Idéias Fora do Lugar

Roberto Schwarz, crítico literário especialista na obra de Machado de Assis, no capítulo “As idéias fora do lugar” do livro “Ao Vencedor as Batatas“, publicado em 1977, afirma: “Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente Brasil põe e repõe idéias européias , sempre em sentido impróprio. É nesta qualidade que elas serão matéria e problema para a literatura. O escritor pode não saber disso, nem precisa, para usá-las. Mas só alcança uma ressonância profunda e afinada caso lhes sinta, registre e desdobre – ou evite – o descentramento e a desafinação”.

Para Schwarz, no Brasil, as idéias estão fora do lugar. O ensaio é baseado na idéia de Marx de que “a estrutura determina a superestrutura”, ou seja, o social dá a forma da literatura, Machado teria visto a grande contradição que conformava o Brasil: a estrutura era atrasada e colonial, enquanto a superestrutura seria adiantada e liberal. Enquanto existia escravismo, o parlamento era ao estilo inglês. Machado de Assis teria observado isso e, sutilmente, sua ironia viria daí, da visão da grande contradição social que Schwarz chamou de “comédia ideológica”.

Schwarz procurou ver na gravitação das idéias determinado movimento que singularizava o País. Partiu da observação comum, quase uma sensação, de que no Brasil as idéias estavam fora de centro, em relação ao seu uso europeu. Ele apresentou certa explicação histórica para esse deslocamento, que envolvia as relações de produção e parasitismo no país, a nossa dependência econômica e seu par, a hegemonia intelectual da Europa, revolucionada pelo Capital. Ele indica o alcance mundial que têm e podem ter as nossas esquisitices nacionais.

Em resumo, as idéias liberais não se podiam praticar, sendo ao mesmo tempo indescartáveis. Pouco ajuda insistir na sua clara falsidade. Mais interessante é acompanhar-lhes o movimento, de que ela, a falsidade, é parte verdadeira.

Schwarz mostrou o Brasil, bastião da escravatura no século XIX, envergonhado diante delas – as idéias mais adiantadas do planeta, ou quase, pois o socialismo já vinha à ordem do dia – e rancoroso, pois não serviam para nada. Mas eram adotadas também com orgulho, de forma ornamental, como prova de modernidade e distinção. E naturalmente foram revolucionárias quando pesaram no Abolicionismo.

“Submetidas à influência do lugar, sem perderem as pretensões de origem, gravitavam segundo uma regra nova, cujas graças, desgraças, ambigüidades e ilusões eram também singulares. Conhecer o Brasil era saber destes deslocamentos, vividos e praticados por todos como uma espécie de fatalidade, para os quais, entretanto, não havia nome, pois a utilização imprópria dos nomes era a sua natureza. Largamente sentido como defeito bem conhecido, más pouco pensado, este sistema de impropriedades decerto rebaixava o cotidiano da vida ideológica e diminuía as chances da reflexão”.

Contudo, facilitava o ceticismo em face das ideologias, tradição até hoje mantida pelos neoliberais brasileiros.

Leia: As idéias fora do lugar

One thought on “Idéias Fora do Lugar

  1. Acabei de ler o texto citado, E acho que a explanação Supracitada ésta escrita de forma maestral, sendo que infelizmente achei esse post , somente ao já ter escrito, pq precisava , porém a um dia voltar a esse tema e exper8 que volte, utilizarão esse post como na s apoio.

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