kalecki, muito mais que Keynes, por aquele ter elaborado Teoria da Dinâmica Econômica. Estudamos Teoria do Oligopólio de autores que nenhuma outra escola estudava, entre outros, Steindl, Labini, Bain. O Luciano Coutinho foi meu professor dessa matéria. Depois, outro grande autor, Schumpeter, veio ganhando mais importância para nós. Com esses autores e suas teorias, construídas no plano abstrato, a gente as aplicava, reinterpretando o capitalismo brasileiro e a história econômica brasileira sob novo ponto de vista. A pergunta-chave era: “o Brasil fez a industrialização completa ou teria que investir em nova etapa de industrialização pesada?” Este tema da tese do João Manuel Cardoso de Mello foi muito influente na análise do PND II. Estávamos vivendo exatamente na época do governo Geisel, quando surgiu o debate sobre se o governo deveria dar incentivos, subsídios para completar a industrialização, se iria haver industrialização pesada, para ganhar maior autonomia nacional.

Essa busca de autonomia, ou seja, de inserção soberana, mantinha como base do pensamento nacional-desenvolvimentista da Escola de Campinas. Todas as teses da época, cujas defesas quase todas eu assisti, em 1975 e 1976, eram reinterpretações da história econômica brasileira. Por exemplo, o objetivo da minha dissertação de mestrado era buscar uma explicação na história bancária brasileira de algo que ninguém sabia. A pergunta-chave era a seguinte: porque os maiores bancos privados do Brasil eram de origem mineira? Ninguém sabia responder. Então, essa pergunta era feita para mim, o único mineiro da turma. A dissertação ganhou menção honrosa no Prêmio BNDES, como a primeira tese de história econômica reconhecida naquele concurso. A questão fundamental era essa: entender o capitalismo brasileiro. Ou você acha que a CEPAL se preocupou com a história bancária daqui do Brasil?

Em referência aos 80 anos que a Maria da Conceição Tavares estará completando, no dia 24 de abril de 2010, eu fiz um post no meu blog [https://fernandonogueiracosta.wordpress.com] lembrando como eu vim para Campinas principalmente em função dela, porque eu fiquei sabendo que ela iria dar aulas aqui. Na graduação, eu já tinha sido influenciado pelo estudo dela de capitalismo financeiro para escolher minha especialização. Mais tarde, quando me tornei ex-aluno e amigo dela, ela me disse que, na sua época, havia apenas um intelectual da esquerda que estudava finanças, o Ignácio Rangel, que havia trabalhado no BNDES. A segunda pessoa de esquerda foi ela, quatro anos depois do “Inflação Brasileira”, clássico do Ignácio Rangel, publicado em 1963, onde ele defende a tese de que se não houvesse reforma financeira o capitalismo brasileiro não iria avançar.

Então, qual é a particularidade da Escola de Campinas? Do ponto de vista de teoria abstrata, usar novos autores com abordagens heterodoxas. Eu, talvez diferentemente de alguns colegas, não acho que nós temos que definir apenas três autores como os pilares do nosso pensamento. Sem dúvida, alguns tem maior importância, Marx, Keynes e Schumpeter são os mais citados aqui. Existe outro nível menor de abstração, o de ciência aplicada, quando conhecimentos de outras ciências, antes abstraídos, são reincorporados para analisar a realidade. É característica da nossa Escola, por exemplo, ter muitos profissionais que são historiadores, sociólogos, politicólogos. Nós sempre tivemos relacionamento com as outras áreas das ciências humanas, o que é importante para a formação de qualquer aluno da pós-graduação, e também da graduação. É fundamental não ficar apenas no conhecimento da ciência pura. O terceiro plano, característica muito particular da Escola de Campinas (e também da Federal do Rio, cuja raíz é a Escola de Campinas), é chamada a “Arte da Economia”, pois não estudamos economia por razões acadêmicas, para fazer “pontinho” [referindo-se  aos critérios do Qualis]. Eu pelo menos vim para cá por razão política. No regime autoritário, existia determinada questão política que unia todos da oposição, que era a conquista da democracia. Então, era fundamental fazer proposições alternativas de política econômica para o debate nacional. Fazer primeiro o que se chama de Economia Positiva (não “positivista”), que significa analisar “o que é”, “como funciona”, como é o relacionamento com empresários, com sindicatos, com o governo. Mas também era exigido propor Economia Normativa, ou seja, “o que deveria ser”, propor política econômica. Ter diálogo com a opinão pública e ter posição democrática nos debates era fundamental. É por isso que a Economia de Campinas ficou notável, por sua participação política. Entre meus professores, vários eram assessores de Ulisses Guimarães, presidente do MDB. Minha geração foi mais para o PT…

