Criatividade

Não há receita para ser mais criativo, segundo matéria sobre Neurociência, publicada pela Folha de S. Paulo (29/04/10). Pesquisadores de diversas áreas que tentam compreender os mecanismos da criatividade sugerem que um dos segredos para chegar a alguma ideia nova é pensar sem se prender ao conhecimento formal adquirido sobre o assunto.

Gente reconhecidamente criativa endossa a teoria. O músico Tom Zé, por exemplo, diz que usa o “lixo lógico”, mas não se dobra a esse repertório na hora de inventar: “O mais importante no processo criativo é saber que você, da plateia, é tão apto a fazer o que estou fazendo quanto eu sou. O problema é que as pessoas jogam fora as ideias boas: quando aparecem, aparentemente não valem nada. A maior parte joga fora ou quer entortar a ideia, quer sempre transformá-la numa coisa sistematizada”.

A neurociência chama esse dom de se libertar dos caminhos mais conhecidos de flexibilidade cognitiva: “É a capacidade de mudar o método, conseguir pensar no problema de maneira nova e reconhecer que as soluções já conhecidas não estão funcionando bem”, explica a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Outra pesquisadora da mesma universidade, Maira Fróes, estuda o impacto da arte, expressão máxima da criatividade, no favorecimento de ideias inovadoras na área de ciência. Voluntários são avaliados com relação a seus insights após apreciar certo quadro, ouvir música ou ler textos poéticos. Resultados preliminares mostram efeitos positivos. “A ciência assume que está sempre na lógica experimental, mas essa lógica não pode ser só metódica. Se assumirmos nossos objetos de interesse científico mantendo os evocadores emocionais, será que o processo de criatividade em ciência não será alimentado? Podemos nos tornar mais criativos em ciência se nos tornarmos mais sensíveis na área”.

Proporcionar-se paradas também ajuda a encontrar alternativas não pensadas. “Algumas pessoas até trabalham sob pressão, mas essa é uma das barreiras para ter produção criativa. Um momento de pausa tem se mostrado interessante. Oxigene o cérebro, faça uma caminhada e a ideia pode surgir”, diz a psicóloga Eunice Alencar, que pesquisa o assunto há 40 anos e é professora emérita da Universidade de Brasília e do programa de pós-graduação em educação e psicologia da Universidade Católica de Brasília.

Essa percepção também tem sido demonstrada em estudos que avaliam o funcionamento cerebral. Um deles, realizado por pesquisadores da Universidade do Novo México (EUA) e publicado em março deste ano, avaliou área do cérebro de 72 voluntários. Os considerados mais criativos apresentaram transmissão mais lenta de informações na massa branca do cérebro.

“A ideia criativa é normalmente descrita como algo vindo de processo lento (ao tomar banho, ao acordar de algum sonho etc.). Parece que esses pensamentos mais lentos permitem que mais ‘nós’ do cérebro sejam conectados em formas mais novas e úteis, em contraste com o processo rápido de raciocínio que permite a alguém ter rapidamente uma resposta ‘certa’: a que já é conhecida”, disse Rex Jung, professor do Departamento de Neurocirurgia da universidade e um dos autores da pesquisa.

Dessa forma, pessoas de raciocínio rápido teriam mais dificuldade de ser criativas ou é possível treinar o cérebro para torná-lo mais inovador? “Na prática, o que podemos fazer hoje é tentar não achar conclusões rápidas para determinado problema, se o objetivo é solução criativa. Durma pensando naquilo. Deixe o cérebro ‘digerir’ o tema para que as conexões sejam feitas”.

Fazer exercícios de lógica e raciocínio também estimulam a flexibilidade cognitiva. Mas deve-se dispensar os que se dedicam a resolução de problemas com simples aplicação de fórmulas. “Escolha os mais divertidos: com esse tipo de exercício você descobre que é possível encontrar soluções de outras maneiras”, indica Herculano-Houzel.

Acostumar-se a enxergar o cotidiano por formas não padronizadas também favorece insights brilhantes. “O viver criativo provoca o potencial do ser humano, são pequenos treinos para algo maior. Há muitas estratégias para expressar criatividade em atos menores, no trabalho, na cozinha, nos relacionamentos”.

Mais é mais

Que venham as ideias:

Quantidade gera qualidade: não tenha medo de ter várias ideias, pois dificilmente a primeira solução será a melhor.

Afastamento: quando os pensamentos se esgotarem, faça outra coisa.

Interação: converse sobre questões de seu interesse com outras pessoas.

Exercícios: busque atividades de desafio e lógica que fujam da aplicação de fórmulas.

Cores e humores

O que as pesquisas sugerem:

Azul, cor relacionada a tranquilidade e abertura, pode ajudar o pensamento criativo.

