Capitalismo sem (mercado de) capitais

Nos últimos 40 anos, a bolsa de valores teve cinco “booms”, no Brasil. O primeiro foi em 1971, durante o chamado “milagre econômico brasileiro”. O segundo foi 15 anos após, depois do lançamento do Plano Cruzado. Em 1989, houve a mega-especulação do Nagi Nahas. Em meados de 1997, com a “crise asiática”, explodiu a última bolha, a da “abertura financeira ao capital estrangeiro”. Durante o governo Lula, ao contrário do que os especuladores antes esperavam, pois ameaçavam, em 2002, “Serra ou o caos”, houve alta sustentada de 2003 a setembro de 2008, só interrompida pela crise internacional. Em 2009, houve forte recuperação. Nos sete primeiros meses de 2010, a Bolsa de Valores esteve volátil com quatro meses de queda e três de alta intercalados.

Será que a lição dessa história da bolsa de valores é que ela reflete os fundamentos macroeconômicos do longo período? Ou será que ela só se move por pura especulação? Essa é a especulação movida pela auto-alimentação da alta, isto é, “compra-se porque está subindo; sobe porque está se comprando”.

Alguns analistas técnicos, antes do último boom, achavam que o mercado acionário brasileiro precisava de alguma novidade positiva – injeção de mais recursos externos, votação do fim da CPMF, qualquer outra renúncia fiscal, novo mercado, governança corporativa, etc. –, para estimular os investidores. Outros pensavam em elaborar mais um Plano Diretor do Mercado de Capitais. Todas essas medidas endógenas seriam tópicas, decepcionando-os, novamente.

Citavam vários fatores endógenos, para explicar o baixo desenvolvimento do mercado de capitais. Entre eles estavam a estrutura tributária, a exigência de transparência contábil e auditoria (dificultando a prática da evasão fiscal das empresas), a estrutura familiar da gestão, os custos da abertura de capital, a oferta insuficiente de ações de empresas fortes, o enfraquecimento dos minoritários, a ineficiência do controle da CVM, os custos de oportunidade dos investidores, face às aplicações em renda fixa, e as restrições à movimentação de capitais estrangeiros.

Entretanto, era necessária a abordagem estruturalista do tema. Em termos dos operadores do mercado: análise fundamentalista com perspectiva histórica. Todas essas causas, geralmente apontadas para a atrofia do mercado de ações no Brasil, eram superficiais face à própria ausência de condições históricas, institucionais e macroeconômicas.

Em primeiro lugar, cabia lembrar que a especificidade histórica do desenvolvimento capitalista no Brasil está em seu momento: a fase monopolista. Antes dela, em sua fase competitiva, desenvolveu-se o capitalismo nos países anglo-saxões. Constituiu apenas lá, na Inglaterra e nos Estados Unidos, “economia de mercado de capitais”. Verdadeiramente, até hoje, foram os únicos lugares onde esta se desenvolveu.

Nos Estados Unidos, no período da Grande Crise de 1873 a 1905, iniciou-se o processo de concentração. Havia razões econômico-financeiras para isso, como o elevado nível de escala mínima de produção requerido, com um amplo mercado interno a ser explorado. O mercado de ações permitiu fusões e aquisições de empresas, próprias de período de crise.

O protecionismo, com a imposição de barreiras alfandegárias e a exclusão da concorrência estrangeira, também cooperou para a formação de cartéis. Isso permitiu a esse país retardatário superar o capitalismo originário competitivo, especialmente porque se formou lá se constituiu organização da produção de nível superior. As sociedades anônimas, os cartéis e a intervenção protecionista do Estado na economia permitiram a centralização e a concentração dos capitais.

Por aqui, o Estado, à custa de imenso e contínuo endividamento, teve que se encarregar da tarefa de industrialização pesada, devido aos grandes riscos do investimento. A insuficiente mobilização e concentração de capitais pelos empresários brasileiros, em face da envergadura dos empreendimentos, afastou-os. Eles tinham oportunidades lucrativas de inversão, com baixo risco e diminutas barreiras tecnológicas, na medida em que atuassem em mercados protegidos como o bancário e o de empreitadas de obras públicas. Os investimentos que requisitavam patentes tecnológicas foram efetuados por empresas estrangeiras. Essas trouxeram capital do exterior; não necessitaram emitir ações no país.

Os investimentos e, conseqüentemente, as necessidades de financiamento das empresas privadas nacionais foram limitados. Foram atendidas pelos lucros retidos e créditos comerciais e oficiais. Com isso, nunca houve estímulo, pelo lado da demanda de recursos, para os proprietários dividirem o poder sobre suas empresas. Inclusive, para incentivar a abertura de capital, criou-se o expediente (inexistente nos Estados Unidos) de separar ações ordinárias e preferenciais como proteção face ao risco de perda do controle acionário por takeover hostil. Isso desestimula o mercado secundário.

O movimento da bolsa de valores se concentrava em ações das empresas estatais. Com o modelo de privatização adotado, nos anos 90, acompanhado de desnacionalização, perdeu-se a oportunidade histórica de criar grandes corporações privadas nacionais, com a venda de suas ações  de maneira pulverizada. Não se fez a “democratização do capital”.

O fato histórico é que aqui se constituiu “economia de endividamento”, e não “economia de mercado de capitais”. Ainda não houve no mundo nenhuma experiência que tenha convertido a primeira nessa última, típica dos países anglo-saxões. Esse modelo institucional de mercado financeiro não pode ser copiado senão como caricatura. Pelo contrário, atualmente (assim como em 1929), a bolsa de valores de Nova York absorve ações (ADRs) das grandes empresas do resto do mundo, esvaziando as congêneres.

4 thoughts on “Capitalismo sem (mercado de) capitais

    • “Bolhas” surgem quando os preços de mercado dos ativos são inconsistentes com o que os fundamentos macroeconômicos justificariam. Uma economia de boom (com alto crescimento) gera bolha de ativos quando a escala de influxos nominais de riqueza à caça de oportunidades em ativos (riqueza) ultrapassa a capacidade de criação desses ativos de capital. As bolhas de ativos, seguidas por colapsos de ativos (crash), são virtualmente onipresentes em economias (ou em mercados) com fronteiras delimitadas.
      Att.

  1. Oi,esta pagina tem haaver com a “Fusoes de grandes empresas e abertura de capitais e privatizacoes de empresas” ?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s