Toda esta experiência da qual eu estou recordando é para as novas gerações não esquecer. Às vezes, esquece-se aqui que nós somos Escola de Pensamento, talvez a única do país com tantas especializações. Isto significa, principalmente, o compromisso assumido com a sociedade brasileira em formar ótimos quadros profissionais e líderes. Não conheço outra escola de Economia no mundo que tenha dois egressos como candidatos à presidência da República, especialmente de país com a importância do Brasil, com chances de se eleger. Em outras palavras, o próximo Presidente do Brasil passou pela Escola de Campinas!

Formar quadros profissionais não significa formar só quadros acadêmicos. É incoerente ficar voltado apenas para o campus, para o criterio de avaliação da Capes, ou só considerar importante o ranking da Anpec, esse tipo de coisa dos “pontinhos Qualis”. Isso para mim tem importância secundária. O mais importante é dialogar com a opinião pública e com a opinião especializada, embora esta última tenha muito ciúme, muita crítica, muita rivalidade, olha, não é fácil… Opinião de colega não é critério de auto-avaliação, critério de avaliação é a contribuição que você dá para a sociedade que, em última análise, paga seu salário. O que importa é a opinião pública, e não a opinião de colegas emitida através de pareceres anônimos. Eles acabam se comportando como rivais, disputando o mesmo espaço em poucas publicações. Infelizmente, as “comissões de sábios” escolhidas pela CAPES fizeram de tudo para distribuir bolsas e verbas sob o critério de avaliação cheio de vieses do Qualis. Criaram oligopsônio de revistas, considerando esses vieses, monopsônios! Eu acho que tudo isso já está fazendo muito mal sob o ponto de vista do desenvolvimento da Ciência Econômica no Brasil, que foi a primeira pergunta realizada nesta entrevista. Em médio prazo, eu tenho esperança que esse critério que incentiva o carreirismo seja interrompido, inclusive devido à possibilidade de livre publicação eletrônica, ágil e libertária, onde os próprios leitores escolhem o que e quem desejam ler, construindo a reputação do autor. Por causa de sua característica de monismo metodológico, ou seja, o mesmo método de avaliação quantitativo para todas as ciências, inclusive as Humanas, o Qualis pode comprometer o desenvolvimento brasileiro!

A nossa escola deve esta voltada para os problemas do Brasil, enquanto o critério Qualis é incentivar ciência abstrata que se possa publicar no exterior. Se você escreve apenas sobre o Brasil, você não vai publicar lá fora. Não há interesse por parte de revista estrangeira publicar sobre o Brasil, porque não encontrará muitos leitores lá. Do ponto de vista dela, está correto… Quem consegue publicar em revistas estrangeiras mais bem classificadas é quem fez curso lá fora, quem fez teia de relacionamento pessoal lá fora, quem publica a respeito do debate teórico lá de fora e quem faz a carreira acadêmica apenas voltada para isso. Eu posso escrever, perfeitamente, um artigo para publicar lá fora, basta fazer resenha da literatura de determinada revista especializada, particularmente dos artigos publicados pelos editores, dos seus colegas mais próximos, citá-los (com o que eles vão ganhar pontos em suas carreiras) e a gente fazer espécie de “troca de favor”. Isso, para mim, não é critério de boa ciência, é critério de publicação. O objetivo é ganhar bolsa, ganhar fama, ganhar prêmio, isso não é ciência.