Caminhada e banho relaxante favorecem a mudança de foco, a busca de outra perspectiva.

Bom humor ajuda a olhar para os problemas de maneira criativa.

O contato com exposições, música e poesia está ligado ao surgimento de boas ideias.

Fontes: EUNICE ALENCAR, psicóloga, e HIKARU TAKEUCHI, pesquisador em neurociência do desenvolvimento cognitivo do Instituto de Desenvolvimento, Envelhecimento e Câncer da Universidade Tohoku (Japão)

No trabalho:

A criatividade no mundo corporativo alimenta mercados altamente lucrativos. Há cursos de todos os tipos que se propõem a ensinar como ter ideias inovadoras, com eficácia duvidosa. “Consultores em criatividade são verdadeiros charlatões. Fala-se muito de criatividade e conhece-se pouco”, resume Eunice Alencar.

O que faz efeito é se sentir seguro no trabalho. “As empresas querem que o funcionário seja criativo, pagam horrores, mas não admitem erros. Se você acha que vai ser ridicularizado pela ideia, não vai inovar”.

Nenhuma novidade surge de um método, do fato de passar horas pensando no assunto. “Grandes ideias aparecem do nada e geralmente parecem impossíveis de realizar. Precisamos focar nelas.”

MITO: competição estimula

Pesquisadores acreditam que a cooperação é mais útil no processo criativo. “Formas de organização que propiciem colaboração são muito mais eficazes. A competição acaba sendo tão estressante que inibe a tranquilidade relevante para uma nova perspectiva, uma forma mais madura e rica de lidar e enxergar os problemas”, explica a filósofa Mariana Broens, do Grupo de Estudos Cognitivos da Unesp de Marília (interior de SP).

Nos sabores:

Conhecer a cozinha clássica, mas não se prender a ela, e ter domínio do seu “território”. É assim que o chef Rodrigo Oliveira, proprietário do restaurante Mocotó, em São Paulo, explica por que ganhou fama com seus pratos revisitados da culinária do Nordeste.

O local já existe há mais de 35 anos, mas caiu no gosto da crítica gastronômica recentemente, quando Oliveira assumiu a cozinha. O chamariz é o uso inovador de ingredientes e receitas do sertão. “Se meu avô fazia carne de sol de um jeito, é difícil pensar que essa não é a melhor maneira de fazer. Mas aí começamos a nos questionar: será que é mesmo ou é porque todo mundo se contenta com um resultado único?”.

Saber bem o básico ajuda a criar e traz referências para inovações. “Dizem que [o Mocotó] é uma revolução da cozinha nordestina, mas sinto que é a evolução da cozinha, é o caminho natural, temos muito mais conhecimento de ingredientes e processos, é natural que façamos uma cozinha mais rica, mais saborosa”, diz.

MITO: livros de receita são essenciais

A intuição e a sensibilidade contam muito mais. “Usar o que tem na geladeira para preparar o peixe lindo que encontrou no mercado ajuda a ser criativo, é a parte mais charmosa da cozinha. Contesta-se a eficiência de uma receita: não é instrução infalível. O autor pode ter usado cebolas, panelas que não existem por aqui, o resultado será diferente. É preciso sensibilidade na hora de interpretar o método”.

Nas relações:

É possível inovar nas relações interpessoais, principalmente para atrair amigos e parceiros. Mas aquela história de “usar a criatividade” na cama para reacender relação desanimada é artificial demais. “Isso é mentiroso e cruel. É o desejo que leva à criatividade, e não o contrário. Já vi profissionais da minha área indicarem isso para casais em crise, mas é um clichê totalmente vazio”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de “A Cama na Varanda”.

A criatividade pode deixar o dia a dia de um casal mais divertido, mas não adianta tirar fantasia da cartola quando o problema é mais profundo: “Quem vê bons filmes, bons espetáculos, viaja para lugares ótimos tem uma vida mais rica. Mas isso não resolve o que é interno.”

MITO: ser inovador no formato do relacionamento é um problema

Pessoas que não repetem discursos preestabelecidos têm mais chances de viver melhor, porque estão em sintonia com os próprios desejos. “Fugir do lugar-comum é sempre bom, não só fazendo coisas como dizendo. A maioria repete padrões de comportamento nos relacionamentos amorosos. Os modelos tradicionais não dão mais respostas, é um momento propício para ser criativo”.

PARA LER:

Como Desenvolver o Potencial Criador

(Eunice Alencar, ed. Vozes)

Dimensões da Criatividade

(Margaret A. Boden, ed. Artmed)

1 thought on “Criatividade

  1. Pingback: Falando em criatividade por Fernando Nogueira da Costa. « Instituto AVM – Docência do Ensino Superior

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