Os “burocratas da ciência” acham que esse quantum de publicações é importante, para o reconhecimento internacional, mas isso não indica a qualidade de artigos, não indica nada mais do que o “networking” individual. Agora, sob o ponto de vista econômico é pior, porque são formadas novas gerações que são apenas incentivadas a ir para o exterior. O cara fica com a cabeça voltada apenas para lá, mergulhado nesse mecanismo de autopromoção, e deixa de falar sobre o Brasil. Isso dá viés. Tem professores aqui, com este tipo de formação, que chegaram a defender o critério de alocação de docentes na pós-graduação de acordo com a pontuação no Qualis ou se ganha bolsa-produtividade do CNPQ, que segue a mesma lógica de achar que os pontinhos são decisivos. Pontinho é fácil, eu tinha mais de 450 pontos quando precisava de 150 para fazer o concurso para [professor] titular, mas não abriram concurso para eu concorrer, antes de eu ser convidado para a vice-presidência da Caixa. Agora que voltei, zeraram minha pontuação, pois só vale a produção acadêmica dos últimos cinco anos, quando estive licenciado [risos…]. Mas se quisesse fazer ponto eu faria, isso é questão de administrar meu tempo. Só que não acho importante nem relevante, pelo contrário, hoje em dia faço campanha pública contra isso.

O Qualis está sendo uma desgraça para o desenvolvimento brasileiro, na formação de quadros para lidar com a Economia. Em outras ciências, tudo bem medir as experiências laboratoriais ou de ciências exatas, onde, por definição, as coisas precisam funcionar ou se repetir em qualquer lugar e em qualquer tempo. A Ciência Econômica, como eu disse no início desta entrevista, é o contrário disso:  é mais importante, socialmente falando, verificar a especificidade brasileira, a inserção autônoma, independente…. É justamente se afastar dessa visão individualista e carreirista, voltada para si. Entretanto, a pressão por ganhar dinheiro para completar salário, bolsa produtividade, verba para pesquisa, bolsa para orientando, tudo isso vai ficando muito forte e ganhando cada vez mais espaço na Universidade brasileira. Eu me surpreendi quando voltei de licença [final de 2007], como o critério do Qualis ganhou espaço e passou a ser dominante, o que me entristece muito e me faz pensar, rapidamente, em aposentadoria. Não quero estar aqui quando isso evoluir mais ainda. Aposentarei com tristeza…

Qual é a função da pós-graduação no Instituto?

Para ser bem sintético, destaco apenas dois pontos. Primeiro: formação com excelência de quadros profissionais. Isto relaciona-se até os objetivos da pesquisa. Pesquisa, a meu ver, deve ser realizada, principalmente, para defender alguma tese ou idéia-chave original. Pesquisa do jeito que está sendo feita, atualmente, sob encomenda, tipo “análise de elevador”, se subiu, se desceu, essas pesquisas não precisam de centro de excelência para fazer, em qualquer lugar se faz. Agora, é bem mais difícil defender teses originais, mas isso foi o que marcou a nossa Escola. Citei como exemplo a minha dissertação de mestrado, mas poderia citar inúmeras originais, que trataram de assuntos que não eram conhecidos e/ou defenderam alguma posição original. Você buscava pesquisar sob esse critério de contribuir para o debate, não escrevia papers apenas para publicar e ganhar pontinho. Acho que se tem que defender alguma coisa que seja relevante para o debate nacional, de maneira que a opinião pública busque ler esta pesquisa para entender o país. Tem que explicar o país, não ficar apenas fazendo resenha de debate teórico de autores estrangeiros, para participar de Congressos e publicar em alguma revista depois de três anos de espera.

As pessoas formadas aqui, na pós-graduação, têm que ter formação de excelência, ser muito pluralistas em teoria econômica, conhecer tudo, tanto a ortodoxia, quanto a heterodoxia. Saber das contribuições de outras ciências e saber propor política econômica. E, se possível, ter ainda capacidade de liderança. Quando eu falo que temos dois candidatos a presidência da República, candidatos a governador, candidatos a cargos em todos os governos, é porque tivemos a capacidade de formar líderes, inclusive para empresa privada. Nunca foi feito estudo para ver como tem gente formada pelo Instituto de Economia da Unicamp dirigindo e/ou assessorando dirigentes de empresas privadas, estatais e órgãos públicos. Quando eu estava no mercado financeiro, eu conheci vários. No Banco Central, há vários. Poucas universidades no Brasil tem excelência na área de Economia para formar tantos quadros, em diferentes campos, assim a Escola de Campinas tem que continuar com esse compromisso social. Se é para ficar parecida com as outras, não vai mais formar lideranças. Vai formar apenas quadro acadêmico, um pontinho ali, algum destaque individual aqui. Mas, como Escola, acabará. E aí a gente chega na questão chave: isso será muito ruim para o Brasil.

Quais são as questões centrais desta reforma da pós-graduação no IE?

A reforma curricular é algo conjuntural, que não tem significado estrutural, se não ameaçar acabar com nossa tradição nacional-desenvolvimentista. Ela não é a questão mais importante a meu ver. Eu defendi, em reuniões com os professores, e continuo defendendo, que a palavra-chave é flexibilização (falar nisso parece até coisa de neoliberal, né? [risos]), se quiser, troque por liberdade… O aluno deve ter liberdade na escolha de disciplinas eletivas e/ou bons professores. O que eu acho que forma bons professores? Vou dar outro exemplo pessoal. Eu disse que quando vim fazer o mestrado, vim por causa da Conceição Tavares e outros professores vindos da Cepal (o Castro e o Lessa) que eu conhecia também. Eu tive a sorte de ser aluno de praticamente todos os grande professores daqui. Só não tive oportunidade de ser aluno do João Manuel Cardoso de Melo, embora tenha assistido uma aula dele e inúmeras palestras. Acho que qualquer ser humano tem sempre que buscar bons professores. Inteligência, cada um tem a sua, seu código genético a determina de certa forma. Agora, o que estimula o desenvolvimento intelectual, mental, são os bons professores. Eles criam desafios para você se desenvolver mentalmente. Então, muitas vezes eu pegava alguma disciplina da pós, via que o professor não era bom e resolvia estudava por conta própria.

Fui, por exemplo, autodidata em muitos temas, inclusive em Economia Monetária e Financeira, tema sobre o qual escrevi livro. No doutoramento, eu tive só a primeira aula com o professor Belluzzo, na semana anterior a que ele foi para o governo federal na equipe do ministro da Fazenda, Dilson Funaro. Então, o coordenador do curso veio me convidar para eu ser meu próprio professor! Como já tinha a dissertação no assunto financeiro, eu me tornei o professor do doutorado dos meus colegas. Convidei o Fernando Cardim, que estava acabando de voltar do doutorado com o Paul Davidson, para fazer três palestras sobre o pós-keynesianos e fui estudando por conta própria. Depois, defendi a tese de livre-docência sobre esse tema.

Então, os bons professores estimulam, facilitam a aprendizagem, são fundamentais. Aqui houve problema muito grave, a meu ver. Não houve tanto estímulo para a primeira geração dos alunos da pós ganhar o destaque público e acadêmico que a geração dos professores fundadores tinha. Poucos eram convidados para participar de mesas-redondas, debates, dar palestras no auditório, inclusive não se estimulava eles fazerem concursos para titulares. Posso dizer isso pelo meu caso. Isso causou grave vazio de lideranças acadêmicas, inclusive para disputar reitoria na Universidade. O instituto praticamente não tinha professores titulares depois que os titulares fundadores se aposentaram. Isso significa também ausência, não de bons professores, mas de professores que os alunos conheçam, que tenham renome, reputação profissional pública, porque não houve muito espaço para nova geração aparecer. Na minha, houve alunos e professores brilhantes que foram para as Universidades Federais de outros Estados, porque lá eles se tornariam professores titulares com maior facilidade. Saíram e não pensaram em fazer carreira aqui, porque sabiam que não tinham espaço. De fato, fizeram o correto nesse sentido, sob o ponto de vista individual, e mesmo nacional, pois se espalharam pelo país. Eu também não vou poder alcançar o título máximo na carreira acadêmica, pois já estou na véspera da aposentadoria. Para eu me titular, necessitaria ficar pelo menos mais cinco anos na Universidade antes de me aposentar.

Então, o fundamental que faz bom curso são bons professores, não grade ou ementas de disciplinas. Escrever novos programas não é fazer reestruturação. No fundo, é falsa polêmica essa de escolher se três, quatro, cinco ou seis disciplinas devem ser obrigatórias ou não. Eu acho que o critério básico deveria ser: se existem três que são obrigatórias, pela exigência da Capes (Macro, Micro e Quantitativa), o resto a oferecer deveria ter por critério a oportunidade dos alunos da pós escolher bons professores. Apresentá-los aos alunos. Não são muitos. Formar bom professor leva muito tempo. Tem toda uma geração nova, que ainda está em treinamento para se constituir em ótimos professores de pós-graduação. Acho que uma geração de bons professores está na véspera da aposentadoria. Eu vejo assim: oferecer disciplinas eletivas, em alguns casos, vale a pena até ter professores da nova geração para participar do debate, mas principalmente acompanhar esses bons professores antes que eles se aposentem. Por exemplo, no ano que vem já poderei me aposentar. Eu tenho consciência de que sou bom professor, especialmente, desde o concurso da livre-docência, em 1994, quando me preparei muito para receber ótima avaliação por parte da banca julgadora. Fiz meus melhores esforços para me tornar bom professor, considerando minhas limitações intelectuais. Creio ser bem avaliado, pelo menos, em vez em quando, escuto algum reconhecimento. Antes, até a época do concurso, eu dava aula só na pós, mas depois eu vi que aprendia muito mais didática, e tinha até mais prazer, ao dar aula para a graduação. Macroeconomia Aberta (Macro III), por exemplo, ofereço desde 1995. O Mariano [Laplane], quando era Coordenador de Graduação, me convidou. Já dei mais de 200 palestras pelo Brasil, sendo que em algumas fui aplaudido de pé. Eu dou curso de extensão à noite, terminei o último sobre Finanças Comportamentais também com o pessoal me aplaudindo de pé, o que me emocionou muito…

Agora, vou dar exemplo de porque acho importante a flexibilização das disciplinas eletivas. Eu comecei a estudar certo tema, quando voltei da licença para a Universidade, que é Finanças Comportamentais. Era algo novo que nunca havia visto. Simplesmente, não conhecia nada, apenas que um de seus autores, um psicólogo ganhou o Nobel de Economia em 2002. Trata da Neuroeconomia, as descobertas das neurociências aplicadas à Economia, com aspecto muito interdisciplinar. Evidentemente, isso não tem nada a ver com disciplinas obrigatórias. Aí, ofereci um curso eletivo na Graduação, houve certa repercussão e me convidaram para oferecer na pós. Acho que foi muito bem sucedido, parece-me que os alunos gostaram muito do curso. As disciplinas eletivas surgem assim. Agora, outro exemplo, estou pensando em oferecer disciplina de Economia Bancária, tema que pesquiso desde o Mestrado, em que tenho inclusive muita experiência prática, pois estive presente na discussão de quase todas inovações financeiras recentes. Antes, o mercado de capitais não tinha a menor importância no Brasil, agora, passou a ter. Esse é exemplo de curso novo, se tem professor bem preparado e em condições de dar, que se ofereça.

Temos que aproveitar a oportunidade e a experiência dos professores, seja no plano teórico, como no debate entre as Finanças Comportamentais e as Finanças Racionais, seja no plano prático, como no curso de Economia Bancária. O curso, para ser algo vivo e para formar lideranças com excelência, tem que ter muita flexibilidade. Porque o mercado de trabalho hoje pede formação genérica, não ultra-especialista, ao contrário do que houve anos atrás. Nós temos que ter alunos e profissionais extremamente flexíveis e que tenham conhecimentos em várias áreas. O curso tem que ser bem atualizado, e não ficar rígido no currículo. Antes, o obrigatório era “reserva de mercado” para determinados professores. Havia disciplinas que eram dadas sempre, pelo mesmos professores, e o curso não era renovado. Isso não permitiu formar novos quadros intelectuais conhecidos pelos alunos.

Qual seriam as linhas gerais necessárias, epistemológicas e institucionais, para o IE na próxima década e qual o perfil desejado para seu graduando e pós-graduando?

Perfil: social-desenvolvimentista. Manter essa tradição ideológica é a questão principal: continuar a formação de quadros profissionais para a sociedade brasileira que colaborem na busca de autonomia na inserção internacional e no desenvolvimento voltado para a redução da desigualdade social.

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